Comissão Permanente / Temporária
TIPO :
DEBATE PÚBLICO
Da
Frente Parlamentar de Proteção e Ativação do Patrimônio Histórico-Cultural da Zona Oeste
REALIZADA EM
11/25/2022
Íntegra
Debate Público
:
DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 25 DE NOVEMBRO DE 2022
(Frente Parlamentar de Proteção e Ativação do Patrimônio Histórico-Cultural da Zona Oeste)
Presidência do Senhor Vereador William Siri.
Às 11h02, em ambiente híbrido, sob a Presidência do Sr. Vereador William Siri, tem início o Debate Público da Frente Parlamentar de Proteção e Ativação do Patrimônio Histórico-Cultural da Zona Oeste.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Bom dia a todos e todas.
Logo depois do nosso Brasilzão ganhar de 2 a 0, está todo mundo muito feliz. Hoje estamos aqui e eu estou feliz de estar com vocês aqui também. Vou fazer o protocolo da Casa.
Senhores e senhoras, bom dia. Dou por aberto o Debate Público da Frente Parlamentar de Proteção e Ativação do Patrimônio Histórico-Cultural da Zona Oeste, nossa querida Zona Oeste do Rio de Janeiro, de acordo com a Resolução da Mesa Diretora nº 10.668/2021.
A Frente Parlamentar está assim constituída: Excelentíssimo Senhor Vereador William Siri, Presidente; e, como Membros, os Excelentíssimos Senhores Vereadores Átila A. Nunes, Carlo Caiado, Celso Costa, Cesar Maia, Dr. Carlos Eduardo, Dr. Marcos Paulo, Felipe Boró, Felipe Michel e Inaldo Silva, Jair da Mendes Gomes, João Mendes de Jesus, Jorge Felippe, Luciano Medeiros, Marcelo Diniz, Marcio Ribeiro, Marcio Santos, Monica Benicio, Paulo Pinheiro, Pedro Duarte, Rafael Aloisio Freitas, Reimont, Rocal, Rosa Fernandes, Tainá de Paula, Tânia Bastos, Tarcísio Motta, Teresa Bergher, Thais Ferreira, Vera Lins, Vitor Hugo, Welington Dias e Zico.
A Mesa está assim constituída: Senhora Andressa de Aguiar Lobo, do Descubra Santa Cruz; Senhor José Renato Pimenta, professor, representante do Núcleo de Pesquisa Histórica de Santa Cruz; Professora Marialda Duarte de Souza, do Ciep Mário de Andrade; Senhora Júlia Madeira, professora e historiadora da ONG Obra Social Filhos da Razão e Justiça. Os outros componentes da Mesa estão chegando ainda, mas só quero registrar as seguintes presenças: Professora Maristela Boaventura Fonseca, do Ciep Mário de Andrade; Senhor Marconi Andrade, fundador do movimento SOS Patrimônio; aluno Pedro Gabriel Almeida, do Ciep Mário de Andrade; e minha querida amiga Anny Racca, representando a Mulheres de Pedra. Obrigado, minha amiga.
Bom, quero chamar aqui agora o Professor André Luiz Paiva, da ONG Obra Social Filhos da Razão e Justiça. Professor, quero primeiro mandar um abraço, é um prazer conhecê-lo. Tudo bem? É uma honra. Hoje estou vendo aqui, pela primeira vez, o professor. Mas queria, professor, que o senhor, como temos outras pessoas que podem não conhecer, explicasse um pouquinho; depois, a criançada dança. A palavra é sua.
O SR. ANDRÉ LUIZ PAIVA – Eu tenho problema com microfone. Eles são móveis, ficam sacudindo na nossa mão... Assim dá uma disfarçada.
Bom dia a todos, todas, todes. Eu sou André Luiz, voluntário da Obra Social Filhos da Razão e Justiça, que fica em Santa Cruz, nossa esquecida Santa Cruz, não fossem algumas nobres iniciativas. O povo lembra que é o maior curral eleitoral em época de eleições, naturalmente.
A obra social fica na Travessa Aurora, 157, ali em uma comunidade chamada Mineiro Pau, muito por conta da prática dessa dança ancestral, a dança do Mineiro Pau, que foi trazida para aquela localidade na década de 1930, por alguém que ficou ilustre, um morador chamado Senhor Valdemar Madalena. Ele saiu da região de Santo Antônio de Pádua, Noroeste do Rio, e trouxe uma bagagem cultural enorme: a prática dessa dança ancestral. Ele montou um time de futebol, um bloco carnavalesco e muitas outras coisas a mais, que viralizaram. Naquela época não tinha viralizar, mas agitaram culturalmente aquele espaço que, antigamente, até a chegada deles, se chamava morro, passou a ser denominada como Mineiro Pau. É uma dança ancestral. A gente sabe muito poucas coisas. Não há consenso sobre a origem, mas se sabe que era prática dos escravizados nos raros momentos de lazer. Saída da cultura de cana, de café, de arroz. Lá em Além Paraíba eles também falam uma possível origem.
As pessoas tinham suas fazendas, seus lugares, as casas e, de um lugar para o outro, eles precisavam enfrentar o gado, que ficava solto, e muitos cachorros bravos. Então, tornou-se hábito eles caminharem com auxílio de uma vareta, um bastão, em geral de ipê, lá na região. Quando os compadres se encontravam no caminho, eles tocavam a vareta em um misto de luta e de dança. Chamavam isso, ainda chamam até hoje, a alegria do reencontro.
Não importa a real origem, só que a Obra Social Filhos da Razão e Justiça tem como mote uma educação artística decolonial. Através dessa dança, que a gente tem essa oficina, a do jongo e outras tantas que resgatam nossas danças ancestrais, a riqueza das origens e das nossas heranças africanas e afro-brasileiras, a gente tenta, através dessa dança, fazer uma “afrobetização”. É o velho chavão, só se valoriza aquilo que se conhece. Então, através dessa dança, dessa prática, dessas crianças que fazem parte das famílias acolhidas pela obra, a gente tenta fazer esse trabalho de resgate cultural.
Rapidinho, galera, rapidinho. Grupo de Mineiro Pau Valdemar Madalena, da Obra Social Filhos da Razão e Justiça. Gente, enquanto eles estão pegando... Lutamos com muita dificuldade,, como toda OS no local periférico. Todos os ajudantes, todos os colaboradores trabalham em regime de voluntariado, sem nada receber. Pelo contrário, a gente ainda tira do bolso para ajudar. Nós não temos grandes ajudas, nem convênio governamental nenhum.
Então, precisamos do apoio de todos. Está circulando um material informativo com as nossas mídias, que a gente espera que, depois, vocês conheçam, tenham o carinho de conhecer o nosso trabalho. Toda ajuda é muito bem-vinda.
Façam, primeiro, uma roda pra gente ver o espaço. Pronto? Beleza, agora dá pra fazer a fila. Façam uma fileira. Depois a gente parte para a primeira sequência.
(Faz-se a apresentação)
O SR. ANDRÉ LUIZ PAIVA – Eu não escutei aplausos.
(PALMAS)
O SR. ANDRÉ LUIZ PAIVA – Gente, vocês vão poder acompanhar com as palmas também.
A gente sabe que palma desprende energia e, quanto mais energia, melhor.
Terceira sequência.
(Faz-se a apresentação)
O SR. ANDRÉ LUIZ PAIVA – Gente, vale lembrar que é só um compactozinho. É um aperitivo.
Caminhando para o final, essa música é icônica. Os grupos de Mineiro Pau... Eu me esqueci de dizer que ele acontece mais, gente, no Noroeste, Miracema, Santo Antônio de Pádua, Bom Jardim também, mas no Rio, creio, que somos quase os únicos. Por isso que a gente precisa de uma ajuda especializada para que a prática dessa dança seja tombada pelo patrimônio imaterial, assim como já é o jongo e a capoeira.
(Faz-se a apresentação)
O SR. ANDRÉ LUIZ PAIVA – E a saída. Preparem as duplas para sair.
A obra social está de portas abertas para quem quiser nos conhecer e fazer uma vivência, como foi o caso do Jefferson e da Raíssa, os assessores aqui do Siri. Todos estão cordialmente convidados.
Muito obrigado, gente, pela oportunidade. Valeu pela força e pelo espaço.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Gente, é emocionante. Mineiro Pau, diretamente de Santa Cruz, nossa querida Zona Oeste, representa muito do que nós vamos falar aqui um pouco hoje. Eu acho que seria importante todo mundo vir pra cá, porque eu acho que não tem mais necessidade desse espaço todo. Vai demorar um pouquinho, mas quem puder sair e pegar sua cadeirinha, vir pra cá, eu acho que é importante, até para a filmagem também. Nós vamos demorar um pouquinho, mas, enfim, vamos ajudar aí também. Quem puder, do mandato, por favor.
Enquanto isso, quero chamar, representando a Secretaria de Cultura, Cíntia Monsores, para ficar aqui na frente. E, representando a Secretaria de Turismo, o Senhor Gabriel Guimarães, assim a gente compõe a nossa Mesa.
Fiquem à vontade. Obrigado. Só por vocês terem vindo para cá, já ajuda bastante.
Bom, pessoal, depois dessa dança, analisando o que nós estamos fazendo aqui, quero agradecer mais uma vez a cada um e a cada uma que saíram da Zona Oeste para estarem aqui. A toda a Mesa também, que vai ter um momento de fala para explicar um pouquinho e colocar seu posicionamento.
Só vou fazer uma breve contextualização aqui. Nós criamos essa Frente Parlamentar de Proteção e Ativação do Patrimônio Histórico-Cultural da Zona Oeste devido às desigualdades que vivemos em nossa Cidade do Rio de Janeiro. Nós que moramos na Zona Oeste sabemos que é uma realidade totalmente diferente dos patrimônios das pessoas aqui na Zona Sul e no Centro. Não há uma questão de disputa, não há nenhuma disputa aqui. É uma questão de justiça mesmo. Eu acho que é importante nós estarmos aqui com moradores da Zona Oeste.
Eu queria falar principalmente para a criançada, para os adolescentes e para as crianças. Esta Casa aqui é de vocês, saibam disso. Quando eu era criança, eu não sabia disso. Esta Casa aqui é de vocês, é a representação do povo, do cidadão carioca, que vocês são também. É importante vocês terem essa ciência. E é um pouco do que nós estamos fazendo aqui: discutir essas desigualdades e essas injustiças, que nós queremos, a partir do nosso território.
Lembrando que a Cidade do Rio de Janeiro, que já é patrimônio mundial como paisagem cultural urbana, é a primeira área urbana a receber o título da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Eu estou até lendo aqui para não esquecer detalhezinhos. Quando se fala que a Cidade do Rio de Janeiro é patrimônio mundial como paisagem cultural urbana, infelizmente é só uma parte da cidade, é na Zona Sul da cidade. Concentra na Zona Sul, o Rio de Janeiro paisagem carioca entre a montanha e o mar. Isso mostra o total descaso que nós vivemos, essas desigualdades, porque nós sabemos, por exemplo, a gente que tem o contato... Até mesmo ali no Jesuítas, uma área bela, linda. Pedra de Guaratiba, maravilhoso; Barra de Guaratiba, cada canto que nós podemos citar aqui da Zona Oeste. Como que a Unesco dá um título para a Cidade do Rio de Janeiro, sendo que somente uma parte? É sobre isso também que nós temos que discutir, porque nós que moramos na Zona Oeste sabemos que esse título não tem que ser somente de uma parte da Cidade do Rio de Janeiro, tem que ser para toda a Cidade do Rio de Janeiro. E é por isso que estamos aqui.
É extremamente importante que tenhamos políticas públicas, é importante demais ter aqui a Secretaria de Cultura, a Secretaria de Turismo para entender quais são as políticas públicas que estão pensando para a cidade. Como eu sempre falo, é uma cidade que, a gente que mora na Zona Oeste... Eu discuto essa narrativa, é uma cidade que nós temos que pensar a lógica de cidade não da Zona Sul, Centro para Zona Oeste, mas da Zona Oeste para Zona Sul, para a Barra, para o Recreio. É de lá pra cá e não daqui pra lá, de onde nós estamos hoje.
Para isso que nós estamos aqui, para discutir essa ativação do patrimônio público a partir da Zona Oeste. E aí, eu queria abrir, dito isso, vamos começar pelas secretarias – eu acho que é importante. Vou começar pelo representante da Secretaria de Turismo, Senhor Gabriel Guimarães. Aí, vamos fazer aqui um combinado de cinco a sete minutos. Quando tiver cinco minutos, eu falo; e quando tiver sete minutos, eu peço para encerrar. Pode ser assim? Pode ser?
Meu amigo Gabriel, a fala está com você. A gente vai falando aqui quando tiver cinco minutinhos. Obrigado, meu amigo.
O SR. GABRIEL GUIMARÃES – Muito bom dia a todos. Obrigado, Vereador. Já quero começar dizendo que nem vou chegar perto dos cinco minutos, vou ser bastante breve, bastante objetivo.
Quero dizer que estou aqui representando a Secretaria Municipal de Turismo, na pessoa do Secretário Antônio Mariano, e para a gente é muito importante. A gente tem muita felicidade de estar aqui numa discussão sobre a Zona Oeste, porque a Secretaria Municipal de Turismo, durante muitos anos de sua história, esteve somente preocupada com a Zona Sul. Muitos secretários antigos achavam que a Secretaria de Turismo... que o Rio era só o Pão de Açúcar, a Praia de Copacabana, o Cristo Redentor. Só que, na verdade, o Rio de Janeiro é muito mais do que isso. E essa Frente Parlamentar é uma demonstração clara, evidente e mostra a sensibilidade que o Poder Público precisa ter com o espaço do território da Cidade do Rio de Janeiro. Eu quero dizer que a Secretaria de Turismo, já no anterior Secretário Bruno Kazuhiro, esteve com a Andressa, lá no Descubra Santa Cruz, conhecendo mais, conhecendo a história de Santa Cruz, conhecendo a história de Campo Grande, de Realengo. Estamos absolutamente atentos, preocupados e sensíveis à questão da Zona Oeste como um ponto turístico da Cidade do Rio de Janeiro.
Foi como eu disse: turismo não é só agradar o gringo. Turismo é geração de emprego, geração de renda. Por isso, levar isso para uma Zona que, infelizmente, não só do ponto de vista do Poder Público, mas do ponto de vista econômico, é muito esquecida, para nós é fundamental.
Quero encerrar, Vereador, só relatando aqui que nós temos um projeto na Secretaria chamado Rede Afro Carioca de Turismo. Basicamente, é um grande projeto de mapeamento de tudo que tem relação com a herança africana da Cidade do Rio. Estou falando de terreiros, de quilombos, de rodas de samba, rodas de jongo, maracatu, tudo que tem relação com a herança africana da cidade está nessa Rede Afro de Turismo. Quero dizer que a maior parte dos componentes dessa rede é da Zona Oeste. Então, a nossa herança africana, um ponto muito importante para a Secretaria de Turismo e para a identidade cultural do Rio de Janeiro, está na Zona Oeste, não está na Zona Sul. Por isso que o trabalho dessa Frente Parlamentar é muito importante para nós.
A Secretaria de Turismo está à disposição de todos aqui. Quem quiser, depois vou estar aqui, estarei à disposição de qualquer um de vocês que quiser conversar. A Prefeitura está atenta e sensível para a questão da Zona Oeste e a descentralização do Turismo no Rio de Janeiro.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Vou passar aqui agora, representando a Secretaria de Cultura, para a Senhora Cíntia Quintanilha Monsores.
A SRA. CÍNTIA QUINTANILHA MONSORES – Olá, bom dia, é um prazer estar participando deste Debate. Estou aqui representando o Secretário de Cultura, Marcus Vinícius Faustini. Para ele, as pautas da Zona Oeste são pautas supercaras, inclusive a gente faz toda uma política na Secretaria Municipal de Cultura de descentralização tanto na lei do ISS – em que 20% foram direcionados tanto para a Zona Oeste quanto para a Zona Norte – quanto no fomento, que é o Fomento à Cultura Carioca (Foca).
A gente está criando vários editais na Secretaria e várias políticas pensando a Zona Oeste. Agora em janeiro, a gente embarca com o Janelão, que foi um projeto específico para ser realizado por pessoas da Zona Oeste e da Zona Norte. Então, fico muito feliz de participar de um governo no qual todas as políticas de praticamente todas as secretarias vêm dessa pauta de descentralizar, de levar o dinheiro da cidade também para essas regiões mais distantes.
Mais uma vez, agradeço por estar participando desta Mesa e coloco tanto eu quanto o Douglas, que é chefe de gabinete e que está aqui comigo representando a Secretaria, à disposição de vocês. Nós temos nossos canais do Instagram que funcionam muito bem.
Enfim, estamos à disposição.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Obrigado, minha amiga.
Queria passar a palavra para a Andressa Aguiar, do Descubra Santa Cruz. Imagino que todo mundo aqui já conheça e acho que é importante ouvi-la.
Andressa, é com você.
A SRA. ANDRESSA DE AGUIAR LOBO – Bom dia a todos.
Mais uma vez, agradeço a presença de todos vocês. A parceria com a Frente Parlamentar começou ano passado, dia 10 de novembro completa um ano da criação da Frente Parlamentar, e é uma oportunidade que a gente está tendo de trazer um pouco da cultura e da história da Zona Oeste, para que a cidade reconheça e para que a gente se torne também um referencial.
Foi quando a gente trouxe a obra social Filhos da Razão e Justiça, que é quem “afrobetiza” esses alunos, através do Mineiro Pau. Mas eu acho muito importante estarem aqui também os alunos do Ciep Mário de Andrade, que fizeram um trabalho de um ano inteiro das professoras Marialda e Maristela, redescobrindo Santa Cruz e puderam vivenciar, inclusive, esse apagamento da nossa história, quando a gente foi lá em Vassouras e ouviu do monitor do museu que Vassouras era tão importante que tinha até Itaguaí dentro dele, não é? E a gente encerra o nosso passeio com uma revisão de conteúdo, em que eu pergunto para eles coisas como: e aí, período jesuítico, onde era a sede da fazenda? Pessoal, onde era a sede da fazenda no período jesuítico, hein? Período real, onde era a sede da fazenda? Período imperial, onde era a sede da fazenda? Alguém tem dúvida de quem era importante naquela época?
E é muito importante a gente levar para as escolas, levar para as nossas crianças essa discussão. Elas viram isso acontecer, o monitor de um museu trazendo a centralidade da história para a cidade dele, e se eles não conhecessem minimamente a nossa história, eles teriam acreditado nisso, e é o que tem acontecido ao longo do tempo sobre a história da Zona Oeste, sobre a história de Santa Cruz.
Não é de agora que eu faço... Eu faço comparativo, sim, com Petrópolis, porque, quando a gente fala de cultura e de turismo, a gente está falando de desenvolvimento, de emprego, de renda circulando. Petrópolis recebe dois milhões de turistas por ano, são quase R$ 200 milhões, são 8.000 empregos diretos e 32 mil empregos indiretos. Não tem por que eu acordar às 3h30 da manhã para vir trabalhar em Copacabana e levar o francês para Petrópolis, quando ele quer conhecer o Palácio de Santa Cruz!
A gente produz em Santa Cruz o chef de cozinha do Copacabana Palace, que atravessa três horas de trânsito todo dia para vir trabalhar. Vocês irão para o mercado de trabalho em breve, e eu quero muito que vocês possam colher os frutos dessa nossa centralização da história em Santa Cruz. Agradeço a parceria do Poder Público pra gente conseguir voltar a Zona Oeste como centro da nossa cidade.
Muito obrigada a todos. Vamos continuar nosso trabalho. Ele é demorado, nem sempre a gente colhe frutos, demora um pouquinho. Talvez os nossos filhos consigam ter uma situação melhor que a nossa, mas tem de ser começado de algum lugar. A gente está começando isso agora, e aí eu agradeço a vocês por fazer parte dessa história.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Andressa, muito obrigado pelo trabalho que você vem fazendo há alguns anos já por Santa Cruz. É fundamental porque, quando alguém chega, pega e decide contar a história, porque cada um aqui, de alguma forma, conta a história do seu território, de Santa Cruz, de Campo Grande, Sepetiba, enfim, da Pedra...
Você decidiu também institucionalizar isso e fazer esse trabalho com o Poder Público. Aí, como vereador, mas como morador de Campo Grande, pensando a Zona Oeste, é fundamental ter alguém com esse comprometimento de contar a história e fazer esse trabalho que é difícil demais na chegada do Poder Público, colocar alguns vereadores.
Comigo, de certa forma, está tranquilo, porque construímos juntos, mas trazer outras figuras para ser aliadas é fundamental. Então, parabéns mesmo pelo seu potencial e a potencialização que você está dando para Santa Cruz e o potencial de articulação. Isso é fundamental, fazendo com muita gente aqui... A gente que mora, infelizmente, no lugar que é marcado pela desigualdade, trabalha em rede, então eu acho que isso representa um pouco aqui essa Frente. Cada história, da forma contada por cada um aqui, representa essa rede que nós estamos criando.
Tenho certeza de que essa centralidade a partir da Zona Oeste é uma questão de tempo, e o caminho está sendo construído há muitos anos. Não é a gente que está fazendo isso, tem muita gente fazendo isso há muitos anos. Mas é isso, cada vez mais ligando as peças e o pensar a cidade a partir da Zona Oeste é um caminho que está sendo concretizado cada dia.
Parabéns mesmo, minha querida.
A SRA. ANDRESSA DE AGUIAR LOBO – Vou quebrar o protocolo, porque o Siri é ótimo nisso. Vou lembrar a vocês que este ano, pela primeira vez, a gente teve um evento patrocinado pela Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (Riotur) em Santa Cruz, que foi o Santa Cruz, meu Bairro Imperial. Não é uma tarefa fácil, a gente entrou no calendário do Bicentenário da Independência do Rio de Janeiro e sumiu do calendário. Foi muita batalha do Descubra Santa Cruz, do Noph Ecomuseu para a gente conseguir concretizar pelo menos uma dessas ações. Isso é abrir precedente, é dar palco a quem não tinha palco, foram dez horas de eventos dando palco para os nossos artistas. Tem alguns protocolos que a gente não entende, mas, por exemplo, só pode receber cachê quem tem pelo menos três matérias em grandes veículos de circulação.
Agora, a gente tem Mineiro Pau, que não só no dia 16, mas no dia 7 de setembro, no Festival da Independência, estava no Bom Dia Rio e no RJTV 1ª Edição. A gente está dando espaço para os artistas e está mostrando que a gente tem muito mais do que a mídia costuma mostrar.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Boa.
Vou chamar então a professora e historiadora Júlia Madeira, da ONG Obra Social Filho da Razão e Justiça. Minha querida, só para lembrar: quando tiver cinco minutinhos, eu aviso, pode ser?
A SRA. JÚLIA MADEIRA – Bom dia, pessoal.
Como o Vereador falou, estou representando a obra social, na verdade, eu sou historiadora em formação, estou cursando História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aqui no Centro. Graças à minha formação, estou tendo a oportunidade de contribuir para esse movimento que a obra social está fazendo desde 2017 para recuperar o Mineiro Pau, a prática do Mineiro Pau na nossa comunidade.
Como o Professor André falou anteriormente, a dança foi trazida na década de 1930 pelo Senhor Valdemar Madalena. No entanto, quando ele faleceu, nos anos 1990, a partir dos anos 2000, a comunidade sofreu um processo de apagamento, de exclusão dessa história cultural.
Infelizmente, grupos começaram a demonizar o Mineiro Pau e outras práticas afro-brasileiras que tinham na localidade, dizendo que isso era uma forma de cultuar o diabo, que aquilo deveria ser esquecido e apagado e, de fato, foi por um tempo. Mas, em 2017, a partir do nascimento da obra social em 2016, a obra já nasce com essa missão de tentar recuperar esse passado glorioso de trazer a prática do Mineiro Pau de volta e principalmente a autoestima dos moradores, das crianças da comunidade que são, em sua maioria, pessoas negras.
A gente precisa falar disso, como a Andressa falou aqui perfeitamente. Santa Cruz teve um papel importantíssimo durante o período do Brasil Colonial e Imperial. Era uma fazenda gigante que abastecia toda a Cidade do Rio de Janeiro e tinha um enorme contingente de escravizados. Esses escravizados estabeleceram família naquela localidade e, a partir dali, a gente hoje observa Santa Cruz como um bairro majoritariamente negro, mas que não se reconhece assim. Muitas das nossas crianças não se reconheciam enquanto pessoas negras devido ao racismo estrutural que forma a nossa sociedade brasileira.
Então, o trabalho da obra social é justamente combater isso, combater esse racismo estrutural de mostrar para as nossas crianças que elas são negras e que o nosso passado não se resume à escravidão; o nosso passado tem luta, tem resistência, mas ele também tem criação, tem arte, tem potência. Nós temos grandes referências, como Sueli Carneiro, Giovana Xavier, Conceição Evaristo, produtoras de conhecimento científico. E esse é o caminho que a gente está trilhando para as nossas crianças, através do Mineiro Pau, através da recuperação desse passado, do orgulho de ser negro e de pertencer a uma comunidade da Zona Oeste que também produz cultura, que também produz arte, que também produz intelectuais e futuros gestores deste país.
Esse é o nosso papel, é isso que a gente está construindo todos os dias na obra social. Aqueles que quiserem fazer parte disso, que quiserem fazer parte desse movimento, serão muito bem-vindos. A gente agradece pelo espaço, pela oportunidade de fala, de falar da nossa cultura, da nossa história, de celebrar os nossos ancestrais.
Eu queria pedir um “salve” ao Senhor Waldemar Madalena. De onde estiver, que ele possa estar aqui se sentindo orgulhoso de ver nossas crianças representando o movimento que ele construiu lá atrás.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Júlia, muito obrigado. Como eu acabei de falar, é contação de história a partir da realidade de cada um, de como é que nós podemos fazer. O Jefferson que foi conhecer, eu não conheci. O Jefferson e a Raíssa, quando foram conhecer – depois eu conversei com o Jefferson –, saíram de lá maravilhados com o que viram. Jefferson está aqui.
Obrigado por tudo, porque o que vocês apresentaram aqui... Eu não conhecia algumas pessoas, imagino que não conheciam também. Como é bom, e a gente sabe disso, a gente compreende todas as potencialidades que a gente tem na Zona Oeste. E aí, quando a gente vê se materializando, como a gente viu a dança aqui, a maravilha que é, dá um orgulho danado de ser da Zona Oeste. Essa é a nossa briga, porque é uma agonia imensa nossa, vendo, a partir do orçamento, por exemplo, porque não tem como você desenvolver um território se não tem orçamento, e a gente vê o orçamento cada vez menor para a Zona Oeste, principalmente para a cultura, principalmente para a cultura da Zona Oeste. Faz uma coisa ou outra, mas a gente sabe que precisa de muito mais.
A gente precisa reverter essa lógica para justamente dar potencialidade para as pessoas, para crianças que têm sonhos como todos nós. Sonhar é grátis, mas é necessária a materialização do sonho, para não ficar uma coisa meio meritocrática – “Conseguiu lá, está vendo? Saiu da Zona Oeste, mas conseguiu fazer história na UFRJ”. Não, tem que ser todo mundo, é uma questão de rede, de coletividade, e para isso precisa de infraestrutura. Ajudar a gente se ajuda, mas do Poder Público precisa, porque é fundamental, é direito. É direito nosso ter um orçamento digno, é direito nosso ter justiça e pronto. Então, acho que vocês materializam isso. Obrigado mesmo ao Professor André.
Vou chamar agora a Professora Marialda Duarte de Souza, do Ciep Mário de Andrade.
A SRA. MARIALDA DUARTE DE SOUZA – Bom dia, gente. A nossa escola, o nosso Ciep, este ano nós começamos com o projeto, começamos a idealizar o projeto, e eu pedi ao meu diretor que fizéssemos um projeto maior, que a gente fizesse um passeio, não mais cartazes, não ficar pesquisando e colocando a história de Santa Cruz em cartaz e colar pela escola. Eu queria muito mais. Eu tive uma parceira – e tenho –, que é a Maristela, e foi uma junção da História com a Matemática, que, graças a Deus, está dando certo.
Nosso diretor comprou a nossa ideia de começar esse projeto e fazer uma caminhada cultural com os nossos alunos pelos principais pontos de Santa Cruz, terminando em Vassouras, para eles verem a dimensão de como era o nosso bairro, como era a Fazenda de Santa Cruz. E, olhando o Facebook, eu me deparo com a Andressa, fazendo a caminhada. Eu falei assim: “Vou pegar essa menina e vou levá-la comigo”. E consegui, fuxicando, o telefone da Andressa e firmamos uma parceria com o nosso Ciep Mário de Andrade – que fica na Vítor Dumas – e conseguimos montar esse projeto que não acaba este ano. Como diz, é projeto que está em andamento.
Eu vou até falar aqui, gente, porque estou um pouquinho nervosa, não sou acostumada... sou muito acostumada a falar com meus alunos, mas, enfim... O nosso projeto “Redescobrindo Santa Cruz e resgatando a memória histórica cultural do bairro”, exatamente para que os nossos alunos começassem a ver a importância do bairro e não ter mais vergonha de falar o seu CEP, de falar o bairro em que vive, em que nasceu, em que estuda...
Nós temos vários depoimentos. O nosso aluno Franklin mesmo fez um depoimento muito legal, falando exatamente que, quando foi, ele foi por ir ao passeio, na aula-passeio. E quando começou a ter outro olhar, o que era Santa Cruz, ele se encantou. Então, nós fizemos o nosso trabalho. Ele foi todo feito com fotografias. Fizemos banners e fomos fotografando cada etapa. E, no ano que vem, a gente continua com esse trabalho e espero continuar contando com a Andressa. Achamos que este ano teríamos finalizado em Vassouras, mas não. Este ano, 2022, nós estamos finalizando aqui com esse convite, na Câmara dos Vereadores, em nome da escola, dos meus colegas, os colegas que vieram aqui também nos ajudar, a Professora Fátima, a Professora Raquel, os nossos alunos, que foram maravilhosos. Eu só tenho a agradecer.
E, realmente, espero que o Poder Público nos olhe e nos acolha não apenas como um bairro em que somos o quê? Um bairro dormitório. Nós queremos emprego, queremos oportunidade. Eu quero oportunidade para cada um dos meus alunos que estão aqui e que estão saindo. A gente está aqui com o 3º ano e com o 2º ano. E eu quero que eles tenham chance de chegar aqui um dia e falar também que estão cursando uma universidade. É isso que eu espero. E que o Poder Público olhe pra gente com mais carinho, com muito carinho, não apenas de quatro em quatro anos.
É isso aí. Agradeço a parceria, mais uma vez, com a minha superparceira, nossa, Andressa e a Maristela.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – José Renato, eu já te pulei, vou pular de novo, quebrando o protocolo aqui. Fiquei sabendo que foi seu aluno também, não é? Mas eu quero chamar um aluno de agora, de hoje, que representa: Pedro Gabriel de Almeida, do Ciep Mário de Andrade. Vem cá, meu amigo.
Queria, depois dessa história aqui, ver o que você acha disso, o que você está vivendo nesse momento, na escola, enfim, de todo esse projeto também. É importante.
O SR. PEDRO GABRIEL DE ALMEIDA – Bom dia a todos. Meu nome é Pedro, sou aluno do Ciep 392, Mario de Andrade, presidente do Grêmio Estudantil e deputado estadual juvenil na 13ª edição do Parlamento Juvenil.
O projeto “Redescobrindo Santa Cruz”, para mim, foi um resgate cultural que me deu total propriedade para falar com ênfase do lugar de onde vim, Santa Cruz, bairro periférico da Zona Oeste e segundo bairro Imperial do Município do Rio de Janeiro. Projeto esse que veio com um combo de dois em um: a educação e a cultura, unidas, que trouxe um aprendizado enorme para todos que participaram. Foi incrível obter conhecimento da história tão de perto, no próprio quintal de casa. Por isso é importante mais projetos culturais fomentados na Zona Oeste, obras de infraestrutura e ação no patrimônio imaterial do nosso bairro. Deixo aqui meus parabéns e agradecimento à Marialda, à Maristela e à Andressa Lobo.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Se eu soubesse que estava falando aqui com ele... Parabéns à Vossa Excelência. Se eu soubesse que era parlamentar, perdoe... Já era para estar aqui na Mesa, não é?
Bom, agora vou chamar nosso querido Professor José Renato. Vou pedir desculpas.
O SR. JOSÉ RENATO PIMENTA – Bom dia a todos e todas.
Primeiro, quero falar que é uma alegria, uma satisfação, falar nesta Casa tão importante, principalmente porque me interrogam muito da minha história. Como já foi falado, a Professora Marialda foi minha professora de História. Ela tem um pouco de parte nisso. Hoje sou professor de Geografia das redes municipais do Rio de Janeiro e de Itaguaí. Estou fazendo doutorado na Uerj, em Geografia também, e foi por isso que fui convidado para falar um pouco disso, dessa questão patrimonial relacionada inclusive à paisagem, como o Vereador falou, não é?
Mas eu queria só fazer esse aparte antes. A Professora Marialda foi minha professora de História. O professor André, que coordenou o Mineiro Pau, me conhece desde criança, sempre foi um grande animador e ativad
or cultural, até dançando quadrilha de festa junina de bairro com o professor André. A Andressa é uma amiga querida lá do bairro também.
A minha esposa e a minha sogra que me apresentaram à ONG, à obra dos Filhos da Razão e Justiça. Eu tive o prazer de começar a participar dessas discussões sobre o tombamento da dança do Mineiro Pau como patrimônio imaterial. Então, são pequenos pontos aqui que me interrogam e contam um pouquinho dessa história. Mas, voltando para o assunto principal para o qual fui convidado, que é a questão da patrimonialização da paisagem, como a minha área é Geografia, a fala do Vereador William Siri no começo já se liga muito ao que eu preciso falar aqui.
A paisagem ali, entre a montanha e o mar, no Rio de Janeiro, que fez desse recorte a primeira paisagem urbana considerada paisagem cultural e, por isso, tombada como patrimônio. O conceito de paisagem é um conceito eminentemente geográfico. E o conceito de paisagem pressupõe um recorte. Aquele recorte que o Vereador falou, entre a montanha e o mar, pegando ali a Zona Sul, o Centro da Cidade, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, belíssimo, colocou o Rio de Janeiro nesse mapa como paisagem, patrimônio da humanidade.
Agora está chegando a hora, Vereador, de nos olharmos como cidade e, por isso, estamos nesta Casa aqui, que é a casa de excelência para isso, que é a Casa do Povo, onde o povo carioca se representa na política. Essa cidade que tem um recorte de sua paisagem como patrimônio cultural, é a hora de a cidade olhar para si mesma e ver quais outros recortes podem ser considerados como patrimônio.
Eu proponho, na minha tese de doutorado que está em elaboração, que um desses recortes esteja no bairro de Santa Cruz, na nossa Zona Oeste, porque vários de vocês, alunos do Mario de Andrade – onde fui professor durante três anos também, de 2013 a 2015, e vários de nós aqui, ali onde a Avenida Brasil se encerra, e começa a Rodovia Rio-Santos, naquele pedaço ali até a entrada do município seguinte, que é o de Itaguaí – passam por vários canais: Canal de Itá, Canal de São Fernando, Canal de São Francisco.
E, ao olhar aquela paisagem, passando pela rodovia, a gente observa o quê? Várias plantações, principalmente de aipim, embora também tenha de coco e de outros cultivos. Muita gente não sabe que aquela paisagem, daqueles canais, com aquelas plantações, conta uma história de mais de 400 anos.
Toda aquela área abaixo de Santa Cruz... Santa Cruz tem um relevo muito baixo. Toda aquela área tende a alagamento, a formar um grande brejo. Só deixou de ser esse brejo porque os jesuítas, com mão de obra negra, construíram aquele sistema de canais há mais de 400 anos, liberando aquelas planícies dos alagamentos. E aquela terra, que é muito rica, deu origem ao que é considerado o melhor aipim do Brasil. E isso não é protegido!
A indústria avança, a especulação imobiliária com os condomínios avança, e essa terra onde é cultivado o melhor aipim do Brasil não está preservada, não está protegida. Quando a gente olha aquela paisagem de canais e de plantações, aquilo ali é uma história de mais de 400 anos. E como Rio de Janeiro, o distrito-sede do município é todo urbano, a gente deixou de olhar para aquela área que ainda é rural, mesmo dentro da área urbana. Aquela ruralidade dentro da área urbana é histórica, aquela paisagem geográfica deve ser preservada porque conta uma história de quatro séculos.
Então, o que eu proponho é isto: algum recorte daquela área entre a Rio-Santos e a Base Aérea de Santa Cruz precisa ser delimitado e protegido como paisagem cultural. E é uma paisagem cultural que não está cristalizada, que evoluiu organicamente. Ela ainda funciona com a mesma forma e função há quatro séculos e não pode ser totalmente engolida pelo avanço da indústria e dos condomínios. Eu proponho também que, se aquele aipim de Santa Cruz é o melhor do Brasil, haja uma chancela geográfica.
Não se tem a festa do tomate em Paty do Alferes? Não se tem a festa da uva no Sul do Brasil? Tem que haver uma festa do aipim em Santa Cruz, tem que haver chancela geográfica. Do mesmo modo que só é champanhe da região de Champanhe, na França, o aipim de Santa Cruz é plantado no Brasil inteiro, mas ali é a origem. Tem que ter essa chancela, essa chancela agrega valor. Agrega valor no consumo.
Então, a proposição é esta: um recorte daquela paisagem deve ser considerado paisagem cultural evoluída organicamente. A Cidade do Rio de Janeiro olhar para dentro e enxergar novas paisagens a serem tombadas. O aipim de Santa Cruz deve ser considerado patrimônio imaterial do Rio de Janeiro.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Renato, obrigado. Até para esclarecer, porque você, falando isso, automaticamente, me relembra o momento que nós estamos passando agora, que é o Plano Diretor, para justamente identificar qual parte do nosso solo, da cidade, qual parte vai ser o quê. Onde vai ser indústria, onde vai ser a agricultura e assim por diante, onde vai ser casa – para quem minimamente não sabe o é que o Plano Diretor. Eu estava até conversando com a Andressa aqui agora, que está meio, uma coisa muito terrível o Plano Diretor lá para Santa Cruz e tudo o mais, a Andressa me colocou aqui.
Eu acho que depois, vale a gente marcar uma reunião para ontem, para ver como é que, o tipo de emenda que nós podemos, Jefferson e Ana que estão à frente disso, para ver o tipo de emenda que nós podemos colocar e disputar para, enfim, preservar esses patrimônios ali, como o professor mesmo disse aqui. Eu acho que é um caminho que nós podemos fazer e disputar, porque está no finalzinho. Eu participei do Colégio de Líderes na semana passada e, ao que tudo indica, o Plano Diretor não vai ser votado esse ano. Mas vai ser para o ano que vem. Então, é importante já colocar as emendas para esse ano e ver de que forma a gente pode disputar isso aí, Ana e Jefferson.
O SR. JOSÉ RENATO PIMENTA – Sim. E essa conversa vai ser bastante profícua, porque o Jefferson é de Geografia, igual a mim, e a Ana Luiza foi minha colega de faculdade na Uerj também. Para você ver com quanta gente que eu estou ligado aqui. Fico muito feliz.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – E muita gente boa. É isso.
O SR. JOSÉ RENATO PIMENTA – Muita gente boa.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Muita gente boa da nossa região. Acho que isso é importante. Jefferson, tem mais alguém? Acho que foram todos, não é? Ah, a Anny. Vou chamar agora nossa querida Anny Racca, representando as Mulheres de Pedra, para falar um pouquinho.
A SRA. ANNY RACCA – Bom dia, todos, todas e todes. Vou me apresentar: sou professora de teatro da Pedra de Guaratiba. Sou cria da Zona Oeste, nasci em Bangu e cresci em Pedra. Atualmente estou morando em Campo Grande. Venho aqui representar Mulheres de Pedra, que faz parte da minha construção como ser humano e como profissional. A Leila de Souza Neto me confiou essa responsabilidade para trazer aqui a representação do espaço. Dentro da coletiva, ela existe mais de 20 anos. É um patrimônio, foi reconhecido pela parlamentar Tainá de Paula como casa ancestral.
Ela fez parte diretamente na minha vida, porque foi lá que eu fiz estágio. Foi lá que eu fui acolhida culturalmente.
Tenho até uma colinha aqui. Para dentro do território, ela faz um papel social, coletivo e comunitário. Diversas gerações já atuaram na Mulheres de Pedra e já passaram. Tem mulheres do Brasil inteiro que nós recebemos lá. Tem artesãs, donas de casa, doutoras.
Eu fico muito orgulhosa de poder estar nesta Casa aqui falando sobre isso. Mulheres de Pedra foi fundamental na pandemia. Distribuímos mais de 10 mil cestas básicas para a comunidade. Santa Cruz, Campo Grande, Pedra, as comunidades em volta ali também. A gente precisa bastante de infraestrutura, principalmente por ser um espaço que está dentro da região da Baía de Sepetiba. A Baía de Sepetiba é uma baía que é rica em vida, em fauna e flora, e que abastece praticamente toda a Zona Oeste, além de dar emprego para diversas pessoas. Ela vem se degradando por diversos motivos. Então, nós temos como foco trazer a Baía de Sepetiba com protagonismo.
Mulheres de Pedra faz isso muito bem. Temos uma parceria com toda a comunidade. As mulheres vão para lá fazer cursos de artesanato, de crochê, vão cozinhar, vão trabalhar. Elas podem se expressar lá. Fazemos diversas rodas de conversas, nas quais as mulheres têm um lugar de apoio para isso. Nisso também, temos o apoio – gostaria de agradecer ao Vereador William Siri pelo convite – para fazer a reforma da casa de Mulheres de Pedra, que é muito importante, porque além de recebermos todas essas pessoas, conseguimos também produzir mais cultura.
Foi lá que eu fiz meu estágio, foi lá que outras pessoas – outros jovens – estão lá atuando. Queremos fazer uma casa sustentável, mantendo toda a estrutura, mantendo toda a estética, porque é uma casa, um quilombo também. Mas, trazendo a tecnologia, trazendo a sustentabilidade, trazendo essa relação direta com a cultura ancestral e carnavalesca da região.
A gente sabe que foi por ali que aconteceu tudo no início – Santa Cruz, a Baía de Sepetiba. Merecemos muito sermos valorizados por isso. Agradecemos aqui todo o convite, e pedimos o apoio de todos também das coletivas. Agora, eu gostaria de cumprimentar todo mundo. Achei muito interessante. Pode contar conosco nesse fazer coletivo social e solidário.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Obrigado, minha querida. Antes de chamar o Senhor José Marconi...
Eu, particularmente, esqueci o dia exatamente que foi o cortejo da Festa da Primavera. Quem não foi, por favor, ano que vem vai ter, não é? Como todo ano. É uma coisa linda ali na Pedra de Guaratiba, que é um lugar lindo, que todo mundo aqui sabe. Eu fui impactado por todo o trabalho que você já faz lá, há anos. Se tiver a oportunidade de dar uma Moção para vocês. Enfim, eu que fico muito feliz por ter dado essa honraria. A honra é muito mais, fico feliz por isso tudo.
Parabéns pelo trabalho que vocês fazem. Podem contar sempre com a gente, com o nosso mandato. Eu acho que isso aqui também, como eu digo, está “encarnalizando” o que realmente representa a Zona Oeste. Cada vez mais, nós precisamos dessas redes, para todo mundo ficar se ajudando, e cobrar ao Poder Público para fazer o que realmente tem de fazer, que é direito nosso. Obrigado, minha querida.
Quero chamar agora o Senhor José Marconi Andrade, fundador do Movimento SOS Patrimônio.
O SR. JOSÉ MARCONI ANDRADE – Muito obrigado pelo convite.
Fui convidado para falar sobre patrimônio histórico, mas vou confessar para vocês que fazia muito tempo que eu não ficava tão emocionado, porque me vi em cada um de vocês.
Continuo ainda emocionado, porque não sou um carioca. Moro na Zona Sul do Rio, sou um paraibano. Durante muitos anos, eu tinha vergonha de dizer que sou paraibano. Agora eu digo a vocês: “Se orgulhem de ser da Zona Oeste, de ser de Santa Cruz, de ser de qualquer bairro da Zona Oeste”, porque, quando você começa a descobrir sua terra, é uma coisa que eu não tenho palavras para dizer a vocês, para explicar a vocês. Eu gostava de forró, eu não escutava forró na minha infância porque era brega, era feio, e eu não conseguia entrar no meu grupo e dizer, na Zona Sul do Rio de Janeiro, que eu gostava de forró, mas estava no sangue. E quando vocês descobrirem a terra de vocês, isso vai ficar no sangue, vocês vão lutar como uma professora, como a nossa amiga e como o Vereador pela terra de vocês.
Agora eu vou falar do que realmente vim falar aqui. Eu estive há três semanas na Ponte dos Jesuítas. A Prefeitura iria fazer um evento de reinauguração e fiquei chocado porque, quando cheguei lá, fazia menos de um mês que eles passaram cal naquela ponte. Ela tem uma importância histórica não só para Santa Cruz, não só para a Cidade do Rio de Janeiro, tanto que tem um tombamento nacional. Ela é um patrimônio do Brasil. Eu cheguei lá e não consegui entender como se gastou R$ 400 mil para passar cal. Fizeram uma pracinha na frente, uma coisa meio modernosa, e eu não consigo entender como, dentro da Prefeitura, não tem alguém que conheça de estética. Você tem todo um patrimônio histórico, e se faz uma pracinha com uma Academia da Terceira Idade ou academia na frente, e nos fundos um parquinho de diversão, um escorrega, aqueles negócios; ao lado tem um rio totalmente assoreado, que os moradores me disseram que, quando chove, inunda, justamente onde está o parquinho, e passam duas ou três semanas com aquilo inundado.
Eu fiz um vídeo, mandei para a Secretária de Conservação, que por sinal é uma boa secretária, tenho que tirar o chapéu para ela, mas acho que tem essa falta dentro da Prefeitura. E a grande dificuldade, por incrível que pareça, por eu não conhecer o lugar, foi chegar lá. Eu tive um problema sério para chegar à Ponte dos Jesuítas porque não existe uma placa dizendo “Ponte dos Jesuítas”. E é um monumento nacional, gente. Não tem uma placa para você chegar lá. Passei do caminho, tive que fazer um contorno, a gente perguntou a uns policiais lá e eles nos informaram – inclusive disseram que tinha que abrir os vidros, porque era área de milícia. Achei estranho os policiais falarem isso pra gente, e a gente chegou lá.
A Prefeitura, para os carros não subirem nessa praça, colocou uns tocos de eucalipto, que por sinal já encontrei vários soltos. E eucalipto é madeira, com o tempo vai apodrecer, eu não consegui entender isso. Ou seja, esse tipo de coisas, a gente precisa de vocês para ter esse olho crítico em relação a tudo que a Prefeitura, ou que o Governo do Estado ou o Governo Federal, faz naquela área, porque a importância histórica de Santa Cruz eu não preciso nem falar, porque a gente acabou de ter uma aula aqui. É muito importante para vocês. Poucos estados no Brasil têm o patrimônio histórico que tem Santa Cruz – poucos! Vocês têm que se orgulhar da terra de vocês, da área de vocês, de Santa Cruz e da Zona Oeste.
Não vou me prolongar, porque realmente me emocionei vendo isso aqui. E outra coisa que eu pensei, vendo esse grupo que eu não conhecia: eu fico imaginando quantos outros grupos desse têm neste estado, na Zona Oeste, em vários lugares que a gente não conhece; fiquei impressionado com isso. Você imagina um grande evento com todos esses grupos na Zona Sul para as pessoas conhecerem, e precisam conhecer.
Eu queria parabenizar o professor. Muito bonito, gostei muito. Muito obrigado a vocês e, mais uma vez também, obrigado ao Vereador por ter me convidado. Infelizmente eu não pude falar mais porque realmente fiquei emocionado. Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – Para finalizar, eu queria chamar o Jefferson, assessor do nosso mandato. Essa pauta e esse tema atravessam muito a vida dele e ele, entre outras pessoas do mandato, é um grande entusiasta ali, falando de patrimônio e tudo o mais, porque um pouco da vida, do estudo dele, permeia um pouco disso. Então, eu queria chamá-lo aqui para falar um pouquinho também, acho que a maioria aqui já o conhece, mas eu gostaria de te ouvir, meu amigo.
Você também está construindo isso tudo e o mérito não é só meu, é de toda a equipe. Acho que a equipe vai estar muito bem representada por você aqui.
O SR. JEFFERSON VINCO – Boa tarde.
Siri já me apresentou. Quero dizer que foi uma construção coletiva, muitos parceiros aqui – Andressa e todos os que aceitaram o convite para a Mesa; Júlia, que eu conheci há pouquíssimo tempo – escrevemos juntos o projeto de lei sobre o qual quero falar um pouco. Eu sou professor de Geografia, sou Mestre em Geografia Urbana e parte dos meus estudos sobre produção de cidade eu discuti produção de patrimônio e o processo de patrimonialização, daí a raiz de pensar esse movimento saindo da Zona Oeste e usando o mandato legislativo do Siri, como vereador, para as lutas patrimoniais e para a implementação de política pública para transformar o que a gente chama de produção do espaço urbano na Zona Oeste.
Só que eu não quero muito ter um debate técnico aqui. Quero só dizer que estou muito feliz porque pouquíssimas vezes eu vi esta Casa, que deveria ser a Casa do Povo, tão cheia de crianças e adolescentes, jovens que estão aqui, acho que talvez seja uma primeira vez que entraram nesse espaço. Eu fui entrar neste espaço pela primeira vez com 27 anos. Que este espaço de luta, de história e de memória seja um espaço de inspiração para vocês. Que vocês andem por esses corredores quando esta reunião acabar e se inspirem para, daqui a quatro ou cinco anos, estarem aqui como vereadores e vereadoras desta cidade, como advogados e como advogadas, como engenheiros, como estudantes, como pesquisadores porque isso é o real significado disso. Eu me arrepio porque sei que visitar este espaço e entrar neste espaço pode ser para vocês e para cada criança aqui uma centelha de esperança para a transformação da realidade.
Eu fui o primeiro da minha família a ir para a universidade pública, fui o primeiro da minha família a fazer ensino superior e pós-superior. Talvez você também seja isso, você vai ser o primeiro ou a primeira da sua família a ir para o superior, a passar num concurso público, a ser eleito vereador, governador, senador, presidente. Esta Casa de Leis tem que ser uma Casa de Leis de inspiração, de sonhos e sonhos que brotam na Zona Oeste, mas que se enraízam por toda a Cidade do Rio de Janeiro. Ver as crianças do Mineiro Pau, os organizadores, o Professor André, a Professora Júlia, ver o mandato representado, a Andressa, o Zé, é saber que a gente está plantando sonhos. E sonho, para quem é da Zona Oeste, é um movimento radical. Ousar sonhar é um movimento radical e eu sei que é uma luta enfrentar a Brasil, enfrentar o trânsito, organizar todo mundo, voltar, pensar em lanche, pensar em tudo. Mas ocupar este espaço é direito nosso, ocupar este espaço, apresentar ideias de projeto de lei, apresentar discussão.
É por isso que estou feliz, quero que cada um, cada jovem, cada rapaz e cada moça que aqui estão, saia daqui inspirado para que daqui a pouco tempo vocês ocupem esses espaços, ocupem todas as esferas de poder do Rio de Janeiro. Este estado, o Estado do Rio de Janeiro, foi colonizado por anos por uma corja corrupta de políticos, de políticas, só que eu sei que a mudança começa aqui por um mandato jovem que sai da Zona Oeste. O Siri sai de Campo Grande, jovens e jovens que foram para a faculdade, foram estudar, foram se preparar por nós, professores. Essa é a minha felicidade. Eu quero que seja um espaço de muito debate, de muita reflexão, mas também de celebração, porque celebrar também é forma de luta, celebrar também é forma de resistência. Estar aqui e encontrar vocês é uma grande celebração pra mim.
Vamos seguir juntos e em constante diálogo. É isso. Um beijo, gente!
O SR. PRESIDENTE (WILLIAM SIRI) – É isso, gente. Finalizando aqui com o Jefferson, quero muito agradecer a cada um que esteve aqui, a todos e todas da Mesa. Fico muito feliz, porque em um ano já dessa Frente fizemos algumas ações e algumas medidas legislativas, outras mais burocráticas. Mas, se tem uma coisa fundamental que essa Frente tornou possível, foi esse encontro entre pessoas da mesma região que, pela vida mesmo, às vezes não se conheciam.
Acho que, conforme a gente está trabalhando, as pessoas estão conhecendo o trabalho um do outro, dando força para cada um para justamente a gente tornar esse nosso território, esse nosso espaço que tem potências para todos os cantinhos da Zona Oeste estar no mapa central do orçamento, do debate público. Eu acho que é para isso que serve o nosso mandato como vereador da Cidade do Rio de Janeiro, mas sempre com um olhar a partir da Zona Oeste. Isso é o que mais me enche de alegria: ver a quantidade de crianças que, como algumas pessoas falaram aqui, o Jefferson acabou de citar, é a primeira vez, pode ser a primeira vez que estão aqui.
Eu mesmo acho que a primeira vez que vim foi em 2014. Eu tinha 20 e poucos anos também, vim estudar aqui na Cândido Mendes, fazer Economia e estagiar no Sebrae. Eu estava por aqui uma vez e entrei, mas antes também... É isso, demorou mais de duas décadas para eu entrar aqui. Então, ter crianças – e tem até mesmo aqui um amigo de parlamento, futuro amigo de parlamento, com certeza – deixa a gente muito feliz, com certeza, nesses dois anos de mandato, com a consciência muito tranquila sabendo que nós vamos fazer muito mais a partir da Frente Parlamentar, mas também muito satisfeito com o que nós fizemos até aqui.
Obrigado, boa tarde a todos e todas. Que Deus abençoe vocês. Um ótimo final de semana.
Está encerrado o Debate Público.
(Encerra-se o Debate Público às 12h20)