Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da VEREADOR RAFAEL SATIÊ

REALIZADA EM 05/13/2026


Íntegra Debate Público :

DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 13 DE MAIO DE 2026

(Treze de maio: a história que não te contaram)

Presidência do Sr. Vereador Rafael Satiê.

Às 19h11, no Plenário Teotônio Villela, sob a Presidência do Sr. Vereador Rafael Satiê, tem início o Debate Público com o tema “Treze de maio: a história que não te contaram”.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Senhoras e senhores, boa noite!
Dou por aberto o Debate Público com o tema “Treze de maio: a história que não te contaram”.
A Mesa Diretora está assim constituída: Excelentíssimo Senhor Deputado Federal pelo Estado de São Paulo, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, pelo Zoom; Excelentíssimo Senhor Desembargador Federal do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, Doutor William Douglas; Senhor Fernando Holiday, influencer e ex-vereador pela Cidade de São Paulo, também pelo Zoom – muito obrigado, Fernando Holiday. Também conosco a Senhora Jordana Jojo Todynho, apresentadora – uma grande honra. Senhora Sara Dias, minha assessora, cientista política. Senhor Cláudio Dias Antônio, fundador do Movimento Preto de Direita – que honra, meu irmão. Senhora Bárbara Hannelore, empresária e comunicadora. Para finalizar, e não menos importante, o Senhor Ralph, professor de História.
Também tenho a honra de registrar a presença do Excelentíssimo Senhor Vereador Thiaguinho Atitude, do Município de Resende. É uma honra, meu irmão. Meu querido amigo Professor Monteiro, presidente do Partido Liberal Integração do Estado do Rio de Janeiro. Minha amiga, historiadora, comunicadora, influenciadora, Senhora Júlia de Castro. Registro também a presença da minha querida amiga Sandra Petitto, presidente do Partido Liberal Integração na Cidade de Santo André. É uma honra muito grande ter cada um de vocês aqui, senhores. Sinto-me extremamente feliz, mais uma vez honrado em poder estar proporcionando um Debate Público com um tema tão sensível e pertinente como este. É uma honra muito grande poder receber cada um de vocês, uns vieram, a grande maioria, da Cidade do Rio de Janeiro, outros da Região Metropolitana do nosso Estado, outros vieram de outros Estados da Federação, tamanha a importância, a sensibilidade e tamanha a relevância do que vai ser debatido hoje.
Em 13 de maio de 1888, uma mulher pegou uma caneta e mudou a História do Brasil. Seu nome era Isabel, e o ato que ela praticou naquele dia não foi apenas um ato político, foi um ato de coragem moral, de consciência cristã e de amor ao próximo. A Princesa Isabel assinou a Lei Áurea sabendo o preço que pagaria – e pagou. Perdeu o trono, perdeu o país, foi para o exílio e, mesmo assim, nunca se arrependeu. Esse é o dia 13 de maio que eles não querem que você conheça. Mas o que a esquerda fez com essa data? E é o que é mais lamentável, inclusive, transformou um ato de coragem em pauta de divisão, apagou a Princesa Isabel da narrativa, substituiu a gratidão pelo ódio e sequestrou o dia 13 de maio para empurrar uma agenda que nada tem a ver com a libertação do povo negro.
A esquerda prefere, inclusive, o dia 20 de novembro ao dia 13 de maio. Já que a esquerda escolheu o 20 de novembro como seu dia, deixe-me lhe contar o que é o herói que eles escolheram para representar, entre muitas aspas, o povo negro: Zumbi dos Palmares. A esquerda construiu em torno de Zumbi uma narrativa de libertador absoluto, um símbolo puro de resistência negra, um herói sem manchas, mas a história completa eles não contam. O Quilombo dos Palmares não era apenas um refúgio de liberdade, era também um lugar onde escravos eram capturados e mantidos. Zumbi dos Palmares, o grande símbolo da esquerda, liderou uma comunidade que escravizava outros negros e indígenas, isso está documentado, senhores, e não é uma opinião minha.
Eu não estou aqui para apagar, de forma alguma, a história de Zumbi dos Palmares, estou aqui para dizer que a história é mais complexa do que a esquerda quer que você acredite e usar um personagem histórico e complexo como símbolo político, sem contar a história completa, é uma desonestidade intelectual, no mínimo desonestidade intelectual. A Princesa Isabel, que a esquerda tentou apagar, libertou 700 mil pessoas com uma caneta e perdeu o seu trono por isso. Zumbi dos Palmares, que a esquerda celebra, liderou uma comunidade que escravizava outros negros e, é óbvio, para variar, essa é a hipocrisia da esquerda, desmascarada pela história, a história que eles não querem que nenhum de vocês saibam.
Agora, eu preciso falar sobre algo que ninguém tem coragem de dizer com clareza, e é óbvio que o racismo existe. Eu não vou negar que o racismo existe, eu sou um homem negro, criado na Favela do Jacarezinho e eu já senti na pele o que é ser olhado de forma diferente por causa da cor da minha pele, eu não vou negar isso. A verdade é que eu nunca neguei a existência do racismo no Brasil, mas também é evidente dizer que o Brasil tem racismo, que é diferente de o Brasil ser um país racista.
O que a esquerda prega é que o Brasil é racista, e eu discordo veementemente disso. Eu acredito que no Brasil tem racismo e que não é um país racista. Racismo é crime e deve ser tratado como crime, sem relativização, sem tolerância e ponto final, mas existe uma diferença fundamental que a esquerda não quer que você entenda: todo racismo é crime, mas nem todo crime é racismo. Quando a esquerda transforma cada conflito, cada discussão, cada desentendimento em racismo, ela não está defendendo o povo negro, ela está usando o povo negro como instrumento político, ela está enfraquecendo a luta real contra o racismo, porque, quando tudo é racismo, nada é racismo. E aí chegamos à fatídica questão da vitimização, a esquerda construiu uma indústria de vitimização. A esquerda construiu uma indústria de vitimização, um sistema em que o homem negro só tem valor se for a vítima, onde a única narrativa permitida para um homem negro brasileiro é a dor da opressão e a dor do ódio. Eu rejeito isso com todas as minhas forças.
O homem negro não pode ser reconhecido pela vitimização, o homem negro não pode ser reconhecido apenas pelas suas lutas, e que são muitas; apenas pelas suas lamúrias, e que talvez sejam muitas. O homem negro tem que ser reconhecido pela sua conquista, o homem negro tem que ser reconhecido pelo seu critério de reconhecimento, de grandeza, pelas suas formações profissionais, pela sua capacidade intelectual, pelas suas batalhas vencidas e vitórias adquiridas ao longo dos anos que também são muitas.
São muitas as tristezas, mas também são muitas as vitórias. São muitas as coisas que nos fizeram chorar, mas também são muitas as coisas que nos fazem celebrar, assim como o dia 13 de maio de 2026, onde nós completamos 138 anos da abolição da escravatura. Hoje sim, senhoras e senhores, é um dia para ser comemorado, e eu, na qualidade de vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, faço questão de usar essa data para comemorar e para celebrar.
A história do negro do Brasil não é só de dor e de vitimização. Carolina Maria de Jesus, saiu da favela, escreveu um dos livros mais importantes da literatura brasileira. Luiz Gama foi escravizado, conquistou a própria liberdade na justiça e se tornou um dos maiores abolicionistas do Brasil. José do Patrocínio usou a palavra como arma e lutou pela abolição quando isso tinha um preço altíssimo.
No campo político, tem muita gente que olha para Barack Obama e fala que os Estados Unidos estão muito à frente do Brasil, porque tiveram um presidente negro. E se eu te contar que, há mais de meio século, nós também tivemos um presidente negro dirigindo a República Federativa do Brasil, o caso do campista aqui do Rio de Janeiro e o pai das escolas técnicas, Nilo Peçanha. Um forte aplauso ao Nilo Peçanha, à sua memória, à sua história. Esse que, muito antes, décadas antes de Barack Obama, foi o presidente da República Federativa do Brasil.
Na política, também podemos falar de Joaquim Barbosa, que chegou ao mais alto cargo da mais alta corte do judiciário brasileiro, o Supremo Tribunal Federal. O meu amigo, meu irmão, por quem eu tenho grande estima, Deputado Federal Hélio Lopes, Hélio Negão. Uma salva de palmas para o nosso deputado, que é uma das vozes mais importante da direita conservadora no campo político nacional e no congresso nacional.
No empreendedorismo, Geraldo Rufino saiu do lixão sem sapato, sem escola e se tornou um dos maiores empresários do Brasil. O Rick Chesther – quem não lembra do vendedor de água das praias do Rio de Janeiro? – construiu um império empresarial partindo do mais absoluto zero
Esses homens e mulheres não esperaram o estado resolver os seus problemas. Não ficaram presos na narrativa da vitimização, não deixaram a cor da pele ser uma limitação, usaram a sua história como combustível, usaram a dor como motivação e construíram algo que o Brasil e o mundo inteiro respeitam.
Essa é a história do homem negro que a esquerda não quer te contar. Porque essa história não precisa de partido político, não precisa de assistencialismo, ela simplesmente precisa de liberdade, de fé e de muito trabalho. E é exatamente isso que eu, na qualidade de vereador, na Cidade do Rio de Janeiro, defendo e defenderemos aqui nesse debate público.
A esquerda não quer que o negro seja livre, ela quer que o negro seja dependente, dependente do estado, dependente do discurso da vitimização. E é por isso que eu me recuso a deixar a esquerda falar por mim, é óbvio. Todas as vezes que essa gente tenta falar por mim, eu me recuso, inclusive nessa Casa de Leis, todas as vezes que vou fazer uma defesa da pauta preta, sou vaiado. Vaiado inclusive por gente branca, como se essa gente branca tivesse feito um curso de como ser preto, um curso técnico de como ser preto. A última vez que um homem branco decidiu falar o que um homem negro tinha que fazer foi antes de 13 de maio de 1888, porque agora nós somos homens pretos, sim, e homens pretos livres.
E é importante levar em consideração que tem gente que usa camisa Preto tipo A, cantor de grupo de rap que usa camisa preto tipo A. Não tem que ter preto tipo A, nem preto tipo B, nem branco tipo A, nem branco tipo B. Imagina só: é orgulho você ter uma camisa escrito preto tipo A? Imagine se um homem branco estivesse com uma camisa escrito branco tipo A. Imagina o que aconteceria? Nós, homens negros, não devemos ter orgulho da nossa cor. Nós não devemos ter orgulho da nossa melanina. A verdade é que eu não tenho orgulho da nossa cor, eu tenho orgulho daquilo que eu sou, e você deve ter orgulho daquilo que você é: um homem honesto, um homem de caráter, pai de família e temente a Deus.
É por isso que eu me recuso a deixar a esquerda falar por mim. A abolição da escravatura não foi uma derrota, foi uma vitória. E nós viemos aqui hoje para celebrar essa vitória, para contar a história completa, para devolver ao 13 de maio o seu verdadeiro significado. A Princesa Isabel perdeu o trono por fazer a coisa certa. Hoje, 138 anos depois, nós estamos aqui na Câmara Municipal do Rio de Janeiro para dizer que ela não errou, que a história que nos contaram é incompleta e que o Brasil que a gente quer construir tem raízes mais profundas do que a esquerda quer que você acredite.
O povo negro não precisa da vitimização, precisa de oportunidades, precisa de educação, precisa de uma família estruturada, precisa de fé e precisa de liberdade. Tudo isso está no 13 de maio, não no discurso de ódio que tentam vender. O 13 de maio não é deles, nunca foi. O 13 de maio é nosso. E esse debate é necessário. Esse combate e esse debate são urgentes. E eu fico honrado de estar aqui com cada um de vocês e de honrar a cada um de vocês.
Que Deus abençoe o nosso encontro, abençoe a cada um de vocês e que Deus abençoe o Brasil. Muito obrigado.
Para dar continuidade ao Debate Público, convido a Orquestra Sinfônica do Corpo de Bombeiros Militares do Estado do Rio de Janeiro, sob a regência do Maestro Eder de Carvalho Oliveira.
Eu tenho um breve histórico sobre a Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros. Ela foi fundada no ano de 1896. A Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros é uma das instituições musicais mais antigas do Brasil. Seu primeiro regente foi o maestro e compositor Anacleto Augusto de Medeiros, nascido em 13 de julho de 1866, na Ilha de Paquetá, filho de uma escravizada liberta. Anacleto rapidamente reuniu os melhores músicos da época e, já em 15 de novembro daquele ano, o grupo participou da inauguração do posto de Bombeiros do Humaitá.
Ao longo dos seus mais de 129 anos, a banda foi pioneira como o primeiro grupo instrumental brasileiro a gravar disco e participou de importantes eventos culturais, como Projeto Aquarius e Joias da Ópera. Grandes maestros, incluindo Villas-Lobos, Isaac Karabtchevsky e Francisco Magnoni, também dirigiram a banda.
Além das apresentações musicais, os membros da banda são preparados para atuar como bombeiros combatentes, participando das operações em catástrofes, como as enchentes da Serra Fluminense, em 2011, e as fortes chuvas de Petrópolis, em 2022.
Em 2012, a banda sinfônica foi oficializada como grupamento dos bombeiros músicos GBMus, e, em 2016, foi declarada patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, o GBMus está subordinado ao Centro Histórico e Cultural, sob o comando do Tenente-Coronel BM Ana Carolina Faria, com o Major BM Franquimar Francisco Fernandes, como maestro titular, e o Capitão BM Denilson Costa Vargas como comandante.
Mais uma vez, muito obrigado à Orquestra Sinfônica do Corpo de Bombeiros. Uma salva de palmas, senhores.
(Ouve-se a canção)
O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado a essa banda sinfônica maravilhosa. Mais uma vez, mais uma calorosa salva de palmas a esses profissionais do Corpo de Bombeiro do Estado do Rio de Janeiro, que salva vidas e que entra em todos os lugares onde pouquíssimas pessoas vão... eles vão lá. Os bombeiros, eu costumo dizer que, quando todo mundo está correndo de um lugar, eles estão indo para lá.
Então, parabéns a cada um de vocês. Parabéns ao maestro, aos músicos, ao comandante Tarcísio e a toda a corporação.
Quero também registrar a presença de algumas pessoas que chegaram agora: a Sra. Paula Rosângela Custódio, Presidente do PL Integração em São Paulo. Também quero saudar aqui e agradecer pela presença a Delegada Patrícia Aguiar. Muito obrigado, delegada. E também o meu amado filho, Emanuel Satiê, filho do Vereador Rafael Satiê. Está aí. Eu quero saudar a mulher mais bonita do universo, a Tiemi Satiê, esposa do Excelentíssimo Senhor Vereador Rafael Satiê. Esse que vos fala. Obrigado. É uma honra ter a minha família aqui comigo.
E agora nós vamos aos debatedores da Mesa. Com a palavra, a senhora Bárbara Hannelore, que é empresária e comunicadora. Uma salva de palmas, senhoras e senhores.

A SRA. BÁRBARA HANNELORE – Quero agradecer por estar aqui e cumprimentar a Mesa através do Excelentíssimo Senhor Vereador Rafael Satiê. Obrigada pelo convite, que é uma honra, de fato. Gostaria de cumprimentar também o Deputado Federal pelo Estado de São Paulo, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, o nosso príncipe, que está pelo zoom. Também o Senhor Fernando Holiday, Jojo Toddynho que está aqui; Sara Dias, cientista política que está lá; Senhor Cláudio Dias; Senhor Rafael.
E eu estou aqui hoje para trazer a visão que eu quero construir daqui para frente, e que eu tenho buscado construir também num trabalho de comunicação com o povo. Hoje é 13 de maio e nós nos reunimos nesta Casa para falar de uma data que o Brasil aprendeu a comemorar pela metade. Eu não vim falar da Lei Áurea como um cartão postal, eu vim falar da história dos negros que não te contaram e da história que nós vamos contar daqui para frente.
Por mais de um século nos ensinaram que a abolição foi um gesto fácil, uma assinatura, somente uma caneta, um dia, aquele tipo de mentira gentil. A abolição foi tudo menos fácil. Antes dela, uma rede de homens negros, mulheres negras, articulou a libertação por dentro do país. Luiz Gama comprou a própria carta de alforria, escrevendo petições por outros escravizados. José do Patrocínio transformou a imprensa em arma de libertação. André Rebouças sonhou com reforma agrária para os libertos, décadas antes de qualquer país do mundo cogitar esse debate.
A liberdade não desceu do trono, a liberdade ela subiu da rua, da senzala, da redação do tribunal e ela encontrou um coração sedento pela liberdade no trono. Quando a hora chegou de assinar, foi uma mulher que segurou uma caneta – e aí eu abro um parênteses: nós vemos hoje, à esquerda, um projeto maléfico de tentar a todo custo apagar a mulher. Então, eu repito com ênfase o quanto a mulher tem sido apagada desde 13 de maio de 1888. Essa história não começou agora.
E quando a Princesa Isabel demitiu o Barão de Cotegipe, o escravocrata que presidia o conselho dos ministros, quando nomeou um liberal para destravar a votação, quando conduziu a aprovação da lei sem indenizar um único escravocrata pela libertação de um único escravo, ela sabia o preço que ela ia pagar. O nome disso é coragem.
O Barão de Cotegipe olhou para ela e disse assim: "Vossa Majestade acaba de redimir uma raça, mas perdeu o trono". Alguém pagaria esse preço? Quinze meses depois a profecia se cumpriu. A República não foi proclamada por uma demanda popular, foi um golpe articulado por uma elite cafeicultora que se sentiu traída quando a coroa libertou seu patrimônio humano. Eu vou repetir: patrimônio humano.
A família imperial foi expulsa do Brasil, Isabel morreu no exílio e o que ela queria construir depois da Lei Áurea? O que o pai dela, Pedro II, já tinha começado, financiando do próprio bolso cotas para negros alforriados estudarem nas faculdades do Império. Ninguém deixou que continuasse. Preciso repetir. Ninguém deixou que esse projeto continuasse no Brasil. O que veio depois do 13 de maio foi liberdade sem terra, liberdade sem registro, liberdade sem nome. Não porque a monarquia abandonou os libertos, mas porque quem perdeu o patrimônio humano garantiu que ninguém construísse o caminho que a Coroa tinha começado a abrir. Esta é a história que não te contaram e é a história que precisa ser contada.
Mas a história começa antes. A mão africana que veio para esse país não veio vazia. Veio com o cultivo do arroz irrigado, com o manejo do gado, com a alquimia de fazer dar o que parecia não dar. O negro neste país não foi só força de trabalho. O negro foi o grande alquimista do solo brasileiro. Uma mulher arrancada de Angola ensinou ao moço português no engenho como se planta amendoim. O mesmo moço que a comprou como objeto aprendeu com ela, como se aprende com uma mãe. Anos depois o amendoim alimentava a casa-grande, e ela não tinha nome nos registros. Chamavam-na de Mãe Preta. Mas a terra guardou o nome dessa mulher. E hoje, nesta Casa, eu chamo essa mulher pelo nome que ela sempre mereceu: Mestra. Porque foi assim que o Brasil se construiu.
Por trás de cada safra existe o saber de um povo. Existe uma prática indígena, uma técnica africana, uma sabedoria europeia, a resistência dos quilombolas, a persistência dos ribeirinhos. Isso é Brasil. O samba não é música africana, é a alma sonora do Brasil. A feijoada não é prato português. É a alquimia da panela do pobre. A nossa festa acende vela para Nossa Senhora e faz oferenda para Iemanjá, sem conflito. Porque temos, e isso daqui é fundamental, para que nós possamos acender em nós um amor que transcende qualquer prática material pelo nosso país, nós precisamos resgatar o amor pelo nosso país. Porque nós temos uma inteligência ancestral capaz de habitar paradoxos.
Darcy Ribeiro disse a frase que este país precisa ouvir em todo 13 de maio: nós não somos uma nação multicultural, somos uma nação sincrética. Geramos aqui uma terceira coisa, que não é nenhuma das partes originais. Olhem para o mundo. O mundo se desmorona em divisões, tribos contra tribos, países que se rasgam inteiros por dentro e nós aqui, há séculos, sussurramos uma única resposta possível: juntemo-nos. Integração.
A pergunta que importa é uma só: vamos continuar repartindo esse país em pedaços que se odeiam ou vamos assumir aquilo que já somos e que temos só dificuldade de reconhecer? Somos a maior experiência de mistura que esse país já viu, e eu escolho me integrar. Integração não é assistência, integração é reconhecimento de que a base fundacional deste país é o encontro. O hino que cantamos: “Se o penhor dessa igualdade, conseguimos conquistar com braço forte”. Conseguimos com o braço de Gama, de Patrocínio, de Rebouças e da Princesa que pagou com o próprio trono. “Gigante pela própria natureza”. E essa natureza, nós sabemos, é mestiça. “Verás que um filho teu não foge à luta”. O filho que não foge é aquele que se reconhece nos outros. “Nem teme quem te adora a própria morte”. Isabel não temeu. E nós não devemos temer! Que Deus abençoe o Brasil, e que o Brasil abençoe o mundo com a única coisa que ele sabe fazer melhor do que qualquer outra nação: misturar sem se destruir!
Muito obrigada.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado, Senhora Bárbara Hannelore. Quero também trazer para fazer parte da Mesa Diretora a senhora Paula Rosângela Custódio, presidente do PL Integração em São Paulo. Uma salva de palmas.
E agora, com a palavra, o Excelentíssimo Senhor ex-vereador pela cidade e município de São Paulo, influenciador e comunicador Fernando Holiday. Muito obrigado pela sua presença meu irmão, pelo Zoom.

O SR. FERNANDO HOLIDAY – Perfeito.
Muito obrigado, Satié. Na sua pessoa, cumprimento todas as autoridades aqui presentes. Na pessoa da Bárbara e da Paula, aproveito para cumprimentar também todas as mulheres presentes neste dia tão especial, e eu diria, até mesmo, histórico, porque infelizmente no Brasil, nos últimos anos, nós temos esquecido o dia 13 de maio.
Bom, inicio a minha fala aqui me desculpando por não poder estar presente; infelizmente, a agenda que mistura medicina e política é deveras complexa e me impediu de estar presencialmente. Mas é uma honra participar, mesmo aqui online.
E eu começo tratando de um tema que a Bárbara trouxe na sua fala e eu acho que é importante a gente começar por aí. Muitos países ao redor do mundo, especialmente nas Américas, resolveram o seu problema da escravidão com base em guerras civis. Acho que a mais evidente de todas elas foi justamente a dos Estados Unidos, que separou os Estados do Sul, basicamente, com os estados do Norte e eles combateram muito por conta do modelo econômico que os Estados do Sul tinham, dependendo de latifúndios, grandes plantações e dependendo, portanto, do trabalho escravo. E os estados do Norte, que já tinham uma lógica capitalista diferenciada, avançaram muito mais rapidamente na industrialização. Essas diferenças econômicas fizeram com que houvesse também um choque social e político e uma disputa, de fato, em torno da escravidão.
A Família Real aqui no Brasil buscou de todas as formas evitar justamente isso, principalmente por conta das fazendas de café que nós tínhamos, crescendo aqui no final do século XIX, principalmente em São Paulo, e os cafeicultores tinham a visão de que somente com o trabalho escravo poderiam sustentar o seu negócio ou que, se houvesse uma abolição, eles deveriam ser indenizados por isso.
E a Família Real conseguiu evoluir passo a passo para a abolição. Você teve a lei Eusébio de Queiroz; a lei dos nascidos livres; a lei dos sexagenários; que na prática foi libertando aos poucos o negro. Paralelamente a isso, Princesa Isabel, junto com o seu marido inclusive, o Conde d’Eu, financiavam, por exemplo, o Quilombo das Camélias, ali o Quilombo do Leblon, que era conhecido justamente por resgatar diversos ex-escravos que tinham fugido e ali podiam agir como livres. Inclusive a Princesa Isabel utilizou em diversos eventos públicos justamente a Camélia em suas roupas, que era o símbolo do Quilombo das Camélias, o símbolo da defesa da libertação dos escravos.
Agora, por ela não ter sido, digamos assim, uma defensora de uma grande revolução, de uma mudança drástica, que dentro daquele cenário era complicado, foi deixada de lado, como se não tivesse ajudado no processo da abolição, o que é uma completa injustiça, uma completa ignorância. É claro que, olhando com olhos de hoje, permitir que a escravidão tenha chegado até 1888 é de fato um absurdo, mas dentro daquele contexto histórico, dentro daquela lógica cultural e política não era tão fácil, não era tão simples de se ver isso. E tanto o método utilizado pela Família Real foi bem sucedido que nós vivemos em paz mesmo após a abolição. Os cafeicultores não tiveram a sua tão desejada indenização, não conseguiram barrar a abolição, foram vencidos politicamente e depois, na República, não tiveram as mínimas condições de voltar para esse debate.
Portanto, a abolição foi bem completada e se tornou efetivada justamente por conta desse processo dirigido pela Família Real, e o dia 13 de maio é importantíssimo justamente por isso, porque ele nos lembra que mudanças profundas na sociedade não são feitas do dia para a noite, é um processo.
Antes que a Família Real chegasse à abolição, diversos negros tiveram que morrer ao longo desse processo, lutando pela sua liberdade, lutando pela liberdade de outros. André Rebouças, por exemplo, que sempre é citado nesses exemplos e nesses eventos, felizmente, foi um grande amigo da Família Real e foi, inclusive, o único civil que acompanhou a Família Real no exílio. Quer dizer, tão próximo era da família, que ele resolveu ir embora junto com eles do Brasil quando acontece o golpe republicano. E André Rebouças foi um grande lutador pela abolição, considerava evidentemente a escravidão um absurdo, porque ele, negro, mesmo sendo livre, era vítima também desse cenário em que nós vivíamos.
Só que essa história de processos, essa história de passo a passo, não interessa à ideologia da esquerda, não interessa à narrativa que eles buscam impor à história. Portanto, eles tentam reescrever a história. Como? Apagando André Rebouças, apagando Luiz Gama, apagando o papel da Princesa Isabel e o papel da Família Real. E é nosso dever recuperar essa história, porque a história que leva à libertação dos negros no Brasil é, antes de mais nada, uma história conservadora. Sim, conservadora, porque muitas vezes, quando nós usamos esse termo, e equivocadamente a esquerda teve um sucesso nisso, parece que aquele que é conservador quer conservar o estado de coisas. Isto nada mais é do que uma grande mentira.
Esses conceitos de direita e esquerda surgem na Revolução Francesa, quando aqueles que eram a favor de derrubar a monarquia se sentam à esquerda e aqueles que eram a favor de reformas mais lentas, porém mais efetivas, sentavam-se à direita. Portanto, o conservador, historicamente, defende que as mudanças aconteçam aos poucos, aconteçam de forma estruturada, institucionalizada. Tanto que, na Revolução Francesa, acabou vencendo a esquerda, isto é, aqueles que se sentavam à esquerda, e os resultados da Revolução foram completamente drásticos. Aqueles que lideraram acabaram sendo mortos pela própria Revolução. E Edmund Burke, por exemplo, que era um conservador crítico daquele processo, previu isso anos antes, porque as mudanças não foram institucionalizadas, não foram feitas passo a passo, foram feitas de forma açodada.
Aqui no Brasil, a nossa abolição é conservadora, ela é feita passo a passo, por isso ela é mais sustentada, por isso não há guerras, por isso não há divisão no país. Contudo, posto isso, é importante dizer que há, sim, até hoje, cicatrizes da escravidão na nossa sociedade. Até hoje o racismo é presente, a discriminação contra pessoas negras é presente, mas a forma como a esquerda busca resolver estes problemas aprofunda, na verdade, todos esses problemas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, tivemos Martin Luther King, que lutou uma vida inteira e quase que literalmente entregou a sua vida, para que brancos e negros convivessem pacificamente juntos, sem diferenças. No seu famoso discurso “I have a dream”, em determinado momento ele disse que sonha com o dia em que filhos de ex-escravos e filhos de ex-donos de escravos se sentariam à mesa do banquete da fraternidade. Quer dizer, então, o discurso dele era de completa união.
O que vem depois, tanto lá quanto aqui, é um discurso de completa divisão. É a separação, é a política de cotas, é a reserva de vagas, é a ideia de que o negro precisa ter o seu espaço social reservado para compensar o que sofreu no passado. E com isso se justificam até mesmo atos de racismo contra brancos, aprofundando a divisão. Xingando brancos, culpando brancos por todos os malefícios que possam vir a acontecer na sua vida.
E este processo de divisão, esse processo de rachar o Brasil ao meio, é um método de domínio, é um método de se fazer política. Você cria um fantasma, você cria um ódio e, através desse combate contra o fantasma, através desse ódio, você consegue mandatos, você faz campanhas políticas e você se mantém no poder. Por isso é que eventos como esses são tão importantes para que a gente possa avançar nas mais diversas áreas: na política, na academia, nas artes.
Estou vendo aí agora também a Jojo Todynho presente, um exemplo de como é preciso resistir também no meio artístico e dar este exemplo de que nós, negros, não somos nem um pouco inferiores ou superiores por conta da nossa cor da pele. Somos iguais a qualquer outro. Temos os mesmos direitos, mas também temos os mesmos deveres. Senhoras e senhores, eu não quero me alongar muito. Agradeço muitíssimo a oportunidade. Espero ter contribuído pelo menos um pouco para essa discussão.
E mais uma vez, Satiê, parabéns por esse evento extremamente necessário, e parabéns à Câmara Municipal do Rio de Janeiro por sediá-lo.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado, meu amigo, meu irmão, ex-vereador, futuro médico e o futuro político. Eu o aguardo aí para suas próximas decisões. Fernando Holiday, muito obrigado.
E também para compor a Mesa, eu chamo a Senhora Sandra Petitto, Presidente do Partido Liberal em Santo André.
Para fazer uso da palavra eu chamo o professor de história, Senhor Ralph. Vossa Excelência dispõe de três minutos, professor. Muito obrigado pela sua presença.

O SR. RALPH – Eu agradeço a todos pela oportunidade. Agradeço a Deus, agradeço ao Vereador Rafael Satiê pelo convite a minha família, a instituição a qual represento, que é o Instituto Superior de Educação Prof. Aldo Muylaert, onde dou aula há quase 30 anos.
E o fato é que devemos nos perguntar por que o 13 de maio traz tanto constrangimento. Por que deveríamos ficar constrangidos com o 13 de maio, quando, na verdade, nós sabemos que toda a narrativa montada em cima dela faz parte de um projeto de poder para que os negros sejam vítimas? Porque vítimas precisam de salvadores.
No entanto, só existe um salvador, e este venceu a morte ao terceiro dia. Negros, pretos, não precisam de salvadores. Nós somos protagonistas da nossa própria história. Nós podemos andar com as nossas próprias pernas. Nós podemos construir, trabalhar, educar nossos filhos e ter perspectiva de futuro.
E o fato é que o 13 de maio não nasceu de uma caneta branca, e reconhecer que a importância da Princesa Isabel não diminui o protagonismo negro na luta pela liberdade. Quando nós ouvimos essa narrativa de que o 13 de maio nasceu de uma canetada branca, as pessoas esquecem ou são ignorantes para o fato de que o 13 de maio é resultado de uma ruptura institucional. Treze de maio é resultado de centenas de pessoas de diversas classes que se juntaram, se uniram em torno de um propósito que é lutar contra algo imoral que é a escravidão.
Então, toda vez que ouvimos que o 13 de maio é resultado de uma canetada branca, isso soa tão desonesto quanto um presidente afirmar que deve ser grato ao continente africano por todo o trabalho produzido
durante 350 anos de escravidão. É o tipo de narrativa que nós temos que combater, não somente nas escolas, mas onde nós colocarmos a planta dos nossos pés.
O fato é que nessa conjunção de seres, de pessoas que trabalhavam pelo 13 de maio, a Princesa Isabel era o braço institucional do José do Patrocínio, do André Rebouças, das mulheres que vendiam flores nas ruas para que os escravos fossem comprados, alforriados. Era o braço institucional daqueles que estavam na senzala e tinham consciência daquela da sua luta, consciência de que a sua dignidade foi roubada. E isso não os impediu de, mesmo ali na senzala, continuarem lutando.
Eu falo com muito orgulho que, hoje, quando eu vou votar, eu vou votar numa senzala. Eu voto numa escola que antes era a casa de um barão, Barão da Lagoa Dourada. Eu sou campista, sou de Campos dos Goytacazes, terra do Nilo Peçanha, terra do José do Patrocínio. E quando eu vou votar, eu vou votar numa ala que era a senzala. Eu sou um homem preto, que hoje pode exercer a sua cidadania no lugar em que os meus antepassados tiveram a sua dignidade roubada, mas porque uma mulher e outras centenas de homens, brancos, negros, homens e mulheres, ousaram lutar contra aquilo que era imoral diante da sociedade.
Mas assim como a ação da Princesa Isabel era um ato, uma ruptura institucional, eu quero lembrar também que, sim, homens negros, homens e mulheres negros foram protagonistas dessa história. E eu gostaria de falar um pouquinho da minha terra, que é Campo dos Goytacazes. Campo dos Goytacazes foi conhecida como uma das cidades mais violentas com relação ao trato com os escravos, ao trato com os negros. A história revela que os últimos a serem condenados a pena de morte foram condenados em Campo dos Goytacazes, condenados por enforcamento. O último homem enforcado em Campo dos Goytacazes foi enforcado porque o senhor molestou a sua filha e ele à noite reuniu outros tantos homens e esfaqueou aquele senhor diante de algo tão absurdo.
Nessa terra, os negros queimavam as lavouras. Eles organizavam redes de apoio e também de fuga. Esses homens e mulheres criaram quilombos e, em função disso, eles conseguiram colapsar todo o sistema econômico da cidade, a tal ponto que dois meses antes do dia 13 de maio os donos de terra, os fazendeiros se reuniram num chamado congresso agrícola e imploraram para acabar com a escravidão.
Então, eu vou repetir: o 13 de maio não nasceu de uma canetada branca e reconhecer a importância da Princesa Isabel não diminui o protagonismo negro na luta contra a liberdade. Essa luta ainda não acabou, e o fato de estarmos aqui, reunidos no dia 13 de maio, mostra que as sementes que a Princesa Isabel, que o José de Patrocínio e tantos outros homens e mulheres semearam, essa semente ainda precisa frutificar, mas essa semente não morreu.
Obrigado.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado pela sua notória contribuição, Professor Ralph.
Para fazer uso da palavra, disponibilizando de três minutos, o Senhor Cláudio Dias Antônio, Preto de Direita, fundador do Movimento Negro de Direita. O senhor tem três minutos, Senhor Cláudio Dias Antônio.

O SR. CLÁUDIO DIAS ANTÔNIO – Boa noite, pessoal. Eu não vou me alongar muito. Quero agradecer à Mesa, na presença do nosso Excelentíssimo Vereador Rafael Satiê. Eu vou complementar o que o Holiday falou, o que a Bárbara falou e o que o Professor Ralph falou.
Pessoal, nós temos a infeliz mania de culpar o branco pela escravidão. A escravidão é uma chaga da humanidade. E quando nós falamos da Princesa Isabel, eu costumo dizer que o dia 13 de maio para mim não é tão importante, mas o mais importante é o que ela fez ao longo do tempo, libertando escravo, escondendo escravo, comprando carta de alforria, sancionando lei, Lei do Sexagenário, Lei do Ventre Livre. Essas leis ajudaram a acabar com a escravidão.
Devemos lembrar que, no continente africano, enquanto nós brasileiros estávamos criando leis para acabar com a escravidão aqui no Brasil, os africanos, mais especificamente na tribo de Daomé, estavam mandando escravos para o Brasil. Nós criamos a Lei Regente Feijó justamente para acabar com o tráfico e começou a vir o tráfico clandestino. Aqui no Rio de Janeiro mesmo, nós tivemos o Cais do Valongo, que foi criado em 1811 para receber escravo. Ele foi extinto com a Lei Regente Feijó em 1831.
Depois nós acabamos com o tráfico de africanos, criamos a Lei Eusébio de Queirós e, mesmo assim, um homem chamado Francisco Félix de Souza, o mercador de escravo, na palavra do nosso amado – esqueci o nome agora, vou lembrar aqui –, o mercador de escravo, porque a escravidão já estava acabando aqui e ele estava mandando escravos para o Brasil.

Então, quando nós falamos, é muito raso nós culparmos o branco pela escravidão. Portugal fez a primeira lei para tentar acabar com a escravidão no continente africano, que é a lei de 1833, que criminalizava o tráfico de escravos e mesmo assim os africanos continuaram mandando escravos para o Brasil.
Então, quando nós falamos que o branco é culpado da escravidão, vamos lembrar que era um sistema no qual era imoral, mas não era ilegal. A Princesa Isabel, quando ela assina a Lei Áurea, ela faz com que o tráfico de escravo no continente africano, não só no Brasil, ele também pare, ele também cesse. As leis criadas aqui no Brasil fazem com que o continente africano perca a sua força escravocrata.
Nós só fomos o último país da América a abolir a escravidão porque, eu repito, sem medo de errar, os negros africanos da tribo de Daomé estavam mandando escravos para o Brasil. A escravidão só acabou na tribo de Daomé no século XIX, quando os franceses invadem a tribo de Daomé. Então, quando eu penso em Princesa Isabel, eu não penso nela só como uma pessoa branca, que assinou a lei, eu penso como uma libertadora sim.
E José do Patrocínio, é ele que vai chamá-la de Redentora. Tem um jornal, tinha um jornal aqui chamado Cidade do Rio, o livro está aqui, não sou eu que estou falando, vamos chamar o José do Patrocínio de capitão do mato? Vamos chamá-lo de senhor da casa grande? Foi o José do Patrocínio que se ajoelhou aos pés da Princesa Isabel quando ela assinou a Lei Áurea. Foi o José do Patrocínio que criou a Guarda Negra quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, porque ela estava sofrendo todo tipo de agressão, tanto verbal como física, justamente porque ele criou a Guarda Negra para defender a Princesa Isabel. Vamos chamar esses negros também de capitães do mato porque defenderam a Coroa?
Tanto o negro quanto a Princesa Isabel e o homem branco que escreveram as leis, Eusébio de Queirós, dos Sexagenários, a Lei do Ventre Livre, foram todos eles brancos que escreveram a lei sancionada pela Princesa Isabel. O que nós vamos fazer com esses homens brancos? Vamos colocar no tronco e vamos dar chicotada ou nós vamos respeitá-los por também lutar pela abolição do Brasil? O que nós vamos fazer com o Antônio Bento, que sucedeu Luiz Gama, que libertou os negros usando as leis abolicionistas, que eram justamente da Coroa? O que nós vamos fazer com essas leis?
Então, eu peço aqui que nós coloquemos o 13 de maio não como mera canetada, como o Professor Ralph falou, não, mas sim a luta de negros e brancos, negros e brancos, que fizeram com que nós tivéssemos a libertação não só dos escravos negros, porque na Lei Áurea não está escrito “Estão libertos os negros”, não, “A partir desta data, acaba-se a escravidão”. Lembrando que tinha escrava sexual, tinham escravas brancas, tinham escravos negros. Então, a escravidão não era uma exclusividade do negro. O negro não foi exclusivo na escravidão. Tivemos mais negros? Tivemos. Mas aí, eu vou usar uma palavra de Thomas Sowell. “Nós só fomos mais escravizados porque nós estávamos disponíveis”.
Então, se há mais negros hoje escravizados, vamos lembrar que a África foi um dos maiores fornecedores de escravos, não por imposição, mas, sim, por ganância, por cobiça. Isso nós temos que deixar bem claro. Tanto que, com a Lei Eusébio de Queirós, a Dona Joana - para quem não conhece, pesquisa -, ela foi uma das maiores traficantes em Angola. Parou-se o tráfico justamente porque as leis brasileiras interromperam o tráfico aqui no Brasil e acabou, abaixou muito o tráfico de escravos no continente africano. Temos que nos lembrar disso.
Nós não somos negros, brancos, morenos, mulatos. Nós somos pessoas que estamos lutando, sim, para reparar danos que ficaram, mas também para colocar na cabeça de cada um que você não é culpado por ser branco, eu não sou culpado por ser negro, você não é culpado por ser moreno, por ser caboclo, por ser mulato, você não é culpado, ninguém é culpado aqui. Todos nós temos o dever e a obrigação de lutar, sim, contra qualquer tipo de escravidão e não culpar pessoas que nem participaram desse ato.
É a chaga da sociedade? Foi uma chaga na sociedade? Sim. Mas nós devemos, sim, falar sobre a escravidão? Sim. Falar sobre o racismo? Sim. Combater? Sim. Mas devemos ter na cabeça também que nós não somos culpados de nada.
Obrigado.



O SR. CLÁUDIO DIAS ANTÔNIO – Obrigado.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado pela sua contribuição, senhor Cláudio.
Para fazer uso da palavra, pelo Zoom, eu chamo Excelentíssimo Senhor Deputado Federal pelo Estado de São Paulo, membro da família real, Luiz Philippe de Orléans e Bragança. Vossa Excelência dispõe de cinco minutos, muito obrigado pela sua presença, Deputado.

O SR. DEPUTADO FEDERAL LUIZ PHILIPPE DE ORLÉANS E BRAGANÇA – Muito obrigado, Vereador Satiê.
Muita satisfação de estar aqui contigo, assim como com os seus colegas vereadores e demais convidados para esta Sessão Solene, em memória de uma data muito importante do Brasil. Lembrando que não é somente o dia 13 de maio que foi importante para a história do Brasil. Desde João VI, até mesmo para Pedro I e depois, mais uma vez, para a Princesa Isabel, o dia 13 de maio foi marcado por eventos históricos importantes, pontuados por ações dessas três personalidades.
Na questão da Princesa Isabel, a gente precisa pontuar, eu gostei muito das intervenções que foram colocadas aqui, porque, historicamente, elas estão corretas. E acho que é isso que a gente precisa preservar. É o fio da meada da história, o fio condutor da história, porque isso que se perde com narrativas e todas reinterpretações e anacronismos no qual a sociedade é sujeita, através do ruído político que é gerado agora, talvez, em mais alto bom tom do que anteriormente.
Mas, efetivamente, a questão da escravidão não era exclusiva do branco, também não era exclusiva do negro e não era exclusiva de absolutamente ninguém. Todos praticavam. A Ásia tem uma história muito profunda e ainda contínua na questão da escravidão entre asiáticos, a mesma coisa entre países muçulmanos. Existem, ainda, práticas com relação à escravidão, até aprovado nas suas próprias leis religiosas. Isso ainda é permitido, temos que ainda continuar este combate. Vemos, também, que o próprio branco, na antiguidade, escravizava ele próprio. Não era exclusivo de qualquer raça. E a gente vê também esse mesmo componente na questão africana.
Então, é exatamente como que se combate isso, porque deixa de ser um aspecto exclusivo de uma raça ou de outra, mas passa a ser, sim, um aspecto talvez exclusivo da raça humana. O ser humano pratica isso como sendo um ato, ao menos na antiguidade, até aquele momento, tido naquela época como sendo um ato natural, um perdedor de guerra era morto, aprisionado ou era escravizado.
Portanto, a gente precisa começar a olhar isso de uma maneira mais humanística, fazendo parte do vício do ser humano e voltar atrás na questão dos direitos fundamentais do homem, em que dizia ali muito claramente que a constituição é que vem para dar essa lucidez, para dar essa esse efeito civilizatório para todos que aceitam ter uma constituição, que aceitam ter uma regra básica em que o homem não irá escravizar o homem, em que o homem não irá oprimir o homem. E é exatamente isso que está lá nos Direitos do Homem, no século XVIII, praticamente, durante a Revolução Francesa, onde foi colocado isso, e depois incorporado na Constituição Norte-Americana, e que depois teve uma influência em praticamente todas as constituições.
Então, esse efeito civilizatório, nós vemos agora no Século XXI, que está se esquecendo. E, olhem, as ideias que, de fato, já permeavam todos os países e as civilizações que estavam atingindo aquela estabilidade social e aquela pujança tinham o privilégio de começar a pensar de uma maneira mais humanística e olhar esses vícios humanos e combatê-los de uma maneira frontal. Por isso que o movimento antiescravocrata, diria, começa até com a igreja católica, nos primeiros séculos, após a morte de Cristo, assim que a igreja católica começa a se formar, a grande missão da igreja católica era libertar todos os escravizados pelas demais religiões, demais senhorios, e a igreja era vinculada na compra da liberdade de vários indivíduos, não importava a sua raça; era um cristão, a igreja estava lá para libertá-lo.
Essa era a primeira missão da igreja, claro que, depois de dois mil anos, houve diferentes variações desse tema, mas no início era isso. E, concernente a isso, nós precisamos falar aqui da nossa história própria dentro do contexto mais próximo aqui da nossa realidade, temos os últimos 200 anos que foram pautados exatamente por isso.
Nós temos a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil. Em nenhum momento João VI aderiu a essa ideia da escravatura, muito porque essas ideias de libertação, através da própria Igreja, lembrando que o próprio João VI era extremamente religioso... E, além disso, existia já esse movimento de ideias que já tinha tomado conta da Europa, já criando essas basculações e revoluções, saindo dos modelos absolutistas, arbitrários, entrando mais nos modelos constitucionalistas e com os direitos fundamentais garantidos em Constituição.
Então, ele já estava aderindo àquelas ideias, ele era muito pragmático nesse sentido. Logo, em nenhum momento ele aderiu a essa questão de manter escravos e de ter escravos, assim como seu filho, Pedro I, em nenhum momento, muito pelo contrário, era um liberal contumaz. Aliás, ele é considerado o rei liberal em Portugal porque, de fato, ele defendeu uma Constituição, a criação de uma Constituição aqui no Brasil; e, depois, em Portugal, lutou contra seu irmão, que era absolutista, queria ter um poder arbitrário. Ele lutou e venceu o seu irmão para exatamente garantir que Portugal teria uma constituição também, e essas constituições eram constituições em que os direitos fundamentais eram integrais e não faziam distinção de raça alguma, muito pelo contrário.
Pedro I tem diversas facetas da sua história, da sua historiografia, até mesmo quando ele adere, um dos seus maiores protetores, o seu maior, talvez o seu maior bem, que era o seu filho, não podemos dizer que seja o maior bem, mas sim o maior patrimônio pessoal, era o seu filho, Pedro II e o que era o grande tutor desse filho, aquele em que ele confiava, era um que lutou com ele nas trincheiras, na Guerra da Cisplatina, e era negro. Então, um dos tutores do Pedro II também era negro e estava lá, era um negro liberto e que passou toda a vida dele com Pedro II, cuidando de Pedro II como se fosse filho dele. Nós vemos, então, uma abertura completa nesta questão racial.
Além disso, você tem, mais tarde, Pedro II em todo o seu curso, em nenhum momento ele também aderiu a essa questão escravocrata, sempre quis fazer abolicionismo, mas ele não era tão ativo assim. Quem era ativa era sua filha, Princesa Isabel, mas Pedro II via isso como sendo quase que uma necessidade. Aí perguntam: "Ah, por que então ele não fez?" Por uma razão muito simples, a mesma razão porque Pedro I não fez, a mesma razão porque Dom João VI não fez. É que eles não tinham o poder absoluto, eles já tinham uma visão de que o Brasil era já uma sociedade independente, era uma sociedade própria, aquilo tinha uma dinâmica totalmente exclusiva de ser brasileiro, e eles viam que, dentro daquele contexto, politicamente era completamente insustentável, considerando as forças econômicas e forças políticas que já estavam estabelecidas no Brasil.
Então, quando chegou o momento e o movimento cresceu com muitos desses negros libertos, mestiços que, de fato, se tornaram abolicionistas, e que também foram reconhecidos por Pedro II, vários barões, vários viscondes ganharam títulos do Império Brasileiro. Sem dúvida que mereceram talvez mais do que qualquer outro porque passaram por toda essa trajetória de sair da situação de mais oprimido a uma situação em que eles podiam contribuir para a civilização brasileira, e Pedro II reconhecia isso com títulos.
Ao mesmo tempo, a sua filha já era uma ativista, uma ativista extremamente empolgada, extremamente vinculada a esse movimento. Em nenhum momento ela abriu mão do seu protagonismo, e eu acho que é isso que precisa ser deixado aqui para a História porque a história da Família Real Brasileira é uma história de todos nós.
Eu não acho que a família, que hoje descende de João VI, de Pedro I, de Pedro II e Princesa Isabel, é exclusiva em se chamar como sendo a nossa história. Essa agora é a história de todo brasileiro, essa história linda que o Brasil tem de quatro gerações que entregaram, de fato, muita coisa ao Brasil. E eu só posso imaginar, eu só posso especular como foi a emoção de ter assinado a Lei Áurea, o jubileu.
Tento entrar nos livros históricos para pegar os relatos daquela época e eu acho que o português, a palavra, não há palavras que podem comportar as emoções que eram vividas naquele momento. Porque de fato era um movimento de humanidade, era um momento em que a humanidade entrava em consonância e ali conclamavam com o jubileu que talvez o Brasil nunca tivesse vivido. Imagine aí a vitória de várias Copas do Mundo juntas. Imagine aí a vitória talvez de algum candidato preferido da população para a Presidência da República. Eu acho que tudo isso somado não dava o jubileu que foi aquele momento. E ao menos as descrições que a gente vive. Eu acho que é isso que tem que ser valorizado, esse momento histórico. Foi um momento de extrema emoção nacional, de junção e união nacional e muito superior a qualquer regime, muito superior a qualquer família. Isso foi um momento de humanidade. A família e a Princesa Isabel foram meros instrumentos deste momento, como muito bem colocado aqui anteriormente por um colega que me antecedeu. Era uma instituição que precisava reconhecer essas leis que vinham do Parlamento. Lembrando, essas leis vieram do Parlamento. O Parlamento já tinha a maioria para fazer essa aprovação e com a sinalização que a Princesa Isabel não iria vetar e que iria sim sancionar a lei, Então, o Parlamento foi adiante com coragem e eles fizeram a Lei Áurea e a Princesa Isabel assinou essa Lei Áurea.
É importante a gente pontuar isso, porque foi um processo de base. É isso que a gente esquece. A Princesa Isabel, neste contexto, serve como uma avalizadora institucional dando toda a legitimidade histórica e do regime que imperava naquele momento. O regime que imperava já era uma conjunção de vários fatores tradicionais, tanto da Igreja Católica, quanto do poder hereditário, quanto do modelo imperial. E isso tudo era comum e aceito pelos europeus. Qualquer outro tipo de mudança que fosse feita fora desse contexto não seria legitimada pelos poderes imperiais europeus. Então, era fundamental que a Princesa Isabel fizesse isso. E ela era abolicionista. Desde os seus princípios primórdios sempre olhava com extremo desgosto a todas as agruras que os escravos passavam. E até hoje se você adentra um pouquinho da história e verifica as documentações, você vê famílias inteiras escravizadas. E qual é o ser humano que não é tocado por um momento como esse? Você vê crianças já nascidas na escravidão. Qual é a mãe que não se toca em termos muito mais profundos do que ser mãe, mas, sim, como ser humano de ver uma coisa autenticamente errada, nitidamente errada, mas requer um estado sofisticado com leis aprovadas em consonância com o Parlamento que era eleito para que legitimasse isso, também não podia ser feito de uma maneira arbitrária. É isso que é importante a gente pontuar.
A questão da institucionalização é o que dá a legitimidade de todo esse processo. E olha, se eu tivesse que olhar de volta no tempo, eu diria que foi um grande privilégio para a Princesa Isabel e toda a família estar responsável por esse momento. Foi um grande privilégio. Eu acho que poucas famílias do mundo podem ter, olhar para trás no seu histórico e ter esse momento como sendo o momento áureo da sua existência. E eu por acaso tenho aqui em casa um exemplar dessa caneta que assinou a Lei Áurea, haviam três que foram feitas em efeito comemorativo. Essa eu herdei do meu pai, que herdou do avô dele, pai do meu avô, que obviamente que herdou da mãe dele, que era a própria princesa Isabel. Então, eventualmente, eu vou também colocar isso à disposição em algum momento público aqui para que todos possam ver essa essa relíquia daquele momento que sempre me lembra, está aqui na minha sala e está em em alto relevo aqui para que eu nunca me esqueça. Mas eu acho que é importante a gente trazer essa conexão porque não faz muito tempo atrás isso. O meu avô sentou no colo da Princesa Isabel e tem fotos dele no colo da Princesa Isabel. Eu conheci meu avô, até faleceu nos anos 1980, eu conheci e convivi com ele, um bom tempo. Então, você vê que a a história continua viva ao mesmo tempo
A missão continua viva. Como eu digo, a questão da escravidão, ela é uma questão, é um vício humano e que ainda perdura e que ainda se manifesta de diferentes maneiras, diferentes versões, talvez não mais como se manifestava no século XIX, mas agora há outros componentes que escravizam o ser humano, que fazem o homem oprimir o homem e a gente tem que sempre lutar em prol da liberdade, liberdade do indivíduo, das famílias brasileiras as comunidades brasileiras porque tudo isso está de novo mais uma vez, mas de uma maneira diferenciada, está de novo sofrendo riscos intensos, com uma série de interferências externas, uma série de religiões que vem aí com preceitos e premissas completamente contrárias àquelas que de fato foram os momentos liberalizadores.
Pontuamos também que o movimento que iniciou a questão da abolição não foi iniciado no Brasil, mas o Brasil herdou isso – o que se tem de registro é que foi iniciado na Inglaterra. E não foi iniciado na Inglaterra por grupos de interesse, foi iniciado na Inglaterra por cidadãos ingleses que estavam indignados em ver a Inglaterra vinculada com o tráfico negreiro e com a escravidão. Então, a indignação de cidadãos livres, pensadores, donos dos seus próprios destinos, olhando que eles também estavam de uma maneira indireta vinculados com essa prática, isso já os indignava.
Então, você veja que a sua indignação e a indignação de todo brasileiro tem impacto também. O indivíduo tem um impacto reverberador. Por isso é importante a gente manter o nosso ativismo muito claro e aberto, porque, mais uma vez, no século XXI, a gente vê toda sorte de modelo alternativo que surge para nos escravizar de uma maneira diferente. Aí não é mais uma questão racial, mas sim uma questão de quem é que está dentro da esfera de poder e quem é que está fora. Então, a gente precisa olhar isso com uma lupa muito crítica e, mais uma vez, ressuscitar o movimento de liberdade que é necessário. E quem sabe a gente possa viver e ter o privilégio também de reviver esses momentos de jubileu que foram vividos naquele momento? Eu acho que só de estar lembrando e especulando como isso foi já nos emociona.
Mais uma vez, meus caros, muito obrigado pelo dia de hoje. Eu diria que é um momento inédito de reconhecimento. Estou muito honrado de fazer parte desse momento. E gostaria também de saudar aqui o Satiê e todos aqueles que organizaram este evento, porque, de fato, estou vivendo aqui um privilégio.
Muito obrigado. Deus abençoe todos vocês.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado, Deputado Federal, príncipe da família real. Veja só, ele tem a réplica da caneta que o seu avô deu para ele, este avô que se assentou no colo da Princesa Isabel. A história continua mais viva do que nunca. Mais uma vez, muito obrigado, Deputado Federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança.
Para dar seguimento, eu a chamo, ela que é uma comunicadora, uma artista e que, durante muito tempo, tem sido perseguida por diversas organizações, simplesmente pelo fato de se posicionar da maneira como se posiciona. A gente sabe que a maneira como ela se posiciona é uma maneira, como eu inclusive, mais efetiva. Mas isso é prova de que, de fato, ela tem razão e que ela é uma mulher livre para se posicionar da maneira como quiser.
É uma honra muito grande para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, para o meu mandato, é uma honra muito grande tê-la aqui conosco, fazendo uso da palavra e abrilhantando muito este nosso Debate Público.
Senhoras e senhores, com vocês, a Senhora Jordana, conhecida como Jojo Todynho.
Antes de a Jojo fazer uso da palavra, eu vou entregar a ela um buquê de flores. Eu não tenho uma réplica da caneta, mas eu tenho a réplica da Lei Áurea e eu faço questão de presenteá-la e de honrá-la neste momento extremamente importante na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Peço a todos que se coloquem de pé.

A SRA. JORDANA GLEISE DE JESUS MENEZES – Estou me tremendo.
Vereador Rafael Satiê, muitíssimo obrigada pelo convite. Excelentíssimas autoridades aqui hoje presentes, Dom Bertrand de Orléans e Bragança, a quem cumprimento respeitosamente nesta noite tão simbólica. Senhoras e senhores aqui presentes, obrigada pelo carinho. Bom estar na presença de vocês.
Prazer, Jordana Gleise de Jesus Menezes. Essa noite não fala apenas sobre passado, fala sobre memória, fala sobre coragem. E, principalmente, sobre a história que não lhe contaram. Existe uma narrativa muito confortável sendo repetida há anos no Brasil. Uma narrativa que tenta convencer o povo negro que ele nasceu condenado ao ressentimento, à revolta permanente e ao papel de vítima eterna. Eu não nasci para ser vítima. Eu nasci para ser vitoriosa.
Mas eu vim nesta noite, hoje, como uma mulher preta, suburbana e brasileira, dizer uma coisa: a minha história não foi construída pelo ódio, ela foi construída pela luta, pelo trabalho, pela fé, pela dignidade e pela coragem de continuar, mesmo quando ninguém acreditava. Se me subestimar, eu provo que eu sou melhor ainda.
Eu nasci e cresci em Bangu. Aprendi cedo duas coisas: ou a vida endurece você ou fortalece você. Eu trabalhei como faxineira, camelô, babá, cuidadora de idosos, vendi picolé no trem e, em nenhum momento, alguém bateu na minha porta prometendo facilidades ou perguntando se eu estava precisando de algo. Então, não dite quem eu sou. E o que me trouxe até aqui não foi o privilégio, foi o esforço, foi a persistência, foi acreditar que a minha origem não podia limitar o meu destino. Ninguém dita quem sou.
Eu vou falar uma coisa para vocês: sucesso sem propósito vira vaidade, e liberdade sem responsabilidade vira desordem. Eu acredito na liberdade que constrói, na família que sustenta – obrigada, vovó, por tudo –, no mérito de quem trabalha, na verdade de quem não tem medo de se posicionar. Eu não tenho medo de nada e nem ninguém.
Eu sou fruto da superação, mas também sou fruto das oportunidades que as pessoas corajosas abriram antes de mim. E hoje, nesta cerimônia que relembra o dia 13 de maio, a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, eu acredito que existe uma mensagem importante que precisa ser preservada: nenhum povo cresce aprisionado ao passado. A verdadeira liberdade também nasce quando alguém acredita que pode escrever um futuro diferente.
Eu quero dizer especialmente às meninas negras deste país: não deixem ninguém reduzir vocês. Ninguém me cala! Eu nasci livre para ser e viver como eu quiser. A minha história vem sendo contada desde a minha infância. Quando você vem quebrada desde a sua infância, ninguém lhe dobra mais. Ninguém me dobra, porque, nos meus momentos de mazelas, de sofrimento, só tinha eu, Deus e minha avó, Rita Maria de Jesus Menezes, a mulher que me criou e me ensinou uma coisa que eu vou levar para a vida toda: ter personalidade machuca, mas eleva a um lugar em que você não precisa mudar o seu discurso para agradar a ninguém. Quem não está preocupado em ser aceito ou vender discurso para ser abraçado vai tomar pancada, mas eu estou pronta para qualquer pancada que o mundo possa me dar. Eu não me dobro, eu não me rendo, eu só me ajoelho diante de Jesus, porque ele, sim, é o Salvador da minha vida, é o Salvador da minha alma e foi, por mim e por cada um que está aqui hoje, que Ele morreu naquela cruz.
Com muito orgulho, eu sou uma estudante de Direito, que tem um sonho de prestar concurso e se tornar delegada. Se assim Deus permitir. E eu tenho galgado o meu caminho com muito mérito e muita gente, sim, me ajudou nesse caminho. Mas aprendam uma coisa: não é porque eu estava mancando e você me cedeu uma muleta que eu tenho que viver gritando gratidão. Gratidão não prescreve, ela está dentro da nossa alma.
As pessoas, aliás, os brasileiros têm uma mania muito feia de querer diminuir a sua luta, a sua vivência pelo seu posicionamento. Talvez o que eu vou falar aqui choque vocês, mas partido político não me fez quem eu sou e não me deu o que eu tenho. Foi a minha luta diária que mudou o meu destino. Foi procurar, em lugares que talvez eu não conseguiria chegar, quem eu sou. Então, não me diminua. Não tente me silenciar, porque será impossível. Não ache que vai me açoitar na praça pública e eu me manterei calada. Eu serei respeitada dentro deste país, querendo ou não. A minha voz é ativa.
E, com muita responsabilidade, eu digo a todos os jovens deste país: estudem para se tornar grandes homens e mulheres de respeito e de muito valor. Eu tenho me transformado diariamente para que eu seja uma boa mãe, uma boa esposa, uma boa profissional, uma boa influenciadora nas redes sociais.
Não importa a forma que você me vê, isso é sobre você, não é sobre mim. Eu vou continuar lutando, reverberando a minha voz. É isso. Eu não levanto bandeira a ninguém, eu levanto bandeira a mim, porque foi graças a Deus, a mim e às pessoas que se mantêm ao meu lado todos os dias, falando o que eu preciso ouvir mesmo não querendo. São essas pessoas que devemos enaltecer diariamente.
Eu sou um corpo político, e é muito importante usar a minha voz para falar e colocar na cabeça de vocês: eu não nasci presa a nenhuma ideologia. Eu serei Jordana Gleise até o fim da minha vida. Obrigada.


O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Parabéns. Tragam um distintivo para essa moça.
Não, imagina Jordana Gleise com um distintivo de Polícia Civil.
Parabéns pela mulher que você é, pela filha que você é, pela neta que você é. E parabéns a tudo aquilo que o Senhor Jesus, como muito bem disse, como muito bem você disse, vai te proporcionar na sua carreira e no seu futuro.
Mais uma vez, senhoras e senhores, uma salva de palmas a Jordana Gleise, a Jojo Todynho.
E, inclusive, que fique registrado nos Anais desta Casa, já foi requerido pelo nosso mandato e já tem isso publicado, inclusive aqui no Diário Oficial da Casa, o Requerimento nº 956/2026, uma Medalha Chiquinha Gonzaga exclusiva para a nossa querida Jojo Toddynho. Uma data como essa que vai chegar precisa ter um tempo de qualidade e precisa ser um momento único e exclusivo para ela e para todos os seus familiares. Logo, logo nós estaremos divulgando, óbvio, em acordo com a Jordana, com a sua mãe e com toda a sua equipe. Mais uma vez, muito obrigado.
Bom, para fazer uso da palavra – e eu peço encarecidamente, porque estamos já finalizando este Debate Público, e eu peço a colaboração que os senhores oradores realmente respeitem o tempo de três minutos para fazerem suas participações –, eu chamo a Presidente do Partido Liberal Integração na Cidade de São Paulo, a senhora Paula Custódio.

A SRA. PAULA ROSANGÊLA CUSTÓDIO – Boa noite a todos e, na figura do Excelentíssimo Vereador, meu querido amigo Rafael Satiê, eu cumprimento todos que aqui estão.
Eu queria falar para Jojo que nós, na nossa história, Jojo, tivemos um Presidente negro, Nilo Peçanha. Nós poderíamos ter uma Presidente, uma presidente negra também. Vocês não acham? Eu acho que já pode trazer a faixa para ela. Precisamos de pessoas corajosas assim. Hoje eu escutei várias histórias, várias histórias que muitas pessoas não sabiam. E eu queria fazer algo diferente. Eu queria hoje agradecer a todos vocês que vieram numa quarta-feira à noite conhecer um pouquinho das histórias de pretos que muitas das vezes não lhe contam. Isso que está acontecendo aqui é algo histórico, e eu gostaria de agradecer algumas pessoas que estão fazendo isso acontecer.
Por que, como a Princesa Isabel libertou 15% da população negra que ali estava aprisionada ainda, escravizada, eram 700 mil pessoas. Então, nós ainda estamos vivendo numa escravidão. Nós estamos vivendo na escravidão ideológica. A escravidão hoje é de pensamento. A Jojo Toddynho foi uma das pessoas que foi atacada por declarar aquilo que ela pensa. Todos nós diariamente somos atacados por declarar aquilo que nós pensamos.
Então, hoje, eu vim fazer uma homenagem, eu saí de São Paulo correndo para homenagear o meu querido amigo Rafael Satiê por estar fazendo isso daqui que é histórico, e não deveria ser histórico. Isso deveria ser corriqueiro, porque o nosso país está vivendo uma divisão. E a quem interessa isso? Somos o país mais miscigenado. O Brasil, só o Brasil tem isso. Rafael, que Deus continue lhe abençoando e que nós possamos fazer isso muito mais vezes. Que as nossas crianças entendam que elas já nasceram livres.
A esquerda quer mostrar que nós vivemos debaixo de um chicote. Não! Como foi falado aqui, nós já nascemos livres e temos que nos comportar dessa forma. Temos as nossas personalidades e acreditamos que podemos fazer muito mais.
Para terminar, eu queria agradecer por uma pessoa que foi um dos baluartes na comunicação das redes sociais, e ele não está aqui, hoje, conosco, que é o Gustavo, o pai de cinco. Nós não somos apenas um movimento, nós somos uma família e hoje ele não está conosco, mas ele deixou um legado enorme nas redes sociais, onde ele começou a contar história de negros, história de pretos que não lhe contaram. Hoje ele está aqui representado pela Fernanda, sua esposa e pelos seus filhos. Que vocês entendam a história que seu pai deixou. Ele era um homem incrível, que fazia parte dessa família. Todos aqui estão lutando por uma liberdade que estão querendo arrancar de nós, que é a nossa voz, que é o nosso pensamento. Eu poderia contar a história de 1888, da Princesa Isabel. Mas peço a vocês que se juntem a nós para contarmos a história atual, a história dos pretos livres.
Muito obrigada por cada um que está aqui hoje. Que nós possamos fazer diferente do que tem acontecido, que é a luta dos pretos contra os próprios pretos, que é a luta dos pardos contra os próprios pardos. Nós não somos um país dividido. Nós somos uma nação forte e vamos mudar isso.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado, Presidente Paula Custódio.
Para fazer uso da palavra, por apenas também três minutos, eu convido a Presidente do Partido Liberal Integração, na Cidade de Santo André, Sandra Petitto.

A SRA. SANDRA PETITTO – Obrigada.
Gente, fica até difícil falar qualquer coisa agora. Cheguei meio atrasada para falar qualquer coisa, mas é justamente aquilo que a Jojo Todynho falou: eu não sou vítima de uma história, eu sou protagonista. A minha história quem conta sou eu. Agradeço a mulheres como ela. Hoje também estou cursando faculdade, sou estudante de Ciências Políticas. E uma coisa eu falo para vocês: vivemos em um país que está estruturalmente dividido e não estou falando aqui de racismo estrutural. Estou falando da estrutura de um país que não conheceu a própria história. Então, o que estamos vendo? Estamos vendo pessoas sendo destruídas por apenas dar a sua opinião com relação a seja o que for.
Hoje eu não vou me alongar, pois tudo que foi falado aqui foi de grande valia. Depois de ouvir o Príncipe do Brasil falar qualquer coisa, fica difícil a gente voltar na História, mas eu vou falar da história contemporânea. Gostaria de falar para a Fernanda, que está representando o Gustavo, que fez parte da nossa família: hoje ele é uma estrela. Eu queria dizer que o Gustavo me ensinou muito. Uma das coisas que eu aprendi com o Gustavo foi que a inventora do absorvente foi uma mulher preta. E ninguém conta isso para vocês. Isso é uma história contemporânea. A inventora da sutura que muda de cor, no momento em que o corpo detecta uma infecção, é uma mulher preta. Mas sabe por que a esquerda não conta isso para vocês? É para que eles tenham uma narrativa. A esquerda precisa esconder essa história para que haja um sofrimento e para manter os pretos ali, cativos. Quando um preto começa a se libertar e a ter voz, é quando a esquerda começa a perceber que está perdendo espaço. Então, a nossa luta pode não ter começado hoje nem ter começado agora, mas ela se tornou muito maior hoje.
Quero pedir licença para a minha presidente, Paula, pois me lembro que, em novembro de 2023, eu me reuni na casa dela com uma pastinha e tudo o que vocês estão vendo aqui hoje, estava dentro daquela pasta. E era só um sonho. Hoje, nós estamos aqui com a presença da Jojo, com o Satiê. Por isso, gostaria de contar uma história muito interessante sua, quando você falou para mim assim: “Sandra, para se sentar nesta cadeira em que estou sentada hoje, eu viajei dias com um Trakinas de morango, de ônibus, para convencer os parlamentares de que eu podia”. E hoje eu estou vivendo essa história.
Quero agradecer a cada um dos pretos, a cada um de vocês. Estou emotiva, gente, porque é muita coisa. Disso aqui tudo, o Gustavo estaria fazendo parte. Sou muito feliz pela minha presidente, que me incentiva muito, também puxa muito minha orelha, mas eu me tornei um gigante e eu não vou parar. Eu sou resistência em um país que não luta contra, não luta com os órgãos internacionais para acabar com a escravidão que ainda existe na África. Então como é que você pode atacar todos os brancos se você não luta pelos seus que ainda continuam pendurados de ponta-cabeça na África, tomando chicotada e ninguém fala.
Pensem nisso com carinho. Ajudem-nos a continuar essa história, a nossa história está só começando e nós vamos continuar contando para vocês a história do Gustavo, a história do Gustavo que dizia: Eu sou o Gustavo Pai de Cinco, com as histórias dos pretos que não te contaram.
Obrigada!

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado, Sandra!
Para fazer uso da palavra, eu peço uma vez mais que respeite o tempo de três minutos. Nós já estamos encerrando esse Debate Público. Ela que é minha assessora, ela que é cientista política, com a palavra Sara Dias.

A SRA. SARA DIAS – Boa noite. Acho que fica até difícil falar depois de todo mundo.
É uma honra estar nesta Casa Legislativa. Eu cumprimento o Vereador Rafael Satiê, obrigado pela oportunidade e aos demais representantes que estão aqui nesta Casa.
O 13 de maio, o dia em que celebramos o fim da escravidão no Brasil. Quando falamos em um dos acontecimentos mais marcantes da história do nosso país, é sempre um desafio preservar a memória, a verdade e a importância desse legado. Infelizmente, existe um menosprezo por essa data; tanto é que o 13 de maio sequer é feriado nacional. Há também um processo de apagamento de figuras simbólicas do movimento abolicionista, muitas vezes por terem sido aliadas da Monarquia. José do Patrocínio, por exemplo, foi falado aqui, foi jornalista, escritor e uma das maiores vozes da luta abolicionista. Utilizou a imprensa e a política como instrumentos de combate à escravidão. E vale lembrar, como foi dito aqui também, que o título de Redentora, concedido à Princesa Isabel foi parte justamente de um gigante da causa abolicionista.
Acredito que o nosso papel enquanto conservadores ou pessoas identificadas com o espectro político da direita é debater a pauta racial com responsabilidade, seriedade e sem ignorância. É reconhecer que apesar das circunstâncias históricas que relegaram o negro à subalternidade, essa condição nunca nos definiu, a nossa capacidade intelectual, cultural ou política.
Fomos e somos intelectuais como Machado de Assis, Engenheiros como André Rebouças, Deputadas como Antonieta de Barros, artistas como Ruth Souza, escritoras como Carolina Maria de Jesus, intelectuais como Milton Santos e Abdias Nascimento, ativistas como Luiz Gama e jornalistas como Glória Maria.
E por que não falar sobre representatividade? Temos muito figuras aqui que representam tantas outras pessoas e que fortalecem a ideia de que apesar das dificuldades é possível vencer olhando para o alto.
A importância de boas referências ajuda muito a fugir de más influências. Assim como os avós e pais de tantas pessoas como a Jordana falou aqui sobre a avó dela, que estão aqui hoje, que trabalharam duro, viveram com dignidade e construíram suas histórias sem abaixar a cabeça, e deixaram exemplos de honra e perseverança. Digo isso porque embora seja importante celebrar figuras históricas, como boa parte da esquerda elitista costuma fazer, o conservador celebra o cotidiano, aquilo que faz parte desse organismo vivo que chamamos de sociedade. As pessoas comuns, as famílias, os trabalhadores, aqueles que vencem a vida diariamente sem precisar de aplausos e sem precisar pedir licença. Todas essas personalidades foram protagonistas de suas histórias e deixar um legado que atravessa as gerações e que queima vivo hoje. Obrigada!

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado pela sua rica contribuição, Sara Dias, e convido a senhora vice-presidente do PLJ, no Estado o Rio de Janeiro e vice-presidente do PLJ Brasil, Júlia de Castro, a ocupar a Tribuna de Honra Vereadora Marielle Franco, para fazer o seu pronunciamento. Vossa Excelência dispõe de três minutos. Obrigado, Júlia.

A SRA. JÚLIA DE CASTRO – Boa noite a todos. Boa noite a todas as autoridades aqui presentes, a todos que estão aqui. Como todos que me antecederam falaram, é muito importante a presença de vocês. Terça-feira, no 13 de maio, nós, conservadores, normalmente temos as nossas ocupações. Vocês tiraram um tempo para vir aqui hoje. A orquestra também tirou um tempo para estar aqui com a gente em um dia que a esquerda, como todos que me antecederam falaram, tenta apagar. É uma missão muito grande, inclusive, falar depois dessa galera.
Para quem não me conhece, eu me chamo Júlia de Castro, tenho 24 anos, sou formada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e fui perseguida na universidade por ser uma pessoa abertamente conservadora de direita. As pessoas que estudavam comigo me ameaçaram, me xingaram, disseram que eu não merecia estar na faculdade, unicamente, por exemplo, porque uma das minhas heroínas e referências é a Princesa Isabel.
Inclusive, uma grande feminista de São Paulo zombou de mim, porque eu falei que a minha referência na política era uma pessoa como a Princesa Isabel. Na cabeça dela, as referências têm que ser Marielle Franco, que teve sua história, e o que aconteceu com ela foi muito triste, mas, em relação à contribuição histórica e coragem, a gente precisa resgatar os nossos heróis.
Todas as pessoas aqui presentes falaram um pouco do que significa o 13 de maio. Eu vou falar na figura de historiadora e de uma pessoa que esteve quatro anos convivendo com a esquerda diariamente, e o que eles tentam plantar não só no coração e no imaginário da população brasileira, mas principalmente dos nossos jovens...
Todos os dias a esquerda tenta apagar a nossa história, tenta reescrever o que aconteceu no passado e diz para todo mundo que o 13 de maio, que é a abolição da escravatura, foi uma mera pressão da Inglaterra. Todos que me antecederam já desmistificaram essa narrativa, mas o poder dela é muito grande, porque influencia justamente o que as pessoas que estão aqui tentam combater diariamente, que é a luta identitária, porque a esquerda se apodera dessa luta e divide toda uma população.

Agora é o nós contra eles, os brancos contra os pretos, as mulheres contra os homens, e é isso que a gente está tentando vencer diariamente, cada um na classe que a esquerda tenta nos enfiar. A gente vem e fala: “Não, as mulheres e os homens não são inimigos, nós somos complementares. Não, o Brasil não é um país racista, o Brasil tem racismo”. É isso que todo mundo que me antecedeu falou aqui. Só que a Princesa Isabel teve coragem em um período em que muitas outras pessoas não tiveram, como até o próprio pai dela, por assim dizer. E hoje eu vou relembrar essa história junto com vocês.
Ela ficou no trono por três vezes. Na primeira vez, aos 25 anos. Dessa primeira vez, ela já promulgou a Lei do Ventre Livre. Na segunda vez, além de ter retirado diversos ministros que eram escravocratas, ela nomeou uma pessoa que literalmente pavimentou o caminho para a abolição da escravatura, que foi o abolicionista João Alfredo. E uma coisa muito interessante que eu não aprendi na faculdade: ela sempre era vista com uma camélia branca. Camélia branca era uma flor que representava os abolicionistas. Inclusive, as pessoas que eram abolicionistas na época colocavam essas flores no jardim das suas casas para que os negros escravizados percebessem que era um lugar seguro para eles estarem.
Essa figura merece ser relembrada no dia de hoje. Ela merece o seu lugar também de protagonismo, que a esquerda, como eu falei, todos os dias tenta apagar. Por que nesta Casa não tem um prêmio da Princesa Isabel? Por que tentam esconder a nossa história diariamente e influenciar nossos filhos e a futura geração?
Meu tempo já esgotou, então vou encerrar aqui.


O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Por favor, agradece.

A SRA. JÚLIA DE CASTRO – Eu ia encerrar aqui, ela botou a plaquinha do tempo.
Vou encerrar com uma coisa muito importante que eu descobri, e não foi na faculdade – curiosamente, eu fiz quatro anos de História em uma universidade federal – foi que, depois da abolição da escravatura, a Princesa Isabel escreveu uma carta para o Visconde de Santa Vitória, na qual ela pede para que Deus os proteja dos escravocratas, porque ela queria, naquela carta, pegar o próprio tesouro da Família Real e distribuir para esses ex-escravos e também fazer a reforma agrária. Ela queria dar terra para essas pessoas.

Então, essa narrativa que a esquerda fala de dívida histórica, a Princesa Isabel tentou pagar, mas a República não deixou, porque ela sofreu um golpe, teve que ser exilada e não teve a oportunidade de fazer essa reinclusão dos ex-escravos na sociedade.
A última coisa que eu queria falar aqui é que ela tem uma frase célebre, que outras pessoas já falaram hoje: “Se mil tronos eu tivesse, mil tronos eu perderia em prol da abolição da escravatura, da libertação dos escravos”. Eu acho que essa frase tem que nortear as nossas ações. Se mil chances nós tivéssemos de ir embora deste país, de desistir das nossas missões, sejam elas quais forem, seja da Jordana como influenciadora, futura delegada, seja do Rafael Satiê, futuro deputado federal, seja você como mãe, se você pensa em desistir da sua missão, você tem que ter o que a Princesa Isabel falou em mente, que é a coragem acima de tudo, o propósito e a missão.
E a última coisa que eu quero falar é que eu tenho certeza que norteou muito as ações dela, porque ela era uma pessoa que amava esse povo. É a 1ª Carta aos Coríntios 13:13: “Assim permanecem agora as três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor”.
Eu espero que, neste ano de eleição e que no Brasil que a gente está construindo, permaneçam essas três coisas: a fé de que esse país vai dar certo, a esperança de que a gente faz parte dessa mudança e o amor que a gente tem por essa pátria.
Viva o 13 de maio! E obrigada pela oportunidade.

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Muito obrigado, Júlia de Castro.
A gente precisa apostar na nossa juventude, na nova geração que está chegando com tudo aí para cima, falando, trabalhando, desenvolvendo e construindo esse país.
Bom, agora nós, em memória ao Gustavo, esse que era conhecido como o “Gustavo Pai de Cinco”. Muitas pessoas me perguntaram "por que o tema deste Debate Público é a história que não te contaram?" E tem dois motivos. O motivo principal e o primeiro motivo é que de fato essas histórias que vocês ouviram por inúmeras pessoas, especialistas, membros da família real, intelectuais, professores, comunicadores, artistas, essa história nos esconderam nas universidades, nos esconderam nas escolas. E a gente não sabe disso. As pessoas não sabem disso. Por essa razão, o título e o tema desse debate público é esse: “A história que não te contaram”.
E o segundo motivo é o “Gustavo Pai de Cinco”. Olá, eu sou o Gustavo Pai de Cinco e essa é a história dos homens pretos que não te contaram. Essa também... Esse título e esse tema também é uma homenagem ao Gustavo, querida, a homenagem a esse homem que, enquanto assessor no meu gabinete, sempre nos ajudou, sempre contribuiu. Tem gente que pergunta: "Satiê, como é que você sabe de histórias de tantos homens pretos?" Eu nunca escondi que quem me assessorava e me dava os subsídios informacionais necessários era o “Gustavo Pai de Cinco”.
Por essa razão, hoje, na qualidade de Vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e de Presidente deste debate, eu peço encarecidamente que todos coloquem-se de pé e que prestemos uma homenagem em um minuto de silêncio ao Gustavo.

(Faz-se um minuto de silêncio)

O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Em homenagem ao Gustavo e toda a sua família aqui presente, eu peço a contribuição da produção da Câmara Municipal, agradecendo a cada um de vocês por estarem de prontidão nos servindo nesta data tão importante, que passe, por favor, esse vídeo. Muito obrigado.

(Exibe-se um vídeo)


O SR. PRESIDENTE (RAFAEL SATIÊ) – Agradeço a presença de todos, às autoridades, aos assessores, à equipe técnica da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Muito obrigado.
Está encerrado o Debate Público.

(Encerra-se o Debate Público às 21h14)