Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da FRENTE PARLAMENTAR PELA DEFESA DA SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR CARIOCA

REALIZADA EM 10/24/2025


Íntegra Debate Público :

FRENTE PARLAMENTAR PELA DEFESA DA SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR CARIOCA, DE ACORDO COM A RESOLUÇÃO DA MESA DIRETORA Nº 12.903/2025


DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 24 DE OUTUBRO DE 2025


(A Dupla Jornada no Rio de Janeiro: Os Desafios Enfrentados por Estudantes que Trabalham na Escala 6x1)


Presidência do Sr. Vereador Rick Azevedo e Vereadora Thais Ferreira

Às 11h03, em ambiente híbrido, no Plenário Teotônio Villela, sob a Presidência do Sr. Vereador Rick Azevedo, tem início o Debate Público da Frente Parlamentar pela Defesa da Saúde Mental do Trabalhador Carioca, de acordo com a Resolução da Mesa Diretora nº 12.903/2025, cujo tema é: “A DUPLA JORNADA NO RIO DE JANEIRO: OS DESAFIOS ENFRENTADOS POR ESTUDANTES QUE TRABALHAM NA ESCALA 6X1”.


O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Bom dia a todos e todas.
Dou por aberto o Debate Público da Frente Parlamentar pela Defesa da Saúde Mental do Trabalhador Carioca, de acordo com a Resolução da Mesa Diretora nº 12.903/2025, cujo tema é: “A DUPLA JORNADA NO RIO DE JANEIRO: OS DESAFIOS ENFRENTADOS POR ESTUDANTES QUE TRABALHAM NA ESCALA 6X1”.
A Frente Parlamentar está constituída pelos Senhores Vereadores: Rick Azevedo, Presidente; Cesar Maia; Deangeles Percy; Dr. Gilberto; Felipe Pires; Flavio Pato; Flávio Valle; Inaldo Silva; Junior da Lucinha; Leonel de Esquerda; Luciana Novaes; Maíra do MST; Marcelo Diniz; Marcos Dias; Monica Benicio; Rosa Fernandes; Tânia Bastos, Vereadora Thais Ferreira, Vereador Vítor Hugo, Vereador William Siri e Vereador Zico.
A mesa de honra está assim constituída: Pedro Emmanuel Gonçalves da Silva tem 18 anos, mora em Senador Camará, é estudante do 3º ano do ensino médio e integrante do Coletivo Juventude Fogo no Pavio.
Lílian Cristina Gomes Ribeiro tem 26 anos, mora em Nova Iguaçu, é Turismóloga pela UFRJ e estudante de Mestrado em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas pela UFRRJ, trabalhou quatro anos com hotelaria e três deles na escala 6x1, sendo que dois desses anos estava no mestrado pesquisa de segregação socioespecial e mobilidade urbana.
Clarice Rodrigues Pinheiro tem 38 anos e é mestre em administração pela UFF, trabalhou cinco anos em escala 6X1 entre efetivo e estágio. É voluntária em ONG de proteção animal e faz parte da equipe de pesquisa da professora Flávia Manuella Uchôa, que pesquisa os impactos da escala 6x1 na classe trabalhadora.
Sara da Silva Santana, tem 22 anos, é educadora popular e estudante de História pela Uerj, faz parte da juventude Fogo no Pavio, desde adolescente teve que se dividir entre trabalho e estudos para conseguir alcançar os seus sonhos e objetivos.
Temos a honra de ter nessa mesa a Vereadora Thais Ferreira, minha líder de bancada, minha companheira de fofoca no Plenário, líder do PSOL na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, é ativista da Zona Norte, iniciou sua trajetória a partir do ativismo comunitário e da defesa dos direitos das mulheres e das famílias. Ela atua com foco na primeira infância, na saúde pública, no direito à cidade e no combate ao racismo estrutural, levando para o parlamento as vozes e experiência das periferias cariocas. Uma salva de palmas para a Thais Ferreira.
Nós também temos a honra de ter nessa mesa, Luciana Boiteux, que é ex-Vereadora dessa Casa, fez um trabalho lindíssimo, mas continua atuante, é professora universitária, advogada, pesquisadora, militante do PSOL e já foi vereadora pela Cidade do Rio de Janeiro. É reconhecida nacionalmente por sua por sua atuação em defesa dos direitos humanos, da justiça social e das liberdades individuais. Tem trajetória marcada pela luta contra o encarceramento em massa, pela descriminalização das drogas e pela igualdade de gênero.
Temos uma grande honra, uma grande presença aqui também do nosso Deputado Estadual Yuri Moura que é historiador e gestor público, foi o vereador mais votado de Petrópolis nas eleições municipais de 2020 e, atualmente, exerce o mandato de deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Nas eleições de 2024, concorreu à prefeitura de Petrópolis, alcançando o segundo turno com expressiva votação com mais de 36 mil votos.
E nada mais, nada menos que ela, a nossa Deputada Estadual Renata Souza. Renata Souza é jornalista, redatora, feminista, negra, militante dos Direitos Humanos e Política Brasileira. Está no segundo mandato como deputada estadual no Rio de Janeiro. Nas eleições de 2022, foi eleita com 174.132 mil votos, sendo a deputada mais votada da Alerj. Um ícone.
Eu quero registrar a presença da Senhora Maria Luiza Cortes, coordenadora do Movimento Tarifa Zero; da Senhora Brenda Eduarda Souza Quinta, coordenadora estadual do Movimento Rua; da Senhora Andressa Azevedo, coordenadora estadual do MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; da Senhora Kerley Teodora de Arruda, coordenadora do Sindicato dos Profissionais da Educação de Niterói; do Senhor Ubiratan José de Souza, secretário-geral da Federação Afro-brasileira; do Senhor Gregory Magalhães Costa, presidente da Associação Docente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; do Senhor Marcelo Marques da Cruz, presidente da Associação Movimento dos Entregadores do Rio de Janeiro; do Senhor Kawan Pedroza, coordenador estadual do Coletivo Cultura Zona Oeste e Fogo no Pavio; do Senhor Washington Yuri da Silva, coordenador estadual do Movimento Rua Juventude Anticapitalista; do Senhor Fabio Paiva, coordenador estadual do Movimento Rua Juventude Anticapitalista; do Senhor Ubirajara da Silva Araújo, presidente da Federação Nacional Afro-brasileira; do Senhor João Pedro Alves Tavares, representante do Setorial de Transportes do Partido dos Trabalhadores.
Registro a presença também da Senhora Rosilene Almeida, coordenadora-geral do Sepe; do Senhor Daniel Vasconcelos, digital influencer e confeiteiro, meu amigo; do Senhor Marcos de Carvalho Dias, representando o Movimento Parque de Realengo; da Senhora Camila Peçanha, coordenadora de juventude do Movimento Levante; da Senhora Brenda Marques, coordenadora estadual do Coletivo Afronte! Viva o Afronte; do Senhor Yuri de Lima Melo e Senhora Milena Rodrigues, coordenadores do Movimento Juventude Fogo no Pavio; da Senhora Tatiane Alves dos Santos, coordenadora estadual do Levante Popular da Juventude; da Senhora Sara Santana, coordenadora da Rede Socria; da Senhora Marina Alves da Silva, secretária popular da Organização Estudantil da Zona Oeste; e de todos nós que estamos aqui nesta manhã para fazermos este Debate importantíssimo sobre a escala 6x1 na vida dos estudantes.
Este é um debate urgente, necessário, com presenças riquíssimas, com presenças que, de fato, estão preocupadas com esse cenário em que vivemos, com essa jornada extremamente desumana, com essa jornada exaustiva, com essa jornada que eu, sim, falo que é uma jornada escravocrata. É o Brasil não querendo acabar com o período escravocrata, com o período da escravidão; é o Brasil continuando esse processo escravocrata.
A gente olha para os rostos daqueles e daquelas que estão na escala 6x1 e a gente vê uma mensagem bem clara: são as mesmas pessoas que foram sucateadas lá atrás e continuam sendo sucateadas. Obviamente que a escala 6x1 fura bolhas. A gente sabe que tem todos os grupos de pessoas nesse modelo de trabalho. Mas a gente sabe que tem um recorte social, tem um recorte de raça, de gênero. A gente sabe quem são os grupos mais vulneráveis que enfrentam esse modelo de trabalho que impede as pessoas de viverem a própria vida. Então, daremos início, em alguns instantes, a este Debate que é extremamente importante.
Estou muito feliz de ver a Casa cheia, com todo mundo com as carinhas atentas, com esta Mesa riquíssima e com presenças que vão, sim, criar um compromisso. Não é só um debate. A gente quer criar esse compromisso de luta. A luta está acontecendo, a luta está árdua. Do lado de cá, às vezes, eu falo: "O que fui inventar?". Mas eu olho para vocês, eu olho para a juventude, eu olho para os estudantes e digo: "Eu consigo com eles, porque eles são brabos”. Eles colocam as pessoas, essas pessoas escravocratas, porque estão morrendo de medo das novas gerações. Estão morrendo de medo, porque as novas gerações estão colocando essa gente sugadora no devido lugar. “Ah, não gostam de trabalhar”. Gostam. Gostam de viver, porque trabalhar é para viver, e não viver só para trabalhar. Então, se o trabalho tira a própria vida, as novas gerações não estão interessadas nesse modelo de trabalho que impede o ser humano de sê-lo plenamente.
Antes de começar, quero fazer um agradecimento aos coletivos, aos movimentos sociais, aos militantes e aos estudantes no nome do Juventude Fogo no Pavio, União Nacional dos Estudantes, Movimento Tarifa Zero, Coletivo Elas por Elas, Centro Acadêmico de Enfermagem da UFRJ, Centro Acadêmico de Ciências Ambientais da Unirio, Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFF, Associação de Docentes da UERJ, União da Juventude Socialista (UJS), Juventude do Partido dos Trabalhadores (JPT), Levante Popular da Juventude, Coletivo Negro Minervino, Frente LGBT, Rua Juventude Anticapitalista, Afronte!, Juventude Travessia, Movimento Correnteza e Rede Emancipa de Educação.
Uma salva de palmas para todos vocês.



(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Com a palavra, a nossa Deputada Estadual Renata Souza.



A SRA.DEPUTADA ESTADUAL RENATA SOUZA – Bom dia, gente!
Que alegria estar aqui ao lado do meu querido amigo Rick Azevedo, que transforma uma pauta tão fundamental para a classe trabalhadora deste País, que é trazer o fim da escala 6 x 1, uma escala que podemos considerar como a escravização moderna, como a tentativa de dizimar a humanidade das pessoas, de botar essas pessoas para trabalhar e de não ver a sua possibilidade enquanto dignidade humana.
Então, Rick Azevedo, você nos inspira todos os dias. Você é uma luz no caminho da classe trabalhadora deste País. É isso que representa seu mandato aqui na Câmara de Vereadores, mais mandatos onde você quiser estar. Meu querido, fica aqui a minha gratidão, meu apreço e a minha honra de caminhar ao seu lado.
Também cumprimento esta Mesa, nossa querida Vereadora Thais Ferreira, uma grande amiga que traz a primeira infância como pauta fundamental, ainda mais no campo da esquerda, onde esse debate não era trabalhado de maneira concreta. Fico muito feliz de ter a querida Thais Ferreira aqui construindo passos firmes para que nossas crianças, adolescentes, nossa juventude possa sonhar e possa ter acesso à dignidade e aos direitos. Então, Thais Ferreira, minha querida, obrigada pela sua companhia.
Meu querido amigo Yuri Moura, meu companheiro de Assembleia Legislativa, que constrói a possibilidade de uma cidade como Petrópolis, tão reconhecida nosso estado, mas que, infelizmente, não tem as políticas públicas necessárias que a gente tanto gostaria que tivesse em todas as cidades. Então, Yuri, nosso representante da Região Serrana, que faz um mandato brilhante na Assembleia Legislativa, é ótimo caminhar com você.
Nossa Juventude Fogo no Pavio, nossa Juventude do Só Cria, esses dois aí de quem vou falar em bloco. Eu tenho muito orgulho de acompanhar a trajetória e de saber da importância da juventude nessa possibilidade de transformação, como já disse aqui nosso querido Rick Azevedo, de construção de uma sociedade possível.
A minha querida amiga Luciana Boiteux, feminista, professora da UFRJ, a gente caminha na luta pela dignidade das mulheres, na luta pela possibilidade também de reconhecimento dos direitos da mulher para além de uma Casa Legislativa, mas nessa sociedade que tem o sistema de justiça inclusive muitas vezes contra a dignidade e o respeito das nossas mulheres.
E aqui a nossa companheira também, juventude né? A juventude, hoje, manda nessa Mesa e eu fico muito feliz com isso. Então, querido Rick, ressaltar que essa Mesa, e aí a gente está aqui aguardando a nossa querida Erika Hilton, essa Mesa representa a luta da classe trabalhadora desse país. Representa a possibilidade de chegarmos dentro desses espaços de poder que, historicamente, foi negado para nós mulheres, mulheres negras, homens negros de favela e periferia, LGBTQIA+, que nunca tiveram assento nesses espaços.
E aí é superimportante que, quando a gente chega nesses espaços, a gente cumpre com o nosso compromisso de ter a classe trabalhadora como um elemento central para a superação de todas as discriminações e preconceitos, em especial os preconceitos de gênero, raça e classe.
Então, quando chegamos nessa Casa, é para que toda a população, que foi historicamente excluída de fazer política, possa ter a voz ativa a partir desse desses mandatos e dessas mandatas. É por isso que lá na Assembleia Legislativa, que hoje presido a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e também presido a Comissão Especial de Favelas e Periferias, nós temos tratado com centralidade a luta dessa população, que é maioria, inclusive, querido Rick, na escala 6x1, que são as mulheres, mulheres negras, de favelas e periferias, que não conseguem cuidar dos seus filhos, que não conseguem cuidar da sua saúde e nem da saúde dos seus filhos. Não consegue ter um processo de educação que garanta a elas que possa superar essa lógica de escravização no mercado de trabalho.
Então não tenha dúvidas de que nós temos o compromisso com a classe trabalhadora, temos compromisso de garantir que, a partir do Congresso Nacional, junto com Erika Hilton e a nossa bancada do PSOL no Congresso Nacional, possa, finalmente, acabar com a escala 6x1 e que isso desça para os estados e para os municípios.
Por isso, eu fico e quero parabenizar o Rick por ter essa Mesa tão diversa com representantes do poder das casas legislativas estadual, federal e municipal. Porque a gente precisa que, quando a gente vencer lá no Congresso Nacional, porque a gente vai vencer e vamos acabar com a escala 6x1, que a gente possa fazer com que os estados e as cidades também garantam a fiscalização das empresas que ainda acha que trabalhador tem que viver para trabalhar e não viver dignamente.
Então, eu fico aqui feliz. Coloco à disposição a nossa mandata e quero parabenizar o Rick por trazer esse debate, parabenizá-lo por reconhecer em Erika Hilton, essa mulher trans maravilhosa e incrível, que nós temos muito orgulho de ocupar o Congresso Nacional junto com Erika Hilton. Porque essa mulher mostrou ao que veio, mostrou que a população LGBTQIA+ nunca mais voltará para o armário, como esse povo que odeia preto, pobre e favelado, LGBT querem. Então, Erika Hilton é uma inspiração para nós e por isso, meu amigo Rick Azevedo, fica aqui o meu compromisso de luta ao seu lado, junto também com Erika Hilton no Congresso Nacional. Sigamos para acabar com a escala 6x1. Obrigada, gente.
(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Excelentíssima Deputada Renata Souza, como sempre potente, como sempre trazendo uma palavra de força, de conforto, de coragem, de esperança. Sou muito grato pelo seu apoio, pela sua verdade e não desanimar.
A gente sabe que é difícil o caminho, mas a gente não quer desânimo. A gente precisa disso: de animação, de coragem, de acreditar. Até porque a gente está falando de um país que até um dia desse não tinha 13º salário, não tinha férias remunerada, não tinha a própria CLT. Então a gente precisa ter essa coragem e tomar esse poder para a classe trabalhadora e dizer: "A escala 6x1 vai acabar". Não porque meia dúzia de deputados vão decidir, mas porque a classe trabalhadora está exigindo. E quem comanda este país não é o Legislativo, não é o Executivo, não é o Judiciário, quem tem que comandar é quem trabalha duro para se sustentar. É isso.
Bom, dando início aqui à nossa Mesa, eu vou convidar uma pessoa, uma mulher que abriu o caminho na política, abriu possibilidade, abriu coragem, chegou chegando, chegou dizendo: "A política não é isso, a política é a gente, a política é jovem, a política é LGBT, a política é preta, a política é Erika Hilton". Eu convido ela.
A nossa presidenta, decidimos e acabou. É isso, gente.
Estamos aqui com a nossa Deputada Federal Erika Hilton. Erika Hilton é deputada federal por São Paulo. É uma das vozes mais potentes da política brasileira contemporânea. Mulher, trans, negra e ativista. Foi eleita Vereadora em São Paulo em 2020, tornando-se a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal da capital e a parlamentar mais votada do país naquele pleito.
Em 2022, conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados com mais de 256 mil votos, tornando-se a primeira deputada federal trans negra do Brasil. Autora da PEC pelo fim da escala 6x1. Erika se destaca pela defesa intransigente dos direitos humanos, da diversidade e da justiça social, tendo recebido prêmios nacionais e internacionais, sendo reconhecida como uma das 100 mulheres mais inspiradoras do mundo pela BBC. E hoje ela será nossa grande homenageada com a Medalha Pedro Ernesto, maior comenda da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Bom, é uma honra tê-la com a gente. Muito obrigado pela sua disponibilidade. A agenda dessa mulher é de igual para igual com a Beyoncé. Quem consegue realmente. Na verdade a da Beyoncé está mais fácil. Muito obrigado pela sua presença. Eu tenho certeza de que a sua vinda até aqui para enriquecer esse debate vai nos fortalecer muito. A ideia, o que eu estava falando aqui, minha querida Erika, é de fato fazer esse debate para criar esse compromisso, para que a gente não deixe a pauta jamais ser esquecida, porque é uma pauta urgente, que é sobre saúde, dignidade, respeito, é sobre família, que eles tanto falam, é sobre as pessoas terem tempo para ser você mesmo, para viver a própria vida, para estudar, para ver o pai, para ver a mãe, para ver a tia.
Então, a sua presença aqui muito nos alegra. Daremos continuidade ao debate, obviamente, ansiosíssimos para aprender com a “mãezinha”, porque ela sempre ensina para a gente. Mas seguiremos aqui com os nossos convidados. Muito obrigado, fique à vontade. Estamos aqui felizes pela sua presença.
Dando continuidade, convoco agora, para fazer uso da palavra, Pedro Emmauel, que dispõe de cinco minutos.

(PALMAS)

O SR. PEDRO EMMANUEL GONÇALVES DA SILVA – Bom dia a todos.
Como foi dito, eu me chamo Pedro Emmanuel, tenho 18 anos, venho lá de Senador Camará e sou estudante secundarista; sou presidente da Organização Estudantil da Zona Oeste e componho, junto ao Cauã e à Sara, a coordenação da Juventude Fogo no Pavio.
Como eu disse, sou de Senador Camará e, quando fui convidado, fiquei muito alegre. Queria até saudar toda a Mesa, pois fico muito feliz de compô-la com vocês. Queria saudar todos vocês que estão aqui compondo este Debate hoje. Como eu disse, eu sou de Senador Camará e hoje, quando acordei às cinco horas da manhã, fiquei muito feliz. Falo para vocês que estou muito orgulhoso de estar aqui porque tive consciência novamente que sou uma pessoa de esquerda, e tive orgulho de estar mais uma vez no campo da esquerda.
Fui fazer uma análise rápida, queria que vocês me acompanhassem. Nós estamos em 2025. Dois mil e vinte e cinco fica registrado como o ano que, mais uma vez, a esquerda mostrou quem realmente está do lado do trabalhador. Nós pautamos a escala 6x1, que fala sobre um tempo de lazer, um tempo de dignidade ao trabalhador. Incluímos os estudantes, logo, nós pautamos educação. O MTST está aqui, não me deixa mentir. Nós falamos de moradia digna, o povo maravilha está aí. Nós falamos de comida na mesa, como o MTST tem feito, como o Yuri aprovou as cozinhas solidárias.
Queria reafirmar: nós nos reunimos às nove horas da manhã para falar sobre a classe trabalhadora. Nunca o governo do Cláudio Castro, nunca a direita fez isso. Eles nunca fizeram isso. Sabe quando eles fizeram isso? Eles fizeram isso quando foi para cortar 20% dos contratos públicos dos funcionários do Estado do Rio de Janeiro. Foi quando foi para direcionar, no caso, cortar R$ 2,7 bilhões da verba dos funcionários do Estado para pagar as dívidas da União. Eles nunca vieram a esta Casa para falar sobre segurança ao trabalhador, dignidade. Nunca tiveram responsabilidade com as nossas vidas. Eles nunca acordaram às nove horas da manhã, como o Rick Azevedo fez, para ir analisar, para ir fiscalizar o 397. A maioria que conhece o ônibus 397 sabe como é sucateado, o ar-condicionado não presta, vem todo mundo apertado, a gente quase senta no colo do motorista. “Quer que passe a marcha aí?”. Tem toda essa situação.
O Rick Azevedo estava lá. Eles nunca pararam, nunca foram para a rua para falar sobre fome como MTST tem feito, como o mandato de Yuri tem feito, como a Thais Ferreira tem feito, nunca se apresentaram aqui às nove horas da manhã para falar sobre a população em situação de rua, como a nossa excelentíssima deputada fez, direcionando mais do que R$ 7 bilhões para os movimentos em prol da população em situação de rua. Pelo contrário, sabe por que eles não fazem isso? Porque eles lucram e se divertem com a nossa desgraça. Eles bebem as nossas lágrimas. Eles batem palma quando o trabalhador se machuca no trabalho, não tem seus direitos garantidos, quando o trabalhador está desempregado.
Quantos de vocês aqui não acordaram de manhã para trabalhar debaixo do sol fervendo? Quem é de Senador Camará, de Bangu, sabe como o sol é covarde. Quantos de vocês não tiveram que pegar um transporte sucateado, um trem sucateado, um ônibus sucateado? Quantos de vocês aqui não sofreram com o desemprego para depois ver o nosso ex-presidente – e futuro presidiário – se gabando de que ele diminuiu o imposto de renda do jet-ski, diferentemente do nosso atual presidente que aprovou o Pé-de-Meia, que foi lá e aumentou o salário-mínimo, que deu vida e dignidade aos trabalhadores, tentando retomar as pautas trabalhistas depois que esse país ficou desamparado como na última presidência que nós tivemos – se dá para chamar aquilo de presidência.
Então, eu tenho muito orgulho de estar aqui hoje porque a minha ligação com a 6x1 está relacionada por eu ser fruto de um 6x1. Meu pai é gari, com muito orgulho. Ele acorda 3 horas da manhã, 5 horas da manhã, pega o primeiro trem, que é o expresso, para estar 7, 8 horas lá em Copacabana e voltar para casa às 18horas, às 19 horas – isso é de segunda a sábado. Quando ele não vai domingo para feira cumprir mais uma meta para conseguir trazer o arroz e o feijão para casa. Então, eu tenho muito orgulho de estar aqui hoje. Fico lisonjeado de estar compondo esta Mesa para falar sobre tudo, não só sobre a vida do trabalhador em geral, mas sobre o meu maior espelho, meu maior exemplo, que é o meu pai.
Tem até uma curiosidade muito engraçada, porque meu pai sofre de problema de coração. Ele é hipertenso, tem diabetes e tem sofrido, recorrentemente, problemas de saúde, igual ao meu avô. Infelizmente, eu não conheci nem meu avô por parte de pai, nem meu avô por parte de mãe. E o meu avô por parte de pai faleceu durante o trabalho. Trabalhava na escala 6x1, na antiga Sendas, e também tinha problema no coração.
A minha avó vivia no pé dele: “Olha só, você tem que ir lá se tratar”. Mas não, assim como meu pai, mesmo com laudo, ele tinha que trabalhar, senão perdia credibilidade dentro da empresa – além dos assédios, os estresses que sofria diretamente, recorrentemente, do patrão. E um dia, meu avô passou mal dentro das Sendas. Infelizmente, as pessoas acharam que ele estava brincando. Quando foi tempo de socorrer, já era muito tarde. Minha avó e meu tio foram até a Sendas para tentar tirar satisfação com quem estava o estressando. E, quando chegaram lá, se depararam com uma cena muito triste: o cargo que ele ocupava, pelo qual tanto se preocupava, pelo qual se abdicava da própria saúde para ir trabalhar, já estava sendo ocupado por outro.
Eles não ligam para a gente. É cada vez mais necessário que morra o meu avô, é mais necessário que morram todos os dias o seu avô, o seu pai, você e os seus filhos. Então, se nós estamos aqui hoje, é digno de muita luta. Nós vamos lutar cada vez mais para que a gente consiga reduzir essa escala covarde que é a 6x1. Enquanto eu estiver vivo, tiver cálcio nos ossos, tiver uma voz potente, tiver meus irmãos ao meu lado, um movimento organizado, eu vou lutar. Vou lutar para que eu tenha o privilégio que me tiraram: ter o meu pai no meu aniversário comigo, ter o meu pai na ceia de Natal, ter o meu pai no Ano Novo comigo. Para que a gente consiga, finalmente, rir diante da ceia e não chorar de frente para o caixão do trabalhador.
Então, eu gostaria de agradecer a todos vocês aqui e acho que lutar é o mínimo que temos que fazer. Eles combinaram de nos matar, e nós, entre si, combinamos de não morrer.
Eu queria aproveitar que está gravando para fazer uma saudação para o meu querido pai. Todos os meus estudos foram custeados, foram financiados por um homem muito trabalhador, de segunda a sábado. E acho que hoje seria muito covarde da minha parte vir a esta Mesa e não prestar essa homenagem para ele. Se hoje eu estou aqui, se hoje eu li os livros que li, se hoje eu tive acesso à educação que tenho, foi por conta disto aqui, foi por conta desta camisa. Nós não estamos sozinhos. A esquerda está com a gente, e é o campo que está lutando verdadeiramente pelo trabalhador. Não é ninguém que vota a favor da PEC da blindagem, não é ninguém que vota a favor do aumento do próprio salário, não é ninguém que vetou o imposto de renda. O trabalhador vai ocupar a Casa, o meu pai vai ter dignidade, e eu vou ter a dignidade de passar o Natal com ele. Então, eu queria agradecer a todos vocês.
O Brizola falava uma frase muito interessante: “Divididos, nós sempre seremos escadas para a direita subir”. Então, eu convido todos vocês a se organizarem cada vez mais. Nós, organizados em coletivo, temos força. Nove horas da manhã estávamos todos aqui, esta Mesa lotada, as bancadas lotadas, todos nós aqui compondo e batendo numa pauta que é tão importante. Repito, senhores, como o Brizola falou: “Nós, separados, seremos sempre degraus para a direita subir”.
Então, eu conto com vocês, assim como espero que vocês contem comigo, assim como espero que contem com a Ueso para continuar nessa luta em prol do trabalhador.
Bom dia.


O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Pedro Emmanuel, muitíssimo obrigado.
Que discurso potente, que discurso verdadeiro, que discurso real. É tão bom quando a gente está nesta Casa, em a qual a gente escuta tantas asneiras muitas vezes, e agora estamos escutando a realidade, escutando a voz de quem realmente sabe do que está falando, a voz de quem realmente sente na pele as mazelas deste país. Muitíssimo obrigado por essa contribuição.
Para fazer uso da palavra, eu convido a Senhora Lilian Cristina, que dispõe de três minutos.


A SRA. LILIAN CRISTINA GOMES RIBEIRO – Bom dia a todos e todas.
É um prazer muito grande estar aqui nesta manhã. Agradeço muito pela oportunidade e me sinto muito honrada de estar aqui, a essa Mesa tão maravilhosa, com pessoas tão incríveis.
Meu nome é Lilian Gomes, eu sou da periferia do Rio de Janeiro, de Nova Iguaçu. Sou turismóloga, formada em Turismo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e, atualmente, mestranda em desenvolvimento territorial e políticas públicas também pela Rural do Rio de Janeiro. Eu como turismóloga, o maior mercado que a gente tem é na hotelaria, um dos maiores mercados é na hotelaria. E a hotelaria é um dos segmentos que mais trabalha com a escala 6x1.
Então, por conta disso, eu trabalhei muito tempo na escala 6x1. Enquanto eu estava ainda na universidade, eu trabalhei na escala 6x1. O meu horário era de 6 horas até 12h como estagiária. Eu saía de Nova Iguaçu às 3 horas da manhã e chegava em casa por volta de 2 horas, 3 horas da tarde. E estudava de 4 horas da tarde até às 10 horas da noite. Então, eu praticamente vivia para trabalhar e estudar. A escala 6x1 nunca deveria ter nem existido. Ela é um fruto da nossa sociedade escravocrata sim.
Infelizmente, nós, como sociedade, aceitamos isso como se fosse algo normal, até que, felizmente, pessoas como o Rick Azevedo começaram a questionar essa realidade. E, hoje, nós temos aqui essa possibilidade de estarmos debatendo sobre esse assunto. E eu agradeço por estar aqui.
Recentemente, eu publiquei um artigo sobre o modelo de trabalho contemporâneo e a luta da escala 6x1, falando um pouco sobre essa questão. E, no artigo, eu falo um pouco sobre várias coisas, entre elas sobre a forma, o modelo de trabalho foi sendo transformado de acordo com os anos e como o capitalismo e a classe dominante foram se adaptando de acordo com essas transformações também, para cada vez mais explorar a classe trabalhadora e nos alienar. Porque essa superexploração da classe trabalhadora é uma ferramenta de controle e esse é um controle planejado, esse é um controle pensado para que nós estejamos sempre ali trabalhando nesse looping eterno de trabalho e estudo ou só trabalho, para que nós não tenhamos nem a possibilidade de pensar em outras possibilidades, seja para sair dessa situação da escala 6 x 1 através do estudo ou pensar em outras formas, estamos sempre ali nesse looping eterno de trabalho.
Então, nós não temos nem a possibilidade de pensar em outras coisas. Também nesse artigo eu falo um pouco sobre como é importante então movimentos sociais fincados em pessoas que têm a vivência na escala 6x1 ou algo do tipo para que a gente possa unir cada vez mais a classe trabalhadora.
E eu falo um pouco também sobre a importância da união durante essa luta. Eu vou citar aqui um trecho do artigo. “O discurso neoliberal que obtém hegemonia sobre a classe trabalhadora alienada, que ainda defende a perspectiva da classe dominante, é que essa luta é contrária ao trabalho, quando na verdade a proposta pelo fim da escala 6x1 não busca o fim do trabalho, não está em momento algum relacionado ao não trabalho. Pelo contrário, busca a garantia de que o trabalhador tenha as condições de trabalhar e viver e não viver somente pelo trabalho. O Movimento VAT revela como as redes sociais e a mobilização coletiva podem ser usadas como ferramentas para articular resistência quanto a essa exploração trabalhista, demonstrando uma nova via de participação popular e lutas por direitos trabalhistas na era digital. E, apesar das inovações tecnológicas auxiliarem nesse processo, não podemos deixar que a individualidade proposta pelo neoliberalismo na contemporaneidade globalizada apague rápida e violentamente essa esperança por uma classe unida na luta por seus direitos. Uma ideia deve estar sempre presente nessa luta contra a classe dominante e é da coletividade, não da individualização, apenas unida, a classe trabalhadora causará mudanças estruturais.”
Muito obrigada.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado, Lilian, por essa contribuição riquíssima. Muito obrigado por você estar aqui presente com a gente. Muito obrigado por ter topado vir até a essa Casa fazer essa contribuição, porque a gente sabe que nós estamos aqui falando de vida além do trabalho e tempo e, muitas vezes, a gente não tem tempo justamente para lutar por esse tempo.
Então, a gente sabe que quando se dispõe, quando vem, quando tem essa disponibilidade acaba sendo uma espécie de amor pela causa real, porque a gente sabe que é urgente, a gente sabe que é importante.
E, dando continuidade, eu convoco agora para fazer uso da palavra a Senhora Clarice Pinheiro que dispõe de três minutos.

A SRA. CLARICE RODRIGUES PINHEIRO – Bom dia. Primeiro, agradecer o convite mais uma vez. Cumprimentar também a todas e todos que estão aqui presentes, os integrantes da Mesa.
Antes de falar um pouco sobre a pesquisa da qual eu faço parte, a Professora Flávia Uchôa já esteve aqui anteriormente falando um pouco da nossa pesquisa e hoje eu tive esse convite. Eu também já estive em escala 6x1 como estudante fazendo estágio lá no ano de 2009 e efetiva a partir de 2011, numa grande rede hoteleira, e acho que foi nesse momento que a minha ficha caiu um pouco. Eu também sou turismóloga, assim
como a Lílian e, em 2014, que realmente eu comecei a tentar mudar a minha vida e tentar sair dessa realidade. Eu cheguei a tentar fazer um curso de tecnólogo em gestão de recursos humanos, porém eu não consegui finalizar, infelizmente, por conta da escala 6x1 que impedia que eu continuasse os meus estudos. Só que ali, para o final de junho de 2014, eu comecei a perceber que aquilo já estava ficando insustentável para mim, cheguei a passar mal no trabalho algumas vezes, tive picos de ansiedade. Então, para o final de junho ficou difícil, de fato, insustentável, eu pedi demissão, comecei a estudar, atualmente eu sou servidora pública da Universidade Federal Fluminense e já tem 10 anos isso. É só uma contextualizada rapidinha sobre como eu vim parar aqui.
Atualmente eu faço parte do projeto de pesquisa “Impactos da Escala 6x1 na vida das trabalhadoras e trabalhadores”, que é coordenado pela Professora Flávia Uchôa. A gente tem aí na equipe de pesquisa o Rafael, que está aqui comigo hoje, o Gabriel Santana, que é um estudante da UFF também, Priscila Rocha, que também é da UFF, a Mary Zen, que é da Universidade de Birmingham, e Daniele Duarte, que é da Universidade Estadual de Maringá.
Então, falando um pouquinho sobre a nossa pesquisa, a gente tem alguns dados aqui e ela traz dados que, embora a gente não possa generalizar, são indicativos da realidade de trabalho para estudantes trabalhadores em escala 6x1, especialmente no que diz respeito à escolaridade.
Então, a maioria dessas pessoas tem o ensino médio completo e isso a gente sabe que está relacionado, infelizmente, a uma menor renda, só que essas pessoas acabam sendo inviabilizadas de se qualificarem, de se especializarem para buscar algo melhor, para buscar sair dessa realidade, tanto que a falta de tempo para os estudos é descrita por uma em cada cinco pessoas que responderam a nossa pesquisa.
Atualmente a gente tem aproximadamente o número de 500 respostas válidas e essas pessoas relatam isso. A gente tem uma pergunta aberta no nosso questionário, onde as pessoas podem relatar as principais dificuldades que elas enfrentam e mais de 70% das pessoas que responderam a nossa pesquisa trabalham de oito a mais de oito horas por dia, superando aí o limite constitucional e impondo um menor tempo dedicado a outras atividades como estudo, qualificação e a especialização, que seria algo que possibilitaria a elas buscar condições melhores de trabalho.
Então, a questão que a gente deve responder é como é possível dedicar tempo aos estudos em uma rotina diária de mais de oito horas de trabalho. Nesse sentido, essa audiência pública não reflete apenas uma questão central para aquelas e aqueles que estão em escala 6x1, mas como a força de trabalho no Brasil não consegue se qualificar, o que faz com que ela permaneça em condições de trabalho mais precarizadas com piores salários.
Eu trouxe aqui também, só para finalizar, alguns dos depoimentos que a gente colheu na nossa pesquisa, e temos uma pessoa que fala: “Trabalhamos seis dias na semana, onde fica o tempo para estudarmos e nos profissionalizarmos para conseguirmos melhores oportunidades no mercado de trabalho?” Outra pessoa falou: "Trabalho das 14 horas às 23 horas. Vivo praticamente para o trabalho. Desisti de fazer o meu curso de Farmácia por falta de tempo". E aí mais uma pessoa fala: "Não tenho mais tempo de cuidar da minha saúde. Tive que trancar minha faculdade por conta do cansaço que essa escala nos faz passar".
Então, além de não ter tempo para se qualificar, qual é a disposição que essas pessoas também têm para sair do trabalho, irem para a faculdade? Elas têm obrigações em casa também. Elas têm família. Muitas vezes, muitas dessas pessoas exercem um trabalho de cuidado também. Então, é uma realidade que a gente realmente precisa lutar muito para mudar.
Obrigada. Ótimo dia a todos.


O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado, Clarice. Como sempre, uma grande parceira nos ajudando nessa luta, ajudando-nos com números, com dados, com estudos. Eu agradeço imensamente por você estar nesta Casa mais uma vez nos fortalecendo. De coração, muito obrigado.
Para fazer uso da palavra, convido a Senhora Sara da Silva, que dispõe de três minutos.


A SRA. SARA DA SILVA SANT´ANNA – Bom dia!
Primeiramente, gostaria de agradecer o convite. Estou muito orgulhosa de estar aqui hoje. Sendo fruto da classe trabalhadora, como educadora popular, sobretudo, estou aqui não apenas por mim, mas pelos meus alunos.
Gostaria de contar uma pequena parte da minha trajetória. Eu tenho 22 anos atualmente, mas trabalho na escala 6x1 desde os 13 anos de idade, não por necessidade, mas quando viemos do pouco, precisamos enfrentar certas coisas para poder ter o mínimo. Os meus pais sempre tiveram a questão do incentivo aos estudos. Não estudar nunca foi uma pauta dentro de casa.
Dentro disso tudo, eu me via saindo da escola ao meio-dia e indo fazer o meu trabalho de 13 horas até 20 horas. Quando chegava a casa, eu tinha que estudar. Não estava em negociação. Ao longo da minha jornada como estudante no ensino médio, essa história se repete: estudei em horário integral. Durante o horário integral, após a escola, eu ia também fazer o meu trabalho.
Quando a gente entra na pandemia dentro desse contexto, a gente sabe que: quando a gente vem da favela, quando a gente vem da comunidade, há certas coisas que não podem parar. Nós não podemos nos dar ao luxo de parar. E aí, durante a pandemia, me vi trabalhando em escala 6x1. Por um contexto de vulnerabilidade, eu tinha que estudar durante a madrugada, que era quando eu tinha aquele tempo.
Entro na universidade em 2021 e, ao mesmo tempo, simultaneamente, eu também ingresso no meu primeiro trabalho formal dentro da escala 6x1. Por ser o primeiro trabalho, e na área de Telemarketing, eu me vejo completamente desgastada, morando longe do trabalho, tendo que conciliar os estudos numa universidade que era a três horas da minha casa. Eu acho que vale salientar que eu moro no bairro mais distante do Centro do Rio de Janeiro. Eu morava na comunidade do Rodo, em Santa Cruz. Fazer esse deslocamento – trabalho, faculdade, casa – era completamente desgastante.
Dentro da universidade, eu encontro, e aqui eu gostaria de trazer a atenção para a importância da política, não apenas para a política de cotas, mas para a política de permanência estudantil, que é o que garante que muitos dos estudantes da nossa trabalhadora possam sair dessa escala degradante – a escala 6x1 – e possam se dedicar integralmente aos seus estudos.
Eu falo não apenas por mim, claro, mas pelos meus amigos estudantes, pelos meus alunos, porque luto não apenas para que eles possam acessar a universidade, mas para que eles possam usufruir e permanecer nela. Penso muito e sempre trago muito isso na minha luta junto aos meus amigos, com os meus companheiros, sobre o quanto que, para você conseguir usufruir, você conseguir estudar e se dedicar de fato à universidade. Pensando nas pessoas que vêm de onde nós viemos, é necessário tempo. E, com a escala 6x1, a gente sabe que se torna completamente inviável.
Quando eu entro em sala de aula, como aluna ou como professora, é sempre com aquela questão de que, acima de tudo, o ensino emancipa. Eu tento, claro, ao máximo, emancipar os meus alunos politicamente. Mas é necessário tempo, dentro da escala 6x1, que me impediu, durante muito tempo, de conseguir sentar e estudar. A gente sabe que, dentro da universidade, muitos professores não conseguem. Por não terem essa realidade, eles são – como posso dizer? – compreensivos dentro disso. Perdão, eles facilitam o desenvolvimento desse aluno na universidade.
Muito obrigada.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado, Sara, pela sua contribuição. Muito obrigado por você estar aqui presente. Agradecemos imensamente essa força. Reconhecemos que a luta só avançou, e só vai avançar, porque nós estamos unidos. Sou grato por cada um que está aqui fazendo essa contribuição com esse debate riquíssimo.
Dando continuidade, para fazer uso da palavra, eu convido a nossa professora maravilhosa, Luciana Boiteux, que dispõe de cinco minutos.


A SRA. LUCIANA BOITEUX – Obrigada, Rick.
Queria agradecer ao Vereador Rick Azevedo, que tem cumprido um papel importantíssimo nesta Câmara e na luta, que é uma luta federal, uma luta nacional, pelo fim da jornada 6x1.
Queria saudar minha querida companheira de partido, a nossa Deputada Federal Erika Hilton, que tanto nos representa em Brasília, nos enfrentamentos cotidianos a esse conservadorismo, a esse fundamentalismo que nos assola, mas que a gente vai derrotar.
Queria saudar todos aqui, os jovens e todos que vieram aqui e já nos falaram inicialmente: a Lilian, a Sara, o Pedro, que trouxeram essa experiência necessária da vivência dessa jornada 6x1. Queria saudar também a minha querida companheira que comigo esteve na Câmara, Thais Ferreira, que tanto representa as mulheres, que tem uma luta necessária em defesa das crianças. Thais tem um papel importantíssimo a cumprir, como líder do PSOL na Câmara. O Deputado Estadual Yuri também. É um grande prazer tê-lo aqui conosco. Saudar a todas, todos e todes aqui neste nosso Debate.
Saudar o movimento MTST, que está aqui presente, uma luta essencial para o nosso país, para a nossa população. Saudar o Movimento Rua, que está aí lutando pelas cotas trans na UFRJ. Saudar também o Sepe, a luta das cozinheiras e várias outras lutas que estão representadas nesta Casa.
Como professora universitária, vivencio com os meus estudantes esse desafio que, para mim, está representado nesse cartaz. Estudantes exaustos, dormindo em cima de livros, com uma vida precarizada, com as demandas do trabalho, o trabalho numa jornada excessiva, um trabalho que não permite ter o espaço de lazer, ter o espaço de cultura e o espaço para o estudo também. A gente pensar o que é a escala 6x1 para essa estudantada que vai ser o futuro do nosso país, o futuro da nossa sociedade, é a gente pensar que o fim da escala 6x1 é urgente – tem que ser agora. Porque, a cada dia, vemos estudantes mais exaustos. Além dos trabalhadores e trabalhadoras, de maneira geral, estudantes mais exaustos, sem condições, muitas vezes, de poder cursa aquelas disciplinas para poder construir o seu futuro. E falar também que a luta desses estudantes é também uma luta por acessibilidade, por moradia, por assistência estudantil, Rick, porque também se nós tivéssemos uma assistência estudantil que garantisse a esses estudantes moradia estudantil, garantisse alimentação, garantisse momentos e tempo para estudo, nós não deveríamos estar sequer deixando esses estudantes terem que trabalhar. O estudante teria que estar se dedicando integralmente e o Estado tinha que financiar, porque esse estudante estuda, trabalha, não tem folga, não tem direito ao lazer e vai, sim, emplacar, no final do curso, uma exaustão. A gente tinha já que estar pensando na questão da saúde mental desse estudante, assim como Rick também trabalha esse tema tão importante, que é a saúde mental dos trabalhadores e das trabalhadoras.
Então, eu entendo, como professora universitária, eu que hoje estou, inclusive, no Conselho da Associação dos Docentes da UFRJ, representando minha faculdade, a Faculdade de Direito, que a gente tem que estar falando desses assuntos em todos os espaços. E eu entendo que a gente tem também que aprofundar esse debate nas universidades, Rick, porque esse é um debate do quotidiano dos estudantes e da classe trabalhadora. A gente também, quando está nessa luta, tem que lutar também por arte, por cultura, por alimentação saudável, por moradia. A luta contra a escala 6 x 1 é uma luta que vai ampliar, mas que também traz consigo todas as lutas da classe trabalhadora, porque significa que é o direito do trabalhador a ter dignidade, e não a ser explorado por esse capitalismo, por essa lógica perversa que em especial os trabalhadores pobres, os trabalhadores e trabalhadoras negras e as trabalhadoras mulheres que, além da escala 6 x 1, ainda têm o quotidiano do cuidado, pelo qual são responsáveis, e não são remuneradas para isso.
Então, salve, Rick Azevedo! Viva a luta da classe trabalhadora! Viva a luta contra a escala 6 x 1! Vamos juntas, juntos e juntes!

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Luciana Boiteux, potente, fortíssima, professora aguerrida, muitíssimo obrigado por você estar aqui com a gente fortalecendo esse debate. Sim, coloco ênfase nessa fala importante: é necessário aprofundar o debate nas universidades. É impossível um estudo de qualidade com estudantes enfrentando essas jornadas exaustivas. São seis dias de trabalho para apenas um dia de folga. Mais de 44 horas semanais. Isso para quem está na escala 6 x 1, porque eu tenho inúmeros relatos de trabalhadores que trabalham até 10, 15 dias sem folgar – crime contra a classe trabalhadora. E, aí, falam: “Ah, mas, se você quer mudar de vida, é só estudar.” Como, se nós estamos presos nessa lógica de trabalho que nos prende, nos amarra e nos impede de avançar.
Então, fala importantíssima, Luciana. Muito obrigado.
Dando continuidade ao nosso debate, convido agora nosso Deputado Estadual Yuri Moura, para fazer uso da palavra.
(PALMAS)

O SR. DEPUTADO ESTADUAL YURI MOURA – Muito obrigado, meu companheiro Rick Azevedo.
Saudando-o, saúdo também a nossa Deputada Federal e referência Erika Hilton e a companheira Thais Ferreira, também vereadora desta Casa. Em nome dos movimentos, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Muito orgulho de lutar ao lado de vocês e de ver esta Casa cheia de quem briga por moradia, ocupa na marra, na garra e tenho certeza de que as ocupações do MTST dão exemplo para todas as cidades do Estado do Rio de Janeiro. Feliz por caminhar ao lado de vocês. Um grande abraço.
Cumprimentando a Organização Estudantil da Zona Oeste, cumprimento também todas as juventudes.
Bom, pessoal, hoje eu sou deputado estadual pelo PSOL. Tenho a felicidade de ser líder da bancada da Assembleia e também Presidente da Comissão de Legislação Participativa, que é um mecanismo novo, que não existia até essa legislatura, mas que nosso mandato popular conseguiu construir para tentar diminuir essa distância dos parlamentos, em especial do parlamento estadual.
Vocês sabem o tamanho da luta que eu, Renata Souza, Flavio Serafini, Dani Monteiro e Professor José Josemar enfrentamos, tendo o governador que temos, Cláudio Castro, tendo o estado dominado pela milícia, pelo tráfico de drogas e pela violência política. Não é fácil.
Mas, apesar de todas essas tarefas que nós aqui companheiros e companheiras compartilhamos, o que eu sou mesmo é professor. E quem é professor sabe o que é a escala 6 X 1, o que é a escala 7 X 0, de ter que corrigir prova no domingo, de ter que preparar aula quando dá e de, infelizmente, nem sempre poder entregar aquela aula, aquele trabalho, aquela troca com os nossos alunos como a gente queria. Porque professor, professora, profissionais de educação têm que dividir a vida em várias unidades de ensino, senão não consegue sobreviver.
Eu sou filho de uma cozinheira escolar que teve que ser readaptada para inspetora, porque não aguentou o trabalho que as cozinhas, que a merenda, que a alimentação escolar impõe ao corpo; e filho de um trabalhador autônomo que, sabe-se lá Deus como, conseguiu se aposentar, porque na época dele não existia nem MEI (microempreendedor individual). Já que hoje a gente tem esse debate sobre empreendedorismo e um debate que, inclusive, da forma como está sendo feito, tem trazido à precarização do trabalho.
E aí não tem como eu falar do desafio do Rio de Janeiro, das nossas cidades e do Brasil, sem entender três grandes tarefas que a esquerda brasileira tem e que dialogam o tempo todo com a luta dos trabalhadores. E que hoje não dá para falar de luta dos trabalhadores no Brasil sem falar do movimento Vida Além do Trabalho - VAT, sem falar de Rick Azevedo, sem falar de Erika Hilton.
Essa é a luta dos nossos tempos. É a luta contra a precarização, é a luta contra a escala 6 X 1. Se nós temos três grandes tarefas, todas elas dialogam com essa pauta. Primeiro que o Brasil está num momento estratégico para nós que defendemos a soberania e a democracia. E quando a gente fala de precarização do trabalho, e aí eu dialogando aqui com os nossos companheiros dos trabalhadores sem direitos, os entregadores, motoristas por aplicativo, motoboys, a gente está falando da defesa da soberania e da democracia que passa pela atuação das big techs, das grandes empresas que tentam rasgar as nossas leis, que tentam invadir os nossos mercados, precarizando os trabalhadores e trabalhadoras.
Então não dá para fazer o debate que a gente tem feito, de um Brasil dos brasileiros, de um Brasil soberano, de um Brasil que tem hoje um presidente à altura desse desafio diplomático, se nós não falarmos o quanto trabalhadores e trabalhadoras precarizados, por essas empresas multinacionais, sofrem com o que está acontecendo.
Um segundo desafio, e aí no caso da atuação do nosso mandato, o que a gente mais tem dedicado esforço é a crise climática. O que também não dá para debater sem falar das nossas cidades, da crise urbana, da falta de transporte público e da exposição que trabalhadores e trabalhadoras têm ao excesso de calor, ao extremo frio e às intempéries, enchentes, deslizamentos. Porque são os trabalhadores e as trabalhadoras, e eu venho de uma região que é a mais vulnerável, que morrem, que sofrem, que perdem suas casas e que perdem tudo por conta da crise climática. Crise climática não é assunto de ONU, crise climática é assunto de periferia, de favela, de comunidade, de trabalhador que passa mal no comércio porque trabalha num lugar que não tem climatização. De trabalhador que morre no transporte público porque o transporte público vira uma quentinha, uma lata de sardinha, já que o Poder Público não cumpre o seu papel de garantir dignidade, de garantir tarifa zero, de garantir conforto na viagem desses milhões de trabalhadores e trabalhadoras. Então não dá também para falar de crise climática sem falar do papel do trabalhador, do lugar de exposição que ele está.
E, por fim, o que a gente considera também a terceira grande tarefa é garantir um estado de direitos. Nós estamos no momento ao qual a direita, o pensamento neoliberal quer desconstruir o pouco direito, a pouca proteção social que trabalhadores e trabalhadoras têm. Nós tivemos que batalhar muito para eleger o Lula para que o Brasil pudesse, o mínimo, sair de novo do mapa da fome.
Nós tivemos que trabalhar muito enquanto movimentos pelas causas populares para garantir que educação e saúde voltassem a ter investimentos, que o SUS não fosse vendido, que a assistência social voltasse à pauta e seguimos trabalhando por muitas coisas. Mas direito social, proteção social, no Brasil, não pode ser desconexa da luta dos trabalhadores, porque o direito ao trabalho digno é também um direito social conquistado por muita luta, desde lá de trás. Para mostrar, Thais Ferreira, minha companheira que debate a primeira infância, que criança não tem que trabalhar. Para mostrar, Luciana Boiteux, minha companheira feminista, que as mulheres, no mínimo, precisam ter os mesmos direitos e ocuparem os mesmos espaços que os homens nos postos de trabalho.
Nós tivemos lá atrás com a luta do povo preto para garantir que escravidão não é trabalho, que escravidão é exploração. E ainda, hoje, temos que dizer que todo trabalho é digno, mas exploração nunca é. Então, não nos obriguem a trabalhar de morrer ou pior: morrer de trabalhar ou ter que trabalhar até morrer, porque existe, sim, vida além do trabalho. A pauta 6x1 simboliza isso e nos conecta com milhões de trabalhadores e trabalhadoras que, por algum momento da história, também pelos nossos erros e pela influência do dinheiro, da mídia do lado de lá, pararam de ouvir o nosso campo.
Então, Rick Azevedo, Erika Hilton, todos os movimentos que aqui estão, vamos aproveitar essa oportunidade, não só a oportunidade de movimentar as massas de novo, de mostrar que é a esquerda que está do lado da classe trabalhadora, mas de garantir algo histórico que é uma grande vitória para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, que é o fim da escala 6x1, que é dignidade, que é poder estar com a família no final de semana, que é poder estudar mais, que é poder se capacitar e realmente ter o bem-viver.
Fim da escala 6x1! Só a luta muda a vida! Seguimos juntos e juntas, Rick Azevedo e Erika Hilton.


O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado, Deputado Yuri. Palavras firmes, palavras fortes e de esperança. A gente precisa realmente seguir com essa coragem.
Eu sei que está todo mundo cansado de lutar, porque também ninguém fala da vida além da militância, não é? A gente precisa falar, isso cansa também. Precisamos criar este movimento: “Vida Além da Militância”. Porém, a gente não pode se deixar vencer pelo cansaço, não dar esse gostinho para essa gentalha, para essa burguesia escravocrata, para essa gente que quer continuar explorando, sucateando, negligenciando, financiando os direitos da classe trabalhadora.
Eu sei que é cansativo. Todas as vezes que estou na rua encontro algum trabalhador – ou trabalhadora – que me pergunta: "Mas Rick, quando? Cadê as datas? Eu quero data, quando vai acabar a escala 6x1?". Eu entendo porque já passei 12 anos nesse modelo de trabalho. Eu sei que, para quem está sendo sucateado seis dias na semana para apenas um dia de folga, toda essa enrolação do Congresso Nacional é angustiante, mas a gente sabe que, na história, em todos os momentos histórico deste país, quando foi para conquistar direitos para a classe trabalhadora, teve essa demora, teve essa luta árdua, teve essas movimentações contrárias. “Mas a economia, mas isso e aquilo”. No fundo, com certeza, a força da classe trabalhadora vai prevalecer e a gente vai acabar com a escala 6x1.
Falando de trabalhadores, antes de dar continuidade, eu quero uma salva de palmas para o Cerimonial da Câmara, para a minha equipe e para a equipe da nossa Deputada, representada pelo Gabriel Lindbergh, que faz um trabalho incrível.
A gente precisa lembrar que, por trás do Rick Azevedo, por trás da Erika Hilton, por trás da Câmara, tem uma equipe de trabalhadores e trabalhadoras fazendo tudo acontecer. Então, muito obrigado.
Agora, para fazer uso da palavra, eu convido a nossa potente Vereadora Thais Ferreira.


A SRA. VEREADORA THAIS FERREIRA – Bom, meu povo, meu povo mesmo, é muito bom ver a Casa lotada de gente como a gente, gente que trabalha, que batalha, que se sente cansada, sim, mas que se levanta diariamente para seguir esperançando. Que bom ver os símbolos da esperança, a gente tem hoje aqui o Rick e tem a nossa gigantesca Erika Hilton. Muito, muito obrigada por vocês terem levantado no dia de hoje, estarem aqui conosco construindo essa possibilidade de debate, construindo essa possibilidade de escuta e de visibilidade da nossa cara, da nossa gente.
Eu vou começar, como todos fizeram, saudando os movimentos sociais presentes, saudando os estudantes, saudando todas as falas que me antecederam à Mesa, pedindo benção mesmo não só à nossa “mãe”, mas também às nossas mais velhas, aos nossos mais novos que estão aqui.
Eu tenho a felicidade e o orgulho de poder construir política com pessoas que vêm das camadas populares e que se esforçam, se esforçam, mas se esforçam muitas vezes. Estou olhando aqui para os meus mais velhos lá atrás, e eu sei que não é fácil seguir resistindo, não é fácil depois de tanta violação, depois de tanta humilhação que nós passamos, depois de sabermos que, sim, somos ainda as categorias mais sub-representadas na política, ainda estamos aqui E estamos aqui diante de uma possibilidade concreta e real. Por isso esse grande parêntese para honrar a trajetória tanto do Rick Azevedo, que nos encontramos quando ele ainda estava militando na construção do movimento VAT, pedindo aqui na Câmara Municipal dos Vereadores de gabinete em gabinete para imprimir os seus panfletos e ir até a central fazer uma movimentação potente popular de militância, sem financiamento partidário algum, sem padrinho político algum, e eu tive a dignidade de abrir o meu gabinete para que ele fosse utilizado dentro desse nosso encontro, para que ele pudesse viabilizar essa manifestação. E naquele breve encontro que a gente teve ali no elevador da Câmara, eu falei: "Cara, você tem que chegar em Brasília". Ele falou: "Eu já estou tentando articular com a Erika Hilton". Eu falei: "Vai acontecer". Era 2023, aconteceu e por nós termos tanto Rick que se tornou esse fenômeno, um fenômeno eleitoral da esquerda acolhido pelo Partido Socialismo e Liberdade que é o nosso PSOL, nós temos esse vereador que traz essa pauta grandiosa, como ele mesmo fala, para dentro dessa casa deste tamanho, com um auditório lotado, com um Plenário cheio, para que a gente possa pautar autonomia e emancipação de quem mais precisa, que é a classe trabalhadora brasileira. Salva de palmas para Henrique Azevedo.
E agora, mais do que palmas, todo o respeito, máximo respeito do mundo a Erika Hilton, nossa deputada federal, símbolo de uma transformação política que é ética, que é estética e que, sim, não tolera e bota o dedo na cara dos vermes, dos ratos, das cobras e dos lagartos que querem nos impedir de trazer a pauta real do povo para dentro de qualquer que seja a casa legislativa. Érica ocupou a Alesp e eu estava lá na época da bancada ativista ainda, uma mandata coletiva, depois a Câmara Municipal de São Paulo e foi alçada pelo povo a esse lugar de nos representar através de uma ideia de país, um país verdadeiramente progressista, um país que verdadeiramente respeite todas as pessoas que mais precisam de respeito e que tem sim a sua humanidade retirada todos os dias na sociedade racista, misógina, classista e machista brasileira, LGBTfóbica também, mas que não abaixa a cabeça e que se levanta muito bem trajada, muito bem vestida, muito bem organizada em suas falas para nos representar. E isso não é qualquer coisa, minha gente. Que a agenda dela seja, sim, mais difícil do que a da Beyoncé, mas que ela consiga, que ela consiga ser fortalecida por cada um e cada uma de nós para ocupar esses e muitos outros cargos que ainda virão.
Falamos de uma presidência de uma mulher negra e trans, sim, porque é possível, porque é essa cara política que deu abertura, que deu possibilidade para que a pauta que unifica todas as classes, todas as raças, todos os credos fosse de verdade uma luta de todo o povo trabalhador.
Nós estamos através de Erika e através do trabalho do Rick resgatando o orgulho de lutar por um mundo do trabalho que seja de fato possível para mulheres mães como eu, para pais como o pai do Pedro, que falou aqui, para as avós que estão presentes e que lutam. Gente, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto é um movimento que sim, tem colocado comida no prato para muitas pessoas através de mulheres mais velhas que já são avós e que se dedicam nas cozinhas solidárias, trabalhadoras do cuidado.
Quando a gente fala dos estudantes que trabalham na escala 6x1, a gente precisa falar que a nossa infância, a infância popular, a infância preta, periférica, a infância que começa nos anos iniciais da escola, ela é interrompida porque ela precisa se dedicar ao trabalho do cuidado não remunerado e muitas vezes explorado que interrompe as nossas crianças. Essa escala 6x1 é cruel com as famílias, ela é cruel com as mães, ela é cruel com as crianças desde os primeiros anos de vida. Quantas não são as mulheres que após a sua primeira gestação são infelizmente excluídas do mercado de trabalho? Se vier a segunda, a terceira, então, você não entra mais. E eu falo de lugar de propriedade. Eu pari quatro vezes. Tendo sido uma mulher que engravidou e gestou por quatro vezes, eu passei no mundo do trabalho por muitas violências. E quando me coloco aqui nesse lugar do parlamento, é para trazer, sim, essa visão de que somos esses filhos dessa classe trabalhadora, os filhos impedidos de terem sido crianças. Nos foi retirada a possibilidade de sonhar com uma profissão decente e digna, porque a gente sabia que o que teríamos que dar é continuidade. Nós teríamos que apenas continuar uma reprodução violenta do que significa trabalho. Para a gente, trabalho nunca foi conforto, nunca foi sinônimo de direito, não. Muitas vezes, o trabalho, dizer “eu sou trabalhador” e levantar a mão numa comunidade, foi o que salvou a gente não da dura, porque ela chegava, mas salvou da bala e do tiro. Salvou da bala e do tiro.
Então, é por isso que hoje a gente, que está aqui reunido para pautar a esperança de uma classe trabalhadora que estuda, que trabalha e que está sendo massacrada pela mobilidade urbana, entende que isso é, sim, um dever. É, sim, uma necessidade expressa e uma necessidade prioritária de fortalecimento da nossa democracia, de fortalecimento desses lugares de representatividade que estão aqui colocados e, principalmente, de fortalecimento da potência dos movimentos sociais e estudantis, que têm se colocado mais do que à disposição, mas que têm se qualificado para disputar esses espaços de poder e para dar continuidade às agendas prioritárias do nosso povo.
Nós não abriremos mão de lutar pelo fim da escala 6x1. Nós não abriremos mão de lutar pela dignidade de 36 horas semanais de trabalho. É para hoje, é para já. E nós não abriremos mão de dizer, como está escrito nesse cartaz, pode parecer pouca coisa, mas para a gente é muito. Quem é trabalhador, quem já viveu sem folga – eu vivi muitos anos na 6x1 –, a gente sabe que uma folga nunca foi e nunca será suficiente para dar conta de tudo que nos foi retirado por conta da exploração e das jornadas exaustivas de trabalho.
Nós queremos a restituição plena, nós queremos a reparação desse mercado, desse mundo do trabalho, e nós estamos ousando, sendo capitaneados por essas duas figuras, a reinventar as possibilidades da política, a reinventar as possibilidades de fortalecer a democracia e, principalmente, a viabilizar que, sim, a pauta de acabar com a escala 6x1 é a pauta prioritária da classe trabalhadora brasileira.
Muito obrigada.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Thais Ferreira! É ela, mãe potente como sempre, uma voz forte, trazendo na pele e no tom a realidade. A pessoa que viveu as mazelas dessa cidade, desse país. É uma voz que a gente sente a dor sendo transformada em luta e passando ali esperança, passando fortaleza, passando um recado claro de que não podemos recuar, não podemos desistir. Chegamos até aqui de forma muito cara, de forma muito difícil, mas, na voz da Thais, ela diz: “Vamos continuar, vamos para cima, não vamos recuar.”.

Muito obrigado, Vereadora Thais Ferreira. Sou grato por fazer parte dessa bancada, por ser o seu fiel fofoqueiro ali nos cantos com a minha líder – eu vou lá, falo, articulo, corro e não sei… “Thais, me ajuda, me socorre”. Então, muito, muito, muito, muito obrigado.
Dando continuidade, eu vou chamar os inscritos para fazer uso da palavra. A gente vai pedir só uma atençãozinha relacionada ao tempo, porque o Cerimonial está aqui com a gente, tem outra pauta, enfim, mas a gente vai continuar. Vamos dispor de um minuto, e eu vou chamar agora o nosso convidado, Senhor Kawan Lopes, ativista, ator e militante do Fogo no Pavio, para ocupar a Tribuna de Honra Vereadora Marielle Franco e fazer o seu pronunciamento.

O SR. KAWAN LOPES – Boa tarde, arquibancada, povo organizado. Boa tarde, Plenário. Boa tarde, Juventude Sem Medo, Rua, a Fronte.
Boa tarde, Hilton. Bom te ver. A gente estava se encontrando. Bom te ver viva, bom te ver aí em glória, porque eu lembro muito da nossa época em que a gente se encontrava em 2022, no Teatro Rival, aqui no Rio de Janeiro. A gente conversava, e eu falava: “Hilton, vai ser babado, vai ser histórico.” E dito e feito.
Bom, no Brasil, mais de 70% dos jovens entre 14 e 29 anos trabalham 40 horas por semana ou mais. Logo, é importante a gente pensar que é mais do que urgente os nossos corpos estarem aqui hoje, reunidos em revolta. Porque organizar a revolta é um ato revolucionário, mas, para além disso, é um ato urgente enquanto juventude que está na periferia, que está no camelô, que está nos postos das praias, que está nos trens. Porque a nossa revolta nos organiza e faz com que, às nove horas da manhã, a nossa juventude pare tudo para debater o futuro de vida que a gente quer para a gente agora e também para os nossos filhos. Porque o futuro se faz presente, e o futuro somos nós. A partir desse entendimento, reduzir a escala 6x1 é um ato histórico e importante para garantir o direito à educação e principalmente a nossa juventude. Estava ouvindo a Excelentíssima Vereadora Thais Ferreira falar aqui e acho que a gente fala sobre a história que se repete cotidianamente a partir da ótica da direita. Mas eu queria dizer que a Thais repete uma história muito importante e eu queria fazer um comparativo aqui muito breve sobre Maria Carolina de Jesus.
Maria Carolina de Jesus era uma mulher preta, mãe de quatro filhos, catadora de papel e eu fico imaginando essa mulher negra, catadora de papel, o quanto essa mulher não sofreu com preconceito que cotidianamente a gente sofre, que carrega na no corpo a bandeira da Palestina, que carrega no corpo a marca preta como a Deputada Renata Souza, mãe.
Fico pensando quantos de nós que lutamos por moradia digna, não temos dentro de nós uma Maria Carolina de Jesus. Uma Maria Carolina de Jesus que também está presente na universidade, que também está presente vendendo um doce na praia, que também está presente no call center do supermercado.
Eu acho que é importante a gente pensar que hoje a gente não pode desistir da gente. Porque se Maria Carolina de Jesus não desistiu dela e hoje se tornou uma das maiores escritoras negras desse país, onde a gente pudesse referenciar a nossa história a partir dessa ótica dessa mulher preta e favelada, é importante a gente também não desistir das nossas lutas. Porque só a luta muda a vida, mas ao mesmo tempo o nosso ódio organizado faz com que a gente um dia olhe para isso tudo que está marcado na história.
Seja bem-vinda, Erika, porque esse espaço, esse município te reverencia pela sua luta. E, Rick, muito obrigado pela oportunidade de ouvir nós estudantes, porque somos nós também que queremos garantir um futuro digno, não para nós agora, mas para aqueles que estão vindo no amanhã. Muito obrigado, vamos juntos.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado, Kawan. Você é uma inspiração. Você é um cara potente, sou grato.
Para fazer uso da palavra, eu convido o Senhor Carlos Albano, dono de todos os fã-clubes desse país, marqueteiro especialista em comunidades, condecorado com uma moção para ocupar a Tribuna de Honra Vereadora Marielle Franco e fazer o seu pronunciamento.

O SR. CARLOS ALBANO – Muito boa tarde. Obrigado, Rick, obrigado João pelo convite de estar aqui hoje. Obrigado a todos e todas presentes. Eu fico muito feliz de poder entrar nesse debate, falar da força dos fã-clubes. É um conceito que eu trago desde 2020, quando entendi que essa força jovem que está na internet, ela pode ser tão importante hoje quanto os grandes sindicatos. Sempre digo que os fãs clubes são os novos sindicatos, então a gente precisa conversar.
A gente precisa conversar com o estudante, a gente precisa conversar com o jovem de 16 anos que está adentrando o mercado de trabalho, que está adentrando a sua vida política, que está adentrando a sua vida de militância e fazer entender que eles também são importantes para o nosso discurso, fazer entender que eles também são importantes para todos os nossos projetos. Já fiz ação com o Rick, já fiz várias ações com a Erika, com os fãs clubes e eu fico lisonjeado e muito animado de ver que essa força jovem está presente, está pulsante e que podemos mudar o futuro do nosso país a partir disso e a partir desses fã-clubes.
Muito obrigado, gente.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado. Trabalho incrível de movimentar os fã-clubes, de usar os fãs para algo que realmente é importante, para causas que vão mudar as vidas desses fãs que são trabalhadores, que são pessoas que estão ali também na escala 6x1. Os fã-clubes têm feito um papel crucial na internet, mobilizando sempre que é preciso. Estão lá no Twitter, levantando hashtag, indo para cima, combatendo, defendendo a nossa deputada, defendendo o trabalho gigantesco que ela faz na internet.
A gente sabe que por essa eles não esperavam. Não esperavam a Erika Hilton e ela chegou e deu um golpe neles e aqui ela está fazendo esse trabalho incrível. A internet tem um papel crucial para que a gente avance com inúmeras pautas. Muito obrigado.
Para fazer uso da palavra, chamo o senhor Luciano França de Azevedo, voluntário do Centro Acadêmico de História do Colégio Pedro II.

O SR. LUCIANO FRANÇA DE AZEVEDO – Boa tarde a todos e todas! Cumprimentando a mesa. Sou Luciano França, graduando em História, no Colégio Pedro II, Campos Realengo. Meu tempo é muito curto, basicamente é para dizer que é importante lembrar da categoria dos trabalhadores 6x1, mas temos também no Rio de Janeiro aproximadamente 80 mil pessoas que trabalham na condição de trabalhadores intermitentes, que estudam, que têm família, que trabalham e, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos (Dieese), em 2023, esse contingente populacional de trabalhadores recebeu menos que um salário mínimo e em condições de vida muito precárias.
Nós alunos do Colégio Pedro II, na sua grande maioria pessoas negras, periféricas, trabalhadores, passamos por uma situação muito delicada no que diz respeito à assistência estudantil, à precarização da nossa condição naquele espaço de educação, que para nós é muito caro. Diante de tudo isso, nós viemos aqui, eu e meu colega Pedro Paulo, que está ali e que está numa condição também bem delicada para estudar, assim como eu, passa por muitas dificuldades para estar naquele espaço, com vários atravessamentos, lembrando que educação nesse país um dia para a gente foi negada por lei. Nós, população negra, um dia, tivemos negado o direito a usar sapatos e hoje nos negam o direito à vida. É por isso que nós estamos aqui e estamos na luta. Obrigado.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado. Para fazer uso da palavra, eu chamo o Senhor Daniel Vasconcelos, confeiteiro influente e apoiador do Movimento Vida Além do Trabalho.

O SR. DANIEL VASCONCELOS – Salut e Ça va. Bom dia. Não sei se vou conseguir falar tão bem quanto os outros colocados, vocês estão de parabéns. Quero agradecer ao Rick Azevedo. Eu me sinto muito honrado e lisonjeado de estar aqui me fazendo presente nessa audiência tão importante. Dizer que te conheci ano passado, antes mesmo de viralizar na internet, e já me identifiquei com a pauta, porque eu sei o que é acordar quatro horas da manhã, com o pé latejando, pegar ônibus lotado, chegar ao trabalho, ficar oito horas em pé, voltar e ainda ter que fazer janta. Que dirá as pessoas que precisam estudar para faculdade ou para um curso, as pessoas que querem se especializar para crescerem na vida, para se profissionalizarem. E, desde já, quero dizer aos empresários que se utilizam da falácia de que a economia do país vai quebrar, que não conseguiriam dar conta de continuar com o mesmo salário ou aumentar o salário e diminuir a escala, esses empresários são incompetentes.
Gostaria também de mandar um beijo para a Erika Hilton, sou muito seu fã. Eu vislumbro a sua posse na presidência, não simplesmente pelo fato de vermos uma travesti na presidência, mas porque onde você está já faz muita diferença. E sempre que você se sentir cansada, lembre-se disso: você faz diferença! Muito obrigado, gente.
(Assume a presidência a Vereadora Thais Ferreira)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Convido a Senhora Maria Luiza Cortes, coordenadora do Movimento Tarifa Zero RJ, para fazer uso da Tribuna Marielle Franco.

A SRA. MARIA LUIZA CORTES – Oi, gente, boa tarde!
Nossa, estou muito nervosa de estar aqui, gente. Eu sou a Malu Cortes, coordenadora do Movimento Tarifa Zero RJ e acho que é isso. Como o tempo está curto, é importante a gente falar sobre o a campanha que a gente está colocando na rua, Tarifa Zero no Enem, para garantir que a juventude pobre e periférica consiga não só fazer a prova, mas acessar a universidade. A gente sabe que a juventude tem uma grande barreira, que é como é que a gente acessa a universidade quando o transporte compromete mais de 30% do nosso salário.
Então, quero dizer que estou muito junta com o Rick nesta luta contra a escala 6x1 e que pautar a tarifa zero é muito importante para que a gente consiga garantir qualidade de vida para toda a população. Assinem o nosso manifesto. Está lá na nossa bio: tarifazeronoenem.org. E vamos nessa luta, galera.
Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Agora, convido o senhor João Pedro Alves Tavares, representando o Setorial de Transportes do Partido dos Trabalhadores, para fazer uso da Tribuna Marielle Franco.

O SR. JOÃO PEDRO ALVES TAVARES – Boa tarde a todos, boa tarde à Mesa. Queria agradecer ao Vereador Rick pelo espaço de fala.
É triste a gente falar sobre saúde mental numa cidade na qual a gente sofre tanto com transporte, com saúde, com a educação, um estado onde o destino do jovem que é preto e pobre ou é ser explorado ou é morrer por bala. Eros vive!
Gostaria de agradecer também aos movimentos de juventude por estarem aqui presentes, porque se tem um jeito de a gente vencer a escala 6 x1 e lutar por um país melhor é unidos, e com a juventude, pois nós somos o futuro, e está na hora de ocuparmos os espaços.
Pedro, Malu, Washington, faço um chamado a vocês: está na hora de decidirmos o futuro que queremos para a nossa cidade e para nosso país. E é na rua com a população que nós construiremos mudança e um país de qualidade para todo cidadão e cidadã brasileiros.
Senhora Hilton, queria agradecer muito pela sua presença aqui. E peço um pouquinho de paciência, porque em breve vamos construir um Rio de Janeiro de qualidade e um Rio de Janeiro verdadeiramente lindo para todos.
E gostaria de saudar o movimento MTST e dizer: se moradia não é garantia, ocupação é direito.

(Reassume a Presidência o Sr. Vereador Rick Azevedo)

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado, João Pedro. Estaremos juntos! A luta é para valer!
Dando continuidade, eu convido o senhor Thiago Corrêa Silva, assessor da Presidência da Federação Nacional Afro-Brasileira, para fazer uso da palavra, que dispõe de um minuto.

O SR. THIAGO CORRÊA SILVA – Boa tarde.
Eu vou tentar ser conciso, a pedido do Vereador Rick.
Meu nome é Thiago, faço parte da Federação Nacional Afro-Brasileira. A cada 15 dias, nós discutimos, em Madureira, no Fórum de Reparação Histórica ao Povo Negro, junto com entidades do tamanho do Movimento Negro Unificado (MNU), da União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro), Sindicato dos Metalúrgicos essa questão, que é fundamental para o povo negro, que é a escala 6x1. Não precisa enegrecer mais uma vez a memória da escravidão que ela traz.
E esse 6x1 não era uma concessão. Esse um era dado para você poder ir à missa, já que você não podia nem professar a sua fé, lembrando que a gente vem desde 2014 sofrendo um desmonte, após o impeachment da Presidenta Dilma, de seis anos de um governo que faz reforma trabalhista, reforma da previdência e do novo ensino médio. E vai culminar nessa luta que estamos aqui, agora.
Lembrando, mais uma vez: nenhum direito que foi conquistado pela classe trabalhadora é uma concessão. É fruto de luta e conquista. É fruto de organização do movimento social, do movimento negro, movimento operário e movimento estudantil. Então, o que estamos fazendo aqui nada mais é que reivindicar os nossos direitos, as nossas conquistas.
Queria agradecer pelo espaço concedido mais uma vez, e lembrar que, caso possam aparecer, a cada 15 dias, em Madureira, diante do decano Iêdu Ferreira de 92 anos, discutimos reparação histórica ao povo negro. E essa luta inclui a escala 6x1.
E queria deixar um recado para a Vereadora Thais Ferreira: se a senhora se candidatar a síndica do seu prédio, ou a governadora do estado, estaremos juntos com a senhora.
Obrigado.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Muito obrigado. A gente agradece cada contribuição.
Antes de passar para a nossa fala esperada, eu quero também dar a minha pequena contribuição rápida de um jovem que veio da escala 6x1, que veio de um trabalho precarizado, que trancou três faculdades e não conseguiu concluir, devido a este Brasil que sucateia, que tira as nossas possibilidades, que tira as nossas chances de ser grande, de ser profissional, de contribuir para que este país seja melhor. Porque não tem como um Brasil ser melhor com a maioria das pessoas sucateadas, sem o básico.
A gente vê um projeto de Brasil que é um pequeno grupo tendo tudo e outro grupo com nada. Eu sou um jovem que veio da escala 6x1, com três faculdades não concluídas, devido a este modelo que tira a nossa possibilidade de estudar. A minha mãe está aqui na frente, e o que mais ela sofria era quando eu falava para ela: "Mãe, eu vou trancar este curso, porque eu não aguento mais, eu não consigo mais". E ela chorava muito e falava: "O que eu posso fazer por você?" – infelizmente, nas condições, a gente não tinha como fazer nada, senão trancar o curso mais uma vez. E veio a primeira vez, e veio a segunda vez, e veio a terceira vez. Com isso, a gente vai morrendo por dentro. Porque toda vez que você desiste de um sonho você morre um pouquinho. Esse discurso é muito importante, como os discursos importantes que ouvimos aqui, agora.
Quero passar também para a nossa Deputada Federal Erika Hilton, para que ela traga essa clareza, essa firmeza, para trazer esse direcionamento para a gente criar este compromisso, que é urgente. Os estudantes, os universitários precisam de um equilíbrio entre vida profissional e pessoal. A gente precisa bater na tecla: estudante precisa ser tratado com seriedade, com responsabilidade, até porque é o futuro do país.
E como será esse futuro do país, se os estudantes, muitas vezes, não têm tempo nem para chegar à universidade? E aí, quando chega, não tem tempo para continuar na universidade. E tranca o curso. Como será o futuro desse país, com os estudantes nesta escala escravocrata? É por isso que eu vou convidar a nossa Deputada Federal Erika Hilton para nos ajudar, para nos direcionar.
Com a palavra, a Excelentíssima Deputada Federal Erika Hilton.

A SRA. DEPUTADA FEDERAL ERIKA HILTON – Boa tarde a todas a todos a todes.
Que alegria estar com vocês aqui nesta Câmara Municipal. Mas, antes de começar a minha fala, quero dizer que eu sinto o ar denso, um nó na garganta, um sufocamento na gola da camisa, mas que não está relacionado ao ar, não está relacionado à camisa, está relacionado à arquitetura desta Câmara Municipal. Que lugar é este? Que cara é esta? Que povo é este? Eu não me sinto na Casa do Povo, eu me sinto num tribunal da inquisição. Eu me sinto em um lugar onde a memória de escravocratas, bandeirantes, aqueles que odeiam o povo brasileiro permanece enaltecida e tratada como algo profundamente relevante.
Essas obras, essa arquitetura, aquela simbologia de cruz não são algo que simboliza o Brasil preto, pobre, indígena, trabalhador, precarizado, desassistido. Este é um reflexo do saudosismo do Brasil Colônia, daqueles que querem que os nossos corpos continuem da porta para fora, daqueles que se acostumaram a nos ver ajoelhados diante deles, seja para atender aos seus prazeres nas esquinas de prostituição, ou com as costas à mostra para sermos chicoteados. E, para este Brasil odioso, para este Brasil que quer nos enxergar de cima para baixo – e de joelhos –, nós dizemos: nós nos levantamos com coragem, com garra, com valentia, com ousadia, com rebeldia. Estamos promovendo novos métodos e mecanismos de produzirmos a política.
Esta cara de Brasil não nos representa. Este saudosismo de Brasil não é o Brasil que nós queremos contar, que é o Brasil de Zumbi, que é o Brasil de Lélia Gonzalez, que é o Brasil de Sueli Carneiro, que é o Brasil de Marielle Franco! Este é o Brasil que nós queremos contar, que não está retratado aqui. Graças nós temos de maneira muito triste, marcadas ali, pelo menos, com a imagem e o nome de Marielle Franco, que é esta arquitetura, porque eu acredito muito na semiótica.
Acho que a maneira como nós nos apresentamos, a maneira como as coisas são colocadas é muito mais do que apenas um detalhe; elas carregam uma simbologia. Não é difícil entender por que uma vereadora negra, que defendia o que defendia foi executada da maneira brutal como Marielle Franco foi executada, porque este Brasil que nós estamos vendo retratado nos quadros, nessas cadeiras cafonas, horrorosas e desconfortáveis, este Brasil não tolera que mulheres como Marielle Franco, que mulheres como eu ergam as suas vozes e se imponham diante das injustiças.
Nós continuaremos a nos impor. Nós continuaremos a gritar e a denunciar que essa escala de trabalho que nós estamos denunciando e trabalhando contra é uma sofisticação do que foi a escravidão. Nós a colocamos na boca do povo como a escravidão moderna, aquela que não permite que o trabalhador tenha direito ao estudo, que o trabalhador tenha qualidade de vida, que o trabalhador tenha direito à profissionalização. É morrer para trabalhar.
É isso que faz: rouba a dignidade, rouba a cidadania, rouba a família, no fim do mês te dá uma miséria de salário e te obriga a sobreviver com esse lugar. E ainda criam narrativas falaciosas das mais diversas naturezas. Dizem: “O trabalho dignifica. Vocês não querem trabalhar. Vagabundos! É por isso que o Brasil não vai para frente” e não sei o que mais, não sei o que lá.
Eu me lembrava da frase que estava escrita nos portões de Auschwitz pelos nazistas, da mesma natureza, sobre a dignidade do trabalho para matar, para torturar, para destruir toda uma população. Essa história de tentar engambelar, enganar, persuadir o povo que luta por mais qualidade de vida, que luta por mais dignidade, que luta por mais direito com a falácia de que nós temos que trabalhar até a morte não é uma novidade. Os nazistas usaram isso. Os escravocratas usaram isso.
E nós vimos para que mundo, para que sociedade e para que lugar a sociedade caminhava. Nós precisamos fazer o caminho contrário, inclusive, porque eles não têm sequer a decência, a inteligência e a capacidade de reelaborarem as suas discussões, de reelaborarem os medos que projetam no povo brasileiro, na sociedade de um modo geral.
Quando foi para se discutir a abolição da escravidão, aqueles que defendiam a escravidão como modelo de trabalho diziam que isso significaria a ruína da economia, que o pais não suportaria um povo livre, com direito, com carteira assinada, com moradia. E não foi isso que a abolição da escravidão fez, porque foi falha, foi fraude. Mas a economia não foi destruída quando a abolição da escravidão aconteceu.
O debate sobre economia foi colocado também quando se falou da licença remunerada para as mulheres mães, quando se falou do 13º salário, quando se falou sobre férias, porque no fim do dia não se trata de economia, porque no fim do dia não se trata de números.
É óbvio que os números são importantes. Eu sou uma deputada federal. Rick Azevedo é um vereador. Nós não podemos ser levianos ao debater questões estruturais da sociedade; nós não podemos ignorar os números e fazer simplesmente um discurso militante, ativista. O nosso discurso não é militante e ativista apenas, porque também tem militância e ativismo porque é uma militância pela vida, é uma militância pela dignidade humana, é uma militância pelo respeito ao ser humano. Sem ele, não tem número que pare de pé.
A economia não existe sem as pessoas. Os números não podem se manter iguais se nós não tivermos a força de trabalho, se nós não tivermos a humanidade. E a humanidade é sempre secundarizada em detrimento da visão sobre os números.
Nós não estamos ignorando os números. Nós estamos sentando com economistas, com técnicos, com pessoas responsáveis para dizer como é que nós podemos fazer uma transição justa, equilibrada, que pare de pé, que não destrua o país, como nós sabemos que não vai destruir. Agora, é preciso dizer com todas as letras, em momento algum essas pessoas que fazem discursos, inclusive apavorantes, usam tabelas, gráficos, slides – eles adoram PowerPoints, não é de agora – e usam para dizer: "Olha, se nós fizermos essa mudança, é esse Brasil devastado que nós encontraremos.”
Nunca foi sobre a economia e, sim, sobre não garantir dignidade ao povo; e, sim, por manter as pessoas aprisionadas nas mazelas, nas misérias. Foi sempre sobre não garantir que os pobres, oprimidos, vulneráveis, aqueles que estão nos andares de baixo, pudessem sonhar com os andares de cima. Foi por continuar a nos manter aprisionados naquela ideia de que o pior para nós é o melhor, de que nós temos que nos contentar com o pouco porque afinal o nosso galardão, a nossa vitória, a nossa grande conquista, está em outro plano.
Não seria aqui que a gente tem que ter tempo de descanso, tempo com a família, dinheiro para fazer um churrasco, para ir numa festa, para comprar uma roupa para os filhos. Não, sofram na terra para herdarem algo que está lá no abstrato, que está lá do outro lado. Esta teoria para confundir, enganar, persuadir significa uma busca pelo aprisionamento mental e físico daqueles que são olhados como cidadãos e cidadãs de segunda classe.
Nós não somos de segunda classe. A nossa cidadania não pode ser negociada em nome de nada e nem de ninguém. As nossas vidas importam, o nosso descanso importa, o nosso direito ao acesso sua universidade, professora Luciana, importa. Alguém levantava um cartaz muito interessante, falando que o acesso não pode parar na catraca. E nós estamos, ainda, lutando, pois a educação não pode parar na catraca, tarifa zero, direito à cidade, que é negado por essa visão de pessoas que estão no andar de cima sobre aquelas que estão colocadas no andar de baixo.
A luta contra a escala 6x1 é uma luta por dignidade, é uma luta por olhar o trabalhador como peça importante da economia. É uma luta por respeitar o trabalhador como ser humano que tem sonhos, que tem medos, que tem dores, que sofre e chora por não poder conviver com a sua família, por não poder ver o seu filho, por não estar com a sua filha. Porque esses são os relatos que nós escutamos nas ruas do Brasil inteiro: “Deputada, quando é que essa escala vai acabar?”
O Rick aqui dizia que trancou três graduações. Quantas mães que dizem: "Eu não vejo meus filhos, porque quando saio estão dormindo, e quando volto já estão dormindo". Será mesmo que a nossa vida, que o nosso tempo com a nossa família, que o direito à nossa religiosidade... e é curioso, porque aqueles que se levantam contra a derrubada da escala 6x1 são os mesmos que dizem defender a religião, são os mesmos que dizem defender a família, são os mesmos que dizem defender o povo brasileiro.
Que família é essa em que uma mãe não pode conviver com a sua filha? Que família e religião é essa que um trabalhador não tem direito de ir ao seu terreiro, ao seu culto, à sua missa, na sua Seicho-No-Ie, aonde quer que seja, porque tem que trabalhar para continuar a enriquecer uma família que enriquece desde a invasão do Brasil.
Se o trabalho dignifica, se o trabalho engrandece, se o trabalho é a única possibilidade de um Brasil melhor, justo e equânime, por que será que os bilionários... por que será que a família Safra nunca trabalhou e já nasceu em berço esplêndido? Por que será que os banqueiros nunca trabalharam e são donos de grandes fortunas no país? Como é que o trabalho dignifica e essas famílias, donas de fortunas no país. Como é que o trabalho dignifica, e essas famílias donas de fortunas bilionárias nunca lavaram um copo, nunca pegaram um transporte público, nunca colocaram um despertador para as 5 horas da manhã? Será mesmo, será mesmo que é o trabalho que dignifica?
Por óbvio nós, em momento algum, fizemos uma discussão antitrabalho. Não é que nós somos contra o trabalho: nós somos contra a exploração, nós somos contra a desigualdade, nós somos contra as injustiças sociais, nós somos contra as pessoas trabalharem até morrer.
Saiu um dado recente da previdência que mostra o tanto em bilhões – eu tenho esse número marcado em algum lugar, deixa eu ver se eu consigo pegar rapidamente aqui nas minhas notas –, R$ 3 bilhões, em que se estima o impacto no INSS do afastamento de quase 500 mil pessoas, meio milhão de trabalhadores que foram afastados por transtornos mentais. E aí tem uma série de categorias que levam a esse lugar, por conta da exaustão da jornada de trabalho. A quantidade de ações envolvendo adoecimentos e acidentes de trabalho por conta de jornadas exaustivas do ambiente de trabalho.
Nós estamos falando de um dia de folga. Quando se é mãe, quando se é mulher, quando se tem uma família, nunca existiu, porque esse único dia, que deveria indignar a sociedade, se torna mais um dia de trabalho para tentar ver como está o filho na escola, para ir atrás da vaga na UBS, para tentar resolver as demandas da casa, sem falar que, na maioria das vezes, essas mulheres fazem jornadas triplas, quádruplas, quíntuplas.
Chegam do trabalho, vão fazer comida, vão organizar a casa, vão dormir à 1 hora da manhã para levantar às 5 horas, para pegar transporte lotado, para pagar uma tarifa caríssima, para usar um serviço que não funciona, que não presta, que não respeita o trabalhador.
Quando nós debatemos o fim da escala 6x1, nós não estamos apenas debatendo uma redução de uma modernização de um saudosismo escravocrata, de um olhar ao trabalhador desumanizador. Nós estamos debatendo todas essas questões que eu trago aqui, nós estamos tentando dizer que avançar nesse lugar é garantir uma sociedade melhor, equânime, justa, digna.
Não é possível que empresas tão grandes, que recebem muito dinheiro, não compreendam a importância de respeitar o seu trabalhador, não compreendam a dignidade. E não compreendem, não compreendem não só as empresas.
Eu fui relatora, há duas semanas, eu sou da Comissão do Trabalho e presidente da Subcomissão da Escala 6x1 na Câmara dos Deputados, e há duas semanas eu fui relatora de um projeto e devo ser relatora de outro. Eu acho que é importante falar disso aqui para que nós possamos olhar e enxergar este Brasil desigual, este Brasil que ainda acha bonito a catequização dos povos indígenas, do povo negro, os bandeirantes. O meu projeto – que não era meu, era de autoria de outra deputada, eu só relatava, não me lembro do nome da deputada agora – tratava da necessidade de garantir às trabalhadoras domésticas o ticket refeição ou alguma alimentação.
Então, vejam, nós estamos em 2025, quase 2026, e nós estamos discutindo que uma mulher que trabalha em casa de família, como todas as minhas tias trabalharam a vida inteira... Talvez por isso eu seja uma mulher tão forte, porque neta de Zumira Baiana, vinda de Feira de Santana, enfrentando São Paulo nas costas, com tias empregadas domésticas, que saíram de Francisco Morato, região metropolitana, pegavam trem lotado até a capital para trabalhar em casa de família. Voltavam com as histórias das humilhações que sofriam nas casas dessas mulheres.
E quando me perguntam: “Deputada, a senhora é muito arrumada, muito emperiquitada, de onde vem isso? O que a senhora acha?”. Esse lugar vem das minhas tias empregadas domésticas que levantavam mais cedo para se arrumar porque não queriam ser destratadas pelos porteiros, porque não queriam ser humilhadas pelos outros vizinhos da casa das famílias onde elas trabalhavam. E para elas era dignidade se arrumar, colocar suas joias, seu perfume, pegar sua bolsinha, ir para o trem perfumada. É deste lugar que eu aprendo a ser vaidosa, a me cuidar, a olhar para aqueles que me enxergam de cima, querendo que eu olhe de cabeça baixa. Não vou olhar de cabeça baixa, porque minhas tias, minha avó, minha mãe nunca abaixaram a cabeça diante da adversidade da vida e me ensinaram a ser forte, a ser valente, a enfrentar com a cabeça erguida. E essas mulheres que me contavam essas histórias trabalhavam na casa dessas famílias sem nenhuma garantia. E eu tinha 5, 6, 7 anos de idade, me lembro das reuniões na casa da minha avó. E em 2025 estou relatando um projeto na Câmara dos Deputados que diz: “Olha, empregada doméstica tem fome. Olha, empregada doméstica também se cansa. Olha, empregada doméstica precisa de alimentação para limpar a sua casa”. Percebem onde nós estamos?
E aí, para descer a camada da desigualdade ainda mais baixo, eu acabo de ser designada relatora do Projeto Sônia Maria de Jesus. O Brasil de 2025 tem uma mulher surda e negra que não foi alfabetizada em Libras, que foi tratada como escravizada na casa de um desembargador, encontrada em situações degradantes. Mas o desembargador disse: “Ela é da família”. E o sistema de justiça pegou essa mulher como se ela fosse um pedaço de papel ou de carne barata, como cantou Elza Soares, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, e devolveu para a mão do desembargador. Isso não é 1500, isso não é na época desse quadro, isso é 2025, e uma mulher negra, surda, não alfabetizada, com os dentes apodrecidos, foi devolvida para seu senhor, para seu escravocrata, que assim como os outros, menos perversos, disseram: “Ela é da família”. Ela é da família, mas não come na mesa; ela é da família, mas não tem assistência médica; ela é da família, mas não foi escolarizada; ela é da família, mas não foi alfabetizada; ela é da família, mas nós não garantimos uma refeição ao dia para ela.
Percebem o que nós estamos debatendo quando nós estamos debatendo o fim da escala 6x1, quando nós estamos debatendo a luta por moradia digna, quando nós estamos debatendo a luta por acesso para toda a população trans à universidade? Nós estamos ainda debatendo o direito a sermos humanos. Nós estamos ainda debatendo o direito de não nos olharem como escravizados, animalescos, não humanos. Porque, com as suas dosimetrias, dadas as devidas proporções, no fim do dia, todos esses lugares nos tratam da mesma maneira, nos enxergam da mesma maneira, querem e esperam o nosso corpo no mesmo lugar.
Nós avançamos – para concluir, porque imagino que o meu tempo deva estar se esgotando – e, por mais duro que seja fazermos uma análise de conjuntura, e o Rick dizia, nós precisamos falar da vida para além da militância também, porque, poxa, nós estamos cansados. Eu fui expulsa da minha casa aos 14 anos de idade e vivi nas ruas, me prostituí para não morrer de fome a minha adolescência inteira, e desde o momento em que eu fui expulsa da minha casa e descobri qual era o meu lugar no mundo, ou pelo menos qual era o lugar que queriam me colocar no mundo, porque eu não aceitei e tive as oportunidades necessárias para romper com esse lugar, eu luto da minha maneira.
Antes, eu lutava numa esquina com as minhas colegas, sem conhecer a política, sem conhecer os cânones da literatura, sem conhecer nada disso. Lutava para não ser assassinada por um cliente, para não ser assassinada pela polícia, para não termos aquela realidade. Depois, eu volto para minha casa, reato com a minha família, sou a primeira da minha família a ingressar numa universidade pública, vou para São Carlos, na Universidade Federal de São Carlos, milito com o movimento estudantil, ocupo reitoria, faço todo... Porque eu sempre fui assim, um pouco espevitada, digamos. Fundo um cursinho pré-vestibular para as pessoas trans na USP de São Carlos e milito, milito, milito, milito, milito, milito... Depois, volto a São Paulo, me torno codeputada estadual – como a querida Thais F
erreira se lembra do nosso encontro na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo –, me torno vereadora, estou deputada federal, e em nenhum desses momentos, parei de lutar por aquilo em que acredito. Em nenhum desses momentos, desisti de olhar para a minha história e para a história dos meus ancestrais e entender que só a luta foi capaz, inclusive, de produzir essa discussão que nós estamos fazendo. Que só a luta é capaz de produzir movimentos como a nossa juventude Fogo no Pavio, como o movimento Rua, como o MTST, como o VAT, como tantos e tantos outros movimentos sociais que, apesar das dificuldades e dos desafios que enfrentamos, abriram caminho para que nós pudéssemos passar. Que foi só a luta que permitiu que os grilhões da escravidão fossem rompidos, que os porões da ditadura fossem fechados, que eu, enquanto travesti negra, pudesse andar à luz do dia. E, mesmo assim, ainda hoje corro muito perigo, muito risco de andar à luz do dia. Porque não querem o nosso corpo à luz do dia. Porque não querem as nossas bocas abertas, gritando e denunciando este Brasil covarde, este Brasil injusto.
E eu sei que cansa, porque essa é a minha jornada, essa é a minha trajetória empírica e pessoal. Eu estou exausta! Eu estou exausta de lutar. Eu estou exausta de ser atacada. Eu estou exausta de brigar por questões óbvias. Mas todas as vezes que me sinto no limite das minhas forças, lembro-me das palavras que um jovem disse para mim agora na tribuna. Lembro-me da mãe que chora quando me abraça na rua. Lembro-me de Luiz Gama. Lembro-me de Chica Manicongo. Lembro-me de Luísa Mahin, lembro-me de Marsha P. Johnson. Lembro-me de Andrea de Mayo. Lembro-me de Brenda Lee. Lembro-me daquelas que não recuaram, não desistiram, não abaixaram a cabeça e possibilitaram que eu fosse Erika Hilton. Eu só sou Erika Hilton por aquelas que abriram caminho para que eu pudesse passar.
E, por mais que nos sintamos esgotados, quero dizer a vocês: não desistam, não permitam que matem os nossos sonhos. Carolina Maria de Jesus – que amo, admiro e respeito incansavelmente – tem uma frase que uso sempre: “Nunca foi sorte, sempre foi audácia.” Possamos ser audaciosos. Tenham audácia, sejam destemidos, enfrentem com garra, com coragem, de cabeça erguida. Abram seus armários nas suas casas, vistam as suas melhores roupas, arrumem os seus cabelos, porque o nosso bem-estar, a nossa estética, a nossa alegria são uma arma revolucionária contra o ódio, contra a cafonice histórica.
Nos querem caladas, nos querem ajoelhadas. Eu sei que nos querem caladas, ajoelhadas, tristes, com fome, deprimidas, com baixa autoestima. Eles querem isso de nós, mas nós estamos reconstituindo a nossa dignidade. O belo, o potente, o bonito para nós não são um presente, é uma luta. Olhar no espelho e enxergar beleza, imaginar-se em lugares inimagináveis, é uma luta que antecede os nossos passos que vem de muito longe. Honremos os nossos ancestrais. Honremos a nossa história e gritemos, aos mais altos sons, a todos os pulmões, para este Brasil que nos quer ajoelhadas e de cabeça baixa: nós nos levantamos!
E para cada um de nós que tombar, centenas de milhares de nós se levantarão. Vocês não vão nos parar, vocês não vão nos calar. Nós vamos destruir a escala 6x1 e a economia vai ficar de pé. O trabalhador vai ter dignidade . E ergueremos nossas vozes, nossas cabeças e nossos corações. Viva a classe trabalhadora. Viva o povo brasileiro. Viva o movimento VAT. Viva as travestis brasileiras. Viva este país e que nos levantemos sempre diante de um Brasil covarde, injusto, bárbaro e cruel. Obrigada, obrigada. Sigamos adiante na luta, tomando e retomando os lugares que são nossos. O Brasil não é isto aqui. O Brasil somos nós. Nós somos o Brasil. Obrigada.

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Com luta, com garra, a 6x1 acaba. Com luta, com garra, a 6x1 acaba. O que falar depois dessa potência, depois dessa voz.
“O povo sem medo, sem medo de lutar. Aqui está o povo sem medo, sem medo de lutar”. Depois desse discurso potente, rico, desse discurso que contribui para que a gente tenha força, para que a gente tenha coragem, para que a gente tenha direcionamento, para que a gente não tenha medo. É um discurso que nos tira qualquer tipo de medo. Se alguém aqui estava com medo, é impossível continuar com medo depois dessa fala potente, depois desse discurso encorajador.
Erika Hilton, neste momento, eu quero entregar a maior honraria a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em nome da sua luta, em nome do que você representa, em nome da sua importância para a luta pelo fim da escala 6x1. Não é só uma honraria, é um respeito por Vossa Excelência, é um carinho, é um amor, é uma solidariedade ao que você enfrenta todos os dias nesse país de cabeça erguida para nos defender. Para continuar dizendo lá no Congresso Nacional: “Vai acabar com a escala 6x1. A gente não vai arredar o pé. Eu sei falar com vocês de igual para igual. Se quer discutir economia, a gente vai discutir economia. Se quer discutir questões humanas, a gente vai discutir”.
Então, essa honraria é para dizer muito obrigado pela sua força no Congresso.

(Entregam-se a resolução, o diploma e o Conjunto de Medalhas de Mérito Pedro Ernesto)

O SR. PRESIDENTE (RICK AZEVEDO) – Mais que merecido.
Gente, estamos encaminhando para o final. Pode sentar novamente, Deputada Érika Hilton.
Quero agradecer novamente a presença de cada um que está aqui presente. É um debate que é urgente, é um debate necessário. Estou extremamente feliz pela riqueza que a gente conseguiu reunir nesse debate de hoje. É um debate para a gente enquadrar essa gente, para a gente enquadrar essa gentalha que continua financiando os direitos e a vida da classe trabalhadora. É um debate para dizer para essa gente: “Nós estamos aqui”. Como bem disse a nossa deputada federal Erika Hilton: “Essa casa, a estética, não nos representa”, mas nós estamos invadindo para moldar esse lugar, para mudar o ambiente, para moldar as caras, para colocar novas pessoas, para colocar os movimentos sociais, para dizer para essa gentalha que eles não criaram e não são proprietários de nada.
Essa casa é do povo, é construída pelo povo, quem constrói a economia é o povo. Aqui, muitas vezes, vereadores e vereadoras falam que estão na Casa há quase 30 anos e, por isso, acham que são mais vereador ou mais vereadora. Eu cheguei agora, mas eu cheguei com o voto do povo, cheguei com uma luta legítima, cheguei com uma luta que representa aqueles que estão na base da pirâmide, que estão no supermercado, que estão na farmácia, que estão no posto de gasolina, que estão no shopping, que estão no call center, que não têm moradia, aqueles que estão nas universidades e não têm direitos, aqueles que são negligenciados na base e que só são usados para manter essa tal economia, porque, aí, sim, para usar as pessoas, as bases das pirâmides para manter a economia, serve, mas quando é para dar direitos para essas pessoas que sustentam este país, aí a gente tem que estudar, a gente tem que ver, então não caiam nessas falácias.
Na última terça-feira, eu tive uma audiência pública no Senado Federal e os argumentos econômicos são mais rasos que um pires, não têm profundidade, não têm vivência, falando que o trabalhador trabalha em média 39 horas, 40 horas. De que Brasil essa gente está falando e de que cidade? Nós estamos falando de um Brasil que tem um transporte público precarizado. Nós estamos falando de trabalhadores e trabalhadoras que levam em média uma a duas horas para ir para o trabalho. Nós estamos falando de trabalhadores que não conseguem ter seis horas de sono porque não têm tempo.
Então, eu espero e eu peço encarecidamente que nós saiamos daqui compromissados com esse debate que é sobre a vida de cada um. Eu sei que, por mais que a gente esteja lutando pelo tempo que a escala seis por um nos roubou, não vai ser retornado para as nossas vidas, mas a gente pode conseguir um grande feito nesse país, que outras gerações, que outros trabalhadores e trabalhadoras não passem pelo que eu passei e pelo que vocês passaram. O que nós passamos é cruel. É tirando o direito de viver a própria vida. É tirando o direito de se qualificar. É tirando o direito de ser família. É tirando o direito de ser estudante. É tirando o direito à cidade. É tirando o direito de poder ser ser humano.
Saio daqui hoje fortalecido, saio daqui hoje firme. Sim, estou cansado. A luta cansa. A luta além da militância não está acontecendo, mas é por um motivo maior. É por uma causa maior. É por um Brasil maior. E, por isso, eu não vou desistir. E, por isso, eu vou continuar aguerrido. E, por isso, eu vou continuar enfrentando quem tiver que enfrentar para colocar essa escala no lixo da história. Nós temos que colocar a escala seis por um no lixo da história desse país. Não dá para se conformar, não dá para dormir em paz sabendo que a classe trabalhadora tem sequer 24 horas para cuidar da sua vida, dos seus afazeres domésticos, de estudar, de ser pai, de ser mãe, de ser tia, de ser filho... Isso é um crime contra a humanidade, crime contra os brasileiros. E nós continuaremos denunciando essa escala que tira a vida das pessoas, essa escala que mata. Nós estamos falando de um modelo de trabalho que mata. Muito obrigado.
Dando prosseguimento, passaremos agora à entrega das Moções de Aplausos e Reconhecimento. Convido o meu chefe de gabinete para anunciar os nomes dos homenageados.
Por aqui, finalizo, e vou entregar as Moções. Muito obrigado. Viva a classe trabalhadora! Viva os movimentos sociais! Viva a Erika Hilton! Viva a Thais Ferreira! Viva o MTST! Viva o movimento VAT! Viva o Fogo no Pavio! Viva o Movimento RUA! Viva o Movimento Ela por Elas. Viva a classe trabalhadora!
Está encerrado o Debate Público.

(Encerra-se o Debate Público às 13h25)




LISTA DE PRESENÇA

Daniel Vasconcelos; Michel do Nascimento; Thiago Correa Silva; Carlos Abano; Francisco José; Ana Carolina Moreira Rodrigues Silva; Andre Lucas Cardoso Mattos; Alexander Dias Almeida; Rosilene Almeida; Jorge Luiz Franco; Aline Michele Gomes dos Santos; Laura dos Santos; Antonio Custodio de Oliveira Neto; Ubiratan José de Souza; Cristiane Santana Nascimento Lima; Everton Luiz Cassol; Felipe Said Bacelar; Pedro Emmanuel Gonçalves da Silva; Patricia de Carvalho; Kerley Teodora de Arruda; Arthura Ammostásiya; Liliam Cristina Gomes; Lucimar Gomes dos Reis; Paulo Cezar Honorato; Ana Carolina Mendes; Guilherme Conceição; Pedro Otavio; Jordane Carvalho da Silva; Giovana de Lima Cabral; Gregory Magalhães Costa; Pedro Paulo Alves e Silva Junior; Brenda Edaurda Souza Quinta; Marcia Maria Ribeiro Rufino; Dinah Alessandra Fonseca Barros; Rayssa Melo Magalhães; Andreia de Nascimento Carvalho; Ubirajara da Silva Araujo; Gabriel Borges; Antonio marcos da Silva Junior; Jonas Magalhães; Aline Magalhães; Alessandro Moizinho; Marcelo Marques da Cruz; Rogério B. dos Santos; Fabio Soares da Fonseca; Rafael Ribeiro Nascimento; Eliane Carvalho; Luiz Guilherme Alves Tavares; Vitor Lourenço; Tuanore Arruda; Heitor Arruda; Ronaldo Tavares; João Pedro Alves Tavares; Clarice Rodrigues Pinheiro; Clarice Joana Simões Valeriano; Ingrid Maria Honorato da Cunha; Regiane Mendes; Marcos de Carvalho Dias; José Antonio dos Santos; Marcia Carolina Manhaes; Rafael Manhães Rufino; Sara Santana; Maria Luiza Cortes; Caio Henrique Peixoto; Marina Alves da Silva; Francisco Pinto de Monteiro; Murilo de Oliveira Carvalho; Katelyn Carvalho; Leandro Fraga Cardoso; Isadora Gomes Sampaio; Ieda Maria Cordeiro; Maria Laide da Silva; Anderson Moraes da Silva; Roger Gomes Do Monte; Nicolas Calabrese; Sara Isa Leandro da Silva; Brenda Marques; Camila Peçanha; Lara Telima; Leonel Telima; Wanderson Matheus de Almeida Schwantes; Ariane da Silva Pereira; Helton Jhon de D. Nunes; Paulo Portilho; Yuri de Lima Neto; Milena Rodrigues; Tatiane Alves dos Santos; Gustavo F. de Oliveira; Anna Beatriz de Mendonça de Souza; Eduardo Benfica Ezequiel; Braulio Bicalho Cruz Amaral Quirino; Paulo Cesar Pereira; Iara Maria Honorato; Annah Asad; Francisca Ivanir Silva Dias; Clara Canedo Figueiredo; Luciano França de Azevedo; Fabio Paiva; Washinton Yuri da Silva dos Santos; Max Lacerda Cabral Junior; Kawan Pedroza Lores; Andressa Azevedo; Veridomar da Gloria; Juliana da Silva Drummonde; Edaurdo Campos; Eloi S. dos Santos Freitas; Douglas Vieira.