Presidência da Sra. Vereadora Tainá de Paula.
Às 10h24, no Auditório Vereador Aarão Steinbruch, sob a Presidência da Sra. Vereadora Tainá de Paula, tem início o Debate Público com o tema “Cineclube Escolar”.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Senhoras e senhores, bom dia. Dou por aberto o Debate Público sobre o tema “Cineclube Escolar”.
A Mesa está assim constituída: Senhor Marco Aurélio Correa, cineclubista e professor da Secretaria Municipal de Educação; Senhora Joana Oscar, Gerente de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação; Senhora Martha Rocha, Gerente de Leitura da Secretaria Municipal de Educação; e Senhora Tatiana Carvalho, Presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan).
Quero aproveitar aqui e registrar as seguintes presenças: Senhora Virgínia Limbergher – perdão pela pronúncia, se estiver errada –, diretora na Sincrocine Produções; Senhora Maria Elizabeth Reis, voluntária da Associação de Moradores do Pavão-Pavãozinho; Senhora Marise Celestino, assistente da Coordenadoria de Educação Fundamental da Secretaria Municipal de Educação; Senhor Dário Goularte, da Domínio Público Agência Cultural; e Senhora Mônica Rabelo, encarregada responsável das Guardiãs das Matas de Paquetá.
Sem mais delongas, não quero em absoluto retirar aqui a fala dos profissionais, das figuras que estão dedicadas à discussão do Cineclube Escolar. Quero, inclusive, reforçar aqui meu mandato como um tambor de ressonância da sociedade civil, dos movimentos sociais que dialogam diversos setores que são muito caros a nós. Nós temos um grupo de trabalho específico para a cultura carioca que fala, que versa desde a estrutura dos equipamentos culturais, faz o acompanhamento da política municipal, da cultura da cidade, dá à luz algumas discussões que falam e dialogam com outras discussões também muito caras para nós, a cultura periférica, a arte popular, a arte pública, a cultura de rua, a cultura produzida e forjada na rua, na praça da Cidade do Rio de Janeiro. Já mencionei aqui a cultura popular e não posso deixar de falar e reforçar a necessidade do debate cada vez mais racializado sobre o tema.
Então, o mandato da Tainá de Paula é muito preocupado com a cultura afro-carioca brasileira e, portanto, temos algumas leis, algumas iniciativas, no sentido de articulação e, claro, uma cultura que seja cada vez mais acessível àqueles e àquelas que são vulneráveis, que estão em processo de exclusão em alguma medida, seja ela uma exclusão social, seja ela uma exclusão territorial, econômica, racial ou cultural.
Muito a partir dessa chave em que podemos incidir e, na verdade, ter um múltiplo acesso à cultura e como a cultura pode ser lugar de entrada, lugar de saída para um projeto de sociedade, social, civilizatório, que nos inclua e, obviamente, que faça cada vez mais sentido numa sociedade justa. Acho que é um pouco o lugar que orbita a construção e a formação desse mandato. A gente se encontra com iniciativas, não só da sociedade civil com os cineclubistas já, historicamente, organizados aqui na cidade, e uma iniciativa já de longa data instituída de forma organizada dentro da SME desde 2008, a qual ganha corpo na lei federal de 2014, e que finalmente está em processo de regulamentação em 2024, que é o Programa Nacional de Cineclube Escolar e, obviamente, com seus desdobramentos no âmbito estadual e, principalmente, nossa praia aqui, no âmbito municipal também.
Venho falando, venho discutindo muito, fiz um primeiro mandato que discutiu muito como a gente pode ter mais proveito dos equipamentos públicos da cidade, como construímos uma ideia de escola aberta, como falamos do equipamento educacional, não só como equipamento do espaço pedagógico, mas também do complemento de atividades lúdicas e, principalmente, de atividades complementares à formação do cidadão, principalmente em territórios de favela e de periferia.
A escola é, muitas vezes, o único equipamento que se tem com atividades esportivas, atividades lúdicas, com semanas de atividades complementares. E, obviamente, o acesso à Cultura, muitas vezes se faz no ambiente escolar, muito antes até do equipamento cultural.
Além disso, existe, claro, uma estratégia muito clara aqui – não vou fingir que essa não é a tática –, uma profunda vontade de se ampliar cada vez mais a formação de público. A gente precisa investir cada vez mais na formação e manutenção de um público que entenda e compreenda a importância do cinema e do acesso ao audiovisual.
Isso é muito estratégico, isso fala sobre letramento, isso fala sobre se ver em uma tela, isso fala sobre se ver em uma obra de audiovisual, mas também fala da consciência crítica, da formação psicossocial, fala do debate antirracista que precisa ser feito, do autoamor, da autopreservação, da consciência cidadã, cujo entendimento da sua importância também é apresentado a partir do cinema, a partir de outras artes, além, claro, do conteúdo pedagógico, do conteúdo antirracista que a escola pode e deve explorar a partir das leis 10.639 e 11.645, que são grandes instrumentos já legais, instituídos e instaurados aqui na Prefeitura do Rio, na SME e, claro, em todo o território nacional.
Bem, falei de todas as nossas vontades, falei um pouco por que encontramos esse debate tão pulsante aqui, não só nos territórios, nas CREs, nas escolas com que a gente dialoga, mas também com cineclubistas, com ativistas do audiovisual pela periferia e pelas favelas do Rio de Janeiro.
Acho que tudo leva a crer que será um debate muito frutífero, e quero acreditar aqui que, de cara, somos todos aqui muito defensores, muito proativos e muito atuantes na defesa inegociável da cultura carioca e na defesa do audiovisual em todos os espaços onde ele estiver – e ele estará.
Já antecipo aqui o meu agradecimento aos presentes e quero passar ao nosso querido Marco Aurélio, que parece ter uma apresentação, não é isso? Não sei se você quer fazer uma fala introdutória.
O SR. MARCO AURÉLIO CORREA – Bom dia, gente. Antes de começar esta apresentação e dar continuidade ao debate, quero agradecer o convite da Tainá e da Magna. Agradeço a presença de vocês aqui, por estarem levantando essa discussão pública, porque a acho muito importante. A gente já tem anos e anos, e décadas e décadas de cinema na escola, mas acho que é sempre importante a gente reforçar a importância e estar demarcando essa vivência do cinema na escola.
(Inicia-se a apresentação de slides)
O SR. MARCO AURÉLIO CORREA – Viver o cinema na escola, eu acho que é fundamental para as nossas crianças, para os nossos educadores, pensando nesse ponto que a Tainá levantou, de pensarmos nessas formas amplas que o cinema consegue trabalhar na sala de aula, não só como complemento curricular, mas também como complemento de vida, de subjetividade, de Cultura.
Dito isso, faço uma breve apresentação minha. Sou Marco Aurélio, cineclubista, professor da rede, da Escola Municipal Maria de Cerqueira e Silva, situada em Manguinhos. Sou doutorando em Educação na Uerj. Também faço uma pesquisa sobre cinema na escola, cinema e infância, e crianças negras na escola. Faço parte da Rede Kino também e tem esse movimento de pesquisa de cinema e educação. Faço parte do Cine Manguinhos, que é onde está a minha atuação de cineclubista.
E estou aqui principalmente como porta-voz dessas crianças que, infelizmente, não puderam estar aqui presentes hoje, mas estou para falar um pouquinho delas, porque acho que a gente também tem que fazer essa virada de chave quando a gente pensa na questão do protagonismo do cinema, ainda mais pensando no cinema na escola. O protagonismo não está só nos cineastas, mas está nessas crianças, e crianças que também podem ser cineastas.
A minha apresentação vai ser uma proposta de ilustrar essa fala aqui. E acho que, quando a gente pesquisa infância, pesquisa crianças, a gente vê o corpo da criança, a gente vê o sorriso da criança, acho que ele fala muito mais do que discursos acadêmicos, científicos, teóricos. Então, a minha proposta é apresentar um pouquinho mais esses projetos que eu trabalho e mostrar essa relação do dentro e fora da escola com o cinema, pensando em todas essas redes que o cinema tece nos cotidianos escolares.
Nessa proposta que eu trago para vocês, nessa discussão de cinema, Cineclube Escolar, vou falar a partir de dois pontos que eu já comentei aqui, o Cine Manguinhos e a Maria de Cerqueira. Eu quero falar um pouco dessa interseção, desse encontro desses dois espaços de cinema e também justificar, porque eu estou falando de um espaço fora da escola para pensar Cineclube Escolar.
Então, eu saio um pouco dos muros da escola para falar sobre o Cine Manguinhos, que é esse projeto que está ilustrado aí nessa imagem.
O Cine Manguinhos nasce em 2021, um ano depois do meu ingresso na rede, tempo de pandemia, tempo em que a gente tinha a proposta de ocupar esse espaço da Biblioteca Parque, que estava ali desocupado, pensando também em tempos pandêmicos, aquela questão toda de isolamento social, e a gente recebeu um convite de fazer essa ação lá no Cine Teatro Eduardo Coutinho. Essa é a primeira foto oficial do Cine Manguinhos, feita nessa gestão nossa, junto com Manguinhos Cria, junto com a ... A gente trabalha hoje em dia em um tripé, com o primeiro passo, o Cine clube. A gente organizava sessões na Biblioteca Parque, mas em seguida a gente vai também para becos e vielas da comunidade. A gente faz parceria com as associações, moradores, algumas quadras da comunidade, alguns outros projetos para fazer essas exibições de cinema lá.
Outro ponto que a gente faz também são essas idas e passeios no cinema, levando essas crianças da Comunidade Manguinhos, que muitas vezes não tiveram a oportunidade de ir a uma sala de cinema comercial. A gente faz parcerias com algumas instituições privadas para levar esse grupo todo que está ali no registro, para assistir a alguns filmes. E o nosso foco, a nossa ênfase, são filmes de protagonismo negro. Então, a gente os levou para ver estreias do Homem-Aranha no Aranhaverso, Pantera Negra. Depois de dois anos de atuação, a gente inaugura o terceiro ponto desse tripé, que são as formações audiovisuais. A gente realizou no começo desse ano o Labizinho de Cria, uma formação audiovisual de quatro encontros com essas crianças, que eles escreveram o roteiro, eles pegaram nas câmeras, eles fizeram produção, eles fizeram direção, eles fizeram som, bem de guerrilha improvisada.
A gente fez um boom com um cabo de vassoura, bem na correria, na guerrilha, mas trabalhando com os recursos que a gente tem. Foi um edital financiado pela RioFilme. E aí, eu parto desse movimento de pensar esse trabalho com o cinema fora da escola para pensar um pouco também dentro da escola, porque acho que são coisas que se alimentam, o que está fora, o que está dentro, até porque esses sujeitos que estão tanto no Cine Manguinhos como na Maria de Cerqueira, que é a escola que eu trabalho, frequentam os dois.
Então, eu, como professor da Maria de Cerqueira, estou no Cine Manguinhos e crianças da Maria de Cerqueira estão no Cine Manguinhos também. E os do Cine Manguinhos também estão na Maria de Cerqueira.
Aqui, outra imagem do Labizinho de Cria. A gente lá mediando esse acesso com eles, com a tecnologia.
A Maria de Cerqueira é uma escola presente na Leopoldo Bulhões, popularmente conhecida como Faixa de Gaza, era o nome que a gente tenta combater. Mas é uma escola de um território conflagrado. Só que a gente tenta mostrar que esse território, além de conflagrado, é um território potente, criativo. Então a gente convida iniciativas externas para participarem das nossas sessões de cineclubes. Aqui em casa foi uma parceria que a gente fez com a Fiocruz, falando de “Manguinhos, Território em Transe”. E a gente tem representantes do Cine Manguinhos ali e uma representante do Estrelas do Mandela, que é um coletivo de futebol da região. E eles foram apresentar um filme que eles realizaram, falando sobre a história dessa grande querida que não está mais conosco, a Gagui.
Acho que foi uma experiência muito interessante, as crianças que participaram desse treino ver a treinadora deles na escola, ver um filme em que elas participaram também, não é? Então eu acho que, para a gente fomentar esse cineclubismo, é muito importante a gente pensar nos territórios em que estão acontecendo essas escolas e esses cineclubes, fazer uma ligação, uma parceria.
E aqui é um cineclube improvisado. Aquela outra foto era do auditório e essa de cá é um cineclube improvisado na nossa sala de aula, com um projetor lá, um filmezinho que a gente fez também com as crianças – elas estão se assistindo na própria sala de aula. O quadro de aula são eles mesmos, a matéria, o assunto do dia, o dever. O trabalhinho é assistir o próprio filme que a gente realiza. E aí, eu faço esse movimento de produção audiovisual com eles na escola. A gente tem todo um movimento de imersão nesses filmes, imersão na linguagem audiovisual e também a prática, de fato, com essa realização, com esses equipamentos que fazem parte também do acervo do Cine Manguinhos. Esse cinema também, que é vivido na escola, como fala muito bem o Bell Hooks, essa magia do cinema, ela atravessa o muro da escola também quando eu começo a mandar esses curtas feitos pelas crianças na escola para alguns festivais.
Esse, no caso, foi um curta que a gente fez chamado “Criança Faz Ciência”, que foi para o Festival Curta da Uerj, a minha universidade de origem. Ele ganhou menção honrosa de melhor curta infantil. Eu fiz questão de ir lá, não consegui levar as crianças, mas fiz questão de trazer as medalhinhas de volta para eles. Eles estão lá posando com a medalhinha de menção honrosa do próprio filme que eles realizaram.
Recentemente, a gente fez uma parceria também com amostra do filme Marginal, que também é uma amostra que pensa nesse cinema periférico. A amostra fez uma sessão na nossa escola, na Maria de Cerqueira, fomentando esse cineclubismo. Mas também conseguiu pleitear a ida dessas crianças na amostra. Eles levaram o filme deles, foram lá e falaram um pouco do filme, na frente de uma plateia, e também de outras crianças. Foi no Helio Oiticica ali. A outra escola era a Escola Municipal Tiradentes.
Acho que esse ciclo está muito na exibição dos filmes, mas ele não se limita só na exibição. Porque a gente quer fazer esse circular entre o que está dentro e o que está fora e tentar diminuir essas barreiras sociais que estão dentro dos muros das escolas. Mas também há esses muros sociais, culturais, que às vezes acabam tornando esses territórios conflagrados como um espaço de escassez, não um espaço de criatividade.
Para não me estender mais, a gente dá a corda aí. Agradeço vocês pela atenção nessa minha fala. Deixo sempre o arroba da escola, o arroba do Cine Manguinhos também. A gente está sempre fazendo campanhas públicas para pleitear esse cineclubismo que está dentro das escolas também.
Muito obrigado, gente. É isso.
(PALMAS)
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Muito bem, Marco Aurélio. Obrigada pela presença, mais uma vez.
Vou passar aqui a palavra agora para a Senhora Joana Oscar, Gerente de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação.
A SRA. JOANA OSCAR – Bom dia. Obrigada, Tainá, pelo convite. Bom dia a todos e todas.
É uma honra estar neste Debate Público. A Gerência de Relações Étnico-Raciais, como a professora... a modo de dizer, a gente sempre se refere à professora. Como a Tainá já trouxe, ela é o resultado de uma legislação, da implementação de uma política pública por parte da Secretaria Municipal de Educação, que é a institucionalização da política de educação das Relações Étnico-Raciais, instituindo a legislação, as legislações 10.639 e 11.645, que instituem a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, no Currículo da Educação Básica.
Essas legislações trazem como premissa de atuação que haja uma educação para as Relações Étnico-Raciais, uma reeducação do imaginário social. E, através disso, a gente tem um compromisso que é de reparação histórica com o apagamento das histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas na sociedade como um todo.
Então, o cinema, a literatura, as artes em geral, são esses veículos potentes da cultura que vão ser utilizados pela escola, vão ser ponte para que haja a recuperação dessas autorias, do protagonismo dessa história. Então, nós nos colocamos hoje, neste Debate, muito abertos para entender como podemos contribuir por meio do debate do Cineclube Escolar, a reconstituição, reorganização, implementação e reorientação desse projeto nas nossas escolas, com esse recorte do protagonismo negro e indígena.
Hoje, estamos aqui muito mais nesse lugar de contribuição e fortalecimento e nos colocamos à disposição para conversar com todos vocês.
Obrigada.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Obrigada, Joana. Quero convidar ao microfone a Senhora Martha Rocha, Gerente de Leitura da Secretaria Municipal de Educação.
A SRA. MARTHA ROCHA – Bom dia a todos. É um prazer estar aqui, é um prazer poder ter aceitado esse convite de vocês, porque é muito importante. Acho que minha contribuição aqui é trazer um pouco da história do Cineclube na Rede Municipal de Educação – quando começamos, o que está sendo feito, esse caminhar que está sendo construído desde 2008 – e mostrar um pouquinho, expor um pouco para vocês, conversar sobre isso.
Apesar de ter esse nome “Gerência de Leitura”, estou nesse espaço há algum tempo, porque mudou algumas vezes de nome, mas a proposta e as ações continuam com o mesmo, qual seja, encaminhar, que é da leitura literária, a leitura de outras linguagens, a leitura de mundo, uma leitura mais ampla, no sentido de Paulo Freire. Como diz Paulo Freire: “Uma leitura de mundo ampla, que envolva as diferentes linguagens...”. O Cineclube sempre esteve presente, a linguagem do audiovisual sempre esteve presente nas ações desse espaço do qual participo há algum tempo.
Acredito que minha contribuição aqui hoje seja trazer um pouco dessa história, do que está sendo feito e de como essa linguagem está sendo trabalhada e incentivada na rede.
Vou me apresentar: sou formada em Letras, também em Jornalismo; sou fotógrafa, fiz Cinema e Educação na Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, estou na Gerência de Leitura. É isso, gente.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Com a palavra, a Senhora Tatiana Carvalho, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan).
A SRA. TATIANA CARVALHO – Muito obrigada, Vereadora. Agradeço muito o convite e me sinto muito honrada de estar aqui neste momento. Cumprimento também todas as pessoas da Mesa e o pessoal que está aqui para dialogar, além de quem for assistir depois.
É muito oportuno esse convite e, de fato, agradeço de coração, pois, além de estar na presidência da Apan, também integro o Conselho Nacional de Cinema, que é um dos três pés da governança do audiovisual brasileiro, junto com a Secretaria do Audiovisual e a Agência Nacional do Cinema.
Neste momento, estamos discutindo o Plano de Diretrizes e Metas (PDM) para o audiovisual nacional nos próximos 10 anos. O PDM está vencido e não foi renovado durante o Governo Bolsonaro, que não estimulou essas discussões, pelo contrário. Felizmente, agora, neste momento de união e reconstrução, estamos aqui para fazer essas discussões.
Estou aqui também para ouvir vocês e aprender com vocês, pois certamente parte dessa discussão vai fortalecer alguns dos argumentos que estamos construindo lá. Pensando em uma política pública mais ampla e nessa conexão entre entes federativos, o pacto federativo, é superimportante entendermos o papel, primeiramente, de uma política de Estado – e aí parabenizo demais a Vereadora Tainá de Paula, porque é importante estabelecer métodos, procedimentos, caminhos metodologicamente não excludentes. Então, discutir uma legislação desse tamanho – estou aqui, talvez, chovendo no molhado – é superimportante, porque a gente tem uma tradição, e aí pensando em âmbito nacional, que é muito patrimonialista. Projetos privados, de acordo com as nossas agendas de telefone, tomam a frente do que deveria ser a política pública. Governos de ocasião constroem ou destroem a política pública.
Construir uma legislação nesse sentido, para a valorização do cinema – e aqui eu defendo particularmente o cinema brasileiro e o cinema independente brasileiro – é fundamental. Parabenizo demais.
Vou tentar não me estender, mas vou traçar uma linha aqui rapidamente, numa defesa do que a gente tem feito na Apan, uma defesa das políticas afirmativas reparatórias, no sentido de compreender que o Brasil é um país constituído com sangue, genocídio e escravização, e ainda não se deu conta plenamente do que isso significa do ponto de vista da injustiça social. Portanto, discutir cultura nesse sentido é também discutir parâmetros para justiça social e reparação histórica.
Outro ponto é a discussão da soberania nacional para os nossos imaginários, que são excessivamente subalternizados por uma dinâmica cinematográfica e de audiovisual, que despeja aqui, por meio de, ou não regulação por leis, como está acontecendo agora com o streaming, ou por um esforço histórico de governos externos que olham para o cinema e o audiovisual como uma ferramenta de dominação dos imaginários. Antes das guerras, chega o cinema dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não precisam mandar bomba no Brasil para a gente achar que lá é melhor que aqui; a gente já tem o nosso imaginário colonizado pelo cinema de Hollywood.
Defender o cinema brasileiro e defender a formação de público para o cinema brasileiro é fundamental, no sentido de uma defesa da soberania nacional. Pensando em uma defesa da cidadania, é fundamental que as pessoas conheçam o Brasil desde cedo.
Entendemos o cinema como uma ação complementar, e aqui parabenizo o trabalho que tem sido feito pela Prefeitura do Rio em relação ao ensino de cultura africana, afro-brasileira e indígena, nesse sentido de formação para a cidadania, não só dar autoestima das pessoas negras e descendentes de indígenas ou indígenas, mas também para pensar em uma pluralidade de sujeitos na sociedade brasileira, uma pluralidade de vivências.
O cinema é esse mecanismo que transporta essas vivências para a gente discutir de maneira mais ampla. O seu projeto é lindo nesse sentido. Imagino que isso aconteça com muita frequência, trazendo uma pluralidade de formas de expressão e de vida para que crianças e adolescentes se desenvolvam no sentido de cidadania, de compreender a coexistência e alimentar a inteligência coletiva em um momento em que estamos tão presos às lógicas dos algoritmos, às nossas bolhas e à tal polarização.
Então, muito rapidamente – desculpe por me alongar – quero reforçar a importância de uma discussão de projetos como o Cineclube na escola em um sentido mais amplo. Estamos em um momento de retomada da discussão da regulamentação da Lei nº 13.006, que determina um mínimo de duas horas de cinema brasileiro independente no currículo da educação básica. E essa regulamentação, obviamente, não vai dizer respeito, espero, apenas ao conteúdo específico ligado a determinadas disciplinas.
É preciso, como a Vereadora disse, compreender a escola como um centro irradiador e como um centro para onde convergem expectativas de uma comunidade. A escola, portanto, não é só ali conteudista, no sentido de cada caixinha das disciplinas, é um lugar de sociabilidade para toda uma comunidade.
Os Cineclubes nas escolas são fundamentais enquanto política pública. De novo, a gente não pode pensar em ações específicas relacionadas ao cinema em uma lógica patrimonialista de projetos privados. Isso é flutuante, esses projetos não têm continuidade, é muito difícil, mas precisa ser política pública.
Estou falando não só do Rio de Janeiro, porque nem conheço como estão as situações aqui, mas em um sentido mais amplo, de país. Temos a Política Nacional da Cultura Viva, por exemplo, que tem os pontos de cultura, que são fundamentais em cidades que não têm sala de cinema, que não têm equipamentos culturais, e para onde converge toda uma expectativa de produção e fruição cultural dessas comunidades. Mas as escolas também, nesses municípios menores, cumprem esse papel. Então, acho que, por exemplo, no seu caso, em uma comunidade que está inserida em meio a tensões muito específicas e graves, a escola acaba se tornando esse centro de convergência de sociabilidade para a comunidade. Precisamos pensar nisso a partir de uma legislação que dialogue nesse sentido do pacto federativo. Temos a Lei nº 13.006, que é de 2014, e, com o período pós-golpe e Bolsonaro, houve uma interrupção do processo de regulamentação, que havia sido iniciado em 2015, mas que agora está sendo retomado em 2023.
Nesse processo de regulamentação, existe agora um grupo de trabalho formado pelo Ministério da Cultura e o Ministério da Educação, que discute a interseção dessa Lei nº 13.006, de 2014, com outras duas leis: a 10.639 e a 11.645, de ensino de cultura africana e afro-brasileira. Então, acredito que essa discussão sobre cineclubismo na escola, com a perspectiva de ampliação para o debate racializado da cultura afro-carioca, como mencionado pela Vereadora, é fundamental para combater exclusões – sejam elas simbólicas, afetivas ou econômicas – e fundamental para a discussão sobre cidadania. Existe um grupo – e já enviei para a Magna – que discute essa interseção há muito tempo, desde 2015, para fortalecer essa discussão. Recentemente, houve uma consulta pública para pensar um Plano Nacional de Cinema na Escola, e acho que o exemplo de vocês pode contribuir para fortalecer esse plano, servindo como referência para outras iniciativas. Quem está conduzindo o Plano Nacional de Cinema na Escola é a Rede Kino.
Encerrando com este último ponto, é importante destacar a dinâmica contemporânea das crianças e adolescentes desta geração. Hoje, 82% do fluxo de internet no Brasil é audiovisual. Essa geração é nativa digital; essa meninada está o com uma tela nas mãos. Se para gerações anteriores o terror era a "babá eletrônica", hoje o terror é o celular, para o bem e para o mal.
Então, não é só colocar essa moçada em contato com conteúdos que vão nutrir uma inteligência coletiva e uma percepção mais ampla de sociedade e cidadania, mas também é necessário pensar em uma pedagogia do audiovisual, pois essa é uma linguagem onipresente. Não basta ensinar a fazer filmes, mesmo com projetos incríveis, mas como decodificar essas mensagens. Os currículos escolares precisam ser atualizados. Passam-se 12 anos lidando com a linguagem escrita e falada. Quanto tempo esse pessoal passa na escola aprendendo a lidar com a linguagem que, de fato, está onipresente na vida delas, que é o audiovisual? A discussão sobre cineclubismo nas escolas precisa, acredito eu, vir acompanhada de uma dimensão crítico-analítica dessas obras desde cedo, da linguagem audiovisual, para que possamos nutrir esse espírito democrático que a gente acredita.
É isso. Muito obrigada. Fico à disposição.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Há diversos pontos aqui, mas quero ouvir mais. Obrigada, Tatiana.
Vou abrir as inscrições agora e pedir à equipe técnica que nos ajude com isso. Queria combinar com vocês aqui: falas de até três minutos. Claro que a Vereadora dará um chorinho para finalizar a formulação, mas vamos tentar garantir três minutos de fala para cada um, para que possamos retornar à Mesa e encerrar o debate com os melhores encaminhamentos possíveis. Porque a Vereadora, como uma boa tarefeira, gosta de encaminhamentos no final das reuniões. Podemos, Michelle? Vamos pegar o nome das pessoas? Só um instante.
A primeira inscrita para fazer fala é a Senhora Felícia “Bruxa Má”. Não, só levantar a mão. É porque está sendo gravado, então tenho que registrar no microfone. Perfeito!
A SRA. FELÍCIA KRUMHOLZ – Meu nome é Felícia Krumholz, sou conhecida como a “Bruxa Má”. Acho que esse assunto já chegou a vocês. Por que eu sou conhecida assim? Porque eu falo, e muitas vezes o que eu falo incomoda. Por exemplo, espanta-me não ter sido citado aqui o Projeto Cineclube nas Escolas, esse que existe desde 2008. Funcionando com este nome não foi, estou anotando tudo.
O Projeto Cineclube nas Escolas, que existe desde 2008, foi desmantelado. Sou testemunha, porque sou uma das curadoras do Festival do Rio, em o qual existe um programa chamado Vídeo Fórum desde o ano 2000, cujos professores guerreiros da Secretaria Municipal de Educação não só fazem filme com as crianças, como exibem os filmes dentro do Festival do Rio. Quero aproveitar, inclusive, a oportunidade para agradecer o apoio que o pessoal da SME nos deu divulgando o Festival do Rio e o Vídeo Fórum. Acho maravilhoso o que está sendo falado, mas eu acho um absurdo, sendo cineclubista desde quando, “Mosquito” Sessão Cotonete”? Nós somos a Sessão Cotonete – Cineclube desde os anos 70 –, e acho um absurdo o apagamento desses guerreiros e achar que está tudo bem. A gente tem uma história, a gente tem um acervo, a gente tem um material. Eu não sou da Secretaria, não, eu sempre fui outsider, por isso que eu sou a “Bruxa Má”. Existe um acervo, existe um material que foi comprado pela prefeitura, certo? Infelizmente, eu vou ter que depois dizer quem é que foi o patrono, porque é infelizmente. E, desde então, só cai.
Este ano, para a gente fazer o Vídeo Fórum, a gente não conseguiu ônibus da prefeitura. Minto, o único ônibus da prefeitura que a gente conseguiu foi da Escola Municipal, como é o nome? Campo dos Afonsos. Eu não sei por que, mas sempre eles conseguem. E, fazendo parceria com o Projeto Andar – é Andar o nome do projeto? –, eles vieram também juntos para documentar o que estava acontecendo no Vídeo Fórum.
Nós temos 24 anos de história e aqui a sensação que tenho, desculpe-me, é que se está descobrindo a roda. Eu não faço parte da Rede Kino, mas a Bete, que trabalha comigo, faz, é uma das fundadoras. Eu faço parte do Festival do Rio, em um programa chamado Geração, que tem por princípio ampliar público para o cinema brasileiro.
Nós evitamos exibir para as crianças os filmes mainstream que estão à disposição. Nós trabalhamos 90% com filmes brasileiros, porque têm a nossa cara. A nossa cara é toda essa que vocês colocaram aí na frente.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Obrigada. Passo a palavra ao Senhor José Leandro Cardoso.
O SR. JOSÉ LEANDRO CARDOSO – Bom dia. É muito mais que um testemunho. Eu trabalho com cinema com os meus alunos a partir de uma formação que eu já tinha na universidade, de trabalhar com o cinema dentro da universidade e, desde 2009, quando cheguei à rede municipal, eu conheci o Projeto Cineclube nas Escolas, que foi criado em 2008. Em 2010, a minha escola foi escolhida para ter o projeto.
À época, o projeto vinha se colocando nas três, pelo menos 10 escolas por ano. Então, foi um projeto que veio sendo construído. E uma das coisas importantes que tivemos nesse projeto foi a formação de professores para trabalhar cinema dentro da escola. Lembro que boa parte dessa formação foi extremamente importante para mim, como profissional da Educação, e para os alunos também. Porque, na verdade, o que tivemos, esse tripé que o colega colocou, era um tripé do cinema, Cineclube nas Escolas também, que é de exibir filmes para ter os alunos discutindo questões importantes dentro da escola.
Um dos projetos importantes que tínhamos no Cineclube, em que tive a oportunidade de fazer parte, era passar curta-metragem na hora do recreio. Os alunos adoravam fazer isso. Tínhamos um acervo muito grande dentro da Prefeitura, com mais de 180 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens da Rede Municipal, licenciados para serem usados em sala de aula. Acho que temos uma experiência muito grande e muito rica também, porque, quando vamos produzir, uma das coisas importantes, não só a construção de linguagem cinematográfica, não só você ter a experiência de pegar na câmera, produzir um roteiro, fazer um storyboard, enfim, todo o processo de letramento mesmo, de você construir texto, eles aprendem a construir o quando fazem isso, você também tem uma resposta do que é o tema que está ali naquele momento.
Trabalhando isso ao longo desses mais de 10 anos, temos essa noção do que são os temas que os adolescentes e crianças estão querendo discutir naquele momento. Acho que isso é fundamental dentro dessa manifestação artística, que é você perceber que, em determinados momentos, alguns temas são importantes para eles e estão sendo o que incomoda o adolescente naquele momento. Acho que essa é uma grande riqueza desse trabalho e que é um trabalho muito importante. A Rede do Rio tem uma série de profissionais que são qualificados para trabalhar isso, que tiveram essa formação.
Estou só colocando isso para nós sabermos que tem um trabalho bastante enraizado dentro da rede, com profissionais e com estudantes que passaram pela rede, que não necessariamente vão ser cineastas, mas que tiveram essa experiência de vida, que acho que é fundamental. Então, acho que é muito mais esse testemunho para podermos pensar também a partir do que a gente já tem de experiência para construir novos passos nesse sentido.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Obrigada. Passo a palavra ao Senhor Luiz Fernando Taranto.
O SR. LUIZ FERNANDO TARANTO – Obrigado. Meu nome é Luiz Fernando Taranto. Eu sou oriundo dos anos 70, quando a gente reconstruiu o movimento cineclubista no Brasil. Ele ficou cinco anos parado, a partir de 1968, e nós construímos um cineclube chamado Glauber Rocha, na Tijuca, do qual a gente reconstruiu todo o movimento cineclubista. Na verdade, eu queria fazer uma abordagem, não do que foi colocado aqui, porque eu concordo com tudo o que foi colocado, não tem problema algum. E eu acho, inclusive, que deveriam ser feitas outros tipos de reuniões dessas. Talvez que não seja necessariamente uma reunião da Câmara, mas ter um fórum de discussão disso, para ter essa experiência.
Eu sou um daqueles que acha que o passado, a gente não quer voltar ao passado, mas acho que o passado deve servir como um farol para a gente chegar ao que vem pela frente. A essência dessa luta, obviamente guardadas as devidas proporções da realidade que mudou, a gente tem que levar em consideração. Eu quero pegar um aspecto, que eu queria colocar aqui, que é o seguinte: uma coisa é você ter uma política pública, outra coisa é quando você coloca como é aplicada essa política pública, ou seja, a prática dessa política pública. Porque uma coisa é a teoria, outra coisa é como você chega à prática.
Por exemplo, eu tenho informação de que a maioria das escolas públicas no Rio de Janeiro tem uma infraestrutura mínima para o audiovisual. Mas muitas vezes, quando ela é aplicada, ela é aplicada como castigo para o aluno. Por quê? Por exemplo, a minha mulher é professora em Santa Cruz em uma turma especial, e todas as turmas, além da turma especial, quando chamam o aluno para uma sala para assistir a um filme, é que aquele professor que, na verdade, obriga aquele aluno a ficar – o que é um castigo. Ou seja, o método de aplicar isso tem que ser discutido também. Uma coisa é uma prática, como o companheiro colocou, que você vive em nível da comunidade, e outra coisa é dentro da escola. Nesse processo, por exemplo, tem a informação também que a maioria das escolas públicas no Rio de Janeiro tem seu grêmio. Não quero entrar no mérito de como ele funciona, enfim, a sua estrutura, mas a partir do momento em que os alunos não forem, não tiverem poder de intervir sobre como isso acontece, nós não vamos andar, gente. Nós não vamos andar.
Então, são coisas que têm que ver com um conjunto e que o estado dando essa infraestrutura, cabe às pessoas, profissionais que somos, os seres humanos, os professores, fazer com que esse...
O cinema é uma coisa mágica ainda. Eu morei no Morro de São Carlos por anos. Nós temos um cineclube no Morro do Catumbi, o Cineclube Grande Otelo. Quando a criança descobria que botando a mão em frente ao projetor ela via sua própria mão, aquilo era uma coisa mágica. Hoje, ainda é mágico, mesmo com todo o avanço do audiovisual para chegar às pessoas. Naquele momento, o que a gente fez? Existia um projeto chamado Cine Duque, do qual tem uma pessoa que está presente aqui, que formou cineastas. Só para vocês terem uma ideia, o Mauro, que é um dos maiores fotógrafos do cinema brasileiro hoje... Minha ex-mulher era médica – desculpe-me por esse detalhe, porque nós nos reunimos, nós tínhamos lá 30, 30 e poucos anos, ele tinha 9, 10 anos, ficava lá de saco cheio, porque a gente ficava almoçando, conversando. Eu peguei uma cartilha do Cine Duque, “O que é o cinema?”, ou seja, a linguagem do cinema. Ele hoje é um dos maiores fotógrafos do cinema brasileiro, e isso a partir daquela cartilha. Obviamente, estou falando de uma coisa isolada, mas, enquanto política, se não discutirmos a aplicabilidade desta política, nós vamos ficar correndo atrás do rabo.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – É um aparte mesmo, porque temos pessoas inscritas. Inscreva-se, acho melhor. Eu queria que ela falasse, discorresse, e aí eu não quero também atropelar os inscritos aqui. Eu vou lhe inscrever, está bem?
Senhor Paulo Roberto Moreira, o Beto, está com a palavra.
O SR. PAULO ROBERTO MOREIRA – Na realidade, eu estou preocupado com algumas questões. Eu acho legal que a gente não vai inventar roda, e temos aqui, nesta sala, muita experiência. Para a Sala Eduardo Coutinho, quem deu o nome fui eu, lá na Biblioteca Parque, durante muito tempo, eu programei aquele cinema e fiz uma relação com a escola e com a comunidade de Manguinhos. Infelizmente, o Estado e quem geria a Biblioteca Parque não deu continuidade. Eu acho que o que o Taranto falou aqui, mas a nossa geração que reorganizou o movimento cineclubista em 1974, que foi fechado pela ditadura, teve um papel muito importante. Primeiro, a gente chegou a ter mais de 700 cineclubes em todo o Brasil. Depois, criamos a primeira distribuidora de filme independente do País. Atuamos dentro da RioFilme. Eu montei a primeira unidade móvel de cinema do Brasil para passar filmes nas favelas, no morro da Vila Cruzeiro, pela Embrafilme. E continuo, até hoje, na atividade do audiovisual.
Eu sou dislexo, acompanhado a “dislarreia”. E o meu testemunho é que o audiovisual é fundamental. Para um garoto da Penha, com dificuldades na leitura, na escrita, que se abrigou no audiovisual para entender o mundo. Agora, o audiovisual não pode ser tratado na escola de uma forma que você tenha só um equipamento, um professor que não está bem formado. Vai se investir e não investe na qualificação de professores para que possam traduzir aqueles códigos – fica muito ruim. A minha preocupação, quando falam “Cinema independente”, já me arrepio todo, falo “Cinema”. E eu posso falar, vou falar aqui uma coisa para vocês, e posso falar, porque é o seguinte: a nossa geração, que reorganizou o Movimento Cineclubista em 1974, tinha como slogan: “O pior filme brasileiro é melhor do que o melhor filme estrangeiro”. É um grande exagero, mas era a afirmação da língua, da palavra, dos acontecimentos. Mas hoje, o que observo e tenho medo, é para onde foi a estética do cinema brasileiro.
Não podemos jogar na primeira infância, que é fundamental, no gueto, no gueto da bolha, no gueto do que a gente acha que é importante ser exibido. Não pode, não pode jogar. O cinema brasileiro como um todo tem que ser repensado. Nós temos 3% do público assistindo a filme brasileiro. Eu estou montando uma sala nova na Fundição Progresso, e aí é projeção a laser, som dolby surround, para oferecer àquela comunidade, à escola, uma projeção de qualidade para que a experiência, principalmente na escola, seja uma experiência que leve a querer ver o filme fora da escola.
É um assunto muito amplo. Se tiver outra rodada, eu me inscrevo novamente, porque tem muito a falar sobre cinema e educação.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Maravilha. Obrigada, querido.
Senhor Flávio Lara, do Cineclube Cantagalo-Pavão-Pavãozinho.
O SR. FLÁVIO LARA – Eu vou ser bastante breve. Quero, antes de mais nada, fazer um grande elogio ao trabalho que você está fazendo. Fiquei encantado com a nossa representante do cineclubismo nacional. Mas quero fazer um apelo a você, e é um apelo na forma de uma denúncia. Aqui na Zona Sul, especialmente ali no Pavão-Pavãozinho-Cantagalo, há um domínio muito grande da Funarj e da Secretaria da Melhor Idade e da Infância para forçar a barra do Cineclube Marvel, do Cineclube Disney.
Nós estamos tendo muita dificuldade, porque lá foi recuperado um anfiteatro magnífico, onde é o Brizolão, e, para usar o anfiteatro, que tem uma acústica excelente, é próprio para a exibição de filmes, eles ficam embarreirando a coisa. Só para vocês terem uma ideia, o nosso projeto, que eu até mandei para a Vereadora Tainá, companheira, amiga, eles aprovaram, mas sentaram em cima.
Fiquei muito surpreso e satisfeito, porque estou aqui, por exemplo, com um colega da Penha, exatamente ali da Comunidade da Caixa d'Água, que trabalha nisso. Eu tentei trabalhar nisso, então quero chamar a atenção de como é que vocês podem apoiar isso, porque há um movimento grande do Governo Estadual aqui para desconstruir isso, levar o cinema como uma diversão, levar o cinema só como mais uma forma hollywoodiana de entretenimento das crianças.
Esse trabalho que vocês fazem me surpreendeu, desculpem-me a minha ignorância, do trabalho que nós estamos fazendo ali no Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, de pensar na geração seguinte, de 14 a 20 anos, enfim. Mas essa coisa da infância, quem sabe nós possamos, inclusive, criar um caminho melhor ali dentro daquelas comunidades. Eu já tenho começado um trabalho no Tabajara, e nós podemos modificar pelo exemplo de demonstração. Eu estava tendo muita dificuldade em implementar isso por causa desse impasse, por isso que eu estou dizendo que a minha fala seria mais um pedido e uma denúncia. Uma denúncia é no sentido de que as entidades estaduais estão trabalhando contra a Maré, as entidades estaduais continuam trabalhando com o apagamento.
Eu discordo um pouco da fala anterior, qual seja, de dizer que não podemos falar das comunidades. Nós temos que falar, temos que mostrar as caras, nós temos que, para reverter o apagamento, você tem que mostrar o que somos, e não o que está fora, tem que mostrar mesmo as entranhas. Por isso, eu acho que até essa observação que ele fez do gueto não foi muito boa, mas eu não vou polemizar com isso. Eu acho que esse encontro aqui é muito oportuno e eu agradeço muito que vocês puderem ajudar, porque depois nós vamos agarrar no pé de vocês.
Nós estamos tentando isso desde 2022. Para você ver, tem ali um contraditório, porque eles criaram o Museu de Favelas, que é uma coisa exteriorizada, é mais para mostrar o que é a favela. Eu sempre fico falando: “Olha, então vamos lá para a Maré, vamos ver lá o Museu da Maré, que mostra como se construiu”. Eu estou falando de domínios de território, por favor. Olha, se puderem colaborar, nós estamos enfrentando não uma burocracia, é uma tropa mesmo da Funarj e dessa Secretaria de Idosos e da Infância.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Obrigada, Flávio. Quero passar a palavra para a Senhora Elizabete Bullara, não sei a pronúncia.
A SRA. ELISABETE BULLARA – Eu estou falando que gente velha é um problema, porque já fez tanta coisa, já esteve em tanto lugar, que só tem velho falando aqui. Mas eu fico muito feliz por isso e por estarmos aqui hoje, apesar de tudo, e de ter feito muito; e da idade, porque a gente quer ver todo esse movimento crescer e se solidificar.
Mas eu queria falar, quando eu falei que eu queria responder, não era bem responder, Luiz Fernando. Gente velha também tem apelido de vez em quando.
Mas a questão é a seguinte: a gente acompanhou desde o início e ajudou, de certa forma, dando apoio logístico e outro tipo de apoio para a implantação do projeto Cineclube nas Escolas. Eu trabalho há muitos anos com cinema e educação, sou realmente uma das fundadoras da Rede Kino, assim como a Inês Teixeira e a Milene.
Eu trabalho neste país inteiro e toda vez eu falo: “Não conheço um projeto melhor do que esse". Não conheço, por quê? Porque ele se criou profundamente baseado na possibilidade do professor que seria responsável pelo Cineclube nas Escolas ter toda a liberdade de organização, segundo as suas possibilidades e as suas necessidades. Os alunos é que fazem a programação dentro desse acervo, então ele tem uma liberdade – não é, Martha? – bastante grande, muito, muito. Eles fazem a divulgação para o resto das escolas, fazem os jornais, fazem a televisão e o rádio dentro da escola para poder também chamar para o Cineclube. E tinha alguma possibilidade que algumas escolas agarraram, que foi a de abrir aos sábados para trazer comunidade, para trazer os pais para dentro da escola, que, em minha opinião, é um movimento muito importante. Primeiro, porque o pai também merece ver filme brasileiro de qualidade. E, segundo, porque ele começa realmente a ter maior presença dentro da vida escolar do filho.
Acho que é o melhor que eu conheço. A gente, uma vez, até em Ouro Preto, convidou a Simone Monteiro, que foi a gerente que liderou a criação desse movimento, para que ela falasse sobre isso.
O que acho importante, e por isso também estou aqui, trabalho com a Felícia há 580 anos, e, portanto, a gente mostra filme feito em âmbito escolar. E quem enche as salas de cinema dos nossos filmes, do nosso vídeo fórum, que é o programa, são pessoas como ele, por exemplo, pessoas que fazem filmes.
Eu gostaria de dizer: a Prefeitura realmente tem que se comprometer um pouco mais. Uma das outras coisas importantes desse projeto é que ele não se restringia ao espaço da escola; ele incentivava a saída para o cinema, a sala escura, aquela sala com som surround, preparada para uma experiência importante – frequentava todos os festivais da cidade.
Na área de formação, tinha, além do Cineduc, entidade de que faço parte, o Anima Escola, o Anima Mundi, o Marco Magalhães e a equipe dele fazendo formação para animação com os professores. Vamos resumir: acho o projeto maravilhoso, do começo ao fim. O que acho que a gente precisa, nesse momento, é fortalecer o projeto, fortalecer a gerência.
Fico reclamando que tiraram o audiovisual do nome, que era leitura e audiovisual – tiraram o audiovisual. A Martha diz que não tem importância, mas eu acho que tem, porque nome também significa uma classificação importante. Mas, então, põe um ‘s’ no final, põe leitura‘s’, porque aí engloba todo tipo de linguagem e de leitura dessas linguagens.
Acho que essa iniciativa da senhora, Vereadora, tem muito a contribuir para o fortalecimento desse projeto, como ele foi concebido. E que realmente tem que ser fortalecido e solidificado. Não que não seja sólido, porque 16 anos não é pouca coisa. Era isso que eu queria dizer.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Maravilha, muito sábias as suas palavras, Elisabete.
Senhor Carlos Moreira Beto.
O SR. CARLOS MOREIRA BETO – Eu vim aqui principalmente para te dar uma sugestão. Porque, olha só, o curta, por exemplo, está dentro da cadeia produtiva. E, para o cineclube, é uma coisa superinteressante, pois dá para passar um curta e debater. Um longa, às vezes, é complicado para entrar na grade de horário. Um longa, depois, ainda vai debater. Então, já tem muita coisa boa por aí. E podemos ter muito mais coisa boa.
Quando a gente fala em cota, nós vemos a importância da cota neste país em várias coisas que a gente vê por aí. Então, eu queria propor o seguinte: o Brasil, hoje, dizem que a gente está produzindo em torno de 200 longas. Muito pouco, 95%, quando vai ao cinema, não tem 20 mil espectadores.
Então, existe um número muito grande de espectadores para filme estrangeiro. Existe a lei do curta, que é nacional, que não pegou, está aí arquivada. O que eu queria sugerir é para você tentar pensar e analisar de propor a lei do curta municipal do Estado do Rio de Janeiro.
Em todo cinema do Rio de Janeiro, antes de um longa, passar um curta brasileiro. E isso aí pode gerar, inclusive, muitos recursos. Dentro da lei do curta existente, que não decola, a ideia é que 5% do que é arrecadado vá para um fundo para fazer outros cinemas. Olha a geração de recursos, a janela que se abre. Para gerar curtas de qualidade, precisa de grana.
Quanto mais grana tiver, mais gente, e uma janela dessa de qualidade... É isso. Eu acho que uma Lei do Curta Municipal na Cidade do Rio de Janeiro, isso ia ser um exemplo para o Brasil. Muito, muito bom.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Obrigada. Tenho aqui o Senhor Afonso Celso Teixeira, professor do Cine Educação. É o último inscrito e nós retornaríamos à Mesa. Se mais alguém gostar... Calma, gente, não vou cortar a fala de ninguém. Estou falando que, ao fim da fala deste nobre senhor aqui, nós encerraremos as inscrições, ok?
O SR. AFONSO CELSO TEIXEIRA – Bom dia a todos, bom dia à Vereadora Tainá, bom dia à Mesa.
Eu sou Afonso Celso, sou professor da Rede Municipal do Rio de Janeiro, hoje aposentado. Sou ator e sou coordenador do Festival Cine Educação, que está indo pelo sétimo ano. Está acontecendo, inclusive, hoje. Eu, com o meu parceiro, o sociólogo Bernard Brito, que hoje está lá em Paracambi, por isso que não está aqui, a gente formou esse festival. A ideia justamente era, no início, apenas a gente começar a debater o tema da educação a partir do audiovisual. Esse projeto foi crescendo de tal maneira que hoje ele não só continua com esse propósito inicial, mas também já fez diversos cursos de formação, não só formação de plateia. E aí, ficou muito bacana lhe ouvir lá falando sobre o Cine Manguinhos, porque é muito parecido com o que a gente tentou desenvolver.
A gente já teve muitas atividades em relação com a Escola Municipal Reverendo Martin Luther King, com a Escola Municipal São Tomás de Aquino, no Leme. Estivemos lá na Comunidade do Muquiço, em Guadalupe. Então, são diversas localidades que a gente tem feito curso de formação e produzindo materiais audiovisuais a partir desses cursos de formação. Inclusive, no ano passado, na gestão da Vereadora Tainá de Paula, na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a gente fez o projeto junto com as guardiãs das matas, que parece que estão aqui.
A gente tem feito esse trabalho. Quando eu vejo uma audiência como essa, isso é muito importante para a gente ver a quantidade de coisas que a gente tem espalhadas aí. Eu acho que o que a gente poderia pensar aqui é de como a gente organiza isso, de tal maneira que isso seja um projeto contínuo e não atividades isoladas, como a gente tem visto.
Dentro do Cine Educação, muitas das vezes, a gente tem problemas. Inclusive, às vezes, para entrar em uma escola, a não ser quando, a partir do contato que eu tenho, por ter sido... Por ser professor da rede e ter sido do Conselho Municipal de Educação, a gente tinha um respaldo de acesso a essas localidades. Inclusive, não só para que a gente pudesse fazer o curso dentro da escola, que é muito importante, que você faz, como também de fazer essa ponte de levar os estudantes para os cinemas e para ele se ver representado dentro do cinema, porque isso é uma coisa muito importante. Às vezes, só de colocar o filme, a criança dentro do filme, para ver blockbusters, isso não é tão importante como ele se ver retratado. Amanhã, por exemplo, nós temos uma sessão no Cine Estação Net, em que a gente vai levar à escola, e os filmes que são lá retratados – inclusive, eles terão um dos filmes do Guardião das Matas, que agora eu estou sem saber exatamente qual é, mas terá um dos filmes, que é importante que as pessoas que realizam esses trabalhos nas suas comunidades – e elas se veem retratadas em outros espaços, porque isso é o que a gente vai gerando.
Só para finalizar, o que eu acho que era importante é a gente ter esse tipo de atividade conjunta, para que a gente possa ter uma prática constante desses projetos e não ficar à mercê de atividades que são louváveis, que são muito boas, mas continuam sendo atividades isoladas. O que a gente quer é uma política para essa área do audiovisual, do cinema e educação.
Obrigado.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Obrigada. Quero passar aqui ao Senhor Aldenir Militão.
O SR. ALDENIR MILITÃO – Bom dia a todos. Quero aqui agradecer a presença de vocês e agradecer porque fui convidado para poder participar, parabenizar o Mesa, parabenizar a vereadora.
Na verdade, eu quero somente fazer uma solicitação, porque sou lá do Complexo da Penha, sou cria da Caixa d'Água. Hoje resido em Paciência, mas frequento o local onde nasci e me criei. Só moro há oito anos fora da Penha, mas todos os projetos que desenvolvi foram lá. Faço parte também da TVC, Canal 6 da NET, ali na Joaquim Silva. A gente tem o pessoal do cineclube, que a gente ouve falar, mas lá mesmo, propriamente dito, não tem. A gente ouve falar. Vê lá o de Manguinhos e outras comunidades.
Lá na Zona Sul também, o amigo Flávio, em uma reunião, ele também fala muito. Eu queria ver qual o órgão que a gente vai para solicitar, para que a gente possa criar? Porque esse espaço lá na comunidade... Infelizmente, eu sou cria de lá, muitas coisas eu entendo que não acontecem lá, porque o pessoal, em vez de incentivar, o pessoal tumultua. O pessoal quer mandar em tudo, se vocês estão entendendo o que estou falando. Houve um tempo que o pessoal ajudava e não se envolvia. Hoje em dia, para acontecer alguma coisa, tipo no Complexo do Alemão, lá tem tudo. Teve muito derramamento de sangue. Então, infelizmente, aí aconteceu que lá tem tudo que é para trazer de cultura para a comunidade.
Lá no Complexo da Penha, graças a Deus, não houve esses derramamentos de sangue. Graças a Deus! Mas a população que está lá não tem oportunidade. E o poder público não chega para oferecer essa coisa. Lá tem muito pessoal que produz. No YouTube, está cheio de webséries de pessoas do Complexo da Penha, da Vila Cruzeiro, da Caixa d'Água. Eu também trabalho com audiovisual. E o pessoal me chamava: “Aldenir, vamos montar aqui um negócio pra gente. O que está em alta aí são os cineclubes.” Eu falei: “Gente, eu não entrei nesse mérito ainda do cineclube, não sei como funciona. Vou me enganjar mais na ação para poder ver de que forma posso contribuir”.
Porque é uma área que gosto de trabalhar, produzir. Eu faço edição, trabalho com fotografia, filmagem, entendeu? Eu falei: “Tem que ter um espaço e, infelizmente, algumas coisas que o poder público faz, tem que ter um espaço próprio, lá na comunidade ou do próprio Estado, do próprio governo, seja municipal ou estadual”.
Enfim, lá não tem. O único espaço público que tem é creche. Eu digo lá dentro da comunidade. “Ah, tem que construir e o pessoal não quer construir porque está fora do orçamento, não foi votado.” Eu vim ver com vocês de que forma vocês podem nos orientar para que a gente consiga implementar um núcleo lá no cineclube, lá no Complexo da Penha, porque lá é um celeiro de talentos.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Temos mais algum inscrito? Não tenho aqui nenhum papel. Fale o nome, por favor, para a gente gravar.
O SR. DARIO GULARTE – Oi, bom dia. Primeiro, parabenizo a composição da Mesa, as falas feitas.
Assim como os colegas, cada um, desde a sua experiência, certamente estamos todos nós aqui mancomunados para colaborar, seja em recapitular de referências boas, interessantes, que sirvam para inspirar, mas também para entender o momento atual. Nesse sentido, o que posso dizer?
Primeiro, enquanto cineclubista, eu fiz parte do Cineclube na Casa de Rui Barbosa, que era dos documentaristas e curtametragistas da associação que eu também presidi no Rio e fiz parte da direção nacional. Também fui um dos membros fundadores da Ascine, que é a Associação de Cineclubes do Rio de Janeiro, criada no início dos anos 2000, em que a gente teve algumas experiências interessantes. Você tinha vários festivais.
A gente propôs ou idealizou e levou para os festivais e mostras de cinema um circuito para que circulasse aquela programação, fosse como um banco de consulta ou como programas eventualmente fechados, a partir das temáticas que dialogassem com aquele cineclube.
Procurávamos convocar, fazer chegar uma convocatória para o cineclubismo do Estado como um todo, e assim foram se integrando. Fizeram parte da criação, desde o início, cineclubes como o Mate com Angu, na Baixada, e também, em Nova Iguaçu, o Buraco de Getúlio. Aqui, no Centro, participei do primeiro momento do Beco do Rato. Aqui, o Cachaça, o Beto que faz o cineclube na Fundição, e por aí vai.
Quando fomos convocados pelo governo federal em 2003, pelo Orlando Senna, pela Secretaria do Audiovisual (SAV), nos fizeram duas perguntas: “O que é um cineclube?” e “O que você entende que deveria ser um cineclube?”.
Como estamos falando de educação e linguagem, acho fundamental focarmos nas questões essenciais para ver, a partir desse acervo, desse empirismo acumulado, como podemos levar adiante todo o conhecimento, todo o know-how e toda a história do Brasil, desde a sua negritude até projetos maravilhosos da área indígena, como o Cine nas Aldeias, entender as pluralidades. Não há um cinema independente. Não há que utilizar expressões fechadas, mas há cinemas independentes, há cinemas brasileiros e nenhum tem por que desagregar o outro. Afinal, se somos da cultura, não estamos aqui para desagregar, mas para congregar a partir da pluralidade e da soma.
Nesse sentido, quero brindar o que for útil e oportuno, assim como os colegas, das experiências. Conseguimos muita coisa pela ABD do Rio. Por exemplo, conseguimos inserir representação com premiação e com indicações para a composição em seleção de projetos, algo que antes só acontecia com convidados ilustres. Nada contra, mas se você tem uma classe de realizadores, de roteiristas e de produtores, é importante que haja vagas que representem efetivamente essa classe, esses cinemas, que dentro dos seus núcleos já estarão debatendo, disputando e discutindo o tempo inteiro a nossa dinâmica.
Outra experiência interessante, só para pontuar: em uma época em que o Governo do Estado estava com muita dificuldade de levar adiante editais públicos, sugerimos: “Por que vocês não fazem uma parceria com a RioFilme, que já tinha o edital deles?”. Cada um colocaria um percentual de recurso e, com isso, conseguiríamos produzir um curta a mais, um documentário a mais, algo a mais. E assim foi adiante.
Basicamente, é isso. Cores e valores. E “quem não se comunica, se trumbica”.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Muito bem. Encerradas aqui as inscrições. Muito obrigada pelo auxílio generoso da nossa técnica.
Está bem, três minutinhos. Todo mundo concorda – não é, gente? Estou burlando a nossa regra aqui, mas é por uma boa causa.
A SRA. FELÍCIA KRUMHOLZ – Vou colocar algumas questões que anotei e acho que pragmatizam algumas coisas.
Letra A, dando continuidade à fala do Dario, existiu um negócio chamado Programadora Brasil, que era exatamente onde essas coisas se juntavam. Acho bom mencionarmos esses nomes, porque essas iniciativas se perderam e parece que nunca existiram. Existia a Programadora Brasil. Que tal dar uma olhada?
Depois, a seguinte pergunta: há alguma articulação deste mandato com a Comissão de Educação da Câmara? A comissão não é grande, mas existe. Será que dá para articular alguma coisa, ou vamos continuar batendo cabeça, cada um puxando para o seu lado?
Outra coisa: sem considerar a importância do acesso ao cinema como parte integrante desse processo cineclubista, pode começar a esquecer. Agora, não adianta levar, desculpem a má palavra, para ver Homem-Aranha. Homem-Aranha vai ver com o titio. A gente tem que levar para ver gente verdadeira. Envolve festivais. Existem festivais e festivais. Tem que tomar cuidado com isso.
Outra coisa: se o Estado, enquanto Poder Público, patrocina a feitura de qualquer filme que seja, o mínimo que esse filme tem que dar de retorno é não cobrar para ele ser colocado nas escolas. Essa questão, pra mim, é uma questão muito séria. Eu me lembro da discussão que tivemos com o filme “Orfeu”, no primeiro ano do Governo Lula, acho que foi em 2002, se não me engano, em que a discussão era... “Ah, mas eu dei 15 cópias”. Eu falei: “Mas existem cinco mil e tantos municípios. Cada município tem não sei quantas mil salas de aula. Se você recebeu dinheiro do Governo Federal, o mínimo que você tem que fazer é disponibilizar seu filme para as escolas gratuitamente”.
Outra coisa, uma coisa saudável que a gente faz muito: discussão com os cineastas, discussões com os atores. A gente cansa de levar isso. Cadê o rapaz da Penha? Existe um cineclube chamado Cineclube Subúrbio em Transe, conhece? O Subúrbio em Transe é na Penha, funciona há mais de 12 anos. Ele leva discussão. Não sei exatamente onde fica, mas é o professor Luiz Cláudio, do Núcleo de Arte Grécia, que trabalha no Cineclube Subúrbio em Transe, que funciona desde 2003, 2004, sei lá, há milhares de anos. E hoje, para ser mais precisa, abriu um cinema na Penha – o Wellington é o proprietário e está doido para fazer parceria. Por que a gente sabe disso? Porque a gente acabou de fazer um festival, fez esses contatos todos, tentou recuperar todas essas coisas, mas nem tudo funciona como a gente gostaria.
Outra coisa, só para fechar: os professores são seres absolutamente guerreiros e que, na maioria das vezes, são absolutamente subestimados, haja vista o salário que recebem. Tem que tomar cuidado para não cair como se fosse salvador da pátria.
Estou terminando. A questão do cinema na escola não é um cinema escolar, um cinema que vai ensinar bioma – não é isso. A ideia de um cineclube na escola é um cinema que vai dar ao professor a possibilidade de fazer como ele quiser, discutir sexo, drogas e rock'n'roll, porque é isso a que o cinema se propõe.
Só para fechar, enquanto proposta, acho que a ideia de ter, em toda escola, a possibilidade de pelo menos... São 1.557 escolas. Se todas as escolas, pelo menos um dia no ano, levarem uma turma ao cinema, nós já ganhamos o reino dos céus.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Bem, gostaria de retornar à Mesa. Vamos combinar que pode ser na ordem das falas? Aí eu encerro aqui com os encaminhamentos. Pode ser? Perfeito. Cinco minutos, não mais que isso, senão a gente reinicia o debate.
Vamos passar aqui para o Senhor Marco Aurélio. Quero agradecer a contribuição – maravilhoso trabalho.
O SR. MARCO AURÉLIO CORREA – Obrigado. Acho que foi uma manhã bonita aqui. Acho importante, realmente, esse debate, esse diálogo. Fazendo um paralelo com a escola, no momento meio que de conselho de classe, a gente fica ali querendo falar sobre o que aconteceu e o que não aconteceu. A gente fica feliz com algumas coisas, fica meio tenso com outras, mas acho que não dá para pontuar tudo aqui. Porém, acho que é um ponto interessante falar um pouco sobre história, a história do nosso país, a história do nosso povo.
Quem tem noção aqui, imagino que todos tenham, quando a gente pensa um pouco sobre a historiografia do cinema brasileiro, a historiografia da educação brasileira, a gente vive, infelizmente, tempos de avanços e retrocessos. Só que, muitas vezes, a gente tem mais retrocessos do que avanços. Fico pensando em como podemos encontrar formas de não permitir que essas descontinuidades criem, por vezes, até uma desconexão entre a gente. Porque acho que todos estão falando praticamente sobre a mesma coisa aqui. Mas algumas acabam meio que fugindo, e a gente tem esses problemas nesses encontros.
Penso também, refletindo sobre o que costumo estudar e que tem muito a ver com o que estamos debatendo aqui, um pouco sobre a história afro-brasileira. Temos um culto muito grande aos mais velhos, reverenciamos muito quem veio antes de nós. Porém, também nos voltamos para um movimento que é popularmente conhecido como Sankofa, no qual olhamos para o passado a fim de construir o futuro, transformando o presente. Acho que devemos refletir sobre essa reverência ao nosso passado. E, às vezes, não aquela "História" com H maiúsculo, mas sim daquela história que não é contada. Essa história, muitas vezes, não tem espaço nem no nosso cinema, que, às vezes, se diz democrático.
Acho que a gente tem que pensar nas narrativas que queremos falar e levar. E, pensando em crianças e adolescentes, quando a gente pensa em escola, temos que pensar que o cinema brasileiro de hoje está nas mãos dessas crianças, seja na tela pequena ou na tela do streaming. Teremos lobos maus e bruxas más, mas precisamos considerar também quais histórias queremos contar. E esse cinema está nas mãos dessa garotada. Se quisermos discutir o cinema brasileiro de ontem, de hoje e de amanhã, precisamos pensar no que essas crianças e jovens querem ver e no que podemos apresentar a elas. Tudo o que está aí no streaming e no TikTok é interessante, mas nós, como professores, temos o papel de apresentar essa cinematografia e historiografia brasileiras que, muitas vezes, a gente não conta.
Tinha várias outras coisas para falar, mas gostaria de fazer um breve comentário sobre o Cineclube Atlântico Negro, do Clementino, que considero fundamental para o trabalho sobre cineclubismo. A proposta de superar barreiras é essencial, e acredito que precisamos discutir a exibição de 100% de filmes brasileiros nas escolas. Mas, se pensarmos também nesse cineclube expandido, que está além dos muros da escola, não podemos virar as costas para essa diáspora africana, para esse Atlântico Negro. A América Latina, os povos indígenas e tantas outras questões estão conectadas à diáspora, como a "Améfrica Ladina", que a Lélia González fala.
Um momento de celebração dessa união de povos ocorre no Encontro Zózimo Bulbul, de cinema negro, que está rolando agora, e fica aqui a recomendação. Felizmente, quem puder acompanhar as redes do Cine Manguinhos vai ver que a gente os levou para assistir a filmes brasileiros, africanos e indígenas com um público infantil. Queria muito que as escolas municipais tivessem participado da “Sessão Erê”, voltada para crianças, mas enfrentamos várias questões orçamentárias, políticas e culturais que, por vezes, impedem essa ida. Mas, eu acho que a intenção aqui é agregar, contribuir e ouvir uns aos outros, pois é na troca e no diálogo que tudo acontece.
Peço desculpas se me estendi demais.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Muito bom. Passo a palavra para Joana Oscar, Gerente de Relações Étnicas e Raciais da Secretaria Municipal de Educação. Joana, vou ao toalete rapidinho, mas estou lhe ouvindo.
A SRA. JOANA OSCAR – Acho que esta manhã foi muito proveitosa. Não me apresentei, mas sou professora da rede, servidora concursada há 23 anos. Sou estudiosa de políticas públicas e estou concluindo meu doutorado em educação, com foco na implementação de políticas de educação para as relações étnico-raciais. Estudo os movimentos sociais e como eles vêm incidindo com suas pautas na criação de políticas públicas e na administração pública.
Fiquei observando aqui o que estou estudando, que são os movimentos sociais, no caso de vocês, cineclubistas, criadores de tantas iniciativas, conjugando com o Legislativo e com a gente, que estamos na Secretaria Municipal de Educação. Somos servidoras e professoras, mas, neste momento, estamos atuando na gestão como técnicas e temos a possibilidade de, estrategicamente, colocar em prática, convergindo com tudo o que está acontecendo aqui. É um enorme privilégio poder vivenciar essa confluência de saberes e forças.
Em relação ao Cinema Negro, nós fomos sim. Teve um ônibus sábado para a estreia do filme do Malês. Nós levamos 105 professores. E também, ao longo dessa semana, nós vamos levar quatro instituições de educação de jovens e adultos em dias diferentes. Então, uma articulação com os organizadores do Festival Centro Afrocarioca.
Então, mais uma vez, olha como é importante essa articulação, essa potência, essa força que emerge de conversão de forças mesmo, dos projetos, procurando a Secretaria, organizando a melhor forma das coisas acontecerem. Eu acho que é muito bem-vindo a gente pensar a proposta da Vereadora Tainá de retomar essa legislação e de pensar com a representatividade de todos vocês, de acolher essa história anterior, se aproveitar do que deu certo, do que não deu. O que a Elisabete falou me pegou bastante e eu concordo com você sobre a importância da narrativa e das nomenclaturas. A gente falou muito de projeto. Falando especificamente em relação à política de educação das relações étnico-raciais na Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, a gente só deu certo porque não aceitou ser criado como projeto. Nós fomos criados como gerência e desenhados para atuar de forma articulada, intersetorial.
Talvez, aqui já deixando também como uma possibilidade, nessas discussões que vão suceder esse encontro, podemos também pensar aí nas propostas de como a administração pública transforma esses projetos tão importantes em programas e também dão pistas para a administração pública de como ela vai se organizar para garantir a sua perenidade, que é isso também que a Felícia trouxe.
Então, não adianta a gente ter uma ideia genial se a gente não pensa num percentual de orçamento que vai garantir esse ônibus. Não adianta pensar em garantia de um horário que vai ser cumprido se a gente não tem ideia de que repertório vai ser disponibilizado, se esse repertório está adequado à faixa etária dos nossos estudantes, onde está esse acervo, se esse acervo está, de fato, disponível para as nossas escolas. Então, tem uma série de coisas que precisam ser pensadas para que se torne, de fato, factível. Do contrário, a gente vai continuar com essa sensação de que inventa a roda e, na verdade, a gente não inventa. A gente está sempre tentando retomar com muita luta, com muita resiliência, com resistência e com perseverança em cima daquilo que a gente acredita como ideal.
Gostaria de encerrar dizendo que adoraria que também vocês, cineclubistas, se colocassem dessa forma tão ferrenha para nos apoiar em relação à educação das relações étnico-raciais no Município do Rio de Janeiro.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Muito obrigada, Joana. Quero passar a palavra para a Senhora Martha Rocha, Gerente de Leitura da Secretaria Municipal de Educação.
A SRA. MARTHA ROCHA – Gente, vejo esse momento aqui como uma grande oportunidade de trocar as informações do que está acontecendo na rede. E me cabe aqui, após a fala e a escuta de todos vocês, falar um pouco dessa trajetória e dessa história do cineclube nas escolas da rede municipal.
Como já foi bem dito, ele nasceu em 2008, começou em 2008, mas a gente tem que levar em conta o contexto de 2008, até o contexto tecnológico. Quando o cineclube começou, atendeu a 30 escolas. Por quê? Porque cabiam vários equipamentos, investimento de câmera de vídeo, aquelas câmeras VHS e tal, aqueles equipamentos. Então era custoso. Começou devagar nas salas de leitura, na época, e precisava de tudo isso, todo aquele investimento. O que aconteceu? Com o passar do tempo... Havia escolas inscritas, dava para contar. Começou com 30, depois a gente monitorava, foi para 100, para 200, 300 escolas. A gente tem mais de 1.500 escolas na rede. A gente tem que pensar grande, pensar pra frente. A tecnologia ajudou muito a gente nesse processo histórico, nesse caminhar desde 2008.
A gente foi realmente interrompido com a pandemia, acho que todo mundo foi impactado com ela, e a gente teve que, depois dela, repensar várias coisas, até mesmo as produções, os parceiros, todos foram impactados. Após a pandemia, a gente também foi repensando o projeto e como a gente poderia ampliar de forma que ele chegasse... Primeiro, quando a rede é muito grande, até chegar a informação é mais difícil. A gente viu por aqui. Até nesse grupo reduzido, às vezes a gente trocou informações de coisas que a gente não sabia, imagina numa rede de 1.500 escolas, em territórios diferentes e com várias necessidades diferentes. A gente teve que repensar isso.
Como a gente fez? A gente pensou, desde o ano passado, em 2023, a Gerência de Leitura começou a elaborar materiais norteadores do trabalho da Gerência de Leitura, que envolve, como falei, a leitura de diferentes linguagens, mas baseada e pautada na literatura, na leitura literária, e tem também esse braço do cineclube. A gente produziu alguns materiais pedagógicos partindo da literatura. Isso já está em prática na rede desde 2023 – vocês podem acessar a plataforma Rioeduca, que vocês vão ter acesso a esse material. Acho importante conhecer para discutir, ter essa informação, saber como é. São materiais pedagógicos que partem da literatura e fazem o link com as outras linguagens, inclusive com a linguagem do audiovisual em várias das sugestões literárias. Esse é um eixo que começou em 2023.
Este ano a gente fez um material pedagógico norteador para divulgar o projeto cineclube nas escolas. Por isso a gente sente essa necessidade. A gente não quer poucas escolas cineclubistas; a gente quer que todas as escolas tenham acesso, conheçam e saibam trabalhar com o audiovisual. Então, a gente pensou na construção desse material, que é o material Cineclube nas escolas. Ele não é uma cartilha, não visa didatizar, mas o objetivo desse material é levar essa informação, mostrar para cada professor – independentemente se é de sala de leitura ou de sala de aula – que é possível trabalhar com a linguagem audiovisual. Desde o início, mesmo assim, desde a educação infantil, tem possibilidade de você começar esse trabalho, desde a educação infantil até o 9º ano, que é o público que a Secretaria atende.
Esse material é muito rico. É o primeiro material e a gente não tem essa coisa de dizer que a gente fez um material e pronto, vai dar conta de tudo – o objetivo é construir mesmo. Por isso acho importante a gente trabalhar em rede com os professores que estão aqui, os professores cineclubistas, esses de muito tempo. Que eles possam contribuir para esse material, que tenha nesse material a cara da rede, que tenha nesse material a prática que eles já estão fazendo, como vocês viram aqui. Mas acho que falta essa troca, esse trabalho em rede. Sinto falta disso. Acho isso muito importante e acho que esse material serviu para dar esse pontapé, divulgar: existe essa possibilidade, existe o cineclube nas escolas na rede. Se você não conhece, está convidado a conhecer. Esse material apresenta muito bem, inclusive ele conta a história desde 2008 de forma reduzida.
Como estou nesse espaço há muito tempo, pude contar essa história. O material traz inúmeras possibilidades de como eu posso começar o trabalho com o audiovisual. O objetivo é afetar aquele professor, é fazer com que ele goste, que envolva, que chame para esse trabalho, que chame para essa linguagem e que a gente realmente o afete dessa maneira, conquiste-o para o trabalho audiovisual. A gente já lançou esse material desde o início do ano. Ele também está na plataforma. Acho importante, nesta discussão aqui, que vocês possam conhecer. Só reafirmando que não está fechado. Como é uma publicação on-line ele tem essa perspectiva de ser ampliada com a prática da rede, é esse o nosso objetivo, e é importante conhecer.
Além disso, ele foi lançado como eletiva. Tendo esse material, que seria uma base para o trabalho, ele está sendo oferecido em todas as escolas como eletiva. Então, já é uma possibilidade desse ano. Só para vocês entenderem como está vindo a história do cineclube nas escolas. Como ele tem um tempo, já tem uma estrada. Ele tem algumas mudanças que vão abarcando com as coisas que vão acontecendo. Graças a Deus, a tecnologia está em nosso favor. Hoje em dia não preciso comprar um kit para cada escola, porque, em uma oficina, eu dou conta.
Eu participei de uma escola de férias e fiz uma oficina com os alunos de audiovisual, cinema de animação, com o meu telefone, só o meu telefone. Em 15 dias, eu atendi várias turmas, entendeu? E a gente consegue...
Esse material é para dizer que é possível e que não é tão difícil assim, e para o professor se apropriar dessa linguagem, porque, minimamente, ele tem que se apropriar dessa linguagem. O cineclube é muito potente porque trabalha vários eixos. A gente visa à formação do professor sempre, desde o início. Eu mesma tenho o privilégio de ser formada, assisti a várias formações desse projeto enquanto estava em sala de aula. Então, ele visa essa formação. Ele tem esse eixo de produção dos alunos, que a gente incentiva. Agora mesmo a gente teve um concurso de curtas sobre o G20, que a gente está ainda analisando lá na Gerência, vai fazer um lançamento e tal.
O cineclube não parou. Ele está na estrada, está evoluindo ao longo do tempo, da tecnologia e dos acontecimentos. Ele é vivo, e a gente pretende isso. A gente não quer mais deixar para 30 escolas. A gente quer que todas as escolas da rede tenham esse acesso. Agora, a gente sabe que as escolas têm o projeto político-pedagógico delas, a autonomia de trabalho delas.
A nossa proposta é bem ampla nesse sentido. Eu acho que é isso. Obrigada.
Rio Educa é o nome da plataforma. Vai na parte dos materiais. Aí tem todos os materiais da rede. Tudo junto, Rioeduca.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Quero aproveitar e chamar a Tatiana Carvalho, presidente da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro.
A SRA. TATIANA CARVALHO – Muito obrigada, mais uma vez. Quero, em face de tudo isso que foi dito, trazer três pontos rapidamente.
Primeiro, o que a gente chama de cinema independente? Cinema independente é um cinema que não é produzido por um grande conglomerado de comunicação. Então, um cinema produzido pela Globo Filmes, por exemplo, não é classificado como cinema independente, nem ligado a grandes empresas internacionais. A gente está passando por um problemão agora no país. Por exemplo, os originals dessas plataformas de streaming são considerados ou chamados de cinema brasileiro, mas nada de direito patrimonial fica no Brasil. Então, isso não é cinema independente.
Cinema independente é produzido a partir de produtoras brasileiras independentes, agentes econômicos que movimentam economia local principalmente, em todo o país. Um cinema independente seria isso. Nesse cinema independente, há longas e a maioria dessa produção é de curtas-metragens. Então, essa discussão de curtas-metragens é, de fato, superimportante, porque a gente tem, em média, 200 longas-metragens, e aí com a Paulo Gustavo vamos pular para 400 longas-metragens nesse episódio, a partir da Paulo Gustavo.
Em média, pegando os festivais maiores do país, a gente tem, a partir do que se tem de dado de inscrição de curtas-metragens nesses festivais, mais de 1.000 curtas-metragens produzidos anualmente no Brasil. E é no curta-metragem que está a produção mais diversa do país. Por quê? Vou colocar um dado, só para vocês entenderem o buraco racial que a gente está. O financiamento público via Ancine, para os filmes que recebem fomento de mais de R$ 5 milhões, longas-metragens, boas produções, 94% deles são roteirizados por pessoas brancas e 92% dirigidos por pessoas brancas.
O cinema brasileiro é um cinema historicamente branco. O imaginário brasileiro é um imaginário racista porque privilegia apenas uma identidade: branca, cisgênera e geralmente masculina. É um cinema identitário. Então, não é um cinema de gueto. Cinema negro é cinema brasileiro. Cinema indígena é cinema brasileiro.
A gente tem uma crise epistêmica, porque muitas gerações, inclusive a minha, nós fomos formados por um imaginário e uma teoria eurocêntrica que não consegue ler o que um filme como “Kbela”, da Yasmin Thayná, produzido aqui e que lotou o Odeon, está fazendo, porque está dizendo do que acontece dentro da cabeça de uma mulher de cabelo crespo. Então, homens brancos não conseguem olhar para esse filme do ponto de vista epistêmico. Por isso que falo em pedagogia do audiovisual.
É importante ampliar o horizonte do imaginário para formar cidadãos que vão olhar para o cinema e para as imagens produzidas a partir da perspectiva negra e indígena e não achar isso gueto, mas achar isso Brasil, achar isso a pluralidade da composição da sociedade brasileira, que é o que a gente tem aqui agora: uma vereadora negra, uma presidente de uma instituição negra, um professor negro, uma gerente negra, e não achar isso estranho. Não achar estranho a possibilidade de ter um Presidente do Brasil negro. Que as pessoas brancas não se sintam ameaçadas com pessoas negras em espaço de poder, porque as pessoas brancas crescem com o imaginário que diz que elas são o universal. Tudo que não é universal é o outro e, portanto, é ameaçador do seu papel no mundo.
A gente não fala de vingança. A gente não está falando de inverter a hegemonia, de mulheres mandarem em homens, de pessoas negras oprimirem pessoas brancas. É isso que está destruindo esse país, é a opressão e a hierarquia. A gente tem que pensar no bem viver. A gente tem que pensar no que é bom para todo mundo. Aquela máxima de que, quando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela, é porque essa movimentação não é uma movimentação para reproduzir lógica de opressão.
Então, quando a gente fala de uma lei que foi discutida lá em 2003, depois da instituição do Estatuto da Igualdade Racial, depois do processo de democratização, pensar democracia é pensar justiça social e igualdade racial. O cinema é uma ferramenta importantíssima, fundamental para que isso aconteça. E aí a nossa defesa é que essas iniciativas de audiovisual na escola precisam incluir ações afirmativas, porque a gente está falando de mais da metade da população brasileira que é oprimida diariamente por uma lógica audiovisual embranquecida, identitária, contra nós. A gente não está falando de gueto. Essa palavra “gueto” me incomoda profundamente, porque traz uma exclusão histórica e estruturante de um país que tem mais de 70% da sua história constituída na escravização. Se vocês fizerem as contas, há quantos anos existe o que a gente conhece como Brasil? Quantos séculos disso estão sob a escravização de pessoas negras e o genocídio de pessoas indígenas? Passou da hora de a gente pensar em política pública com reparação histórica, senão essa sociedade só vai se autodestruir cada vez mais, se não der conta da pluralidade da sua população.
Por fim, uma coisa para encaminhamento: existe, do ponto de vista do fomento, e uma discussão agora lá no PDM, no Conselho Superior de Cinema e outros desdobramentos, uma ideia de distribuição de impacto social. Não sei se existe possibilidade de discussões aqui com a RioFilme ou com a Secretaria de Cultura para que os editais de fomento incluam estímulo à distribuição e que essa distribuição seja de impacto social.
O que significa isso? Um método de distribuição que, obviamente, pode mirar a circulação comercial dos filmes, porque, afinal de contas, são obras que precisam gerar e movimentar a economia, mas também que, de acordo com determinados pressupostos dos editais, deem conta de um circuito chamado alternativo de distribuição, que são os cineclubes, porque visam à formação de público. Então, é um fomento público que vai fazer esses filmes circularem em circuitos públicos de exibição, promovendo discussões não só do ponto de vista temático, do que os filmes abordam, mas também do ponto de vista da linguagem e da diversidade das possibilidades de formas de expressão no cinema.
É isso. Agradeço mais uma vez. Aprendi muito aqui hoje. Vida longa a essas iniciativas.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Estou animadíssima. Vamos lá! “Bruxa Má”, vou ceifar sua fala agora. Eu preciso falar...
Encaminhamentos aqui. A gente não dá a fala pra ela, mas ela fala assim mesmo. Ela é dessas.
Gente, vamos lá, brincadeiras à parte, quero agradecer a todos os queridos colegas que vieram aqui. Obrigada demais pela presença, aos cineclubistas, figuras pioneiras, referências do cineclube aqui da cidade, mas, principalmente, da formação da consciência cidadã, crítica, que a gente quer ver.
Quero aqui, como parlamentar, talvez me colocar como instrumento de organização do nosso sonho, do tangível e do intangível, e qual é o leito político, institucional que acho que a gente tem que percorrer pela frente.
Calma aí, meninos, só um instantinho. Esse Debate Público aqui não fala sobre como o cineclube carioca deve se comportar. Veja bem, acho que, inclusive, proponho um fórum dos cineclubistas porque acho que os cineclubistas não andam se encontrando. Não sou cineclubista, sou apoiadora, sou frequentadora de alguns, mas acho que também parte das falas aqui fala do cineclube, de modo geral, claro, tangencia, acompanha a discussão do cineclube escolar.
Longe deste mandato e longe da atuação parlamentar, legislativa e do próprio Executivo, não quero falar por vocês, mas quero mencionar, longe da nossa intenção pública, falar como cineclube. Claro, a gente adora os editais, a gente adora o fomento, mas tem algo de radical, revolucionário, transformador e impulsivo de não ter lá muitas regras para estabelecer, instaurar e tocar a lógica do cineclube. Cineclubes são livres no seu fazer político, nas suas importâncias. Existem cineclubes feministas, existem cineclubes com recorte racial, existem cineclubes específicos pautados para a juventude, para a periferia, para a favela. Enfim, existe uma múltipla dimensão aí de atuação que não sei se é na instância legislativa, na seara que a gente está debatendo aqui.
O que a gente tem percebido como local de importância? Como é que a gente ativa as múltiplas linguagens no ambiente escolar? Não é segredo para ninguém, sou uma figura, uma parlamentar antirracista e quero agradecer aqui duas falas generosas. Acho que todas as falas falaram muito desse recorte da nossa rede municipal, mas existe uma maioria negra, tanto na primeira quanto na sua primeira juventude no ambiente escolar carioca, que é ampla maioria do perfil que está nesse ambiente escolar e que tem acesso a uma linguagem extremamente hegemonista, excludente, classista e que precisa ser incrementada de novos repertórios.
A Gerência que trabalha os debates étnico-raciais dentro da SME tem um trabalho dos mais primorosos do Brasil. Estou falando que a gente é referência, a gente está na frente de cidades como São Paulo, que tem mais orçamento para sua Secretaria de Educação. Nós temos um lugar de referência em pé de igualdade com Bahia e, falando especialmente de um município, Salvador, na discussão do trabalho étnico-racial que é feito lá em Salvador. O Rio de Janeiro não está mal no que se refere a entender a necessidade e importância das múltiplas linguagens. A vereadora quer associar, claro, o debate das múltiplas linguagens no chão de uma escola que é majoritariamente negra, que é majoritariamente periférica e que é majoritariamente ansiosa para e por consumir essas novas linguagens e essas outras linguagens.
Então, se tem um primeiro encaminhamento aqui, queria propor que a gente alterasse o nome da Diretoria de Leitura para a Diretoria de Leitura e Linguagens. Acho que aí a gente começa... Pode parecer algo de início, de largada, menor, mas a disputa de orçamento, aí falando do para que eu sirvo, por que a gente elege a vereadora mais votada do Estado, a segunda vereadora mais votada do Brasil: é para fazer esse tipo de disputa que quero fazer aqui com vocês.
Quando a gente fala que a SME tem uma Gerência de Leitura e apenas leitura, eu tenho lá no discricionário do orçamento da LOA e do PPA desse município que é só leitura. E, às vezes, o ir e vir para um ambiente específico, a ida para uma sala de audiovisual, a ida ao museu, a compra de um ônibus ou o aluguel de uma van fica na dependência de um orçamento que não está disposto onde deveria estar. Isso ajuda a máquina pública, a coisa pública, a se organizar e a funcionar de forma melhor.
A gente consegue associar a intenção, a intencionalidade, que é muito positiva e já existe no Município do Rio de Janeiro, a uma disputa de orçamento que não se dá só na relação Ferreirinha/Prefeito, mas também no Parlamento, Tribunal de Contas e, obviamente, todos os dispositivos de controle de orçamento e dotação orçamentária que o município tem.
Vai acumulando na gestão pública, independentemente de quem seja o gestor. Porque, às vezes, é o Eduardo Paes, com quem a gente briga, puxa a orelha, e ele dá um pouquinho de dinheiro. E, às vezes, é um pastor, um pai de santo. O Rio de Janeiro é uma cidade pela qual sou apaixonada, mas também é muito difícil do ponto de vista de continuidade.
Muitos aqui falaram da falta de continuidade, gente, porque a política do Cineclube Escolar hoje é uma política de gestão, não é uma política de Estado, não é lei. Então, se não é lei, tem dias, tem gestões que fortalecem, acham ótimo, e, poxa, parabenizam o Marco Aurélio. Até, se o Marco Aurélio não tem uma medalha ou uma Moção, eu me comprometo publicamente a dar uma homenagem ao belíssimo professor. Por favor, me cobrem, porque isso está sendo gravado e registrado.
Mas pode entrar um gestor ou uma gestora que não acha isso interessante, que ache isso desimportante, e inclusive esvazie a atuação que a gente já tem do Marco Aurélio, como já aconteceu anos atrás.
Então, é muito importante a gente garantir os instrumentos legais. A esquerda tem essa mania de apenas disputar o discurso e não disputar, às vezes, a perspectiva de poder e a prática. Poder é muito bom, senão a direita abriria mão disso e buscaria outra coisa. E, por isso, ela disputa o poder. É muito importante a gente ter lei, é muito importante a gente transformar isso em normativa interna da SME, e é muito importante a gente, por exemplo, instaurar um fórum do Cineclube Escolar, porque a gente vai cair num segundo momento.
A partir da lei – oxalá aprovada e sancionada pelo Prefeito Eduardo Paes... Se ele não sancionar, vou puxar a orelha dele na Tribuna. Mas, a partir desse momento, nós temos uma segunda tarefa: a gente tem a tarefa de garantir que essas 1.557 escolas estejam antenadas e estejam inseridas na política municipal do Cineclube Escolar.
A gente tem um segundo papel, que é fazer com que essas 1.557 escolas tenham acesso não só ao repertório, não só à mínima estrutura necessária para o cineclube acontecer, mas também acesso ao acervo.
E aí, hoje, a nossa vida está muito melhor do que em 2008. Existem acervos digitais, nós temos streamings públicos, temos uma rede, inclusive, muito melhor articulada, que permite a circulação dos filmes disponibilizados de forma gratuita. Mas a gente precisa assumir aqui um pacto de curadoria, precisa necessariamente assumir como papel, não digo nem protagonista, mas enfático na inserção da sociedade civil.
Aí incluo muito os cineclubistas e todo mundo que está nesse dia a dia trazendo os repertórios, as referências. Digo que é num fórum continuado, aí eu já coloco aqui um artigo dentro dessa proposta de minuta de lei, e acho que a gente pode começar a acumular após esse debate um artigo que diga: “Doravante essa lei aprovada, estabeleceremos o fórum do Cineclube Escolar”.
Aí, pensar nas cadeiras como se fosse um conselho, um conselho que se reúne permanentemente, que tenha os assentos da SME, que tenha os assentos da Secretaria de Cultura, porque acho que a Cultura e a Rio Filmes precisam participar dessa discussão, e, claro, cadeiras e assentos da sociedade civil, com os cineclubistas participando e contribuindo.
Acho que a gente teve um debate super rico de repertório. Nós falamos se tem que ser cinema 100% nacional. “A gente precisa inserir os filmes da diáspora”; “Mas como não admitir e assumir a cultura afro-indígena, a cultura latino-americana?”. Quero dizer que existem filmes da cena independente norte-americana que são muito mais interessantes do que os filmes brasileiros pastelão da comédia comercial brasileira – vamos falar aqui.
Então, é muito importante que a gente vá acumulando num fórum público, em discussões que, óbvio, não se encerram num primeiro encontro.
Acho que essa é a primeira iniciativa que o mandato traz, mas a gente deve ter como referência que esse compromisso da SME e da Secretaria de Cultura continuem a discutir, porque isso muda... O repertório que a gente discute hoje e assume para o ano de 2024/2025 pode não ser o mesmo acúmulo do repertório do audiovisual, dos cineclubes do audiovisual do período de 2026/2027. Isso é mutável. E que bom que muda. Que bom que o tempo, que a pátina da história vai nos acumulando e vai nos levando para outras discussões.
É fundamental, e quero reforçar aqui nessa questão do orçamento e no sentido anterior, a importância do cineclube escolar, que não necessariamente é a formação de público, mas é também a formação do encontro com uma produção audiovisual, é o encontro de discussão, o espaço de discussão. Acho que a formação, o encontro da tela, tela mesmo, cinema, caixa italiana, escuro, painel, plateia, esse espaço cênico do cinema... Eu sou arquiteta urbanista e falo com muita tranquilidade da semiótica dos espaços: o encontro com a tela é muito importante. Eu sou muito defensora desse repertório. Mas isso é outra política, que não necessariamente é o cineclube.
Não vamos também desvirtuar a nossa intenção original, inclusive a intenção original do Programa Municipal do Cineclube Escolar, o embrionário, de 2008. Termos um espaço nas 1.557 escolas que abre um leque de exercício e discussão do audiovisual, que leva e oportuniza que cada território, que cada escola do território mais profundo do Rio esteja discutindo uma produção do audiovisual, isso é muito potente. Não vamos deixar isso de lado, achar que isso é menor, em detrimento da busca que também estou topando fazer. Inclusive, faço essa discussão sobre as visitas aos museus e aos espaços expositivos do Rio de Janeiro.
Quero muito que cada escola tenha seu ônibus. Estou puxando a orelha do nosso Presidente Lula para ver se tem mais ônibus, pelo menos um ônibus do Governo Federal por AP, por Área de Planejamento, um ônibus por CRE. Não sei como a gente consegue isso: se é comprado, se a gente tem um contrato de locação. Temos um problema que acontece menos no Rio de Janeiro, mais na Região Metropolitana, falando de município, que é o deslocamento do estudante para a unidade escolar.
Alguns estudantes ainda caminham muito ao seu percurso escolar. Isso acontece em escolas principalmente da Zona Oeste profunda aqui do Rio de Janeiro. Nova Iguaçu é um problema mais grave; em Caxias o problema é mais gritante, entre os dois distritos. Mas, de qualquer maneira, a utilização do ônibus para acesso a outros repertórios de cultura e outros espaços que não sejam o chão da escola é muito estratégico. Mas, veja, essa discussão aqui não versa sobre isso. Versa sobre nós compreendermos as múltiplas potências do ambiente escolar para o debate do audiovisual.
Por fim, não sei, saí desse primeiro mandato e saí da urna feliz e motivada – tem até uma figurinha minha que fica rodando nos grupos de WhatsApp, que é a Vereadora Tainá de Paula feliz e motivada. Por quê? Nós vencemos desafios importantes aqui no Rio de Janeiro.
Talvez não tenha na memória recente da esquerda carioca uma figura que foi gestora, que faz parte da base do governo, volta para a Câmara de Vereadores, preside a Comissão de Assuntos Urbanos, que é historicamente uma comissão – vou ser superelegante – presidida por conservadores com determinados currais eleitorais, para não dizer outra palavra. Não foi fácil essa trajetória, mas nós tivemos a aprovação da lei da prestação de contas, o retorno do Canecão, o Favela Faz Cultura.
A gente fez alguns avanços significativos na cena política e na disputa de poder real na Cidade do Rio de Janeiro fazendo um recorte só da cultura. Acho que talvez vocês estejam diante de uma parlamentar que gosta de boas brigas. Acho que o Cineclube Escolar é uma boa briga, vale a pena, e vamos até o fim com ela.
Esse bordão que vaza... Vocês são terríveis com esse bordão. Mas ele é uma tônica mesmo que pode acompanhar os nossos próximos passos. E digo que a gente tem um cenário muito positivo aí, pelo menos nos próximos dois anos. Nós temos... Não, não. Mais tempo, eu não sei. O Rio de Janeiro também... O Ramagem bateu 30%, e eu ainda estou indignada com esse eleitorado do Rio de Janeiro. Eu vou pegar esses dois anos aqui que eu tenho certeza que o prefeito ainda não vai ser governador. Quando ele levantar da cadeira, eu não sei. Então, eu tenho dois anos para a gente conseguir aprovar o maior número de leis, o maior número de avanços que a gente conseguir estabelecer aqui no Rio de Janeiro, que não é uma das cidades mais fáceis. E aí vocês estão diante de uma mulher que está tomando até tiro em carro no meio da rua aqui na Cidade do Rio de Janeiro. É uma cidade muito difícil na política e no parlamento principalmente.
O que eu quero deixar de encaminhamento aqui? Que a gente faça uma solicitação, que a gente faça um pedido à SME, que ela nos dê qual é a estrutura hoje para o programa Cineclube Escolar. Eu, já de cara, acho que é muito baixinho, detalhado para a gente entender. Acho que a gente pode fazer uma chamada para um grupo de trabalho com cineclubistas e Câmara de Vereadores. E aí faço o convite, tanto para a Comissão de Cultura, quanto para a Comissão de Educação, que são muito parceiras nesse processo de tramitação aqui dentro da Casa. Acho que esse é o primeiro passo. Se houver alguma previsão de vontade orçamentária interna, já me comprometo a nós aprovarmos, nesse próximo regime orçamentário, que vai ser aprovado agora no final de novembro, e colocar uma emenda para o Cine Clube da cidade, para a gente já começar a construir debate junto ao Secretário Ferreirinha, junto ao Secretário Calero e até ao Prefeito Eduardo Paes.
Olha, existe essa movimentação aqui. E, em paralelo a isso, a gente constrói, dentro desse grupo de trabalho, uma minuta do Cineclube Escolar. Claro, pegando o programa original de 2008 e vendo o Plano Nacional de Cineclubes Escolares, para a gente não ficar descolado do que o Governo Federal também está pensando nesse curto-médio prazo. E, se possível, antes do final do ano, a gente consegue fazer uma publicação desse grupo de trabalho para que os cineclubistas vejam a minuta, acumulem, e a gente avalia se faz uma Audiência Pública novamente, um Debate Público, ou se a minuta está validada para já ir, pelo menos, começando a tramitar na Casa. Falando aqui muito entre nós, uma tramitação completa demora de quatro a seis meses na Câmara de Vereadores. As mais espinhosas demoram um ano. Então, temos aí um horizonte de seis meses a um ano para fazer acontecer a Política Municipal do Cineclube Escolar.
Muito obrigada, mais uma vez. Acho que a gente fez história aqui nesta manhã. Acho que tem um acúmulo, uma propriedade, uma vontade de se entender as novas e outras linguagens no ambiente escolar.
Quero reforçar aqui o agradecimento público à SME. Vocês são resistentes. Quando era mato, quando não tinha gestões acolhedoras do diálogo, vocês estavam fazendo a mesma discussão, com a mesma propriedade. E quero, claro, agradecer à PAM, principalmente aos professores que dão conta do recado e fazem a coisa andar e acontecer. Tudo nosso, nada deles.
Está encerrado o Debate Público.
(Encerra-se o Debate Público às 12h33)