Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da VEREADORA MAÍRA DO MST

REALIZADA EM 11/07/2025


Íntegra Debate Público :

DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 7 DE NOVEMBRO DE 2025

(Programa Juventude Negra Viva)

Presidência da Sra. Vereadora Maíra do MST.

Às 18h42, no Salão Nobre Vereador Antonio Carlos Carvalho, sob a Presidência da Sra. Vereadora Maíra do MST, tem início o Debate Público com o tema “Programa Juventude Negra Viva”.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Boa noite.
Quero, primeiramente, agradecer a presença de todos e todas. Dou por aberto o nosso Debate Público sobre o “Programa Juventude Negra Viva”.

(Compõe-se a Mesa)

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – A Mesa está assim constituída: Senhora Ministra da Igualdade Racial e fundadora do Instituto Marielle Franco, Anielle Franco; Senhor Secretário de Igualdade Racial do Rio de Janeiro, Edson Santos, já foi Deputado Federal, Vereador aqui na Cidade do Rio e também Ministro da Igualdade Racial; DJ Rennan da Penha; Senhor Subsecretário de Juventude do Rio de Janeiro, Felipe Lima; Senhora Pamela Carvalho, historiadora, pesquisadora, coordenadora da Casa Preta da Maré e ativista da Coalizão Negra por Direitos; e Senhor Jota Marques, educador popular e comunicador da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), ex-conselheiro tutelar do Rio de Janeiro, cria da Cidade de Deus também.
Antes de iniciarmos aqui o nosso Debate Público, quero, primeiro, mais uma vez, agradecer a presença de todos, todas e todes que vieram até nós ocupar esse espaço da Câmara Municipal, um espaço que é um espaço de disputa e que por isso é importante a gente sempre fincar a nossa bandeira, a nossa voz e a nossa identidade por aqui.
Antes de começar, queria já registrar algumas presenças. Quem não for citado aqui, queria pedir para falar com o Cerimonial, que está aqui do lado, para que a gente possa registrar as presenças aqui posteriormente.
Registro as seguintes presenças: Senhora Tainá Pereira, coordenadora política do Movimento Mulheres Negras Decidem; Senhor Nelson Morales Júnior, presidente da Federação Nacional das Associações Quilombolas; professores do Coletivo Fala Akari; nossa querida Neide Jane Prado, Secretária Estadual de Combate ao Racismo, do PT-RJ; Katelley Sabrina Paixão, integrante da comissão civil da Frente Parlamentar Municipal do Hip-Hop, a nossa “Paixão” maravilhosa; e, por fim, Iago Medeiros, conselheiro municipal da Juventude do Partido dos Trabalhadores. Obrigada pela presença.

(Faz-se a apresentação)

A SRA. PAIXÃO MC – A emoção é muito grande, desculpa as falhas técnicas, poucas falhas técnicas, mas vou continuar com mais uma mensagem. Vocês estão prontos para ouvir? Cadê, cadê? Responde. Estão prontos? Obrigada.

(Faz-se a apresentação)

A SRA. PAIXÃO MC – Muito obrigada, muito obrigada.
É isso, espero ter aberto a Mesa da melhor forma, e vamos continuar. Eu sou a Paixão MC, essa daqui é a minha persona no Projeto Mulheres Pretas Contam o Mundo, onde a gente junta contação de história com música popular brasileira e muito hip-hop. Obrigada, gente, pela oportunidade. E caso alguém queira comprar meu trabalho, a Paixão MC com dois “c”, muito obrigada. É isso. Pronto, por onde eu saio?

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Muito obrigada, Paixão. Sempre muito potente. Eu sou a maior fã do seu trabalho. Quem não conhece, procura conhecer por que a mulher é braba.
Antes de a gente dar prosseguimento ao Debate, queria registrar mais duas presenças, na verdade três. Primeiro, da nossa querida Iasmin Turbininha, dona da – não pode falar umas coisas aqui – Cena Cultural do Rio de Janeiro; Senhor Marcelo Santana, coordenador da Secretaria Especial de Direitos Humanos e Igualdade Racial da Cidade do Rio de Janeiro; Senhora Gabriela dos Santos, direção estadual do Movimento dos Trabalhadores. Gabi, não é? Gabi do MST. São engraçados esses papeizinhos que a gente recebe.
Gente, antes de dar prosseguimento, queria abrir este Debate com algumas palavras. Primeiramente, dizer que abrir este Debate Público, Ministra, é uma grande responsabilidade. É uma responsabilidade porque acredito que não há nada mais importante do que debater a vida da juventude negra na Cidade do Rio de Janeiro.
A gente acabou de atravessar a maior chacina da história, uma chacina que deixou mais de 120 pessoas mortas, uma chacina que mostra como a política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro está absolutamente falida, porque a gente sabe que nada foi alterado em relação ao crime organizado. E quando a gente vê esses números de 120 mortos, a gente vê que em sua maioria eram jovens; jovens entre 16, 17 anos, jovens de 14 anos que tiveram as suas vidas tiradas pela falta de oportunidade.
A gente tem rodado muito, a Ministra estava aqui na semana passada, a gente ouvindo os familiares, conversando com as pessoas, e o maior relato, o maior grito era que o Estado não sobe na favela para levar políticas públicas, para levar oportunidade de geração de emprego e renda, para levar acesso à cultura, mas sim mortes.
Por isso, o Plano Nacional Juventude Negra Viva se insere como essa resposta organizada pela sociedade civil em conjunto com o Governo Federal, uma ação interministerial que visa contribuir para que a gente tenha de fato um projeto de vida para essa juventude, de políticas públicas.
Se há esse projeto de morte que vem afetando a juventude, a gente precisa pensar coletivamente, reunindo os movimentos sociais, reunindo os setores da cultura, reunindo o Executivo, e quero saudar aqui, mais uma vez, a presença da Secretaria de Juventude do nosso Secretário Edson Santos, porque é nessa união de esforços que a gente consegue pensar efetivamente políticas públicas que sejam eficazes.
Se esta Casa, muitas vezes, é ocupada por setores que menosprezam a vida dessa juventude, que tentam criminalizar a cultura hip-hop... E é importante dizer aqui, Jota, que a gente está com um projeto de lei na pauta... a gente não, mas a extrema-direita está com um projeto de lei na pauta, que é a tal da Lei anti-Oruam, e a gente sabe muito bem que isso faz parte de um projeto político de extermínio da juventude, tanto do ponto de vista de acesso às oportunidades quanto de extermínio da nossa capacidade de formulação cultural, de fazer cultura de rua e, principalmente, de falar de vida, quando infelizmente esse sistema só propõe uma política de morte.
A gente sabe que as políticas do Governo Lula, como a Lei de Cotas, a expansão do ensino superior, tiveram muito êxito na vida da juventude. A gente sabe... a política de cotas foi a primeira política pública de maior reparação histórica desde a escravização dos corpos negros no Brasil. E por isso, é nessa toada que nós estamos, junto com o Governo Federal, entendendo que o Plano Nacional Juventude Negra Viva pode simbolizar, mais uma vez, um passo deste Governo, deste campo político de avançar e de defender a vida da juventude.
Nesse sentido, o plano é um dos projetos mais ousados que nós temos em termos de avanço de metas, de eixos temáticos e de proposições efetivas para os estados e municípios no que tange às políticas públicas. Fazendo um breve raio-x, Ministra, acho que você pode falar um pouco melhor depois, a gente sabe que o plano tem 11 eixos que norteiam metas e ações e que tem algo muito nítido que a gente precisa fortalecer aqui hoje, que é justamente o debate sobre a empregabilidade, o debate sobre a capacitação, como respostas para tirar a nossa juventude dessa condição de informalidade, muitas vezes jogada à marginalidade pela falta de oportunidades.
O eixo de trabalho prioriza a inserção qualificada no mercado com políticas de estágio, aprendizagem e primeiro emprego com recorte racial, e isso é fundamental. Porque não basta só a gente criar empregos, a gente precisa reconhecer essa herança escravocrata do nosso país, e por isso o recorte racial é fundamental.
No plano da educação, há no plano, a urgência do enfrentamento ao racismo na escola pela implementação efetiva do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena. A gente sabe que esse é um dos passos fundamentais para criarmos jovens antirracistas e avançarmos em uma educação que seja efetivamente inclusiva.
No eixo de cultura, e quero começar aqui falando desse eixo com muito carinho, porque a gente tem contribuído e construído aqui na Câmara, junto com o Conselho Civil, a Frente Municipal em Defesa do Hip-Hop. A gente teve aqui a Mística, que abriu os nossos trabalhos. E a gente sabe que a cultura salva a vida da juventude na ponta. E tendo, justamente, nesse plano a centralidade da cultura de paz, a não violência e a cultura como uma ferramenta de resolução dos conflitos, mas também como possibilidade de geração de emprego e renda, e acho que as nossas rodas de rima, rap e slam mostram isso todos os dias, essa potencialidade.
Eu não poderia deixar – e Jota está aqui – de falar sobre o papel também da comunicação e das mídias negras. A gente sabe que há uma mídia que é absolutamente hegemonizada, embranquecida, com narrativas que tratam os nossos corpos apenas como os corpos criminosos, que seguem continuando com essa lógica escravocrata. Por isso as mídias independentes, que têm essa valorização da juventude, que vão para as comunidades em dia de operação para denunciar o que as mídias tradicionais não fazem, são fundamentais e também podem ser ferramenta de geração de emprego e renda.
Por isso, gente, sem me alongar mais, para já passar para nossa querida Ministra, esse conjunto de políticas precisa se tornar concreto. A Ministra tem rodado muitos estados e municípios. A gente tem também... a Secretaria Nacional de Juventude.
Como eu disse, esse é um plano interministerial, transversal, que atravessa uma série de ministérios, e está rolando em muitas partes do Brasil a adesão desse plano nos municípios. Infelizmente, o Estado do Rio de Janeiro se recusa a aderir o Plano Nacional de Juventude Negra Viva, e a gente sabe muito bem por quê: porque faz parte de um projeto político de Cláudio Castro o extermínio da juventude negra. Mas a gente tem tentado construir a adesão nos municípios. Já teve adesão em Niterói, Paracambi.
A ministra vai falar mais. Queimados, semana passada. Então, está rolando essa adesão no conjunto dos municípios, e a gente, Secretário Edson Santos, vem aqui hoje para clamar pela adesão do Plano Nacional Juventude Negra Viva na Cidade do Rio de Janeiro. “Simbora”.
Com isso, convido a nossa Ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, para fazer o uso da palavra.

A SRA. MINISTRA ANIELLE FRANCO – Oi, gente, boa noite.
Bom, primeiro saudar esta Mesa aqui, de que tenho muito orgulho de caminhar ao lado. Eu chamo Maíra com muito carinho da minha pequena grande notável, porque tenho 1,77 m. E aí brinco com ela, mas ela é grandona e eu amo. Saudar o Edson, um prazer sempre estar com você. Minha parceira de Maré, minha conterrânea. Rennan, tem tempo que a tua playlist está lá na minha... como boa funkeira que sou. Secretário Jota. Uma honra estar aqui, mas saudar também os movimentos de juventude que estão aqui. Então, primeiro uma salva de palmas para geral que segue nessa luta, que acho que é o mais importante.
Primeiro vou pedir desculpas se por um acaso os meus pensamentos de vez em quando se perderem, porque, olhando para a Luyara, que está ali, é muito difícil pisar aqui gente, é muito difícil mesmo. Peço perdão, cheguei, abracei todo mundo, brinquei, mas nesta sala aqui, principalmente, estive poucas vezes, e uma das vezes foi no velório da Mari. Então, é muito difícil e falei para a Maíra que, para além de todo o cansaço e de toda a luta que a gente tem feito, era importante estar aqui, primeiro pelo respeito a ela que tenho, ela sabe o carinho. Mas, segundo, porque tem pautas que são inegociáveis.
Quero começar falando disso. Tem pauta que é inegociável para a gente. Lélia Gonzalez já dizia que a nossa luta é pela vida, não é? E a vida a gente não negocia. A gente não negocia a nossa vida. Os nossos jovens negros de favela, de periferia, a gente não negocia essa vida.
Esse é um ponto que acho que é importante a gente já iniciar falando, porque toda vez que uma mãe negra chora na favela, tem um milhão de pessoas por aí que acha bonito, bate palma, assim como foi quando a minha irmã foi assassinada. Então, cinco tiros na cabeça de uma mulher preta que foi eleita coletivamente lutando democraticamente pelo fim da violência dentro da favela, que chega aqui com muita honra e com muita luta pelo nosso suor de trabalhadora. Não foi voto comprado, não; foi o suor do boca a boca do dia a dia. Para nego depois ficar zombando do que aconteceu com ela? Então, é obrigação nossa estar aqui.
Quando vejo a Dona Marinete, que teve um câncer de mama após perder a filha, não se deixar cansar, não tenho como dizer que estou cansada numa luta dessas. Então, hoje foi o sétimo voo que peguei.
Vou pegar o oitavo, mas eu pegaria o décimo, o décimo primeiro para estar aqui com vocês hoje. Porque tem pauta nossa que é inegociável. E quero convocar vocês para isso mesmo. Quero dizer onde é que a gente está errando. Porque a gente vai para a rua, a gente luta, a gente pensa política pública, a gente renova a Lei de Cotas, a gente tem mídia negra na favela, a gente tem um monte de coisa que a gente tem feito, para uma sociedade aplaudir uma matança como foi aquela. Então, onde é que a gente está errando?
A gente precisa definitivamente disputar as mentes, corações e narrativas dentro deste país, dentro de uma sociedade que é racista, que é misógina e em que a gente está perdendo alguns debates para o ódio que assola a nossa comunidade, a nossa sociedade.
Queria começar, Maíra, dizendo que o Juventude Negra Viva, quando foi pensado à frente do Ministério da Igualdade Racial, muita gente falou assim: "Nossa, não tem como esse plano dar certo". Porque tinha quase 20 ministérios em conjunto conosco. Mas sabe por que a gente fez o Juventude Negra Viva e sabe por que a gente está rodando o país para que as adesões sejam feitas? Porque nós sentamos com quase 10 mil jovens de vários estados diferentes e os jovens falaram para mim assim, várias vezes: "Anielle, o que a gente quer é ter direito à vida, o que a gente quer é empregabilidade, o que a gente quer é ter acesso à cultura, ao lazer, ao esporte”.
Não é pedir nada demais. Se o filho do rico tem, por que o filho do pobre não pode ter? Se a gente chega à Zona Sul e tem uma apreensão de fuzil de mais de não sei quantos dentro da casa do cara que matou a minha irmã, na Barra da Tijuca, por que na favela pode entrar como eles entraram lá?
É isso que é a indignação que a gente tem diariamente à frente de um lugar que insiste em desumanizar os jovens negros deste país. A minha convocatória aqui é para dizer para vocês o seguinte: eu estou à frente do Ministério da Igualdade Racial, temporariamente, porque – eu sempre digo isso – o cargo não define a gente, o que define a gente é de onde a gente veio. Então, a nossa cabeça só pensa onde o pé pisou.
Como uma boa ministra favelada que sou, que sai da favela da Maré com muito orgulho, Pamela – e a gente sempre gosta de falar isso, aonde a gente vai a gente fala que sai da favela da Maré, mas a favela da Maré nunca sai da gente, para dizer que: mesmo estando à frente do Ministério da Igualdade Racial, eu não esqueço as minhas raízes. E não se esquecer de onde a gente veio é lutar todos os dias para que nenhuma outra mãe chore como minha mãe chorou, para que nenhuma outra mãe, esposa de ninguém. A gente não está aqui defendendo um ou outro, a gente está falando que ninguém merece tombar como tombaram na semana passada.
Eu acho que isso é muito importante porque tentam colocar na esquerda que a gente defende coisas contrárias às deles, mas não é isso. A gente defende os direitos humanos, que é a vida digna, que é o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) – onde está a galera do VAT que estava ali comigo? –, que é o fim da escala 6x1, que é o levante popular da juventude ter direito de ir e vir, que é o negro, que é todo e qualquer coletivo de favela permanecer vivo.
É por isso que eles não gostam, porque é demais para a sociedade aturar uma mulher preta à frente desse lugar, botando o dedo na cara deles e dizendo que sim, o jovem negro quer viver e vai viver.
Eu pedi à Maíra para falar primeiro porque hoje a gente tem a posse histórica da Ana Maria Gonçalves. E toda vez que eu olho para ela e lembro quantas vezes eu li aquele livro, fosse na faculdade, depois – e eu fico lembrando, Pamela, que podia ter sido qualquer um de nós ali, não é? Mas que bom que a Ana Maria teve a chance de sobreviver, de estar viva e construir o legado dela. Então, por que Camila, Luyara e toda a galera que está aqui também não pode ser a próxima pessoa a sonhar, escrever o seu futuro e ser protagonista da sua vida?
Eu quero dizer para vocês que eu me reconheço muito em vocês, embora já tenha passado dos 40, mas estou aí, firme. Espero que vocês também se reconheçam em mim, brincadeiras à parte, mas para dizer que enquanto eu tiver sangue nas minhas veias, a gente vai colocar o dedo na cara de quem a gente tiver que colocar – e chegaremos, eles querendo ou não, porque a juventude negra deste país vai permanecer viva enquanto houver luta. A gente não vai se cansar de lutar até que o fim da escala 6x1 seja aprovado, até que toda a nossa juventude tenha acesso à vida, à saúde, à dignidade, à moradia digna, porque a gente pode chegar a qualquer lugar, mas a gente não pode ser individualista.
Essa luta política só faz sentido porque ela é coletiva para caramba. Então, para estar aqui, a gente tem que respeitar quem veio antes, mas também lembrar aonde a gente quer chegar. E é por Marielle e por todos os jovens desta cidade que a gente vai adiante.
Muito obrigada, eu peço perdão por sair correndo por conta da posse, mas eu tinha que estar aqui com vocês. E você é grandona, minha pequena. Um beijo.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Marielle Franco! Marielle Franco! Marielle Franco!
Obrigada, Ministra, pela presença. A gente sabe que é corrido, mas também é muito bom a gente, nos municípios, poder ter essa presença do Governo Federal via seus ministérios.
Então, pedir uma salva de palmas, gente, para a nossa ministra que vai precisar ir para outra agenda.

(PALMAS)
A SRA. PRESIDENTE (MÁIRA DO MST) – Agora, para a gente dar seguimento, quero aqui, com muita honra, chamar para fazer o uso da fala o Secretário de Igualdade Racial e de Direitos Humanos, já foi ministro da Igualdade Racial do Brasil também, nosso querido Edson Santos.
Pedir só para a gente ficar atenta ao tempo de cinco minutinhos, porque é uma Mesa extensa e porque a gente quer, principalmente, também que o conjunto dos movimentos falem.

O SR. SECRETÁRIO EDSON SANTOS – Boa noite a todos e todas aqui presentes.
Primeiro gostaria de dizer que o fato de estar ocorrendo aqui na Câmara de Vereadores, com a presença da ministra representando o Governo Federal, trazendo uma política pública tão importante para o nosso povo, em especial para a nossa juventude, mais uma ação política que está sendo compartilhada pelo poder público municipal.
A Prefeitura é o braço do Estado mais próximo da população. Então, essa parceria se faz necessária. Não adianta desenhar uma política pública lá em Brasília e não ter como implementá-la numa cidade como o Rio de Janeiro.
Por isso, Maíra esteve com o Prefeito Eduardo Paes, e foi o ponto que ela colocou da implementação desse programa aqui no Município do Rio de Janeiro. Incontinente ainda com a Maíra, ele me ligou e falou que isso é uma prioridade para a nossa administração.
É óbvio que a Secretaria de Direitos Humanos e Igualdade Racial é uma secretaria transversal, ela não é finalística. Então, para todas as ações que desenvolvemos, contamos com parcerias de outras secretarias da Prefeitura. Eu falei com a Gabriela, Secretária de Juventude, sobre a importância do programa. Ela rapidamente assimilou, entendeu, nós sentamos e firmamos a parceria da minha secretaria, da Sedir, com a Secretaria da Juventude aqui representada pelo companheiro Felipe.
É dessa forma que vamos trabalhar. Está marcado para dia 17, às 10 ou 11 horas da manhã, um evento na Prefeitura onde o prefeito vai assinar o programa, a adesão da Cidade do Rio de Janeiro ao programa Juventude Negra Viva.
Isso é importante, porque daqui vai se desdobrar em ações da Sedir, juntamente com a Secretaria de Juventude, que tem os braços, tem ações direcionadas à juventude, a fim de que mobilizemos a nossa juventude para aderir às pautas desse programa.
Eu quero dizer isso porque está faltando um nesse desenho. É exatamente o Estado. O Governo do Estado do Rio de Janeiro faz política de morte aqui no Rio de Janeiro. É política de morte! Ele já falou, já tem mais 10 ações como a do Alemão a serem feitas aqui no Rio de Janeiro. Então, mais mortes a depender da vontade do governador ainda vão acontecer na nossa cidade.
Eu estive lá no local. Um deserto de política pública, ausência absoluta do Estado ali para assistir à população, não é? E vemos muitos jovens, muito jovem com muita vontade de fazer as coisas, até empreendendo no tráfico, até empreendendo no tráfico.
Isso mostra um potencial que, se bem trabalhado, bem dialogado com a nossa juventude, dá um potencial enorme de crescimento da comunidade e do crescimento daqueles jovens. E não é matando o jovem. A gente esteve lá e viu um jovem sem cabeça. Lembrei a figura de Zumbi, porque também cortaram a cabeça de Zumbi, esquartejaram o seu corpo. Outros eventos no Brasil ocorreram em que os revoltosos tiveram suas cabeças decepadas.
Eu estou dizendo isso porque é uma prática da nossa elite dominante cortar a cabeça do povo quando esse, de uma forma ou de outra, confronta seus interesses. Foi no quilombo dos Palmares, foi em Canudos, e foi também aqui no Alemão. Aquele cortar de cabeça tem um simbolismo enorme, é um recado enorme para a sociedade.
Eu quero aqui dizer que a gente tem que mostrar o outro lado. Nós estamos desafiados a mostrar o outro lado, que é possível fazer uma política de paz. Aquele deserto que ali se coloca de política pública pode ser, como dizia Dom Hélder Câmara, um deserto fértil, desde que nós cheguemos lá, dialoguemos com a população, principalmente com a juventude, descubramos as suas aspirações e as suas vontades. E com isso oferecer uma qualidade de vida digna para o nosso povo, para o nosso jovem. Ter sua vida ceifada com 14 anos de idade é não viver. É exatamente isso que está reservado aos nossos jovens a partir da vontade do Senhor Cláudio Castro.
Eu finalizo dizendo que ele há de pagar por isso. Esse crime não vai ficar impune, esse crime que veio para encobrir outros crimes. A história vai provar. Ele vai pagar pelo que ele fez com a população do Morro do Alemão.
Muito obrigado. Estamos juntos no dia 17, às 11 horas, no Palácio da Cidade. Estaremos lá com o prefeito, assinando a adesão ao Programa Juventude Negra Viva, de acordo com a vontade da nossa Vereadora Maíra do MST. Essa mulher é poderosa.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Com a vontade dos movimentos sociais da juventude, do conjunto de coletivos da JUV-Rio. Acho que esse já é um bom primeiro encaminhamento do Secretário, a adesão ao Plano no dia 17. Vamos anotar nas nossas agendas. Eu acho que vai ser um passo muito importante, sobretudo nessa conjuntura.
Antes de a gente dar prosseguimento às falas, a ideia é que a gente possa intercalar. Uma fala da Mesa e uma fala de algum coletivo. Já queria começar chamando o Fala Akari, com a Zilda Soares, para fazer uso da palavra, por favor.

A SRA. ZILDA SOARES – Enorme prazer e responsabilidade estar participando de um evento dessa magnitude e também falar um pouco sobre nosso trabalho enquanto Coletivo Fala Akari.
A gente deu uma olhada no Plano Nacional Juventude Negra Viva e viu que é uma costura de vários ministérios. É um trabalho que vem desde 2023, é algo muito árduo. Teve caravana em vários estados. Olhando para isso e olhando para a gente, que é tão pequeno, tão local, mas acreditando que o nosso município e demais pessoas representativas que estão nos espaços de decisão possam também se somar a esse Plano Nacional, porque a gente não aguenta ficar só na resistência, a gente precisa conquistar.
Eu estava conversando com as pessoas que vieram juntas, e se a gente só ficar na luta, na resistência, a gente não consegue. E não conseguir conquistar é algo frustrante. A gente sentiu muita dor na alma, na mente, com o que aconteceu no Alemão uma semana atrás. Triste realidade. E a gente também ouvir que no Município do Rio e no Estado do Rio de Janeiro, a população – que talvez não esteja aqui, mas está em outros espaços – pense, talvez, de forma muito atravessada pela mídia dominante, que isso é algo possível de a gente aceitar como uma verdade. É uma das narrativas.
Como a nossa ministra da Igualdade Racial falou, a gente precisa ter outras narrativas, para que a população venha a se conscientizar da importância de políticas públicas que mudem a realidade das pessoas e, com isso, dê acesso à juventude para ocupar espaços como esta Casa, que é a Casa do Povo; as universidades – o Fala Akari tem o PVP; hoje, a gente está se preparando para o Enem. Então, os jovens estão recebendo suas massagens. A gente fez kit; tem toda uma preparação para que eles acalmem o coração.
Domingo agora, estará todo mundo lá, passando por esse teste de fogo, que é uma prova muito excludente. A gente vê que não está muito preparado para enfrentar essas disputas para, como eu falei, conquistar espaços. Porque a gente é sucateado, desde a nossa formação pré-escola, por causa de vários atravessamentos que acontecem no dia a dia das pessoas que são de origem da favela.
Acho que essa é a minha fala. Quero parabenizar a Mesa; parabenizar o nosso encontro, hoje, da juventude. A juventude quer viver. A juventude negra viva é a nossa pauta de hoje. Agradeço o convite de todos. Maíra, muito obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Zilda. O coletivo Fala Akari é tão importante para nossa cidade. Esse debate da educação, que está incluso também no Plano.
Também quero compartilhar, Jota, que, em agosto, os vereadores do Partido dos Trabalhadores fizeram um protocolaço nacional, e a gente fez um de estímulo ao fomento de pré-vestibulares sociais e populares na Cidade do Rio de Janeiro. Ainda está tramitando, mas, com certeza, quando o projeto estiver na pauta, estiver bem aquecidinho, a gente vai fazer também um debate desse, uma reunião aberta, para poder pautar juntos.
Pessoal, dando seguimento aqui à nossa Mesa, queria chamar para fazer uso da palavra uma pessoa que é muito especial. Todo mundo aqui é muito especial. Mas eu acho que esse cara representa a potencialidade. E, como a cultura não só transforma vidas, mas também projeta os jovens na arte e principalmente também na cena cultural da cidade, e, sobretudo, de uma região da Penha, que viveu, infelizmente, o que viveu na semana passada... Eu acho que ter o Rennan da Penha aqui conosco é mostrar que a juventude tem voz; ela tem protagonismo e ela tem principalmente muita criatividade, muita sagacidade, para trazer felicidade para outros jovens.
Então, Rennan, vou passar a palavra para você, mas, antes, queria te entregar uma Moção de Reconhecimento da Câmara Municipal, por todo o seu empenho; por fazer parte da nossa vida. Eu, no DCE da Uerj, na minha época de estudante, não parava de rebolar um minuto, quando tocava DJ da Penha, “Toca aquela”. Então, estou muito feliz de você estar aqui com a gente. Vou pedir para você fazer uso da palavra.

(Entrega-se a Moção)

O SR. RENNAN DA PENHA – Muito obrigado, primeiramente. Uma ótima noite para todos.
Meus amigos, hoje, essa noite aqui, eu espero ser bastante breve no que eu tenho para falar. Eu costumo dizer que eu vivia realmente numa bolha, quando, desde a minha infância até a minha saída da comunidade – eu não estou falando isso de uma forma pejorativa; não quero que vocês entendam errado –, eu comecei a me questionar de muitas coisas que aconteciam nas comunidades do Rio de Janeiro e eram propositalmente para que o nosso povo continuasse vivendo esse massacre que viveu, há duas semanas.
Eu, quando fui preso pela primeira vez, eu tentei, de várias formas, estudar dentro do presídio – não consegui. Tentei trabalhar na reciclagem do presídio – e não consegui. Tudo por quê? Tudo é vendido. No Rio de Janeiro e no Brasil, tudo é uma sacanagem. E, se a gente não pegar na raiz do problema, nunca vai conseguir mudar a realidade na qual a gente vive.
Eu fiquei me perguntando: como um complexo de presídios daquele tamanho, em Gericinó, não tem uma fábrica da Havaiana? Não tem uma fábrica da Coca-Cola, para nós termos mão de obra barata e esses presos poderem ser inseridos novamente na sociedade, de uma forma mais digna. Não, é opressão cada vez mais; é opressão dentro dos presídios, é opressão dentro das favelas, e isso vai gerando cada vez mais o quê? A nova frase é “Só ódio”. A frase da criançada hoje em dia das comunidades é “Só ódio”.
Eu, particularmente, não vejo graça nenhuma nesse tipo de fala, porque cada vez mais essa frase se alastra pela mente da “menorzada”. Eles pensam numa vida fútil – a palavra certa –, uma vida indigna, que é a vida do tráfico: a pessoa se entregar, ser um escudo humano para uma facção, a pessoa ser escudo humano para o Estado, e cada vez mais o nosso povo ser massacrado.
Nós vamos parar para pensar um pouquinho aqui. Em 2010, nós tivemos uma, e era considerada a maior. Mais de 30 mortos na mesma mata. Tivemos a do Jacaré; tivemos, em 2023, uma na Penha; e agora tivemos essa. Mas se você for parar para ver as datas, é sempre perto de época de eleição. Então, isso já são cartas marcadas; só não enxerga quem realmente não quer.
O que me deixa realmente triste são as pessoas se perguntarem como o Ministro Flávio Dino entrou no Complexo da Maré e ninguém se pergunta como Cláudio Castro entrou no Complexo do Alemão antes das eleições. Então, a hipocrisia reina, e eu não consigo fazer parte dela.
Não consigo olhar daqui e ver o povo da população ser posto contra o povo que mora fora. No caso, a população já ter raiva da polícia, e a polícia já ser programada para ter raiva da população que mora ali. Isso é um jogo de carta marcada.
Quem está no poder – se você 0for observar – quer fazer a população se sentir um pouco mais segura. Basta você fazer o caos. Você programa o caos, coloca uma parte da população em alerta total e, quando você momentaneamente para aquele caos, oferece aquele conforto momentâneo também para a população.
Eu vejo que esses ataques à nossa comunidade e às vítimas que aconteceram nessa operação. Eu vi o mapa da operação. A operação foi feita da seguinte forma: nós empurramos os bandidos para a parte da mata e, quando eles chegam lá, a execução acontece. Então, se nós não damos uma rota de fuga. Por exemplo: se eu for atacar um rato, ele vai chegar a um ponto, uma hora em que vai se sentir acuado. Se você for atacar alguém, ao colocá-la em uma situação dessas, ela vai se sentir acuada.
Na minha visão, o que foi feito ali foi unicamente a política que vem sendo feita há décadas no Rio de Janeiro e não muda. Se nós formos parar para pensar, esse problema tem de começar a ser mudado na raiz. Dentro dos presídios, nas escolas, nós temos de parar com esse complexo de inferioridade de que o preto vai continuar embaixo. Não, tem preto para caramba se dando bem no mundo, tem preto para caramba inteligente, tem gente que realmente movimenta a cultura, movimenta o mercado, movimenta a moda.
Eu acho que, em um país tão grande e tão rico como este, é uma vergonha nós não produzirmos um chip. Nós não produzimos um chip hoje. A guerra não é mais armamentista; é tecnológica. E um país como este, nós só exportamos, exportamos, exportamos para fora, acabando com todas as riquezas que temos, não só a riqueza cultural, mas são minerais. A maior – na minha visão – a ma
ior riqueza que temos é a Floresta Amazônica, e nós deveríamos olhar também para a Floresta Amazônica. Mas nós vamos ver cada vez mais o quê? Operação: Morreram “x” em favela. Mas nós nunca vamos ver uma operação falando que foram presos 100 garimpeiros ilegais na Amazônia. Então, isso é realmente... Nós vamos tirar o foco daqui e colocar em outro lugar, porque aqui está sendo feito algo a que nós não podemos prestar atenção. Então, meu povo, isso só se repete, se repete.
Eu não sei se sou a melhor pessoa para estar aqui falando isso para os senhores, mas eu acho que já está na hora de nós abrirmos o olho, de termos um reset mesmo na política do Brasil. Não estou falando só do Rio de Janeiro; é do Brasil. Porque quando nós olhamos de fora, o cartão-postal do Brasil é o Rio de Janeiro. Mas também, quando olhamos de fora e falamos: “Eu sou do Rio”, a resposta é: “Não, é muito perigoso lá. Eu não posso ir para lá”.
Nós temos de tirar isso do nosso estado e do nosso país. Eu já fui a países que não têm a metade do que nós temos em cultura, em recursos naturais, em absolutamente tudo. E o país é muito mais seguro do que aqui. E eu vi, nessa última vez... Eu peço desculpa a todos, pois no dia da operação eu não consegui postar absolutamente nada; eu fiquei com o estômago embrulhado porque eu já vi aquilo ali se repetir, se repetir, e vi que eu, sozinho, não vou conseguir mudar aquilo ali, e postando eu seria só mais um.
Hoje, com essa oportunidade de estar aqui conversando com vocês, eu queria, da próxima vez, no próximo voto, vamos votar legal, vamos pensar em quem a gente vai colocar lá, porque não adianta a gente, como disse meu amigo ali – eu trouxe um amigo meu hoje e ele falou assim para mim, que foi até triste: “Rennan, de que adianta também a gente ficar bolado com o que aconteceu? – para não usar outra palavra... “E quando foi na época de eleição, esses caras vieram aqui e a rapaziada da favela vendeu o voto para eles?” Como aconteceu com o Cláudio Castro lá, entendeu? Ele estava lá dentro do morro.
A solução desse problema tem que começar aqui com a gente. É educação, é a gente começar a botar aula de Financeiro dentro das escolas, aula de Música que eu nunca vi ter, enfim, eu cheguei a uma época da minha vida em que eu fazia tudo de ouvido, rapaziada, não tive estudo para teclado, piano, violão, e chegou uma hora da minha vida em que eu falei: eu já paguei tanto de imposto, eu já paguei isso, paguei aquilo e eu não tenho retorno disso. A gente não tem retorno, a gente está pagando imposto o tempo todo e a gente vê que você não tem retorno para o seu filho na escola pública, você não tem retorno para o seu filho, ninguém tem um retorno, a gente vai olhar para o futuro e vai falar: "Não, realmente a gente está formando pessoas boas para ser um médico, ser um bombeiro, ser um bom policial".
Eu não tenho raiva da polícia, não, gente, eu tenho raiva das instituições que fazem a cabeça desses policiais terem raiva da favela. Eu não posso ficar entre um muro, eu tenho que ficar a favor do meu povo, tenho que ficar a favor da minha população.
Vamos mudar esse problema? Vamos mudar, sim, mas quando a gente pegá-lo na raiz, que somos nós mesmos. Nós mesmos temos que olhar quem a gente coloca lá, nós mesmos temos que olhar o queremos para o nosso futuro. A gente quer continuar, com todo o devido respeito, pagando, pagando, pagando imposto para político viajar?
Vejam, eu tomei seis anos e oito meses de cadeia sem ter dado um único tiro, sem ter vendido nada; Sérgio Cabral tomou 200 anos e está na rua, o cara matou gente para caramba, direta e indiretamente. E o que mudou? Então, quer dizer que o crime do colarinho branco não vale nada e o crime que é da favela, que é a venda de drogas, vale mais do que um crime do colarinho branco? Não pode, a gente não pode ser hipócrita. Um crime com uma canetada às vezes mata muito mais do que um baseado que um jovem acende no morro.
Então, rapaziada, vamos parar, olhar legal: o problema não são mais as drogas, a venda de drogas não começa dentro da comunidade, só passa por ali. É um pequeno pontinho, um pequeno pontinho, que me desculpem aí. O traficante que olha uma comunidade, ele é um vendedor de hambúrguer, me desculpem, perto de quem tem o poder realmente de acabar com isso.
E eu vou finalizar isso aqui com uma frase que eu ouvi numa música do MC Orelha, que é assim: "Quem pode acabar com a guerra não quer que a guerra acabe, enquanto isso, o crime trafica à vontade". Parem para pensar, quem pode acabar com a guerra não quer que a guerra acabe, é lucrativo. Enquanto isso, nós estamos no meio, perdendo famílias, perdendo entes queridos, perdendo amigos para o crime.
Quantos amigos eu já perdi para o crime? Chegou uma época da minha vida em que eu estava achando isso normal – tá ligado? Poxa, morreu mais um, normal. E, por incrível que pareça, ouça o que eu acabei de ouvir há uns dias: “morreram 130, isso vai ser reposto aí na saidinha de final de ano”. Eu ouvi isso.
Olhem como passou a ser só massa, só números. Eu acho que realmente para a gente mudar tudo o que está sendo posto para nós há décadas aqui – e realmente não muda nada – tem que partir de nós, rapaziada, não vamos ficar nos vendendo, parece que isso já está entranhado no nosso país há anos. Vamos começar a olhar para a frente, para o nosso futuro, pensar em tecnologia, pensar em ciência, pensar em formar bons médicos, pensar em formar pessoas que vão levar este país para a frente.
Está vindo uma nova geração aí com a cabeça maior do que a gente, que não teve acesso por falta de oportunidade lá atrás. Então, vamos instruir essa rapaziada nova, que está vindo, a ter um futuro que vai fazer o nosso país estar em destaque.
Eu penso não no Rio de Janeiro, eu penso no nosso país; um país maravilhoso como este, cheio de riqueza, continuar sendo um país de segundo mundo como dizem aí, entendeu? Então não, isso não, eu vou viver ainda para ver o Brasil um país de primeiro mundo, do qual a gente vai se orgulhar da nossa própria evolução.
Agradeço a presença de todos, estamos juntos, valeu?

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Falou e disse, DJ Rennan da Penha. Uma salva de palmas mais uma vez.
Acho que são palavras muito importantes, profundas, que mostram a nossa responsabilidade enquanto legisladores e parte dessa classe política do Brasil de poder fazer diferente.
Nessa lógica de intercalar as falas, quero chamar, também com muita alegria, nossa MC Paixão, que faz parte da Frente Municipal do Hip-Hop, para fazer uso da palavra. Chega mais, Paixão.
Vou registrar algumas presenças enquanto ela não chega: Senhora Daiane de Souza, coordenadora de Igualdade Racial do Município de Nova Iguaçu; Breno Rodrigues, integrante da coordenação nacional do Movimento Brasil Popular e do mandato da Marina do MST; nossa querida Fabiana Santos, Secretária Estadual de Mulheres do Partido das Trabalhadoras; Cleber Gonzaga, subsecretário de Direitos Humanos da Prefeitura de Nova Iguaçu, obrigada pela presença; Sam Lima, coordenadora estadual do Levante Popular da Juventude; e a nossa querida Luyara Franco, diretora-executiva do Instituto Marielle Franco.
Então, vou passar para a terceira dos grupos. Vou chamar a Bruna Gomes, que é da Organização Cultural PH.

A SRA. BRUNA GOMES – Salve, família. Eu me chamo Bruna Gomes. Hoje eu estou aqui representando a Organização Cultural PH. Sou nascida e criada na Vila Cruzeiro, Complexo da Penha.
O nosso coletivo movimenta a arte e cultura, ativações de arte e cultura dentro do território, protagonizando os moradores e visualizando o fazer cultural, o fazer artístico como geração de renda para a comunidade e para a juventude principalmente.
Eu não preciso pontuar aqui o que aconteceu semana passada, todo mundo está muito bem informado sobre o que aconteceu, mas aquilo ali foi só o resultado da violência que nos é atravessada todo dia pela falta de políticas públicas.
Eu vou ser breve aqui na minha fala, até porque não estava muito programada para eu falar, era para outra pessoa estar aqui representando o Coletivo. Mas o que a gente identifica é que o Plano está aqui para tomar essa frente. A gente precisa de capacitação e de geração de renda para a juventude. Nós estamos cansados de sermos jogados para a margem de toda forma.
Não é desmerecendo nenhum tipo de trabalho, até porque foram esses trabalhos que me sustentaram até hoje e que me fazem estar aqui presente. Mas a gente está cansada de ser jogado para a margem. A gente precisa ampliar a visão desses jovens para identificar outras áreas de atuação como geração de renda.
Eu acho que a minha fala é essa. Está tudo muito bem direcionado, o Plano já foi aprovado. Aguardamos porque está tenso ter que lidar com todos esses atravessamentos sem nenhum tipo de apoio, sem nenhum tipo de recurso, fazendo tudo na raça. Valeu.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Paixão voltou. Vou passar para a Mesa e depois eu passo para você, pode ser? Obrigada, Bruna. Maravilhosa a sua contribuição.
Agora, quero chamar para fazer uso da palavra – e agradecer mais uma vez pela presença da Secretaria de Juventude do Rio de Janeiro – o nosso querido Subsecretário Felipe Lima.

O SR. FELIPE LIMA – Boa noite a todas e todos. Tentarei ser o mais breve possível. Sei que ainda temos muitas outras falas.
Queria agradecer primeiramente à Vereadora Maíra, que é a proponente dessa audiência, mas também a todos os colegas da mesa, autoridades, sociedade civil e principalmente essa juventude, que hoje ocupa esse espaço, para que possa somar nessa construção e que a gente consiga ter êxito nessas políticas públicas voltadas para a juventude, sobretudo a juventude negra.
Estou aqui hoje representando a Secretaria Especial da Juventude, em nome da Gabriela Rodrigues, que é a secretária; também para reforçar o nosso compromisso com o Plano Juventude Negra Viva. A Secretaria da Juventude já vem, há um tempo, desenvolvendo alguns trabalhos, projetos e também com equipamentos físicos, que ofertam todos os tipos de atividades, de capacitações. E dentro desses projetos e equipamentos, quase 80% dos jovens que nós atendemos hoje são negros.
O que isso quer dizer? A gente tem um desafio grande pela frente. Nos Espaços da Juventude, que são voltados para a indústria avançada, tecnologia, a gente consegue hoje ofertar para os jovens a oportunidade, como o Rennan falou, de ter contato, a primeira vez, com um drone, com uma impressora 3D, com programação – muitas vezes, está muito longe da realidade do território mais vulnerável.
Então, a gente se esforça muito para estar junto com outras frentes para poder atrair esses jovens para esses espaços, porque, muitas vezes, eles não se sentem pertencentes. Esse é o nosso primeiro desafio: recuperar a autoestima dessa juventude, da juventude negra, que, às vezes, acha que não pode ocupar alguns espaços, como esse, por exemplo, que é a Casa do Povo.
Quando a gente consegue romper essa barreira, apresentar para esses jovens um Espaço da Juventude e mostrar que ele precisa aprender e ele merece aprender sobre tecnologia porque o futuro está aí; as frentes de trabalho vão sumindo e a gente precisa, cada vez mais, de jovens especialistas em programação; todo jovem agora precisa saber inteligência artificial, senão a gente está sempre um pouco atrasado.
A gente tem também o Pacto pela Juventude, que é o maior projeto da secretaria, e esse é um projeto interessante, porque a gente consegue levar para dentro do território – esse é um projeto que é uma cooperação técnica com a Unesco, e ele é pautado na formação cidadã. Mas ele também é pautado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Vamos debater o clima; vamos debater as mudanças climáticas, que, muitas vezes, também não chegam nas favelas. Isso não é debatido. Quase sempre, a gente está debatendo a violência na favela. Isso é triste.
Hoje, estamos em mais de 60 territórios espalhados por toda a Cidade do Rio de Janeiro, trazendo essa pauta; trazendo o jovem para debater, para olhar para o seu território, principalmente, e se sentir protagonista da mudança. Porque não vale a gente ficar vendo a notícia: "Ah, o que aconteceu na Europa, a geada; o que aconteceu no norte do país”.
O que está acontecendo na favela? Como que esse jovem está sofrendo com as mudanças climáticas? E o que ele pode fazer? Como a gente pode estimulá-lo? Como a gente pode trazê-lo para o debate? Então, é um projeto que tem um alcance muito grande; traz o jovem para esse lugar, entendendo que o jovem também é protagonista.
Temos as Casas da Juventude, porque o jovem também precisa de espaço de convivência. Ele precisa de um espaço onde ele se sinta seguro e troque com outros jovens. Então, a Casa da Juventude já é um espaço mais voltado para a cultura. Ele tem ali um espaço onde ele pode fazer uma música; onde ele pode fazer uma roda de conversa, um cine debate. A gente está agora com uma parceria incrível, que é com a Main Street. Hoje, a gente teve aula, inclusive, com a equipe, para ensinar o jovem a fazer produção audiovisual, produção cultural.
O jovem, muitas vezes, quer ser o artista; ele quer ser o Rennan da Penha, mas ele não entende que existe toda uma indústria por trás disso. Porque, às vezes, ele não tem um talento de cantar, um talento de rimar, mas ele tem um talento de ser um backstage; de estar auxiliando no palco; de fazer a mídia. Então, a gente precisa também apresentar essas realidades para os jovens. Porque, muitas vezes, como eu disse, para ele, isso é muito distante.
A Secretaria de Juventude, hoje, tem um compromisso não só de levar as oportunidades, mas também de resgatar a autoestima desse jovem, de entender que ali existe uma parceria, existe um espaço onde ele está seguro, onde ele pode se desenvolver.
Eu acho que o caminho é esse: conseguir dialogar entre todos os entes, todos os órgãos, com a sociedade civil, com as lideranças locais, para que a gente possa avançar na pauta, de verdade, e conseguir fazer essa transformação que a gente tanto deseja, não só a juventude negra, mas em toda a sociedade. E é o que vocês merecem; é o que nós merecemos. A gente se coloca à disposição, enquanto JUV-Rio, para estar somando nessa frente.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Felipe. Muito importante esse trabalho que a JUV-Rio desenvolve aqui na cidade do Rio de Janeiro. Agradeço mais uma vez a presença.
Paixão já está por aí para fazer uso da palavra? Chega aí, Paixão. Antes de passar para Paixão, queria registrar duas presenças que eu vi daqui de frente. Primeiro, da querida Camila Peçanha, da Casa Glória Maria, nossa grande companheira. E do querido Jefferson Amadeus também, aí do IDPN, que está sempre na correria, mas fez questão de prestigiar o nosso evento. O trabalho do IDPN é fundamental para a população negra do Estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, para a juventude.
Uma salva de palmas. O encontro, o encontro.

O SR. RENNAN DA PENHA – Foi esse lindo rapaz aí que me absolveu, olha ele aí.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Passo a palavra para a Paixão.

A SRA. PAIXÃO MC – Obrigada, obrigada.
Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite, boa noite. Boa noite, pessoal. Agora já é a PF, antes era a PJ. Então, eu sou a Paixão MC. Faço parte da comissão civil da Frente Parlamentar Municipal do Hip-Hop.
Deixa eu ficar aqui do lado do meu cria, cria nossa, tudo nosso. E, dentro da Comissão Civil, a gente está fazendo um trabalho maneiro à beça em cima da Lei Hip-Hop nas Escolas, veio no mandato do Vereador Edson Santos. E, a partir daí, essa cartilha ela está vindo com o intuito de abranger todas as atuações do hip-hop na nossa vida como jovem periférico.
Eu faço uma roda cultural na minha comunidade, eu sou cria de Senador Camará, lá na Zona Oeste. Vocês conhecem Senador Camará? É isso, minha terra. E lá a gente tem a batalha da Casa da Cultura. Essa batalha veio com o intuito de ocupar um lugar onde só tinha uso de drogas. Era um lugar bem específico para isso. E lidar com a saúde mental do jovem periférico é muito difícil e, para a gente que está na rua fazendo roda cultural, é basicamente aí que a gente atua. Porque a partir do momento em que o jovem tem a autonomia de pegar o microfone e cantar a própria verdade, ele também está ali tipo se fortalecendo e fortalecendo a própria ideia de quem ele é no mundo.
O hip-hop também teve uma porção muito importante para popularizar a informação para o periférico no Brasil, principalmente aqui na nossa cidade dentro das favelas. Então, o trabalho está sendo feito para poder mostrar como que o hip-hop, como que essa cultura atua tanto na cultura, quanto na educação, quanto na questão da saúde mental.
Lá no Instituto Nise da Silveira, lá em Engenho de Dentro, eles têm uma parceria com a Batalha também, que é a Batalha do Engenhão. E lá eu descobri, pensando no meu TCC, que eu sou graduanda em Letras, como que as batalhas atuam dentro da... como que as rodas culturais atuam como espaço de geração de saúde coletiva. É um lugar onde cada um pode falar quem é, o que passa, a dor que sente e isso daí é algo revolucionário e a gente faz na rua sem nem saber o nome de tudo que a gente faz.
Essa cartilha está vindo com essa ideia de mostrar o tamanho da potência que a nossa cultura periférica tem e quanto que ela vem para nos alimentar e nos fazer ter mais autoestima, como o próprio Secretário falou. Porque, a partir da autoestima, que eu descobri há pouco tempo que é sobre competência, não é sobre beleza, a partir da autoestima que a gente consegue engajar coisas novas para nossa vida, ver novas perspectivas de futuro e a gente tem que se sentir confiante para poder estar nesse lugar que a gente quer ocupar. Então, o trabalho é esse.
Espero que a gente possa compartilhar, a partir do ano que vem, com todo mundo, para todo mundo ver, porque é sobre valorizar quem a gente é, a nossa raiz e com o resgate ancestral também, porque não tem como a gente se ver forte sem reconhecer o nosso passado forte.
É isso, muito obrigada pela palavra. Obrigada, obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Paixão. Superimportante o trabalho desenvolvido e a gente consegue ver, no conjunto das falas e das contribuições, como, de fato, tem sido feito e construído muitas coisas na cidade do Rio pelas mãos da juventude.
Eu acho que a ideia também deste Debate é que a gente consiga compartilhar esse conjunto de iniciativas para mostrar que juventude favelada é potência.
Para dar seguimento ao nosso Debate, quero chamar com muita alegria essa maravilhosa Pamela Carvalho, que é gestora da Casa Preta da Maré e da Coalizão Negra Por Direitos.

A SRA. PAMELA CARVALHO – Alô, boa noite. Boa noite.
Antes de tudo, queria agradecer a presença de todas as pessoas que estão aqui, agradecer esse convite de Maíra. Gente, eu estou muito feliz. A gente está passando por um muito difícil, muito denso, mas eu acho que justamente a gente se reunir em espaços como este, reivindicar as nossas presenças em espaços como esse é mais do que importante.
Eu sou Pamela Carvalho, moro no Parque União com muito orgulho, que é uma das favelas do conjunto de favelas da Maré – e é desse lugar que vem a minha fala e vem o meu trabalho.
Eu tenho a felicidade de construir uma organização da sociedade civil que é a Redes da Maré, onde está a Casa Preta da Maré, um espaço que tem pensado os direitos e o protagonismo da população negra na Maré, pensando que a gente está falando do meu caso, da Maré, do conjunto de favelas com cerca de 140 mil moradores, onde a gente tem mais de 62% de uma população negra e uma população também com perfil muito jovem.
Para não me estender muito nesta fala, eu tinha pensado em trazer algumas coisas, mas ouvindo as outras falas e também muito mexida com tudo que a gente vem vivendo, e também pensando a presença de Evelyn, pensando Camila Moradia que está por aqui, e várias lideranças do Complexo da Penha e Complexo do Alemão, que estão sentindo no corpo os impactos de uma política de morte empreendida pelo nosso Estado, eu mudei um pouco o que eu iria trazer. Então, vou fazer uma fala breve tentando trazer alguns paralelos, inclusive, com o que a gente vem vivendo.
É importante dizer que o que a gente viveu no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão é fruto de um projeto de Estado, um projeto que é contra isso aqui, que é contra a juventude negra, viva, muitas vezes por perceber a potência de transformação dessa juventude. Então, essas trajetórias são interrompidas para que esse fruto não chegue ao ponto de ser colhido do pé e transformar toda essa sociedade.
Na Maré, na Redes da Maré, a gente tem tentado fazer uma série de ações que justamente vão na contramão desse Estado que olha para as favelas e para as juventudes pretas como uma possibilidade de perigo. Então, por exemplo, a gente tem uma ação, um projeto chamado Construindo Caminhos. E aí, não consigo não pensar a partir também das histórias narrativas afro-brasileiras. Quando a gente fala de caminho, de rua, de encruzilhada, a gente está falando do orixá Exu. De um orixá que é também o orixá da brincadeira, que não é o sim, não é o não. E aí quando eu falo de Exu, eu visualizo um menino preto, um menino preto, brincalhão.
Aí pensando essa ideia de construir caminhos, de fortalecer caminhos e não fechar caminhos, que, muitas vezes, é o que o Estado faz com a gente, a Redes da Maré pensa essa ação que tem como objetivo garantir os direitos, especialmente de jovens negros egressos do sistema penal e socioeducativo. Pensando que, quando a gente olha o perfil dos cemitérios, quando a gente olha o perfil dos necrotérios, quando a gente olha o perfil dos presídios, a gente está falando majoritariamente de homens jovens, pretos e oriundos de favelas e de periferias.
Esse projeto que já realizou mais de 1.700 atendimentos só em 2025, tem um perfil de atendidos que tem mais de 75% de homens negros e que estão justamente sendo vistos a partir da sua humanidade e dessa possibilidade de reconstrução de caminhos.
Outra coisa que acontece também é que dizem que a gente não tem tecnologias nas favelas, que a gente precisa de tecnologias que virão de fora. E uma coisa que aconteceu muito grave nesse contexto da megaoperação da chacina do Complexo da Penha e do Alemão, foi que, em um dado momento, os números que os moradores e lideranças locais, assim como as instituições parceiras, contabilizaram, não era o mesmo número que estava sendo contabilizado pelo Estado e pela mídia hegemônica.
Houve um processo de apagamento do tamanho dessa barbárie. Até que justamente os moradores e lideranças locais começaram a mostrar. Porque a gente não quer mostrar a nossa dor, a gente não quer mostrar o nosso sangue no chão, mas às vezes a gente tem que usar esse recurso para que a nossa dor seja vista e muitas vezes contabilizada e pensada como possibilidade de política pública.
Se, muitas vezes, os dados que a gente gera nas favelas são ignorados, a Redes da Maré cria também um projeto chamado de Olho na Maré, que vai mapeando os confrontos e operações policiais no conjunto de favelas da Maré e, justamente, fazendo processos de incidência política para que a gente não veja acontecer com essa recorrência, essa política de morte que o Estado tem empreendido contra a gente.
Para finalizar, eu entendo também que a arte, a cultura não são só uma finalidade, elas são justamente o caminho. A partir da arte e da cultura, a gente consegue se expressar. E a arte e a cultura são também formas de a gente disputar narrativas e reescrever as narrativas sobre os nossos próprios territórios. No Complexo da Penha, do Alemão e da Maré, a gente tem uma série de ações, como a Escola Livre de Dança da Maré, a gente tem o Voz das Comunidades, a gente tem o CEM, Centro de Integração na Serra da Misericórdia no lugar da agroecologia, mas também ações culturais, territoriais – e pensando infâncias.
É importante a gente perceber que a gente tem uma juventude preta e favelada fazendo arte, fazendo cultura e escrevendo com as suas próprias mãos, com a sua própria linguagem. E, às vezes, quando falam: “Ah, mas vocês falam de uma forma que a gente não entende e vocês usam muita gíria”, é porque, muitas vezes, a gente usa uma tecnologia ancestral que vários jongueiros utilizavam, que a gente diz que o jongo tem “um dizer e dois entender”. Porque muitas vezes a gente está falando uma linguagem que é para ser entendida só entre aquele núcleo mesmo, que é para ninguém se apropriar. Muitas vezes ninguém entendeu o que a gente está falando porque a gente precisa de um espaço seguro. A gente tem inclusive criado nesse campo da linguagem.
Acho que o que eu poderia dizer com relação ao plano é que a gente continue nesse caminho de estar nos territórios, como foi feito com as caravanas, de fazer esse processo de oitivas a partir de quem vive essa realidade. Ninguém mais pode saber e falar pelo jovem negro do que o próprio jovem negro. Ninguém pode saber melhor da favela do que o próprio favelado. Logo, a gente ocupar esse espaço, que é a dita Casa do Povo, pelo verdadeiro povo, porque a gente não está na Suíça, a gente está no Brasil, a gente está no Rio de Janeiro, falando de uma população jovem, preta e periférica, que é quem acende e apaga a luz dessa cidade. Colocar o povo dentro da Casa do Povo para pautar a vida do povo e entender a vida como um princípio inegociável.
Então, a gente não vai negociar a vida de jovem preto por nenhum cargo eleitoral, nenhum cargo político. A gente não vai negociar a vida de jovem preto por nenhum projeto em favela ou fora de favela, porque a gente entende que a vida dos nossos jovens é inegociável e a gente ter jovens negros vivos não é algo que vai impactar só a vida desses jovens. A gente ter jovens negros vivos é realmente garantir que a gente tem um país democrático e minimamente justo.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Excelente, Pamela.
Fala superpotente que resgata essa tecnologia, esses saberes ancestrais e, principalmente, que mostra que não tem nada mais importante em relação ao Poder Público do que ouvir aqueles e aquelas que, há muitos anos, eu poderia dizer séculos, constroem resistência no chão dos territórios.
Eu acho que esse processo de ouvir e entender que projeto de lei, iniciativa legislativa precisa ser feita não a partir do que a gente constrói encastelado em gabinete, mas principalmente com esse olhar e audição atentos para quem está na ponta fazendo o processo acontecer.
Eu estive no CEM ontem e foi muito emocionante ver como, apesar da dureza, apesar de tudo que aconteceu, existe uma pujança de sonhos que entrelaçam uma série de gerações de mulheres mais velhas, de meninas de oito anos conhecendo o poder da agricultura familiar, o poder da agroecologia, o poder da terra.
Então, é incentivando essas iniciativas culturais também que a gente constrói política pública. Assim, obrigada pela sua fala.
Quero chamar para fazer uso da palavra a Nlaisa Luciano, do Fórum de Pré-Vestibulares.

A SRA. NLAISA LUCIANO – Gente, boa noite.
Na verdade, falar em meio a tantas pessoas que teriam muitas coisas para falar é uma responsabilidade. E quando a gente está aqui na frente, representando um fórum, a gente entende que a nossa voz vai ecoar, porque muitas outras vozes nos antecederam e permitiram que a gente estivesse aqui.
Nesse sentido, a minha fala está muito atrelada a como o fórum e principalmente os pré-vestibulares dos Complexos do Alemão e da Penha foram impactados às vésperas do Enem. A gente entende que, quando a gente está pensando a nossa população, a nossa juventude que é marginalizada em todos os aspectos, a gente percebe que, na luta de cada pessoa que está aqui, de cada coletivo que está aqui, as nossas agendas, de alguma maneira, fazem a gente se debruçar em um ponto específico.
Eu acho que a reunião de todos nós aqui neste momento nos faz perceber que cada pessoa está se responsabilizando por uma parte dessa luta.
Aí, quando a gente é chamada aqui para fazer essa fala, a gente tenta fazer uma sistematização rápida de tantas coisas que a gente tem para dizer, não é? Mas, ao mesmo tempo, quero agradecer o convite, agradecer a escuta de cada pessoa que está aqui, porque eu, como professora, e tanto a Pamela quanto o Rennan falaram coisas muito interessantes em relação à linguagem...
São coisas que a gente normalmente sempre está tentando imbuir na nossa juventude, que quem domina a língua, domina as massas. E a categoria juventude é uma categoria em disputa política, porque a gente precisa lembrar sempre para a nossa juventude que a gente está inserida numa estrutura ainda colonial. A própria arquitetura disso aqui, se a gente for pensar, essa arquitetura que, se não forem momentos como esse, a gente talvez nem entrasse, e esta Casa é nossa.
Então, eu fico pensando muito o quanto que o Fórum, nesse sentido, faz um processo que é muito árduo, porque a educação está cada vez mais sendo desmantelada. A educação está cada vez mais neste país sendo desconsiderada em muitas esferas, porque a gente sabe que essa legislação, que é a linguagem que a gente vive, e a língua, que é o código, e sendo língua, nós somos sujeitas pela própria língua e categorizadas por ela, a gente sabe que é com cultura e com arte que a gente consegue subverter essas lógicas necropolíticas, essas lógicas de morte.
Eu gostaria de agradecer e dizer que o Fórum de Pré-Vestibulares vai estar sempre na ponta, na base, atuando pela nossa juventude, porque a gente sabe que são essas pessoas que são de alguma maneira interrompidas, porque são essas pessoas aquelas que vão ocupar os espaços de poder, os espaços de decisão, os espaços das universidades. Então, eu queria agradecer novamente o espaço de fala.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Muito obrigada a você pela presença. É sempre ouvindo essas iniciativas que a gente constrói junto. Acho que as iniciativas de pré-vestibulares sociais e populares são verdadeiras potências nos territórios, e a gente precisa fortalecer sempre que possível. Então, contem com o nosso mandato, pessoal do Fórum de um modo geral, porque a gente está junto nessa luta.
Quero chamar aqui para fazer uso da palavra, pelo Instituto de Defesa da População Negra, Djeff Amadeus, que vai precisar sair já, já. Vou chamar aqui para falar, por favor, Djeff.

O SR. DJEFF AMADEUS – Pessoal, minha fala vai ser bastante rápida. Primeiro, parabenizo a querida companheira, que tem feito um trabalho incrível.
Cheguei aqui e me lembrei de um momento muito marcante da minha vida, enquanto advogado, que foi há aproximadamente cinco anos: o assassinato do João Pedro, o Joãozinho, e a gente descobriu que ele sonhava ser advogado. E aí, eu fiz uma sustentação oral lá no Supremo Tribunal Federal, no Plenário, em que eu coloquei o nome de todas as crianças que foram assassinadas por esse Estado, abri lá como forma de eternizar o nome delas e fiz um poema para o João Pedro.
Queria aproveitar este momento para lembrar, que é mais ou menos assim: “Meu nome é Djeff Amadeus e eu vim aqui para lhes falar do jovem João Pedro, que sonhava advogar. Teve a vida interrompida por um Estado genocida. Levaram Joãozinho, podia ser um Emicida, ou então um Luiz Gama, maior advogado do Brasil, herói da libertação, lutou contra a escravidão, ou um Amílcar Cabral, herói da Guiné-Bissau, pedagogo da revolução e pai da libertação. Amílcar e João, viva a revolução. E para finalizar, agora eu vou dizer: cansei de gritar ‘presente’, eu quero gritar ‘vivo’. Povo preto vive e vira professor ou desembargador, mestre e doutor. Viva João Pedro, advogado e defensor”.
Pessoal, para finalizar mesmo agora, vendo uma juventude maravilhosa, queria lembrar outro momento, também lá na porta do Supremo Tribunal Federal, em outra ocasião, e falar um pouco de esperança. Eu lembro que a gente estava saindo, depois de uma derrota lá no Supremo Tribunal Federal, o pai da Kathlen vira para a gente ali, me abraça e fala o seguinte: “a gente não pode perder as esperanças, porque eu estou aqui por vocês". E, aí, todo mundo se perguntou assim: "Mas como assim? Você está aqui pela gente"? Ele falou: "Eu estou aqui lutando com vocês e por vocês; para que não aconteça com vocês, com os filhos e com as filhas de vocês, o que aconteceu comigo".
Eu trago esse exemplo para dizer o seguinte: se a gente tem, em algum momento, derrotas ou acha que não tem esperança, lembre-se disso. O pai da Kathlen ali, lutando conosco, dizendo para que a gente mantivesse as nossas esperanças firmes e fortes. Ou seja, se, em condições muito piores que as nossas, os nossos ancestrais estão aí lutando, eu acho que a gente tem o dever e a obrigação de dar continuidade à luta deles. Obrigado, pessoal.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Djeff, pela presença, por mostrar que o direito pode e deve ser uma ferramenta de construção de luta a favor da nossa população preta.
Vamos dar seguimento aqui nas falas. Vou chamar o Jota Marques, que é educador popular também e que hoje está aí em uma importante tarefa, frente à EBC. Solta a voz, Jota.

O SR. JOTA MARQUES – Poxa, a galera me deixou como aqui, não é? Teve poesia, música, o bagulho ficou louco. Primeiramente, então, boa noite.
O último da Mesa a falar parece ter uma “responsa” diferente. Primeiro, eu quero pedir, na verdade, uma salva de palmas para Maíra do MST, porque chegar nesta Casa aqui, a gente que é de Jacarepaguá, sabe que não é fácil. Cada voto lá conta e nem todo lugar lá a gente pode entrar, não sei se vocês estão sabendo. Então, quando você ganha um voto de lá, é porque alguém recebeu um santinho no sapatinho e quis votar. Não foi porque a gente comprou, não foi porque alguém foi obrigado, não teve isso.
Até porque, mesmo que você quiser pagar, alguém paga o dobro. Porque, tipo assim, o bagulho ficou na cidade. Vamos falar: eu brinco com a galera que o voto ano que vem vai ser o mais caro da história.
A gente tem, nesta Casa em que a gente está aqui, bonitona, uma galera que pagou caro para entrar. Então, rapaziada que está com medo de entrar aqui, dizendo que esse lugar aqui não é nosso, tem que sair arrombando, ok? Porque eles entraram pagando. Nós temos que entrar de graça, porque esse lugar é nosso. Se a gente não pegá-lo de volta, vai ficar muito caro para a gente.
Então, fazer espaços como esse, hoje, é importante para a gente lembrar que não quer ocupar esse lugar só com a cadeira de vereador. É porque a gente precisa disputar um outro conceito de se pensar e fazer política na Cidade do Rio de Janeiro e no Brasil.
A gente falou muito de morte aqui, muito de corpo no chão. Eu sou educador popular, dei aula a minha vida inteira, fui conselheiro tutelar, fiz um monte de coisa. Estou na televisão agora, chiquérrimo, por causa do Governo Lula. Só que, quando a gente fala de corpos que caíram, os corpos continuarão a cair independentemente do governo que entrar, ainda que eu seja deste governo e defenda. Sabe por quê? Porque a gente está falando de projeto. Um projeto que acontece de forma sistemática, estruturada, cotidiana, que independentemente de se a gente vai viver ou morrer, eles nos matarão enquanto a gente estiver vivo, ainda que o nosso corpo não caia.
Os corpos daqueles que tombaram no Complexo da Penha, no Complexo do Alemão, já estavam mortos. E estavam mortos pela falta, pela ausência de perspectiva. Mas não é, Secretário, me desculpa, mas não é falta de drone. Não é falta de oficina. Não é falta de oportunidade.
A gente precisa ser um pouco mais claro talvez, ex-ministro Edson, da Cidade de Deus como eu. É porque senão fica parecendo que é sobre vaga. Estão pegando a visão comigo? Fica parecendo que a gente está falando sobre curso. Sobre ausência de curso, de uma oficina, de um sarau, de um baile.
Rapaziada, a gente está em 2025. Vocês acham mesmo que uma oficina vai tirar o moleque da boca? Vocês acham mesmo que uma oficina vai livrar o moleque de tomar uma bala perdida passando na Avenida Brasil? É sobre projeto. E a gente tem coragem para debater projeto ou a gente tem coragem para falar “mais 30 vagas na oficina de não sei o quê”? Senão a gente começa a cair no conto que é sobre “Fulano não quis entrar no curso. Qual será que a gente tem que oferecer agora?”.
A Cidade de Deus tem mais de 60 mil habitantes. Vai ter curso para os 60 mil? Vai ter bolsa para os 60 mil? Porque se tiver bolsa para os 60 mil, para os 140 no Complexo da Penha, talvez a gente comece a caminhar para outro lugar. Mas beleza, volta para a oficina que eu quero que tenha. De drone inclusive, agora parabenizando o trabalho.
A gente precisa entender que, entre a oficina e a vaga, entre o corpo que tomba, a gente precisa disputar no meio um projeto que dê conta de quem não vai chegar na oficina, de quem não vai querer a oficina, de quem não é obrigado a comprar o projeto que a gente deseja. E que a gente comece a conversar com as pessoas, ouvindo-as. O que o jovem quer? Talvez o que o jovem queira é diferente do que o jovem que tem condição de vir aqui hoje sentado.
Por que a gente acha que é representante? Por que a gente acha que pode falar em nome do povo? Por que a gente se acha tão importante assim, que a gente pode decidir política pelas pessoas? E aí a gente toma no pau, na estatística: “A maioria concordou com a ação”. E aí você fica: “Minha favela está concordando com essa parada?”. Eu não acho que está concordando. Eu acho que a gente está com medo, eu acho que a gente está desesperado e, se a gente não oferecer algo diferente, as pessoas vão comprar.
A minha proposta aqui hoje, e aqui encaminhar para o final de fato, é junto com a Maíra; junto com o Subsecretário; junto com a Pamela, que é minha amiga; Rennan da Penha, que a última vez que eu vi ele a gente estava de máscara ainda, faz maior tempão; e com o Edson. A minha proposta, de fato, é que a gente faça mais encontros como esses com pessoas que pensam diferente de nós. Eu não sei se vocês têm coragem de conversar com quem pensa diferente de vocês, entendeu? De entrar num vagão lotado e conversar com quem pensa completamente diferente de mim. E que, ainda que tenha um filho exatamente igual aos que caíram, ainda acha que alguma coisa está sendo feita.
Essa é a contradição que talvez a gente tenha que lutar para que a juventude queira viver, juventude negra viva. Ela não só viva, ela não só exista, mas ela possa nascer. Ela possa nascer. A expectativa de vida de muita gente dessa sala aqui – e aí eu vou fechar –, não sei se vocês se lembram de um dado, mas dizia que a cada 23 minutos morria um jovem negro. Eu venho aqui contar para vocês que o tempo diminuiu. Há quantas horas nós estamos aqui nessa sala? Quantos morreram até agora?
Hoje é o dia de se sentir um pouco desimportante. Hoje é o dia de a gente se lembrar da nossa insignificância para poder voltar a encontrar os nossos e perguntar para qual lugar que a gente quer caminhar junto.
Deixei vocês meio tristes, mas a gente vai se encontrar na rua com quem quer andar comigo. Estamos juntos.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Muito obrigada.
Obrigada, Jota, por trazer esse conjunto de reflexões, mostrando que existem de fato muitas limitações para que a gente possa alcançar a verdadeira libertação do povo negro. E isso realmente só se faz com construção de projeto. E a gente está na luta por um projeto popular para o Brasil.
Antes de dar segmento para as falas, queria registrar algumas presenças. Do querido Paulo Victor, meu querido PV, coordenador do projeto Vem Pra Cota da Uerj – obrigada, PV; da senhora Ivone Costa, da Creche da Fiocruz, matriarca da luta de Jacarepaguá; do querido Gabriel Araújo, integrante da comunicação do Levante Popular da Juventude e estagiário do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência na Saúde; e do Mr. Pac, coordenador da Comissão Especial de Favelas, dirigido pelo Vereador Leonel de Esquerda – e MC da maior qualidade. Valeu, Pac, pela presença.
Bom, agora quero chamar aqui para fazer uso da palavra Natan Neves pelo Fórum Favela Universidade. E, já, prepara a Camila Moradia.

O SR. NATAN NEVES – Boa noite a todos, a todas, a todes. Gostaria de saudar esta Mesa, saudar os companheiros que estão aqui até esse horário.
Queria dizer que meu nome é Natan, eu estou aqui representando o Fórum Favela Universidade. Nós temos uma atuação direta nos territórios de Maré e Manguinhos. Atuamos diretamente em relação a questões de saúde mental, pesquisa e jornada científica.
E hoje, diante de uma conversa sobre juventude negra, juventude viva, e trazendo o trabalho que nós fazemos com o Fórum Favela Universidade, o questionamento que eu quero trazer aqui é a importância de políticas de permanência para os nossos estudantes.
A Nlaisa trouxe um ponto muito importante sobre os pré-vestibulares, como esses alunos estão indo fazer esse ENEM nesse domingo. Os nossos alunos de pré-vestibulares vão ingressar na universidade e que tipo de política pública está sendo pensada para esses alunos que entram na universidade, mas continuam nos subempregos e terminam com os seus diplomas em casa, mas trabalhando em subempregos. E hoje o que nós queremos é justamente o contrário, queremos ser reconhecidos por aquilo que estudamos, por aquilo que estamos nos dedicando.
Então, é essa a minha fala, é esse o meu questionamento. Gostaria de agradecer. É isso, obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Natan. Fundamental a gente pensar políticas de assistência.
Chamo aqui o Mateus Salgado, do coletivo Rio Vale a Luta.

O SR. MATEUS SALGADO – Boa tarde a todos, todas e “todes” que estão presentes.
Eu me chamo Mateus Salgado. Sou atualmente membro da gestão atual do DCA da Uerj. Coordeno também o coletivo Negro Moacir Barbosa, coletivo negro do curso de Educação Física. Também sou militante do coletivo Rio Vale a Luta e presidente também do Centro Acadêmico de Educação Física Alberto Latorre Faria, da Uerj.
O que eu acho pertinente trazer para este Debate hoje é que eu acho que é muito importante a gente estar aqui discutindo mesmo esse plano federal, o Juventude Negra Viva; mas acho também interessante a gente pensar para pautas para além das três, que eu acho que são os eixos principais, quando a gente fala de juventude negra no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, que é principalmente a questão da violência.
Eu acho que o acesso também ao mercado de trabalho e também à questão do acesso à educação. Mas eu também acho que são pautas fundamentais a gente pensar também no lazer, na cultura como direito nosso, não só como um luxo, porque a gente vê que a juventude é vista muito como uma mão de obra e também como alvo da tutela policial, mas a gente tampouco vê isso daí como um direito nosso, a gente acha que, talvez, o acesso à cultura e lazer seja somente um luxo.
E a gente fala muito sobre resistência, mas também é interessante a gente pautar a juventude negra realmente viva. E, como o amigo aqui citou também, não só viva, mas também reproduzindo e também os filhos nascendo em condições de vida suficiente para a gente estar não só sobrevivendo, mas vivendo com dignidade.
O segundo ponto também que eu acho interessante é o direito à cidade, porque a juventude negra hoje sofre muito com transporte precário, principalmente a juventude negra da Baixada Fluminense daqui do Rio de Janeiro. Essa falta de acesso também dificulta a mobilidade, a geografia mesmo da desigualdade urbana, sobretudo atinge mais jovens negros do que jovens que não são racializados.
Essas políticas públicas antirracistas também precisam estar em voga de disputar o território. Não somente de pensar em projeto, oficina, mas também pensar como a juventude vai estar inserida em locais que vão favorecer inclusive a oportunidade de trabalho, a faculdade, a escola. A gente sabe que leva o dobro de tempo também para chegar às universidades, ao trabalho, ao curso, qualquer tipo de lazer também que a gente queira para ocupar o nosso tempo.
O terceiro, mas não menos importante, talvez um dos mais urgentes, eu acho que é a participação política com impacto real, porque a gente fala muito de políticas públicas, mas quem são os autores dessas políticas públicas? São pessoas negras? São jovens negros? Porque a gente vê muitos jovens negros sempre na posição de ouvinte, mas não como autores dessas políticas, realmente protagonizando e estando presente nesses espaços dando a linha mesmo, a direção, talvez numa posição, talvez como diretor de um movimento social, coordenador, talvez até mesmo como a Maíra, nesse momento aqui como vereadora da Casa. Assim, acho que é interessante pensar nesses eixos também, não só nessas políticas de sobrevivência e de resistência da nossa juventude.
Encerrando aqui eu deixo uma reflexão: se a gente quiser um país realmente que não apenas reduza mortes, mas também amplie vidas, eu acho que é interessante ir para além dessa resistência. É apontar realmente para uma construção, um projeto, porque se existe um projeto para nos exterminar, acho que é interessante também pensar num projeto que nos faça continuar vivos. Muito obrigado.

O SR. SECRETÁRIO EDSON SANTOS – Bem, eu gostaria de convidar para fazer uso da palavra o representante da Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência do Estado (Raave), Marilene Pereira.

A SRA. MARILENE PEREIRA – Boa noite. Obrigada pela oportunidade. Eu já venho de um dia bem cheio. Nós hoje estivemos na universidade numa reunião com deputados que vieram responder a nossa proposta feita em Brasília. Fizemos uma viagem até lá para pedir esse apoio. A Raave nasce de um coletivo de mães de Manguinhos. Esse coletivo, após a chacina, logo durante a chacina do Jacarezinho, começa a pensar nesse projeto. A Raave significa Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado.
A juventude negra tem direito a viver com dignidade, oportunidades e segurança? Muito direito, tem todo o direito. E quando você tem atenção à família, quando você acolhe a família, porque é isso que a Raave faz, ela acolhe, ouve, cuida psicologicamente, judicialmente e nós, mães – eu sou uma das mães –, abraçamos essa família.
Quando isso é feito, dá uma possibilidade, uma visão maior que a importância dessa família, porque naquele momento eu perdi um filho com 15 anos, ele foi executado à queima-roupa, ele levou um tiro de longe, de longe, porque eu moro num complexo de favelas na área central do Rio de Janeiro, Fallet/Fogueteiro. O meu filho foi alvejado de longe e, para não deixar ele vivo, foram até perto e deram dois tiros no peito. Me perguntem o motivo! A gente ouve muito a palavra bandido, não é? É fácil marginalizar quando se quer matar. “Eu marginalizo, então eu vou dar uma razão para a sociedade e a sociedade vai aplaudir essa morte.” E com isso vão nos matando.
Essa rede de atenção é importante para a juventude negra, porque a juventude negra mora majoritariamente nas favelas, não é? Nós temos complexos imensos no Rio de Janeiro e temos pequenos complexos. Pequenos morros e favelas. E quando você cuida de uma mãe, quando você traz o pai da Kathlen, e a mãe dela está conosco, é uma das 100 mães, você está cuidando dessa criança, você está cuidando desse jovem, dessa família. Morreu um, dois, tem mais. Tem mais com ódio.
Eu ouvi aqui sobre ódio. O Rennan falou, não é? Tem mais com ódio. Esse ódio, como vai ser cuidado? Lá no Alemão tem um monte de jovens e crianças com ódio. Esse ódio vai ser trabalhado dentro da mente dessa criança como? O que vai chegar até lá? Qual a criança que vai estudar e ainda ser cobrada para ter notas boas dentro de uma situação dessas? Qual a criança do Fallet-Fogueteiro, onde policiais ficam em Santa Teresa, protegidos pela população de Santa Teresa, que vê e não grava e não cobra e não fala nada, fazendo tiro ao alvo para o Fallet?
Essas crianças dessas comunidades que estão sendo agora ameaçadas pelo governador, a minha comunidade está nesse rol, essas crianças não têm paz para ir à escola. Essa criança está crescendo para ser esse jovem. Muitos jovens aqui. Que maravilha, que coisa linda. Mas essa criança está sem caminho. Ela está sem caminho porque ela só tem ódio, dor. E é o ódio que cresce pelo abuso de autoridade dentro das favelas, que não é visto. Muita coisa não é vista.
Nós, da Raave, estivemos no IML. Lá sofremos agressão verbal e de todo tipo. Eu sofri ameaça. Um policial me disse que nós somos 100. Nós não somos mais 100, porque uma já morreu nesse caminho. Ele disse que nós vamos ser 500. Nós conseguimos atender muitas mães, não é? Nós trouxemos para o nosso cuidado, a Raave trouxe. Já estamos com muitas famílias lá da Penha conosco, que vão ser cuidadas psicologicamente. O tratamento psicológico é muito importante.
Eu tenho uma criança de 14 anos. Ela não saía de casa, ela não queria estudar, ela não queria mais nada, porque ela estava pequenininha quando o meu filho foi executado. E a gente como família não percebe que aquele pequenininho está esponjando aquilo. Minha filha era uma menina revoltada. Quando a Raave começa, entra na minha vida, me pega solitária no Fallet-Fogueteiro. Porque aqui eu sou... Da Raave, eu sou a única mãe representante daquele território. Quando eu entro para a Raave, eu entro carregando o peso de mais de 40 mães.
O Fallet também teve chacina dentro de uma casa. Policial de Bope rasga pessoas, rasga jovens pelas costas. Então, a Raave vem trazer tudo isso para que tenha uma perícia. Porque não adianta o mesmo Estado que matar, investigar; o mesmo Estado que matar, periciar. Eu estava no IML. Aquilo não foi perícia. Tinha marcas de tudo quanto é tipo de tortura. E eu lembro que nós estivemos dentro da Raave uma palestra sobre isso, sobre tortura. E eu me lembrei de todas aquelas palavras, porque nós também aprendemos dentro da Raave.
Então, siga a nossa rede, nos apoie. Raave. Procure no Instagram: projeto Raave. Nós somos 100, ainda somos 100, a que morreu está conosco, os nossos filhos estão conosco. Não queremos gritar mais presente, mas nós viemos de Brasília, em poucos dias, estamos lá com vários outros, Joãos e Marias, presentes. Nós temos um grito. Marielle perguntou, e eu também vou perguntar: quantos mais têm que morrer para essa guerra acabar? É guerra? Guerra tem resposta. Se fosse guerra teriam números dos dois lados, muito mais números, não é?
Quando se traz a palavra “terrorismo” se traz para uma situação muito mais grave, porque se quer colocar o Brasil como um país numa situação difícil, para ser olhado internacionalmente como terrorista. E, se somos vistos como terroristas, então, está tudo bem com aquelas mortes, não é?
Então é isso, a Raave está presente, nós já construímos uma política pública, já fomos pedir apoio em Brasília. Nós viemos de lá esperançosos. Estamos contando com o trabalho dos políticos, dos parlamentares de lá. E precisamos que nos apoiem, porque nós não queremos mais abraçar mães, já temos muitas! Já está sendo penoso demais cuidar das que já temos, e agora chegar mais 120 famílias. São 220 são os atendimentos hoje, na Raave.
Hoje, eu ainda ouvi um relato de uma pessoa da Penha que ainda procura dois filhos. Não acabou aí. O número está errado! Ouçam as pessoas de dentro dos territórios, vejam menos televisão. É, pelo menos 99,9%. Vejam menos, assistam menos. Vejam a realidade.
Quero dizer que o abuso foi lá, mas ele continuou na minha vida, eu vim para casa sendo ameaçada. Eu fui para casa sendo ameaçada também, pois eu voltaria lá inúmeras vezes ainda esse ano.
É, sim, política o que estão fazendo com os nossos corpos negros. Se a gente cuidar da criança, se a gente pensar nessa criança, ela vai chegar um jovem com esperança, sim. Lá tem sonhos. No Fallet, na Cidade de Deus, na Penha, têm crianças que tem dons, sonhos! Temos muitos profissionais maravilhosos para saírem dali, mas o que fazer com o ódio da mãe que levou um tapa na cara de um policial? Pago por nós, e que deveria estar lá para nos proteger. O que ele faz?
Assim como a minha Raquel, é o nome dela, está sendo cuidada pela Raave, hoje ela não tem mais os pensamentos que ela tinha. Ela é uma criança que agora toca instrumentos, que agora está tendo notas boas... Ainda continua ouvindo tiros, ainda continua se sentindo ameaçada, mas saiu um pouco do peso psicológico ruim de dentro da mente dela.
Nós queremos cuidar de mais crianças. São muitas vítimas dentro dos territórios, muitas que não querem falar, muitas ainda ameaçadas. Nós precisamos do apoio de toda a sociedade que ainda pensa positivo sobre todos nós.
Eu agradeço a oportunidade.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Marilene, por estar aqui conosco.
As mães da Raave sempre trazem o que a gente precisa ouvir, uma força que constrói do luto a luta. Saibam que podem sempre contar com o nosso mandato, Marilene, porque essa é uma luta da sociedade. Então, conte sempre com a gente, com a nossa solidariedade.
Dando seguimento para as falas, queria chamar a Carla Cruz, do Levante Popular da Juventude.

A SRA. CARLA CRUZ – Boa noite pessoal, boa noite, juventude.
É muito difícil falar depois de uma fala tão potente como a da companheira, mas vamos lá, vamos tentar. Eu estou aqui com uma “colinha” também, para não esquecer.
Mas eu acho que queria começar compartilhando uma experiência que eu tive no início do ano. Uma experiência a partir do Movimento Sem Terra, a partir do Levante Popular da Juventude, de ir para a Venezuela e passar um período lá. E ali eu consegui enxergar o que de fato a construção de um outro sistema, fora do capitalismo, é possível de construir. Um lugar em que, nas periferias, eles tratam a juventude de um outro jeito. Eles tratam a juventude com emprego. Eles tratam a juventude com emprego; eles tratam a juventude com emprego de qualidade, através das cooperativas que são feitas ali naquele território.
É importante que a gente tenha também vivências e noção do que acontece também em outros lugares; de que é possível a gente sair desse estado e dessa forma como a gente vive aqui hoje. E eu acho que, olhando um pouco para esse objetivo, e olhando um pouco também para o Rio de Janeiro, é importante que a gente consiga enfrentar o crime organizado, mas com inteligência, e não com o massacre que está acontecendo no Rio de Janeiro há muitos anos.
Não foi só uma questão da semana passada, mas que vem acontecendo já há muito tempo. E não só o crime organizado, mas o crime que o Estado comete. Porque o que aconteceu na Penha, na semana passada, foi um crime de Estado. E como a gente vai conseguir cobrar esse Estado também sobre esse crime e sobre essa barbárie que eles cometem?
Eu acho que, no ano que vem, e não só no ano que vem, mas desde agora, a gente vem se organizando dentro das comunidades, dentro das periferias, através da Organização da Juventude, através da cultura, para que a gente consiga, no ano que vem, eleger uma outra pessoa que não seja o Cláudio Castro, para que a gente consiga conversar com os nossos companheiros, com os nossos amigos, com os nossos familiares, para que a gente não eleja um sucessor do Cláudio Castro e um sucessor da direita; da direita que pensa, todos os dias, o extermínio da nossa juventude.
Acho que, não por menos, mas também falar sobre o Plano Juventude Negra Viva, que espero que ele seja aprovado aqui no Estado do Rio de Janeiro. Eu fiquei com uma questão, que é não só de a gente conseguir construir esse plano através do simbolismo, mas como que a gente consegue construir esse plano a partir de dinheiro? Porque não é só com o plano, a gente precisa de uma fiscalização também.
A gente precisa garantir orçamento para a nossa juventude; orçamento para um plano de vida da nossa juventude. E aí, eu acho que fica também, para os nossos companheiros que estão na institucionalidade, esse compromisso com a juventude, esse compromisso com a classe trabalhadora também.
Por fim, no Levante, a gente tem um grito, que eu queria fazer também com vocês, que é assim: “Juventude do gueto...”.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Carla.
Muito feliz em poder compartilhar essa fala com você. Levante é a minha escola de formação – eu sempre falo isso, secretário –; é minha escola de formação. Acho que Carla traz um ponto muito importante, que é sobre essa questão do orçamento. A gente está passando, aqui na Câmara Municipal, agora, sobre esse debate do PPA e da LOA.
Acho que é importante situar, pessoal, que o Plano, quando aprovado, acho que é bom o secretário ouvir isso também, a gente consegue destinar... debater, dentro do orçamento da Casa, as metas e eixos deste Plano. Por isso é tão importante a gente conseguir a adesão do Rio de Janeiro, porque a gente vai ter amparo institucional para debater, com mais qualidade, o orçamento dentro da Câmara Municipal. Então, obrigada, Carla, pela sua fala.
Dando seguimento às inscrições, quero chamar o Phelipe Britto, do Coletivo Enegrecer. Chega mais.

O SR. PHELIPE BRITTO – Gente, boa noite. Saudações tradicionais.
Sou o Phelipe Britto. Estou como coordenador nacional do Coletivo Enegrecer. Muito difícil falar depois de tantas vozes aqui. Eu estava ali sentado, escrevendo mais ou menos o texto que eu queria falar aqui, para somar nessa luta. Eu fiquei me questionando como que todo o espaço preto, a gente só sabe falar dos corpos que estão no chão. Todo o espaço que a gente está em comunidade entre nós, irmãos pretos e pretas, a gente só sabe falar da chicoteada que o Estado nos dá nas costas.
Isso é uma política colonial; é a continuação de uma política colonial, uma política embranquecida, de que ele só quer nos ver, enquanto pretos e pretas, falando de dor. E aí, eu me pego muito numa frase do Mestre Nego Bispo, que ele fala: “Eu quero falar da gente ganhando, porque para falar da gente perdendo, eles já falam”. E aí, é por isso que a gente, o nome do coletivo é Enegrecer, faz esse convite a todos os coletivos periféricos, coletivos de juventude, para que a gente consiga criar uma frente ampla e fazer a cobrança, com que esse plano, que já foi aprovado, um plano que foi construído cuidadosamente por várias mãos e que, graças ao governo Lula, conseguiu aprovar esse plano.
O que a gente precisa agora é fazer pressão nos nossos parlamentares para que esse plano seja transformado em um projeto de lei, que esse plano não seja uma opção do Estado, seja uma opção do Município implementar. Esse plano tem que ser obrigatoriedade dos estados e dos municípios, porque, senão, a gente não vai acabar de morrer. Se esse plano, que foi construído pelas nossas mãos, não for um projeto de lei, se ele não for obrigação dos estados, a gente, mais uma vez, vai continuar fazendo audiências, a gente virá aqui na frente e a gente só vai falar aqui: “Tantos morreram, tantas mães choram”, e a nossa comunidade sempre tomando chicotada desse Estado que quer nos matar diariamente. Então, assim, se esse plano não virar um projeto de lei, a gente só vai morrer.
Finalizo essa minha fala, já tinha até pedido para cancelar a minha fala, porque foi muito difícil mesmo estar fazendo essa fala aqui, hoje.
Obrigado.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Superimportante, Phelipe, a aprovação desse projeto de lei, porque dá mais estruturação para esse conjunto de políticas públicas.
Quero chamar aqui para fazerem uso da palavra o Caio e o Christopher, que são do Conselho Municipal da Juventude, por favor.

O SR. CHRISTOPHER ROCHA – Acho que o Caio já foi, gente, mas vou me apresentar. Eu sou Christopher Rocha, faço parte do Conselho Municipal de Juventude aqui do Rio. Também sou doutorando em Antropologia Social no Museu Nacional, na UFRJ.
Bom, primeiro, quero colocar à disposição o Conselho Municipal para fazer essa discussão com as secretarias, com o mandato, vereadora, porque acho que esse é um momento muito importante. Eu queria, bem rápido, também, dizer que, no início aqui deste Debate, a gente teve uma intervenção falando sobre dados, trazendo os dados sobre o índice de vulnerabilidade da juventude. Esses mesmos dados são apresentados nos planos municipais, nos Planos de Juventude Negra Viva, tanto no que foi apresentado em 2017, que foi construído dentro do governo da época, do Governo da Presidenta Dilma, quanto depois de todos esses anos, agora retomada mais uma vez essa discussão. Esses dados estão presentes. E se é verdade que nós, juventude negra, somos a maioria da população encarcerada, somos a maioria da população que sofre com a violência policial, é também verdade que nós somos a maioria da resistência. Como a companheira veio aqui e falou que não vai aceitar que blindado entre dentro das favelas para estar matando jovem negro e favelado.
Eu acho que essa demonstração está presente, aqui, hoje, quando todos esses coletivos que vieram aqui falar se organizam dentro dos seus territórios para construir política pública. Eu acho que avança muito trazer essa discussão com as secretarias, com o poder público. O Plano Juventude Negra Viva foi um esforço hercúleo de ouvir em todos os estados da Federação, a sociedade civil organizada, apresentando proposta de elaboração de políticas públicas para a juventude. Eu acho que esse é um passo fundamental.
Mas, para finalizar aqui, é muito importante dizer também que é necessária a criação de fundos para que a gente consiga dar cabo e executar essas políticas públicas, como foi mencionado aqui pela companheira do Levante Popular da Juventude. É fundamental que a gente consiga ter acesso a recursos para fazer essa política pública chegar à ponta, chegar a quem precisa.
Era isso. Mais uma vez, o Conselho Municipal de Juventude está à disposição para construção, para discussão para elaboração de política pública para nossa juventude.
Muito obrigado.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Christopher. O Conselho, que é um superparceiro dos mandatos de jovens, tanto o meu quanto o do Vereador Salvino, também, do Vereador Marcio Santos, a gente vem construindo muitas coisas. Acho que a gente tem uma tarefa, que é a questão também do Plano Municipal da Juventude. A gente precisa ir para cima aqui na Câmara também.
Agora vou chamar com muita alegria nossa querida DJ Iasmin Turbininha, Iasmin Soares. E prepara a Evelin Dias, da Frente Penha. Estamos acabando, pessoal. Vamos segurar mais um pouquinho. Chega mais, Iasmin.

A SRA. IASMIN SOARES – Boa noite. Meu nome é Iasmin Soares, mais conhecida como Iasmin Turbininha. Sou DJ e sou cria da Mangueira. Eu cresci com essa toda essa violência de ver meus amigos, perder meus amigos indo para a escola ou algo do tipo. Existe muito o tal do ódio que a mãe dele falou.
A gente tem que ter investimento em cultura. A minha vida foi salva pela música, pelo funk, porque eu perdi minha mãe cedo, fui morar com a minha avó, não tive a presença do meu pai. E o funk entrou na minha vida para mudar de uma forma que nem eu imaginava, porque eu não tinha destino, eu não tinha lugar para ir.
Na comunidade, a gente tem amigos que, infelizmente, acabam escolhendo um caminho errado, e a gente não está falando só por isso. A gente sabe como é difícil viver na comunidade sem oportunidade. Eu cresci vendo operações, a gente mesmo, ainda criança, indo para a escola, a gente é esculachado, quando eles pegam a mochila da gente, tiram os materiais, jogam no chão, e a gente mesmo tem que catar. Então eu passei por isso e cresci vendo isso, toda essa desigualdade. Nada mudou, eu só perco amigos.
O mundo do funk, como eu falo, salvou minha vida porque, com o mundo do funk, eu consegui direcionar meus pensamentos, sair de uma bolha – porque a gente
vive na comunidade e a gente vive dentro de uma bolha. Então, eu consegui viajar, levando o meu som, levando as oportunidades. Tive amigos que viveram essa vida, e eu consegui tirar dessa vida trabalhando comigo
Acho que é isso: falta oportunidade, falta muita coisa para gente jovem, negro, viver bem. Eu acho que isso é uma luta. Eu acho que é maneiro ter todo mundo aqui falando sobre isso, mas eu acho que a gente tem que falar mais sobre o futuro, falar mais sobre oportunidade do que falar em mortes, porque a gente vê isso todo dia. Isso não é novidade para ninguém. Têm muitas operações em que morrem inocentes, a gente vê que aquela pessoa é inocente, mas na televisão estão mostrando que aquela pessoa é bandido, que é isso e aquilo, sem conhecer. E existem as pessoas que não conhecem a gente e que julgam as pessoas que moram na comunidade por serem pretas. É difícil.
A gente vê a Lei anti-Oruam. Por que anti-Oruam? Por que não chamam o moleque para vir aqui conversar, falar? Porque é um moleque que consegue conversar com a juventude negra também. Então, ele tendo um direcionamento para ter posição de falar com outros jovens, isso é muito importante, como o MC Poze do Rodo também, que hoje em dia tem outra mentalidade.
Acho que a gente precisa de oportunidade. O funk foi uma oportunidade para a gente, não só como o funk, o trap, o rap e o hip-hop que entraram na nossa vida e conseguiram tirar muito muitos garotos que eu já vi nessa vida, e hoje em dia estão cantando. Cantando a realidade, ainda são julgados por cantar a realidade que a gente traz na música. Mas é o que a gente vive.
Quando a gente começar a viver bem, a gente vai cantar outras coisas. Quando a gente morar na praia, morar em outro lugar, a gente vai cantar sobre isso. Mas, infelizmente, a gente vive na favela, e na favela é isso, é guerra todo dia, têm operações que acontecem e que não são televisionadas. Têm pessoas que morrem, e cada dia na favela está morrendo uma pessoa. Então eu acho muito importante a gente investir na cultura, investir no nosso som.
É isso, galera. Obrigadão. Eu ouvi muitas pessoas falando aqui, eu fiquei muito comovida. É isso, vamos participar, vamos chamar a galera. É a primeira vez que eu estou aqui, então para mim está sendo um sonho estar falando da importância disso. A gente tem que ver que a garotada jovem está aí para mudar e a gente tem que fazer diferente.
Obrigada. Obrigada, Maíra, “tamo junto”.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Iasmin, nossa DJ número um lá dos bailes da Uerj, quem viveu, sabe. Acho que Iasmin traz a importância da cultura como ferramenta de transformação, uma fala superpotente. Eu acho que a gente precisa disso, focar nessas iniciativas, destinar orçamento para isso, porque isso é falar de vida. Então, muito obrigada.
Quero chamar aqui a Evelin Dias, da Frente Penha, para fazer o uso da palavra. Uma salva de palmas.

(PALMAS)

A SRA. EVELIN DIAS – Boa noite.
Queria agradecer o convite. Eu faço parte da Frente Penha, mas, antes disso, eu faço parte da Comunidade da Penha há 27 anos, onde eu tenho três filhos que eu crio na Comunidade da Penha, a mais velha tem 27 anos.
Eu queria falar primeiro o quanto é difícil, enquanto mulher negra... Eu me esqueci de fazer minha autodescrição. Eu sou uma mulher negra, tenho o cabelo pintado de azul turquesa, estou vestindo uma calça bege, um sapato verde, uma blusa branca e uma echarpe branca. Como é difícil criar e educar jovens negros dentro da comunidade, porque é um não lugar ainda esse lugar de pessoa negra, onde se você está se desenvolvendo, crescendo bem, eles querem te matar por isso. E se você está mal vestido, mal calçado e não vai à escola, eles querem te matar por isso. Então, qual é a orientação a dar? Então, eu tenho escolhido orientar os meus filhos com estudo, com escola, com educação tradicional e não tradicional.
Agora, eu vou falar da Frente Penha, que é uma frente que começou pensando justamente nisso: como é que a gente dá visibilidade positiva para o nosso jovem, para a nossa comunidade, se a mídia só fala mal? E agora a gente tem tentado se excluir de dizer, porque eu não queria estar aqui falando sobre chacina, não queria estar falando...
Eu queria estar falando da nossa potência, do nosso trabalho, de tudo que a gente já conseguiu fazer nesse tempo todo, seja com a Associação de Mulheres da Penha, eu faço parte da Associação de Mulheres Negras da Aqualtune, seja como Arte, Memória e Ancestralidade, ou qualquer outra instituição que exista dentro da comunidade e que tenha um trabalho voltado para...
A gente fala sempre para os jovens, porque às vezes a gente acha que a gente já passou, já perdeu a oportunidade, e a gente começa a trabalhar para o que vem, para a nossa extensão. Eu falo também que nossos filhos são as nossas extensões, não só os meus filhos, mas os filhos da nossa comunidade.
Quando a gente começou a se reunir, foi nesse intuito de mostrar a Serra da Misericórdia com uma horta enorme, com os quintais produtivos. Foi no intuito de mostrar que a gente quer recuperar o parque, com “O parque é nosso”, que a gente precisa desse espaço de lazer. Foi no intuito de dizer que a gente tem arte, com a “Arte Transformadora”, que tem bailarina, que tem capoeira, que tem um monte de coisas, com o próprio AMA, que já são mulheres adultas que vêm trazendo essa parte ancestral do jongo, do samba de roda, do teatro.
É sobre essa Penha, esse complexo, que a gente se reuniu para falar e dizer assim: “Aqui tem potência, e a gente está aqui também para cobrar que seja investido nessa potência, e não para falar sobre a violentação do Estado sobre nossos corpos e sobre a nossa comunidade”.
Eu vim aqui, aliás, eu já venho há um tempo pensando nisso, mas agora, quando estava vindo para cá, eu estava lembrando, reafirmando esse pensamento, que é a gente sempre tem que dar respostas pela agressão que é feita. Nós, minorias, como eles dizem, que, na verdade, somos maioria, tem sempre que responder por que a gente foi violentado. Então, eu penso que a gente tem que devolver essa pergunta para o Estado. Por que na favela tem pena de morte? Por que a gente não tem os mesmos direitos que os outros?
E a gente é um povo muito criativo. Porque, se eles assumem que a gente não faz parte dessa sociedade, a gente pode, sim, criar uma sociedade nova, porque a gente tem agricultura, a gente tem dinheiro preto, a gente tem potência preta, a gente tem música preta. É só a gente falar com a verdade.
Assim, a gente não faz parte? Beleza, a gente não faz parte. E, aí, a gente cria, porque a gente, na verdade, já está criando. É um pouco do que o Rennan falou aqui. Ué, se a gente está fora da lei... mas a gente está fora da lei não é porque a gente quer, não; é porque a lei não conta a gente como protegido por ela. A lei não serve para a gente. Então, a gente pode abrir um precedente de que, se a lei não serve para mim, não serve para os nossos, a gente cria nossas leis.
É isso que acontece, de fato. A gente tem lei própria. Se a gente começa a entrar na favela, as leis mudam. Mas muda porque, o tempo todo, a gente não faz parte dessa proteção da lei do senso comum. A gente não faz parte dessa lei.
Se a gente não faz parte, a gente abre precedente para que crie nossas leis e que crie o nosso próprio Estado.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Maravilhosa Evelin, a Frente Penha desenvolve um trabalho fundamental ali no território. Obrigada pela presença.
Estamos caminhando para o final. Quero chamar aqui, para fazer uso da palavra, a Joana Trindade, do Grande Movimento VAT, do meu amigo Rick. E já pode se preparar a Camila, da Casa Glória Maria.

A SRA. JOANA TRINDADE – Boa noite a todos, a todas. Eu queria, primeiramente, saudar a Mesa. Obrigada. Meu nome é Joana e eu falo em nome do Movimento VAT, Vida Além do Trabalho, um movimento nacional que nasce da indignação da classe trabalhadora exausta. E nós lutamos pelo direito ao tempo, à saúde mental e à vida digna.
E quando falamos disso, estamos falando diretamente da juventude negra, que é a espinha dorsal da força de trabalho no Brasil e também a que mais sofre com as jornadas exaustivas, os trabalhos precários e a ausência de direitos. A juventude negra está sendo empurrada para o limite do corpo e da mente. E, quando falamos de genocídio, não é só sobre o tiro que mata, é também sobre o trabalho que esgota, o transporte que consome horas de vida e a falta de tempo para estudar, amar, sonhar e existir.
O estado tira vidas pela bala e o mercado tira vidas pelo cansaço. Por isso discutir o Plano Juventude Negra Viva é também discutir o modelo de trabalho que está posto no país, porque não há vida possível quando tudo o que nos resta é sobreviver para trabalhar. Políticas voltadas para a juventude negra precisam enfrentar essa estrutura. É preciso pôr fim às jornadas abusivas como a escala 6x1, a pejotização perversa e criar políticas de primeiro emprego digno com renda, trabalho e acesso à cultura e à nossa cidade.
O VAT acredita que o direito ao tempo é um eixo fundamental da luta pela vida da juventude negra. Por isso propomos a criação de um grupo de trabalho permanente entre os coletivos aqui presentes para pressionar para a inclusão do eixo direito ao tempo e ao lazer no Plano Municipal e garantir o monitoramento das metas de execução do orçamento.
Quando dizemos “vida além do trabalho”, não é um slogan, não é um marketing: é um grito da juventude negra brasileira que tem sido obrigada a sobreviver, mas não tem sido autorizada a viver. A juventude negra tem direito ao tempo, ao futuro e à cidade, e o VAT está aqui para construir, somar e pressionar para que isso saia do papel. E vida além do trabalho!

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Joana. Vamos à luta juntos e juntas pelo fim da escala 6x1. Essa aqui é a pauta do momento e que nós precisamos endossar, acho que a gente já tem aqui uma proposta de encaminhamento bacana, que é a gente consolidar esse grupo de trabalho, então acho que a gente precisa dar conta aí desse desafio.
Vou chamar aqui a Camila Peçanha da Casa Glória Maria e por último para já preparar a Fernanda Viana da jovens ativistas pela Casa Mulheres da Rede da Maré e Projeto Elas no Poder.

A SRA CAMILA PEÇANHA – Boa noite, boa noite a todos. Vou começar do jeito que eu mais gosto de fazer, principalmente para a galera que me conhece lá das redes. Um boa noite, tropinha. Que lindo ver a Câmara Municipal cheio de rostinhos igual aos nossos, dá uma vontade muito maior de ocupar cada vez mais.
Eu sou Camila Peçanha, sou lá da Vila Kennedy, lá de Bangu. Estou como presidenta e fundadora do Casa Glória Maria, um projeto social que visa a partir do esporte ser um combatente da fome dentro da periferia, que a gente sabe que hoje é um dos maiores agravantes, porque quem está dentro da favela sabe o quanto o prato de comida é caro. E a gente preparou, nessa mesma semana que rolou a mega operação e vários dos nossos corpos, dos nossos jovens tombaram, a gente teve uma ação dentro da Vila Kennedy que justamente buscava transformar a arte em forma de resiliência, em forma de que essa juventude pudesse se expressar de forma crítica tudo que está acontecendo. E saiu um que eu achei muito interessante e peço licença para ler rapidamente.
“Se essa rua, se essa rua fosse minha, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava proteger do caveirão, do fuzil da polícia para nenhum, para nenhum inocente morrer.
Nessa rua, nessa rua tem um medo que se espalha, que se espalha sem parar, é o tiroteio. É a bala perdida que não escolhe, que não deixa a gente sonhar. Se eu gritei, se eu gritei por justiça, é porque não, é porque eu não posso me calar. Tanta gente, tanta gente da favela que o estado, que o estado não quis salvar.
Se essa vida, se essa vida fosse justa, eu mandava, eu mandava investigar toda morte, toda morte de farda que na favela deixa a família chorar”.
Isso foi uma paródia realizada por alguns jovens lá da Vila Kennedy, na mesma semana da mega operação, que demonstra de forma muito clara o quanto a favela tem potência, tem cultura e principalmente tem resistência. Mas é óbvio que fica muito difícil resistir quando a gente tem um estado que de forma calculada e objetiva tenta tirar as nossas vidas.
É um pouquinho do que eu trago e em respeito ao meu território e as pessoas que compõem comigo, que a gente quer ser uma juventude que não está só viva, só sobrevivendo, na verdade.
A gente quer viver, a gente quer que a nossa cultura seja respeitada. E é muito gostoso estar aqui vendo Iasmin já curtir vários bailes da Iasmin. E assim, é muito importante isso, ver o Rennan que estava aqui mais cedo e a gente poder de fato acreditar que a nossa juventude pode, sim, sonhar numa cidade que não pensa e não determina muito antes desses corpos estarem de pé do que elas são ou não capazes, porque a nossa força está dentro da gente, do nosso território.
Obrigada pela oportunidade de cada um da Mesa.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Muito obrigada, Camila. Sempre muito potente trazendo as reflexões desde a Vila Kennedy. Obrigada.
Agora quero chamar Fernanda para gente poder fechar. Fernanda está por aí ainda?

A SRA. FERNANDA VIANA – Boa noite a todos. Eu sou Fernanda Viana. Eu tenho 17 anos, eu sou ativista e eu venho lá do Complexo da Maré. Assim como a Ministra Anielle Franco que esteve presente aqui hoje, uma presença ilustre e como Pamela Carvalho que compõe a Mesa hoje.
Eu costumo dizer que a minha intelectualidade, ela é composta e formada pela educação popular. E isso significa, em outras palavras, que jovens pretos teceram redes de conhecimento para que eu hoje pudesse me munir e tivesse conhecimento suficiente para lutar pela vida do meu povo. Estar aqui presente hoje, para mim, é uma responsabilidade imensa.
É um dever cidadão e eu também estou muito grata e estou muito feliz de conseguir contribuir, conseguir avançar de alguma forma, porque a chacina que aconteceu mexeu muito comigo. Eu estou presente aqui, hoje, por todas as pessoas que eu já perdi na minha vida, e eu só tenho 17 anos, mas eu sou uma menina favelada.
A sociedade toda deveria se comover com as pessoas que foram assassinadas nesses últimos dias. E a verdade é que a nossa morte, as nossas perdas e a não dignidade do nosso povo não chocam a sociedade. Nós estamos diante da COP30, e também como estudante de alemão e, como ativista ambiental, eu não consigo pensar em outra coisa a ser dita a não ser que o racismo ambiental e as emergências climáticas também estão matando o nosso povo. Quantas pessoas mais pretas e comunidades indígenas vão precisar ser afetadas para que nós paremos e enxerguemos que, realmente, precisamos parar com isso, e a máquina pública precisa incidir de alguma forma?
É muito importante o plano de ação. A Juventude Negra precisa estar viva para que haja futuro para a Juventude Negra, ela precisa estar viva para protagonizar e fazer isso acontecer.
A branquitude deste país tem muita sorte de que nós estamos nos organizando por justiça e por reparação, e não por vingança.
Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Obrigada, Fernanda.
Essa fala superpotente que mostra realmente a força desta juventude, destas mulheres jovens que estão na linha de frente com indignação, mas também com muita disposição de construir um mundo diferente. Então, obrigada pela presença, Fernanda.
Para nós fecharmos, queria chamar aqui o senhor Nelson Morales Júnior para fazer uso da fala. Rapidinho, Nelson, três minutinhos, e aí nós finalizamos com a nossa cultural.

O SR. NELSON MORALES JUNIOR – Boa noite a todos.
Agradeço aqui a presença da Mesa e o convite que fizeram para a nossa entidade participar deste Debate.
Meu nome é Nelson Morales Junior, sou um quilombola do interior de São Paulo, hoje faço mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A minha contribuição para este Debate é a situação que nós, quilombolas, vivíamos na nossa comunidade por volta de 2000. Nós tínhamos, em nossa comunidade, uma grande demanda, diante das circunstâncias todas, que era a questão da educação e a questão da violência que era atrelada à nossa comunidade.
Eu organizei a minha comunidade. Naquela época, nós tínhamos 19 jovens na comunidade que estavam cumprindo medidas restritivas na Febem de São Paulo, e 89% da comunidade eram analfabetos naquele momento, em 2000. Nós organizamos, fizemos um levante dentro da comunidade, alfabetizamos todos.
Eu era analfabeto, até os 35 anos de idade eu não sabia ler e escrever. Fui o primeiro a me matricular na escola. E essa matrícula me trouxe, na verdade, a possibilidade de poder, em 2000, assinar meu nome pela primeira vez. A partir deste momento, eu trouxe a educação para dentro da comunidade.
Eu tive que seguir adiante, pois sou músico e trabalho com música desde os 18 anos de idade, profissionalmente, e não tinha muito tempo para estudar. Neste período todo, em 2010, estudei, prestei o Enem e consegui tirar o certificado do ensino médio no Enem. Neste momento, em 2010, eu tirei o certificado. Em 2012, fiz o Enem de novo. E, pelas cotas raciais, com nota mil na redação, entrei na universidade aos 51 anos de idade.
Trouxe tudo isso para dentro da comunidade, e hoje a nossa realidade lá é outra. Hoje, nós temos 86 jovens em universidades federais espalhadas pelo Brasil inteiro, inclusive eu, aqui no Rio de Janeiro. Então, a questão da educação é fundamental para que nós possamos mudar a nossa realidade.
Hoje eu convivo, sou advogado e trabalho em várias causas populares aqui no Rio de Janeiro. São várias situações, tenho clientes na Maré, tenho clientes no Jacarezinho e trouxe isso para o Debate aqui. Além do mais, também sou orientador no pré-vestibular de Acari, dou aula lá, juntamente com os meus amigos que já passaram por aqui hoje. Essa é a nossa realidade.
A questão que a gente tem a trazer é a importância que tem a educação. Eu fui alfabetizado pelo método Paulo Freire, e esse método é que me trouxe consciência de quem eu sou hoje na cidade. Então, nessa minha realidade de analfabeto, aos 51 anos de idade entro na universidade e hoje estou com 63 anos fazendo mestrado em Direito Constitucional. É isso. Agradeço a oportunidade de estar falando aqui e somando na luta da juventude negra do Rio de Janeiro e também quilombolas e favelados também unidos na mesma causa. Obrigado.

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Pessoal, vamos encaminhar este Debate Público, tão potente sobre o Plano Nacional Juventude Negra Viva, mas principalmente essa possibilidade de reunir tantos grupos, tantos sujeitos e sujeitas que dispõem do seu cotidiano para lutar pela vida da juventude.
Antes de passar aqui para a Mesa para fazermos brevíssimas considerações finais, quero registrar a presença da Vitória Rangel, que é a presidente e fundadora do Instituto Vem com os Crias. Obrigada pela presença, Vitória. Vamos passar aqui rapidinho e aí finalizamos. Pode iniciar.

A SRA. PAMELA CARVALHO – É só agradecer a presença de todas as pessoas que ficaram nessa sexta-feira, pensando coletivamente, e dizer que eu acho que, para a gente ter juventude negra viva, a gente precisa estar junto com a juventude negra. E que a gente tenha mais Maíras dentro desta Casa, que a gente tenha mais de nós ocupando espaços de poder e pautando a nossa vida com dignidade. Obrigada.

O SR. SECRETÁRIO EDSON SANTOS – Bom, eu quero agradecer à Vereadora Maíra por ter propiciado esse momento em que a gente veio ouvir a juventude aqui da Cidade do Rio de Janeiro, a juventude de favela, a juventude periférica e quero reforçar, dia 17, lá no Palácio da Cidade, às 10 ou 11 horas, assinatura da adesão do Rio de Janeiro ao programa Juventude Nega Viva. Vamos juntos, firmes na luta!

O SR. FELIPE LIMA – Também gostaria só agradecer, não vou segurar mais vocês, senão vão sair daqui me odiando, pelo amor de Deus. Agradecer por estarem presentes nesta sexta-feira a essa hora. Saio daqui com uma conversa muito enriquecedora que vai somar muito ao meu trabalho como subsecretário da Juventude. Então são só agradecimentos. Boa noite!

O SR. JOTA MARQUES – O mesmo que todos eles disseram. Estamos juntos!

A SRA. PRESIDENTE (MAÍRA DO MST) – Pessoal, mais uma vez. Alguns recados antes de a gente finalizar aqui. Primeiro, agradecer mais uma vez a presença de todas as pessoas, dizer que esse mandato só existe porque houve uma decisão política coletiva do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra de ocupar esse espaço. E só faz sentido a gente manter esses quatro anos e o cotidiano das nossas vidas se a gente constrói coletivamente e pensa coletivamente a nossa atuação política nesta Casa.
Esta Casa que é embranquecida, que é lotada de pessoas que pensam diferente e, que bom, embora a gente saiba que existe um limite também muito expresso, mas também que vem construindo um grande cinturão de resistência para lutar pela cultura do povo preto, para lutar pela juventude favelada, para lutar por um projeto de vida para a população do Rio de Janeiro. Então, contem com o nosso mandato.
Quero agradecer aos trabalhadores do Cerimonial da Câmara, da Comunicação que estão aqui conosco também até esta sexta à noite.
Dou por encerrado o nosso Debate Público sobre o Plano Nacional de Juventude Negra Viva. Obrigada.
Está encerrado o Debate Público.

(Encerra-se o Debate Público às 21h15)