Comissão Permanente / Temporária
TIPO :
DEBATE PÚBLICO
Da
VEREADORA MONICA CUNHA
REALIZADA EM
06/16/2023
Íntegra
Debate Público
:
ÍNTEGRA DA ATA DO DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 16 DE JUNHO DE 2023
(Combate ao racismo na política municipal de educação)
Presidência da Sra. Vereadora Monica Cunha, Presidente.
Às 10h30, em 2ª chamada, na Sala das Comissões, em ambiente híbrido, sob a Presidência da Sra. Vereadora Monica Cunha, Presidente, tem início o Debate Público da Comissão Especial, instituída pela Resolução nº 1.590/2023, “COM A FINALIDADE DE ANALISAR AS DESIGUALDADES E SEUS IMPACTOS PARA A POPULAÇÃO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, BEM COMO AS RESPONSABILIDADES DO PODER PÚBLICO, E PROPOR POLÍTICAS PÚBLICAS VISANDO A PREVENÇÃO, O COMBATE E A SUPERAÇÃO DO RACISMO”, para discutir o tema “Combate ao Racismo na Política Municipal de Educação”.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Nos termos do Precedente Regimental nº 43/2007, dou por aberta a Reunião da Comissão Especial, instituída pela Resolução nº 1590/2023, “com a finalidade de analisar desigualdades e seus impactos para a população da Cidade do Rio de Janeiro, bem como as responsabilidades do Poder Público e propor políticas públicas visando a prevenção ao combate e à superação do racismo”, com o tema “Combate ao racismo na política municipal de educação”.
A Comissão Especial está assim constituída: Vereadora Monica Cunha, Presidente; Vereadora Thais Ferreira, Relatora; Vereador Edson Santos, Membro.
Para constatar o quórum necessário à realização desta Reunião, procederei à chamada dos membros presentes.
Vereadora Monica Cunha, presente.
A Vereadora Thais Ferreira acabou de ter o neném, não é? Não tem nem um mês ainda. E aí, nesses primeiros dias, ela vai estar fora mesmo. Talvez não cumpra todo o processo da licença, mas, nesses primeiros momentos, vai cumprir, sim.
O Vereador Edson Santos também não se encontra.
Não tendo sido constatado o quórum necessário para a abertura da reunião convocada pela comissão, informo que realizaremos, sob minha presidência, um debate com a escuta ativa a respeito do combate ao racismo através do fortalecimento do afro turismo, bem como do resgate e memória da história e cultura afro-brasileira no Município do Rio de Janeiro.
Essas datas já foram agendadas, não é? Então, é só para a gente deixar registrado que nada é colocado em cima da hora. Tudo é agendado, e é isso. A Thais Ferreira, a gente já sabia que, em algum momento, realmente ela ia ter que se ausentar, não é? Então, é só para a gente deixar registrado.
Eu vou chamar as pessoas que foram convidadas e que já estão aí: Senhora Luiza Mandela, da Gerência de Relações Étnico-Raciais (Gerer); Senhora Thayssa Menezes, da Gerência de Relações Étnico-Raciais (Gerer); Professora Pamela Souza, do Núcleo de Arte Grande Otelo; Senhora Geisi Nicolau, coordenadora do EJA; Senhora Ana Paula, da 5ª Coordenadoria Regional de Educação; Senhora Denise Cruz, da 6ª Coordenadoria Regional de Educação; Senhora Simone Ricco. Obrigada, sejam bem-vindas. Obrigada a todas vocês. Hoje só temos mulheres. Maravilha, não é?
Enfim, hoje, nosso debate tem por objetivo a escuta ativa dos servidores públicos, demais profissionais da educação, ocupantes da Gerência de Relações Étnico-Raciais (Gerer), bem como do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (Niap) e do Núcleo de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros (Neab/Cefet).
A proposta de reflexão sobre o combate ao racismo na educação busca ampliar nossa capacidade coletiva de assumir uma atitude de responsabilidade para combater as violências objetivas e subjetivas, produzidas pelo racismo na vivência de estudantes e profissionais. Queremos pensar uma política pública de educação antirracista, comprometida com a emancipação de nossos estudantes, onde o espaço da escola seja acolhedor para toda a comunidade escolar, sobretudo para profissionais e estudantes negros e negras.
O tema hoje é a escuta temática, de uma técnica que utilizada pela Comissão Especial de Combate ao Racismo (Cecor) com o objetivo de aprofundar e reunir informações sobre determinado tema, visando a produção de conhecimento e acúmulo para melhor contribuir com a elaboração de projetos de lei, indicações legislativas e outros instrumentos institucionais para proposição de políticas públicas e combate ao racismo institucional no âmbito municipal.
Com a palavra, o nobre Vereador Edson Santos.
O SR. VEREADOR EDSON SANTOS – Bom dia, Vereadora Monica Cunha.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Bom dia, meu querido.
O SR. VEREADOR EDSON SANTOS – Eu estou aqui no Canal das Taxas, em Jacarepaguá – no Recreio, aliás. Agora, estou indo para a Taquara, trabalhando, mas estou dando presença na Reunião. Infelizmente, não poderei estar aí com vocês, porque hoje é dia de fazer uma visita às comunidades agrícolas aqui das Vargens. Então, estou enrolado com isso.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Com certeza, Edson. Eu acho que todos que estão aqui, todos que votaram para nós estarmos neste lugar sabem que terça, quarta e quinta nós temos a obrigatoriedade de estarmos aqui dentro, mas segunda e sexta nós temos obrigatoriedade de estar lidando com o povo que votou na gente, que quis a gente aqui.
A gente tem que dar essa devolutiva, você está correto de estar cumprindo essa sua agenda. Então, eu vou chamar o seu nome novamente para você dar presença, para a gente dar continuidade aqui à nossa escuta.
Vereador Edson Santos.
O SR. VEREADOR EDSON SANTOS – Estamos aqui, Presidente, Vereadora Monica Cunha.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Muito obrigada, meu querido. E tenha um excelente dia aí –e bom fluidos.
O SR. VEREADOR EDSON SANTOS – Uma boa reunião para a nossa luta contra o racismo.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Com certeza, com certeza. Obrigada.
Vou dar seguimento aqui. Dinâmica de participação, cada convidado terá 10 minutos de fala sobre os desafios e as experiências de implementações de ações de combate ao racismo no espaço escolar.
Questões provocadoras: quais os principais desafios para combater o racismo na Educação e para a plena implementação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008?
Gostaria de compartilhar algumas experiências da gerência de relações étnico-raciais? É isso. Agradeço maravilhosamente mais uma vez a todas vocês. Essa Casa, de verdade, é nossa.
Ter lançado essa Comissão junto a dois parceiros, dois vereadores, que são Thais Ferreira e Edson Santos, somos três pessoas negras que sabemos bem o que é o racismo, não só na nossa pele, no nosso corpo, na nossa história, como militantes e também enquanto parlamentares, que agora todos três somos.
É isso, a gente lançou para estar falando sobre o racismo dentro do Município. A gente tem escutado, eu acho que já deve ser a terceira vez, quarta – não é? –, a quarta reunião sobre Educação.
Eu digo mesmo, assim, eu estou muito mais aprendendo com vocês do que propriamente vocês estão aqui aprendendo. Eu tenho aprendido muito com diversas pessoas que têm vindo falar sobre o que está acontecendo na realidade na educação municipal dessa cidade.
A gente tem ouvido como está sendo o racismo enfrentado por vocês, profissionais, dentro da educação do município. Eu acho que a gente tem deixar registrado, porque o Prefeito desta cidade, onde todas nós vivemos, ele falou que era uma cidade antirracista. Então, o que a gente está colocando é como é que ele vê esta uma cidade antirracista, diante de tudo que a gente tem mostrado e falado aqui.
Eu vou aqui registrar a presença do senhor Diego Leonardo Teixeira, representante do Centro Municipal de Referência da Educação de Jovens e Adultos. Muito obrigada pela presença, meu querido.
E dou a palavra a senhora Luiza Mandela, a senhora tem 10 minutos de fala. Muito obrigada.
A SRA. LUIZA MANDELA – Bom dia, bom dia a todos, todas e todes presentes. Eu sou Luiza Mandela, sou professora da rede municipal há 11 anos. Eu sou professora de educação infantil, gosto de deixar isso demarcado porque é importante. Eu sou mestre em relações étnico-raciais e estou gerente da Gerência de Relações Étnico-Raciais (Gerer), o que muito me orgulha, porque faz um trabalho muito sério e realmente pautado na implementação da Lei 10.639 e da Lei 11.645. A gente demarca a 10.639 por uma questão política, porque ela vem fruto de muita luta do movimento negro.
E eu sou filha desse movimento, literalmente, pois meus pais são militantes do movimento negro há muitos anos. Então, é importante demarcar isso. E o trabalho da Gerer começou como gerência em 2021. Então, é uma gerência nova, ela tem dois anos e vem com o caráter mediador consultivo e de planejamento estratégico. Com isso, ela atua nos eixos da formação, em parceria com a Escola de Formação Paulo Freire. A Gerer já tem duas formações na plataforma, uma referente à educação infantil e outra ao Ensino Fundamental.
Estamos com uma parceria com a UFRJ, o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Antirracista (Gepear), para proporcionar um curso de extensão e de relações... Teve já uma parceria com a Action também, foi para as nossas lideranças.
E, decorrente dessa parceria, veio o curso com o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR). Temos uma parceria com o Instituto Pretos Novos (IPN) também sobre o circuito de herança africana, está faltando renovar o acordo de cooperação para que a gente continue com essa parceria, porque a gente acredita nas parcerias.
A gente acredita que a gerência não pode se fechar, pelo contrário, ela precisa se expandir. E, além dessas parcerias externas, eu estou tendo a honra aqui de estar na Mesa com pessoas que são parceiras da Gerer, porque ela tem interfaces em cada coordenadoria. E aqui na mesa há três interfaces da Gerer que vão falar um pouco do trabalho delas.
A gente acredita que, para a Gerer chegar ao campo, a gente precisa dos territórios, a gente precisa dessa articulação com as coordenadorias nesse movimento de teia.
Então, a Simone Rico, da 8ª CRE, a Denise, da 6ª CRE, a Ana Paula, da 5ª CRE são interfaces da Gerer. Elas fazem um trabalho muito importante nos seus territórios – a gente vai ter oportunidade de ouvir aqui, elas vão ter o tempo delas de fala. Eu estava na 5ª CRE anteontem, na 6ª CRE na terça, na 8ª CRE fui também já deve ter uns 20 dias, porque é isso, é esse movimento circular, é esse movimento de articulação. É com esse movimento é que a gente vai conseguir combater o racismo e colocar a lei em prática, porque a pergunta foi: quais são os desafios?
Os desafios são muitos, inclusive atitudinais, eu falo isso sempre e vou continuar falando: para a gente implementar a lei, a gente sabe que existem muitas questões. A lei já está aí há 20 anos. A gente avançou, a gente avançou.
Eu acredito que a gente não possa negar os avanços – olha o que a gente está fazendo aqui! É um avanço, mas a gente ainda tem muito que caminhar. E para essa caminhada, a gente precisa de cada vez mais apoio, parcerias. Não podemos mais negar o racismo. E já parto, quando eu dou palestra, curso, eu já parto do pressuposto que todo mundo reconhece que o Brasil é um país racista, senão não precisaria ter a lei.
Eu sonho um dia realmente que a Gerência de Relações Étnico-Raciais (Gerer) não precise existir, que a lei seja aplicada de forma totalmente transversal, e a gente não precise ficar lutando para implementação dela, que ela se dê de forma orgânica. Mas eu acredito que eu não vá ver isso em vida, não sei se a minha filha vai ver, mas algo vai ficar. Algo vai ficar do que a gente está fazendo, porque a Gerer faz um trabalho muito sério. A as gerências se articulam dentro da Secretaria. A Geisi também é uma grande parceira da Gerer, ela vai falar também sobre o trabalho dela.
Existe uma articulação, e a gente precisa se articular cada vez mais, e ter cada vez mais o apoio de vocês e o apoio da sociedade como um todo para que essa lei de fato seja 100% implementada. Essas barreiras, também atitudinais, são barreiras que a gente ainda precisa trabalhar para que elas sejam cada vez menos resistentes a essa lei, porque é uma lei que está dentro da LDB. Se ela está dentro da Lei Magna da Educação, a gente não tinha nem que estar discutindo a implementação, a execução. Porque a gente fala de LDB, a gente fala da Lei Magna, mas a gente não fala da 10.639, parece que ela está à parte. Ela não está à parte. Ela é a lei, ela é o currículo. Não é não é um tema que tem que estar à parte.
Nós somos parte, e é para isso que a Gerer trabalha, para ser parte, não será algo fora da Educação, fora do currículo. A gente foi formada no currículo eurocêntrico, então, a gente entende que tudo que seja de falar de relações étnico-raciais, de negros, indígenas está fora, é o outro – mas não. Nós somos parte, nós somos a Educação e nós somos o currículo.
Obrigada.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Luiza, minha querida, muito obrigado por essa sua fala. Você falou algumas coisas que eu falo desde sempre, e é muito bom saber que eu estava certo ouvindo isso de você, porque é isso, existe a lei. Você colocou agora essas formações do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), mas isso está dentro de uma constituição. E aí, não vou nem só falar da Lei Magna da Educação, da Constituição que somos seres humanos.
A gente falando da implementação da lei, falando desse trabalho de vocês na Gerer, a gente tem que ratificar: somos gente, queremos o direito, meus filhos... E eu também acredito, Luiza, que eu não vou ver o que a gente está tentando aqui... Eu jogo tudo, coitadinha da minha pequena, ainda bem que ela não entende, apesar de ser muito esperta, a minha neta caçula que tem 4 anos, a Ana Mel. Eu digo que ela vai ver. Eu estou numa teimosia, ela vai ter que ver. Hoje ela tem 4 anos, quando ela tiver vinte e poucos, essa situação vai estar melhor para ela. Tenho certeza.
Muito obrigada, Luiza, muito obrigada, mesmo.
Agora nós vamos ouvir a Thayssa Menezes.
A SRA. THAYSSA MENEZES – Oi, gente, bom dia. Eu me chamo Thayssa Menezes. Sou pedagoga também, assim como a Luiza, sou professora de Educação Infantil também nesta rede. É uma coisa de que eu gosto muito, de ser professora de Educação Infantil da Rede Municipal, porque eu acho que a infância tem um lugar especial na vida do ser humano e esse é um lugar central que vai permear toda a nossa existência. São memórias, são histórias, são experiências. Então eu gosto de frisar essa minha especificidade. Mas também não poderia deixar de dizer que sou uma mulher sambista, sou compositora, faço parte agora, hoje integrando a Comissão de Carnaval da Acadêmicos do Cubano, que vai desenvolver o Carnaval de 2024.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Comprovado que somos múltiplas.
A SRA. THAYSSA MENEZES – E eu acho muito importante, sempre que estou num espaço institucional, colocar o samba nesse mesmo lugar de importância, porque não é menos, educa tanto. E, quando a Gerer nasceu, eu lembro que eu ainda estava em sala de aula, junto com Joana e tantos outros, fruto de lutas, de muitos educadores, parceiros que, assim como eu, também estavam em sala de aula buscando, acreditando e sonhando que as nossas ações individuais, dentro das nossas salas fossem organizadas, sistematizadas e institucionalizadas dentro de um espaço.
Acho que a Gerer vem, nasce muito nessa perspectiva de dizer que o que a gente fazia lá, às vezes escondido de algumas pessoas que não compreendiam a importância de trabalhar a educação das relações étnico-raciais, agora a gente tem legitimidade para fazer. A gente tem legitimidade, a gente tem como cobrar, a gente tem como garantir que isso seja cumprido de uma maneira transversal.
Quando a Gerer foi criada, foi um sonho realizado para tantos servidores, tantos educadores que começaram a falar: “Nossa, agora a gente vai ter um lugar para a gente se organizar, para a gente pensar coletivamente”. E hoje estou na Gerer como assistente e posso dizer que é um sonho coletivo de muitas pessoas, a Gerer é um sonho coletivo de muitas pessoas. E a gente tenta fazer com que esse sonho seja cada vez mais realidade, através das ações que pensamos coletivamente, junto com as interfaces, junto com tantos educadores que entram em contato por e-mail ou pelo Instagram ou que aparecem na nossa sala para dizer: “Poxa, eu estou desenvolvendo um trabalho tão bacana! Vocês podem nos ajudar?”
Então a gente está fazendo muita coisa. É como Luíza falou: existe ainda muito o que se fazer e a gente quer fazer muito também, mas é notório que a gente já caminhou da posição que a gente estava antigamente, existe uma caminhada. Tem uma frase muito bonita que é a seguinte, eu não lembro quem foi que falou, mas eu já ouvi e eu acho muito bonita: “Encruzilhada também é caminho”. Então a gente está caminhando dentro das nossas possibilidades, de mãos dadas com muita gente, em parceria com o samba, em parceria com os movimentos sociais, em parceria com a sociedade civil, em parceria com vários conselhos que existem. A gente tem o Conselho da Infância, a gente tem o Conselho da Diversidade Religiosa, do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (Comdedine).
A gente tem a certeza de que essa educação para as relações étnico-raciais é um movimento que não se faz sozinho, até porque essa não é uma responsabilidade só da Gerer, essa não é uma responsabilidade só da Thayssa, essa é uma responsabilidade da sociedade. Então, buscar isso é fundamental para o que a gente vislumbra como um futuro, um futuro em que as crianças possam se sentir seguras dentro de um espaço escolar, possam se sentir parte desse processo de educação, possam se ver nos materiais, possam se reconhecer como gente, como você falou.
A gente tem feito muita coisa, acho que as meninas têm muito para falar também. A Luiza já falou das nossas formações, de como a gente atua nas parcerias. É isso que a gente tem para falar hoje. Obrigada.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Obrigada a vocês por terem me dado a honra. Ontem, a minha xará Monica Benicio, que também é vereadora nesta Casa... A gente estava em uma reunião com mulheres negras para a marcha que acontece em julho, e ela falou assim para mim: “Eu agradeço muito, Monica Cunha, estar no mesmo tempo que você nesta Casa”. Eu digo a vocês: eu é que agradeço muito por estar vereadora com vocês, neste tempo, aprendendo, porque isso tem uma importância muito grande, não é?
É tanta coisa, que eu não sabia, soube hoje de manhã, que hoje é Dia da Criança Negra na África. Em Salvador, virou o Dia da Criança Negra. Ela até me ligou para me perturbar, para a gente implementar isso aqui também.
Mas o que quero dizer com isso é que temos que reconhecer essa criança negra como parte real dessa sociedade, porque a gente sabe que ela é parte das nossas vidas, sempre foi. Agora ela tem que ser parte dessa sociedade. A gente não pode mais só parir, Thayssa, para construir. Porque quem construiu este palácio em que estamos hoje fomos nós, foram os nossos ancestrais. “Ah, não fui eu com a minha mão”. Não, não fui eu com a minha mão, mas foram os meus ancestrais.
Olha o tempo que demorou para eu estar ocupando um lugar que é nosso desde sempre: 22 anos de militância até chegar aqui dentro. Então, é a gente saber que as coisas estão acontecendo. Volto sempre a fazer referência à minha parceira, que hoje não está mais aqui, nossa saudosa Marielle Franco. Não pode ser mais uma por vez, tem que ser de bonde. Então, não dá mais para essa lei caminhar a passos de tartaruga. Não, acabou. Agora é de bonde mesmo, a jato para a gente poder correr com isso. Está bem, meu amor? Muito obrigada, mais uma vez, pela sua presença.
Agora é a Professora Pâmela Souza do Núcleo de Arte Grande Otelo. São 10 minutos, minha querida.
A SRA. PÂMELA SOUZA – Bom dia.
É uma alegria estar aqui com vocês. Agradeço muito o convite. É uma honra estar aqui com vocês aqui nesta Mesa, com a Mariana e a Simone, que são as minhas parceiras de trabalho, e a Denise, a minha companheira da 6ª CRE.
Eu sou professora da rede desde 2012. Sou da 6ª CRE, que é o território onde eu cresci. Hoje trabalho no Núcleo de Arte Grande Otelo e na Escola Municipal Guatemala, aqui no Centro, que é onde eu moro atualmente. Já trabalhei na 8ª CRE, então, já transitei muito por esses territórios aqui da cidade.
Sou uma pessoa indígena cariri em retomada. Isso significa dizer que eu estou reencontrando o meu povo e relembrando a nossa língua, os nossos ritos, e esse é um processo de transformação. A minha história é uma história muito comum na nossa cidade. Os meus avós migraram de Alagoas para o Rio. Essas migrações forçadas produzem muitos traumas, mas também muitos saberes em nossos corpos. E é honrando isso que eu estou trazendo o assunto para este momento.
Eu fiquei pensando, quando Mariana falou comigo, no que eu poderia trazer para colaborar, para além das praticas, porque acho que a gente tem muitas práticas que estão sendo compartilhadas aqui e na rede. Durante esses anos, encontrei muitas parcerias incríveis, de colegas, alunos, estudantes e, principalmente, meus companheiros e companheiras de caminhada, para pensar esse lugar da escola como um lugar de memória.
Eu sou mestre em Educação, estou tentando terminar um doutorado, pensando a escola como esse lugar de encontro de memórias, em que cada sala de aula é um lugar muito complexo. Nós temos ali 30 crianças, na educação infantil, 15, 20 crianças que têm trajetórias e histórias muito complexas. Trajetórias ancestrais que nos trouxeram até esse tempo.
Eu fico sempre pensando como pode ser uma aula que seja um lugar também de cuidado, de cura, que trate essas memórias com delicadeza, com a delicadeza que elas merecem, porque nós estamos aqui imaginando outro mundo, porque a colonialidade e a violência colonial, pois quando a gente fala de racismo é disso que a gente está falando, violência colonial que está acontecendo agora, as instituições são racistas, elas são violentas. A gente vai brotando nas frestas. E que nem as samambaias que a gente vê nascendo na parede. Nós estamos brotando ali, mas é numa estrutura absurdamente racista. É muita luta e isso manda muito da gente, dos nossos corpos e dos corpos das nossas crianças também. E quando a gente fala de memória, a gente precisa trazer a memória dos nossos territórios também, como esses territórios onde essa cidade foi construída, e voltando no tempo. Eu sou de Anchieta, o território ali da Pavuna, cresci com o Rio Pavuna, nasci com o Rio Pavuna já morto, já agonizando – morto, não, porque o rio não nasce morto, está bem vivo. E aí como é que a gente consegue levar isso para dentro da escola, pensar que nós temos direito de tomar um banho de rio, numa água limpa, que as nossas crianças...
Eu acho que eu não vou ver, meus sobrinhos não vão ver. Eu não sei em que tempo isso vai acontecer, mas é uma... Quando a gente pensa em educação, é importante a gente pensar que a gente está... Que a gente precisa ter um lugar para imaginar. Imaginar que esse rio pode, em algum momento, ser limpo. E não só o rio, mas como essa cidade vai... Para onde essa cidade vai. Porque quando a gente fala do racismo, a gente precisa falar do racismo ambiental, que a gente tem medo da chuva, que a gente tem medo do rio que vai encher, porque muita gente que vive em extrema pobreza na beira do rio, as pessoas perdem tudo, inclusive a vida. Mas perdem tudo e essa conexão com o território é ancestral e é um direito nosso, é um direito dos povos indígenas, é um direito das pessoas negras em Diáspora.
A gente tem... O rio é um ancestral, o rio é uma divindade, é uma deusa. Então, eu fiquei pensando nisso, o que eu poderia trazer de contribuição. Porque muitas vezes nós professores, às vezes a gente se desloca muito. E aí a conexão com o território se perde, porque a gente chega para trabalhar, é um trabalho. Como é que a gente alcança uma sensibilidade entre professores e profissionais da Educação, que essas pessoas consigam se conectar com os territórios e ver a potência deles, ver o que tem ali de beleza, de como é que a gente leva isso para dentro da sala de aula, pensa isso nos nossos currículos, nos nossos planejamentos.
Eu acho que é um desafio muito grande. Eu estou falando de um lugar de sonho mesmo. Como isso cabe num projeto de lei? Sonhar. Como o sonho cabe aí? E o sonho também é uma ferramenta ancestral. Como a gente circula por esse território? É um território? É um território sim. Como uma lei pode transitar por esse lugar? E a gente pensar que as nossas crianças têm o direito de sonhar e que mundos. Porque a escola muitas vezes é um lugar que empurra a gente para dentro de uma caixa de concreto.
Quem consegue se sair melhor nesse lugar, vai alcançar, vai ter uma vida um pouco mais digna, vai ter alguma dignidade. Mas quem não consegue, como é que a gente vai viver? Eu, quando estava pensando essa fala aqui, eu li um texto do Jaider Esbell, que é um ancestral, um Makuxi, ele é um artista, e o Jaider tem um texto que fala do... Acho que é “A antiescola do vovô Makunaima” e ele fala da escola como uma armadilha para os povos indígenas e para pessoas negras também, não é? Porque é um lugar, estou falando também com a estudante que fui, mas onde a gente já entra na desvantagem, não é? Tendo que aprender uma língua que não é nossa, tendo que aprender modos de vida que não são nossos. Escola ainda é assim.
Nós temos muito trabalho, nós trabalhamos muito. É muita luta e muitas vezes são lutas individuais, porque estamos sozinhas em escolas, muitas vezes isso acontece. Nós estamos ali e é um trabalho absurdo que a gente acaba fazendo; não sozinho, mas em parceria com estudantes e alunos. Mas a instituição, muitas vezes, não está do nosso lado, não é?
Nós temos aí a Gerer, que é uma conquista e é bom que esteja viva também para ver, para acompanhar esse processo; e estar aqui, como professora, e ver isso. Mas, ainda assim, se a gente for pensar toda a rede, que é gigantesca, tem muita luta ainda dentro de cada escola.
Esse trabalho é muito solitário também e a gente precisa se fortalecer muito espiritualmente para conseguir entrar e fazer esse trabalho, porque a estrutura é racista. A instituição é racista, nossas bases são racistas, não é? Então, temos sempre um trabalho além do trabalho.
É uma escolha política, são escolhas coletivas também. Não são individuais, porque a gente não anda só, não é? Muitas vezes, por trás, nós temos muita gente conosco. Nós temos nossos ancestrais com a gente, que nos dão suporte, são nossas raízes que nos sustentam para a gente conseguir fazer esse trabalho, mas é muito duro. É muito lindo ver o resultado tão rápido, porque é o investimento na infância, na adolescência e isso vem muito rápido.
Eu falo que, eu sempre penso nisso: que bom estar viva, ver e estar fazendo esse trabalho; e já ver como as crianças reagem; como a transformação é rápida; como isso chega rápido dentro desse contexto em que a gente trabalha. Mas tem o resto do mundo; então, tem muita beleza, mas também tem muita dureza.
Acho que já passei, mas queria agradecer novamente. E queria ler um poema da Conceição Evaristo, muito rapidamente, que dá o nome para essa minha tese que estou tentando parir, que se chama “Labirintos da Lembrança”. E o poema da Conceição se chama “Meia Lágrima”:
“Não,
a água não me escorre
entre os dedos,
tenho as mãos em concha
e no côncavo de minhas palmas
meia gota me basta.
Das lágrimas em meus olhos secos,
basta o meio tom do soluço
para dizer o pranto inteiro.
Sei ainda ver com um só olho,
enquanto o outro,
o cisco cerceia
e da visão que me resta
vazo o invisível
e vejo as inesquecíveis sombras
dos que já se foram.
Da língua cortada,
digo tudo,
amasso o silencio
e no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior,
aquela que emudecida,
conservou a voz e os sentidos
nos labirintos da lembrança.”
Eu acho que é isso, gente. Estamos caminhando para trazer essas memórias que são nossas e que são das nossas crianças e adolescentes, e dos jovens e adultos que estão aí estudando. Esse espaço da escola é um lugar de encontro, não é? Por mais que a gente questione e que a gente tenha que repensar esse lugar, ele é um lugar de encontro e vai ser por muito tempo. Acho que é isso. Agradeço pelo tempo de vocês.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Eu que te agradeço, Pâmela, por provar que a gente pode ser diversas, não dispersas.
Ter hoje esta Mesa composta só por mulheres é isso: brancas, negras, indígenas e a gente estar falando de uma coisa só, de educação para as crianças, isso, sim, é uma sociedade antirracista; isso, sim, é um trabalho antirracista. Então, por si só a gente já está aí na frente, já estamos avançando bem essa mudança. Muito obrigada, Pamela.
Dando continuidade, eu vou dar a palavra, agora, para a Geisi Nicolau, coordenadora da EJA. A palavra está com você, querida.
A SRA. GEISI NICOLAU – Bom dia.
Obrigada pelo convite para estar aqui. Eu sou a Professora Geisi Nicolau. Sou professora alfabetizadora da Secretaria Municipal de Educação, como algumas colegas, aqui, na Mesa. Tenho a grata felicidade de ter trabalhado com educação infantil da nossa rede, com as crianças, não é? Em ensino fundamental, em idade regular e, sobretudo, com o que eu venho falar um pouco, aqui, hoje, que é com a educação de jovens e adultos. E, aí, queria ampliar essa conversa para jovens, adultos e idosos. Porque, apesar de não estarem nas siglas, os idosos estão dentro das nossas escolas.
Eu me reconheço como uma mulher branca e me sinto privilegiada e emocionada por ter recebido esse convite por estar aqui, para estar aqui, porque entendo que essa luta é muito minha. Ela é nossa, ela é de todos nós. Tenho, também, uma menina em casa, uma filha de cinco anos e pulsa, dentro de mim, a esperança de ela ser uma adulta que vivencie outras discussões.
Essa aqui é maravilhosa. Estou efetivamente arrepiada. Mas eu quero que ela viva outra coisa: que a gente não precise sentar para discutir uma legislação que deveria estar aí rodando, sem fazermos isso. Mas já que precisamos, assumimos o compromisso e pegamos o bastão juntas. Queria mencionar que a educação de jovens e adultos da Cidade do Rio existe desde 1985. Esse ano, completamos 38 anos de existência ininterrupta. Iniciamos como projeto, viramos um programa, ampliamos para uma condição de política pública, que coloca essa cidade em uma entrega fixa e sequencial de 38 anos de sujeitos que, depois dos 15 anos, considerados pela legislação fora da idade – não é? – pela LDB, já dita aqui hoje, tem espaço para encontrar as nossas escolas.
São sujeitos jovens, jovens muito jovens – como a gente da EJA fala –, 15, 16, 17. Mas são jovens, adultos e idosos que adentram as nossas escolas, diariamente, para serem alfabetizados, para consolidarem suas leituras escritas e para, também, conseguir a terminalidade de ensino fundamental. Isso quando eu falo de uma educação escolarizada, porque se eu for entrar na narrativa efetiva do quanto esse encontro é fundamental para todos nós, estudantes da EJA e professores da EJA, a educação de jovens e adultos é um espaço de encontro.
Como eu disse eu fui professora, não é? E tomei essa luta para mim, quando eu tive o grande prazer de chegar à Gerência, em 2021. Entendi que eu tinha o desafio imenso de... Eu pensava política pública com 30 alunos, uma política pública pautada na diversidade. Eu pensava isso dentro da escola, eu pensei isso na direção e, agora, eu consigo pensar dentro do Executivo, atingindo, aí, talvez, em média, 30 mil pessoas por mês. E, aí, a primeira coisa, eu quis olhar para essa EJA e entender quem eram essas pessoas que estavam dentro da EJA, para poder pensar de que modo eu consigo colaborar no Executivo, consigo trabalhar com práticas que sejam efetivas – e, no caso aqui, em tela, práticas antirracistas.
Eu trouxe dados atualizados desse ano para a gente conversar. A nossa EJA é uma EJA composta por 60% de mulheres e quase 70 % dos sujeitos se identificam como pretos e pardos. Então, a gen
te está falando de uma EJA preta, para mulheres pretas. Partindo desse dado, nós recorremos à concepção que a educação de jovens e adultos tem. Não vou ler, para não tomar tanto o meu tempo, porque tem umas coisas que eu queria falar. Mas a definição desse sujeito vem do sujeito oprimido, trazido pelo patrono da educação, trazido por Paulo Freire.
Eu queria puxar a definição também do Galeano, quando ele trata dos ninguéns, os sujeitos da EJA, em muitos momentos, são vistos assim. E eu queria pegar uma pessoa do nosso tempo, que é uma professora da UFF, Professora Jaqueline Ventura, que me formou nesses mais de 10 anos de EJA, que define que a condição do sujeito da EJA é a condição de trabalhador. Isso não é um situacional. Ele está na EJA por ser trabalhador. Ele está na EJA por estar na condição social de trabalhador. Isso é um atributo primordial que o define nesse processo. Ele não teria chegado à EJA se as condições dele fossem outras, não é?
Então, não é por acaso que ali está. Por ser trabalhador é que ele se encontra nesse espaço. Então, trazendo o que a Luiza fala, de pensar políticas permanentes que a gente não precise focalizar nada. A política é essa, para essas pessoas, com essas pessoas.
O que a gerência de educação de jovens e adultos vem fazendo? Nós conseguimos nessa gestão um material próprio para educação de jovens e adultos, sendo produzidos em igual medida da educação infantil, do ensino fundamental. Isso é inédito, nunca antes tivemos isso.
Esse material, eu prezo muito por falar dele, porque é um material constituído por professores da rede concursados. Então, são professores da EJA, que estão com a EJA, que se reúnem para produzir esse material. Então, o material Rioeduca de EJA de todos os blocos, da alfabetização à terminalidade do ensino fundamental, é produzido dentro das narrativas de Rio de Janeiro, considerando os territórios da cidade.
Então, esse material é público, vocês conseguem acessar na página do rioeduca.net. Vocês vão encontrar, por exemplo, na parte de ambiente e saúde, a saúde da mulher preta, as mazelas, as dores, as necessidades e, em muitos momentos, dentro da construção dessa didática, a gente indica locais na cidade que essas pessoas podem acionar, seja da Prefeitura ou não, para tentar chegar a um direito seu, para tentar chegar a um suporte. Então, o material Rioeduca tem marcas fortes do nosso fazer.
O meu tempo está acabando, gente? Eu fico nervosa com o tempo. Bom, nós conseguimos, não é inovação dessa gestão, orientações curriculares para a educação de jovens e adultos. Mas quero ressaltar o processo de construção dela, é uma orientação feita nas mãos de todos os docentes que passaram na EJA, de 2019 até hoje, a versão desse documento.
Ele nasce de uma discussão proposta em sala de aula. Todas as escolas discutem determinados grupos de textos, registram as suas impressões, levam para as Coordenadorias Regionais de Educação, onde um grupo de escolas daquela CRE se encontra para discutir. Dali, a gente sai com um documento para o Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos, nós temos o CREJA, que trata dos projetos pilotos de EJA na Secretaria. E dali a gente chega com esse documento coletivo na Gerência de Educação de Jovens e Adultos.
Esse documento que é apresentado ao Conselho Municipal de Educação e convalidado, feito a muitas mãos. Não é possível olhar para ele e enxergar uma única mão ali, porque ele é fruto da discussão composta desde a base. Essa orientação é dividida em três grandes eixos de trabalho, que são cultura, trabalho e ambiente.
A partir dela, nasce esse material Rioeduca. Então, o material Rioeduca, como a Thayssa traz o samba para a Mesa, a gente traz ele para o material também, fortemente marcado no aspecto cultural da nossa cidade pelos nossos sujeitos.
No ambiente de trabalho, a gente discute com muita tentativa de assertividade, de múltiplas vozes, qual é a condição do trabalho para o trabalhador na Cidade do Rio de Janeiro. Se é subalternizado ou não, em que condição ele existe ou não. E ambiente, eu acabei citando um exemplo aqui.
É importante deixar claro que a escrita desse material é muito difícil, porque você compor um material que não se torne um fim em si mesmo para aquele educador é muito complexo e é um desejo nosso.
É um desejo que o que está ali seja o pontapé da discussão que o profissional vai criar com autonomia, de acordo com o perfil do público dele. Porque, apesar de tudo isso que eu falei aqui, aquela turma em específico pode ter uma característica predominante e ele precisa levar esse afunilamento para aquele grupo. Então, o material Rioeduca tem essa pegada.
A gente fez um desenho de sequência didática que eu acho fundamental falar. Há momentos, em todas as sequências didáticas, em que, quando a gente trabalha com texto – desculpa, gente, eu sou alfabetizadora e não consigo falar de outro jeito – trabalha com interpretação do que está explícito no texto, mas, sobretudo, trabalha com a compreensão do que está implícito no texto. A nossa proposição é que esse sujeito consiga ler o cenário que ele está posto. Vivenciar isso dentro da escola, porque aceitar algo que dizem a ele, como: “compre isso, porque é bacana; entenda isso, porque foi feito para você”, não é e não pode ser a proposta da educação de jovens e adultos, em qualquer lugar.
Ele precisa olhar para aquilo, compreender o que esse sujeito está falando e, a partir da análise dele, entender que entrelinhas são essas, o que querem me mostrar, o que querem me dizer. Então, todas as sequências didáticas, sejam de alfabetização para os anos iniciais da EJA, sejam em língua portuguesa, ciências, enfim, têm essa estratégia de compreensão do que está implícito no que está aparecendo no material.
Vivemos um tempo de fake news absurdas, e entendo que esse trabalho tem que partir da escola. O olhar, o desconfiar, o buscar outras fontes, o discutir com mais de um sujeito. Às vezes, são autores da mesma perspectiva, mas divergem na escolha da narrativa, e fazer essa leitura é fundamental.
Por fim, porque eu me alongo para caramba, queria falar que esta semana tem sido muito especial dentro desse trabalho permanente de educação de jovens e adultos. Nós realizamos o 17º Encontro de Alunos e Alunas da EJA-Rio. Há 17 anos esse encontro acontece. Então, ele foi tecido por muitas mãos que me antecederam e que me formaram para eu estar aqui hoje, para eu estar nessa posição hoje. E o tema desse encontro foi “Identidade e representatividade, potências negras, indígenas na EJA”.
Nós preparamos um documento fomentador para dar o start, uma conversa inicial na escola, que a escola identificasse quem são essas potências negras e indígenas que estão na escola de EJA hoje. Estudantes, professores, professores que estão na função da equipe gestora, pessoal de apoio, merendeiras, e que enaltecessem essas histórias.
Vivemos um momento de reconstrução da educação de jovens e adultos nacional, pois a gestão presidencial anterior, e a anterior da anterior, desmontou tudo o que nós tínhamos de EJA em termos federais. Vivemos um momento de muita dificuldade de efetivar esse sujeito trabalhador como estudante, pois a condição de sobrevida dele vem à frente da escolarização. Viver, comer, alimentar os seus está em primeiro lugar. Nossa ideia, com todo esse trabalho e, sobretudo, com o tema desse encontro, é que a biografia desses personagens, dessa liderança dentro da escola, além de ser enaltecida, além de colocar esse sujeito em primeira voz, o tempo inteiro, é ele que conta a história dele para todo mundo, que ela possa também servir como um encantamento para quem tem ainda uma possibilidade de estudar na educação de jovens e adultos, para que cheguem a nossas escolas, encontrem as nossas escolas. Então, vou usar dois ou três exemplos bem rápidos.
Nós identificamos um quantitativo interessante, um quantitativo importante de estudantes indígenas, da Zona Oeste à Zona Sul, em quase todas as coordenadorias, e eles vieram falar, vieram com suas roupas, com as suas histórias, contar e demonstrar as suas lideranças nesses territórios, na nossa cidade.
Nós tivemos estudantes que saíram da nossa EJA, seguiram para o ensino médio, estão na universidade, vieram contar o que fazem na universidade: Serviço Social, na UFRJ; Pedagogia, na UERJ. E traziam suas experiências.
Nós tivemos pessoas que são fortes lideranças, em diferentes movimentos, movimentos estudantis universitários, movimento de pessoas negras, movimento de pessoas com deficiência, trazendo suas histórias, pessoas que estão na liderança da cultura da cidade, enfim. Eu acho que a semana hoje, sexta-feira, termina de modo muito especial, porque esses encontros aconteceram segunda, terça e quarta-feira na cidade.
Quero agradecer, mais uma vez, o convite. Desculpa se eu extrapolei. E seguimos em uma luta coletiva.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Geisi, muito obrigada, porque, por mais que eu possa agradecer aqui a minhas irmãs, às mulheres negras que estão presentes nesta Mesa, mas a gente conhece racismo desde sempre, não é? E quando a gente vê uma mulher branca se colocando dessa forma, porque o racismo não é um problema nosso, a gente sabe disso.
Quando eu vejo você com esse exemplo, com esse trabalho, com essa construção. Está valendo à pena. Então, há de convir que o nosso movimento está começando não, está dando forma mesmo, está se mostrando que valeu a pena. Pena que como você são muito poucas e a gente precisa de muitas, de muito mais de outras. Porque como nós, nós temos.
É isso, a gente já sabe de todos esses percalços das nossas vidas e estamos aí na luta para nos deixarem trabalhar, para nos deixarem viver. Você falou aqui que estamos vivendo um momento de construção para as nossas vidas, para a gente deixar de sobreviver e viver. Nós não queremos mais sobreviver. Quero viver. E aí, eu estou toda hora pegando o lema da marcha das mulheres negras lá em 2015. Que é o bem viver. A gente tem direito ao bem viver. E dentro do bem viver está isso, a ter pessoas como você, com toda essa experiência, esse entendimento, esse saber. O que pode ser melhor para a gente, mas para você também. Está bom, muito obrigada.
Agora vamos dar continuidade e vamos ouvir a Ana Paula da 5ª Coordenadoria Regional de Educação. A 8ª, porque aqui está 5ª. É 9ª, nem 5ª, nem 8ª, nem 9ª. Aqui está Ana Paula, 5ª Coordenadoria Regional da Educação. Ah, mas aqui só tem uma Ana Paula, a outra é Denise e ainda tem a Simone Ricco. Então é esse povo aqui que depois a gente, enfim, aquele negócio de levar para o cantinho. 10 minutos, minha linda, por favor.
A SRA. ANA PAULA – Vamos lá, já me emocionei muito de estar ocupando esse espaço, que é um espaço assim, como foi falado aqui, muito caro. E eu venho, mas eu venho com muitas vozes. Eu não venho sozinha. Venho com vozes e por isso essa emoção quando ela diz “a minha filha pulsa em mim”, a minha filha Marina Morena. Eu me apresento logo que sou mãe de Marina Morena. Menina que a escola não transformar numa caixa como aconteceu comigo também. Sou professora da rede municipal há 28 anos. Num acompanhamento que não tinha essa formação ainda. Filha de mulher preta, militante numa família só de meu pai português, família portuguesa, luta única. Ouvindo desde a infância coisas como essa negra veio colocar de uma forma a nossa família. Só essa negra, ouvindo na infância, eu acho importante falar porque eu acho que por isso me tornei também uma educadora.
Essa mulher me ensinou uma trajetória de sobrevivência, de humanização muito forte. Ela participou como líder comunitário, de avô também negro colocando nome em rua, ajudando a associação de moradores. Então, eu tenho esse recorte antes de chegar como educadora.
Tive o privilégio de, na rede, ter acesso a um trabalho com meninos de medidas socioeducativas dentro Vigário Geral, na época da chacina. E isso eu acho que eu tenho a honra de dizer isso, porque ali eu me fiz professora. Eu me fiz educadora. Nesses 28 anos eu ocupei. Fui na Congonha gestora de creche, ocupei coordenação pedagógica. Fiquei sala de aula, mais ou menos dentro de uma sala de aula há 20 anos com essa diversidade. Não tinha formação ainda, que eu sou pedagoga, psicologia também, psicóloga, mas eu não tinha formação como nada de relações étnico-raciais. Porém, a minha história me constituiu, só que isso me fez ter um olhar diferente para os meus alunos.
Em que as pessoas achavam que era loucura, não é? Essa pessoa que... Nossa, mas dava resultado, porque a escuta era responsiva, sempre foi. Como o que ela falou aqui: educador é um dever social, ele perpassa. A gente trabalhar com as relações étnico-raciais é nosso dever. Não é, como a Djamila fala: “Ah, não é meu lugar de fala, porque eu não tenho tom de pele”, mas é meu lugar de fala, sim.
Eu sou uma formadora de opiniões, eu preciso trabalhar com essas identidades plurais, esse é meu dever. Fui procurar depois quando vim para a Coordenadoria... Eu tenho 10 anos na gerência de educação da 5ª CRE, onde eu perpassei desde quatro anos de idade, fui aluna dessa CRE, tenho uma história com essa coordenadoria muito forte também, trabalhei um tempo pela 4ª CRE, 10 anos, que me fez ter acesso a esses meninos, dessa diversidade que ela fala tanto, tive o privilégio de trabalhar na EJA, tive o privilégio de trabalhar na creche. Então, perpassei em todas as faixas etárias. Me fez ser uma educadora que se constitui na incompletude, e ainda sou até hoje, isso eu gosto de ressaltar. Qualquer turma que eu entro... A gente acaba na coordenadoria auxiliando, tendo essa coletividade, que também é uma das temáticas das relações étnico-raciais, então a gente entrar na turma e ser educador.
Eu estou na 5ª CRE, porém eu sou professora da rede municipal. É isso que eu gostaria de destacar. Quando a Gerer chega, chega com Joana Oscar, que já realizava um trabalho com a educação infantil, porque a força que eu costumo dizer... Eu sou do PNAIC, eu passei por esse período todo do PNAIC, sou professora de alfabetização, só que uma alfabetização que vai fazer sentido com a vida lá fora, porque as minhas crianças, os meus alunos eram quase da minha idade. Então, é uma alfabetização que o leve para construir o território dele e que o leve a conhecer a sua própria cultura. Por exemplo, ensinar a ler e escrever para tirar uma identidade. “Ah, ele vai ser um cidadão”; ele já é um cidadão. O bebê na primeira infância já é um cidadão. Então, eu tive a oportunidade de trabalhar também com educação infantil, fazer pesquisa na educação infantil e perceber essa autoria desses corpos que estão ali.
A gente fala desse assunto quando a Joana Oscar chega na Gerer, mas antes de ela chegar já tinha uma caminhada conosco na primeira infância. É bem interessante a gente falar, porque a Ana Paula, professora, pedagoga, foi recorrer a uma pós-graduação, porque quando convidaram a gente já tinha um trabalho, só que era um trabalho que a gente precisa de formação.
A gente que está à frente precisa de formação, precisa da interlocução com o nosso território, precisa conhecer quem são nossos pares, conhecer como está, mapear o nosso campo. E aí a Ana Paula foi fazer uma formação em relações étnico-raciais, uma pós, para a gente ter a clareza, como ela falou, de que teias, que construções e que falas de letramento racial perpassariam no trabalho que a gente vai desenvolver. Até entender mesmo como é que fica isso de uma forma mais sólida? Nessa pós, o que fomos desvendando, estou falando enquanto coordenadoria, perceber que as relações étnico-raciais não são um trabalho separado, é um trabalho de vida, é um trabalho que a gente vai perpapassar em todas as ações da CRE.
Então, seja da educação infantil da modalidade creche até a EJA, a gente precisa ir perpassando também pelos espaços que constituem, porque a ambiência fala muito. Então, a gente começa um GT com as 131 unidades da CRE, a gente montou conversando com a nossa gerente mais um elemento de cada gerência. Por quê? Não teria como a gente perpassar que é um ponto focal, que é a nossa CRE, para fora, se dentro a gente não tem também um trabalho sólido. Então, a gente construiu o nosso plano de ação. Quando a Gerer chega, em 2021, e solicita que a construção de um plano de ação, até para a gente acompanhar mesmo essas metas, que a gente alcançou – ou não –, e as fragilidades também que a gente tem no campo.
Como é que a gente conduz isso? A gente começou a fazer os encontros on-line, porque teve um momento pandêmico. E a gente tocando, a gente fez um mapeamento de quem eram esses corpos que estavam na nossa CRE. Como ela falou, quem já tinha já legitimado esses movimentos intrínsecos para parear, para fazer esse engajamento, nós também, a partir dali, construímos as temáticas, que seriam necessárias, e eu fiz uma pesquisa-ação no meu território. Eu comecei a ver o que eu tinha de força no meu território, porque a gente precisa entender que... muita das vezes eu não tinha essa...
Nós temos da Tia Doca, porque eu conheci aquele quintal da Tia Doca, que hoje não está mais, reformou um pouco. Nós temos a tradição, tinha lá do outro lado... Então, assim, a gente começou a conhecer vários territórios ali, e eu comecei a fazer reunião com eles, porque eu quis conhecê-los. Então, assim, eu comecei a participar de atividades lá, aquilombar – eu fiquei aquilombada por dois dias. Aí, ia um dia, para conhecer, fortalecer, primeiro, essa interlocução com a CRE.
Foi no momento pandêmico. Aí eu comecei as lives, a trazer eles nas lives conosco. Como fazer isso de uma forma grande também? Aí, eu comecei a fazer consultoria com a academia. Fazia com a Gerer e fazia com a academia –, mas como? As universidades. Trazer as forças também da universidade para a gente estudar juntos. E aí, a partir disso, não quero me alongar muito, o que a gente fez? A gente começou a trazer as escolas, o nosso GT, para conhecer esse território. Porque, às vezes, assim, eu comecei com esse plano de ação, estudar, “Poxa, mas como é que pode? Tem ali a Portela, escolas próximas, e elas não conhecem o trabalho da Portela”. E eu sempre fui portelense, desfilava pela Portela, mas, assim, não conhecia o trabalho. O que eu fiz? Comecei a agendar as visitas na Portela.
Aí eu comecei a fazer a ponte, a agendar, lá no Agbara Dudu e, inclusive, no Agbara Dudu, a gente tem uma unidade nossa que produziu um filme, que está pela MultiRio, um filme que vai para fora, e o Agbara Dudu, porque a gente vê, assim, uma casa simples, as pessoas, às vezes, não têm noção disso, que é na simplicidade que tem a grandiosidade, na sabedoria africana, eles estão com dois nigerianos no estudo. Vão abrir uma pós, com uma força. E as escolas começaram a ir.
As escolas começaram a permear com todos, e isso fez parte até da agenda da Gerer, na época. Saiu, fez. Eu estou aqui com alguns livros até da Lazir, se alguém quiser conhecer Lazir Sinval, que esteve conosco agora no último encontro, que a gente fez, na verdade, uma roda, um quintal mesmo. A gente os trouxe para as unidades escolares conhecerem ao vivo, porque até então a gente estava fazendo on-line. E um assunto como esse a gente precisa tratar o olho no olho.
Mas, assim, eu queria deixar bem claro, porque é emoção pura, mas eu queria deixar claro o seguinte: não tem como a gente trabalhar sozinho e não tem como a gente fazer propostas isoladas. Vou dar um exemplo muito simples, mas se eu tenho a sala de leitura, se eu acompanho a sala de leitura, eu vou fazer uma roda semana que vem, eu vou trazer uma pessoa de projetos, mas eu vou trazer também a matriz africana e a indígena. E tenho descendência. Estou agora estudando na Aldeia Maracanã para a gente trazer também, porque fica muito invisibilizada. A gente precisa que as escolas estudem mesmo, desconstruam esses estereótipos, porque não é só apresentação, é formação mesmo.
E agora a gente está entrando em outro campo, no plano de metas, agora é que a gente está conseguindo começar a realizar. É que os professores estão me acompanhando. Então, vou com eles para os movimentos.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Ana Paula, a melhor forma de ensinar, na fala da Geisi, quando ela estava falando da EJA, eu, nesses 22 anos, dei muita aula em EJA por aí afora em projeto social, enfim. E fazer o que você está falando, que é trazer a nossa história mais perto dessas crianças, na prática, não só contar para elas saberem, mas levar, fazê-las conhecerem, fazê-las tocarem, isso é de uma grandeza, enfim, é maravilhoso. Mostrar o que tem mais a ver com o que está se tratando para eles, ali onde eles estão situados. Sair dessa coisa que você também colocou, da alfabetização além dos muros da escola. E é isso! É alfabetizar para vida e não só alfabetização pura e simples.
Óbvio que têm importância português, matemática, enfim, todas essas matérias que a gente sabe; mas a própria vida, porque essas pessoinhas que hoje estão com vocês, a gente não sabe até quando vocês vão conviver com elas. Claro que, às vezes, a gente está na faculdade... Eu mesma, nesse meu trabalho, quando vou falar hoje em alguma universidade, ou quando eu vim candidata, em 2020, muitas dessas pessoas que estavam iniciando na faculdade, vieram falar: “Não, eu continuei porque eu te ouvi, porque...” Claro que é muito bom, mas não é uma certeza que a gente vai estar com elas. Então, prepará-las para seguir o caminho é como um filho mesmo que a gente faz, forma a partir do momento que a gente vai parir, que ele nasce.
Muito obrigada a você também, Ana Paula. Maravilha o seu trabalho.
Enfim, quero dizer que tudo que a gente está falando aqui e deixando registrado está passando agora no YouTube. Isso é muito bom, porque atinge diversas pessoas – e aproveito para agradecer a quem está nos assistindo –, e vai ficar lá para outros assistirem. A gente está saindo também dessa coisa de só falar o que está ruim no município, porque está mesmo, mas há coisas boas. Vocês estão aí mostrando e fazendo, e estamos deixando registrado para quem tiver alguma dúvida poder ligar pra vocês e esclarecer.
Vamos dar continuidade. A próxima é a Denise Cruz, da 6ª Coordenadoria Regional de Educação. A palavra está com você, minha querida, linda, toda de amarelo.
A SRA. DENISE CRUZ – Estou aqui tentando registrar no celular algumas coisas e, depois, no final, direi porquê; mas começa aqui com a “minibio” que me deram para preencher aqui. E aí eu digo uma palavra que depois, logo depois, a Monica Cunha vai afirmar aqui. A última palavra da “minibio” que eu digo é que eu sou gente. Isso é muito importante para mim. Nós somos gente, nós contamos histórias. Chimamanda Adichie vai dizer: “Histórias importam”.
E para estar aqui hoje, quando eu vi o convite, vi Monica Cunha, aí eu falei: “Eu preciso me conectar com ela antes de chegar lá. Não posso só chegar assim”. E aí fui e vi você em alguns lugares, e tem uma coisa que me conectou profundamente com você, que você diz: “O que me traz até aqui, depois de 22 anos, é que eu não me furtei a contar as histórias”.
E eu vou começar com a história que me traz a esta Mesa, que me traz aqui, a minha história. Eu entrei nessa rede em 1992, tinha 19 anos. Já tenho 31 anos de rede e 50 anos de idade. Faz bastante tempo isso! E, quando eu entrei, a gente não tinha internet nem computador: era tudo manual. Meu pai é que é um corpo preto neste mundo, como eu, ele me leva para tomar posse.
A gente chega a esse lugar para tomar posse, onde indicaram, depois de 1h57, é que eu sou da Baixada Fluminense, então eu levei todo esse tempo, e meu pai, no ônibus, pacientemente, até chegar ao lugar de tomar a posse. Quando a gente chega, era um concurso para muitos cargos, eu preciso saber qual a fila me dirigir, meu pai se informa, a gente se posiciona. E aí alguém chega e diz: “olha, eu vou levar vocês para fila certa, vocês estão na fila errada” – e meu pai fala: “não, mas eu me informei, eu perguntei”.
E aí, sem perguntar mais nada, a pessoa diz: “não, mas essa aqui não é a filha de servente e merendeira, essa aqui é a fila dos professores”. E quando ela está dizendo isso, ela não está dizendo de cargos, ela não está dizendo do que é servente e merendeira. E a gente também não está dizendo isso aqui, porque isso é muito importante. Isso é necessário. Ela está dizendo quais lugares os corpos pretos podem ocupar neste mundo.
É a partir dessa história que eu chego, como professora, nesta rede dos pequenos. E aí, para falar de como os pequenos, estar com eles e saber que é nesta fase deles, nesta faixa etária dos pequenininhos – e eu estarei por muito tempo com os pequenininhos e pequenininhas neste momento de vida que a gente formando a nossa autoimagem e a imagem do outro. E que imagem são essas que são formadas?
Tempos depois, eu não trabalho só nessa rede, trabalho em outra, também, acompanhando uma contação de histórias na educação infantil, crianças de três anos, eles tinham o hábito de ouvir a história e recontar para turma do lado, para os companheiros. Eles ouvem uma história, eles se encantam com aquela história – e aí, se organizam para recontá-la.
Um deles diz para amiga negra da turma: “oh, como você sabe essa história, você já sabe tudo, até tudo que os personagens falam, você vai ser a princesa da história”. Ela olha para ele, e no mesmo momento ela se desinteressa, ela não quer ficar na roda, ela não quer mais brincar daquilo, ela vai para o cantinho procurar outras coisas. E aí a gente observa isso e espera. Ele vai atrás dela e fala: “vambora ensaiar, que princesa é você?” E ela fala bem baixinho: “não posso”. E ele não entende. Ele fala: “ué, mas por quê?” E ela aponta para o bracinho e fala: “porque isso aqui não é cor de princesa”.
E aí, a gente olha para todo o acervo que a gente tem e pensa: o que é que a gente está dizendo que é cor de princesa? Que histórias são essas que a gente está contando? A partir daí, a gente se organiza.
Eu faço parte de um grupo. Não é sozinha. Estou aqui falando com muita gente, e cada coisa que eu falo vem passando aqui os meus companheiros de trabalho e minhas companheiras. A gente vai olhar para o que a gente conta, para que mural é esse de “sejam bem-vindos à escola”. E aí, eu me lembro como mãe que chego na unidade da minha filha, olho: “sejam bem-vindos” – e eu falo: quem? Porque eu não estou ali. Quem é bem-vindo? E a gente faz uma verdadeira revolução ali, a partir da educação para pequenos. A partir dessa nossa educação infantil da nossa rede, que é tão potente. Que olha os de materiais e diz: espera aí! Que histórias a gente vai trazer? Que imagens a gente vai compartilhar nesta unidade? Porque nós, na educação infantil, somos professoras pretas também.
Como é que a gente se vê nessa unidade? Como é que as famílias se veem aqui? Como é que as crianças se veem? Como é que a gente pode construir com eles a ideia de que a gente pode ser o que a gente quiser? Não há cor para ser o que se quer.
A gente tem o movimento muito atravessado pelo momento da pandemia, a gente olha isso e diz: bom, como é que a gente pode aquilombar na pandemia? A gente começa nas lives, nas formações a distância, convidando pessoas. E aí, a pandemia nos traz mais perto da tecnologia, que diz: olha, você está aqui, você está lá em Anchieta, mas a Monica Cunha pode participar desta live, mesmo estando no Centro do Rio.
Liga aí, todo mundo se conecta e fala, juntos, e a gente começa a conhecer várias pessoas, conhecer uma teoria que nos foi negada, conhecer autores que a gente não sabia que existiam, conhecer as pessoas pretas nas suas potencialidades, e a gente começa a se juntar.
A gente passa a olhar, volta para o momento presencial e começa a fazer rodas de conversas nas próprias unidades, com os grupos de profissionais, porque a nossa ideia, na 6ª CRE, que é de onde falo, é como a gente provoca estranhamentos – estranhamento para todo mundo. Como é que a gente provoca estranhamento daquilo que todo mundo fala? “Não... É assim mesmo... Não... Nem percebi...” Como é que a gente estranha o que está naturalizado? E a gente reconhece nisso o racismo.
Tem um episódio – isso vai dos pequenos aos mais velhos – numa unidade em que os professores conversam, quando eles falam “Estou preocupado, porque toda vez que a gente começou a trazer esse assunto de racismo começam a falar nisso e toda hora tem uma queixa. Talvez seja porque a gente esteja falando.”
Aí, a gente diz: Não. O que acontece é que agora eles reconhecem que aquilo que estava acontecendo era racismo. O que eles estão fazendo agora é nomear. Não apareceu agora; sempre esteve aqui. Mas agora eles estão dizendo “Não. Não vou admitir isso, não.” E outras pessoas estão olhando para isso também, porque é um assunto de todo mundo.
A gente faz as rodas de conversa. A palavra-chave das rodas é o estranhamento, formações. A gente entende que está muito mobilizado, porque a gente tem ouvido do campo e trocado com o campo que os espaços como a Secretaria de Educação e Coordenadoria Regional também são espaços para discutir isso – e precisam ser. A gente instaurou lá na 6º CRE um movimento chamado ‘Pretas Histórias na 6ª CRE. Bora Prá esse Rolê.’ E a gente se reúne todo mês lá com os profissionais da coordenadoria e quem mais chegar. Nesse movimento, a gente ouve as nossas histórias. Têm pessoas pretas trabalhando na 6ª CRE, têm pessoas pretas trabalhando na SME, têm pessoas pretas nas escolas, e a gente vai ouvindo as histórias dessas pessoas pretas que escrevem, que têm livros publicados, que têm pesquisas, histórias pretas dessas pessoas que têm vivências que podem – e muito! – colaborar com esse nosso processo que a gente deseja empreender e que a gente entende que é o primeiro passo, que é o estranhamento, porque você não se importa com aquele que você não está estranhando. Você precisa estranhar e pensar: Ué, o que é isso? Que negócio é esse? Peraí, isso não ta legal.”
Nesse movimento, a Geisi trouxe, essa semana agora, quando a gente viveu o encontro dos estudantes da EJA, o que lá na 6ª CRE a gente chamou, pela Professora Viviane Cordeiro, organizadora desse grande movimento, de “Escrevivências na EJA”. A gente pode ser contemplado com os estudantes de todas as faixas etárias, de 15 a 90, dizendo ali das suas experiências. A Preta EJA também é preta, então ela estava lá presente, contando e nos formando, e a gente aprendendo e trocando com aquelas pessoas.
Esse movimento é um movimento que passa muito pelo que a gente acredita lá nessa contação de histórias, histórias de vida, histórias de pesquisa, histórias de relação. É um movimento para todo mundo. É muito isso. Pessoas pretas, como Monica falou, a gente sabe desde o ventre. Quando eu fiquei grávida... Eu falo que as pessoas dizem, perguntam sempre e a pergunta para a grávida é: “Vai ser menino ou menina?” E, para mim, era “gente, que cor que vai ser?” porque meu casamento é interracial. Por isso eu digo que a gente é afetado pelo racismo desde o ventre. Minha filha já estava ali sendo bombardeada por esse olhar do racismo. Então, a gente precisa cuidar desse olhar, combatê-lo. Os pequenos estão nessa luta. A Educação Infantil é um espaço potente para a gente transformar.
Eu queria terminar. Monica fala assim: “Não quero mais...”. Não é sobre sobreviver; é sobre bem viver. O modo como eu busco o bem-viver. O modo como eu busco o bem-viver, busco através da poesia e queria aqui terminar com uma pequena poesia desse momento aqui que a gente está vivendo. Estou aqui digitando no celular e eu espero que comungue com o que a gente está falando aqui.
“Contar histórias é atrevimento.
Atrevimento é liberdade.
Sigamos junto aos pequenos e mais velhos com atitude e vontade. Reunidas em torno da mesa, atenção, atenção, mulheres em prol da antirracista educação.
Desafios são muitos, como diz Emicida, eu sonho mais que drones.
Inspirado em Monica Cunha, afirmo, sigamos e tem que ser em bonde.
Não queremos só sobreviver. Temos direito ao bem viver.”
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Gente, muito bom. Muito braba. Muito obrigada, Denise. Muito obrigada. Excelente, excelente. E quando você estava falando da menina que não queria ser princesa, claro que isso doeu em nós três aqui. Bateu, assim. Mas eu lembrei também da minha neta. Toda hora, eu lembro daquela menina, vocês têm que conhecer, ela é o máximo. Ana Mel, de quatro anos.
No dia da minha posse aqui, Denise, com o Presidente da Casa, éramos seis ou oito vereadores, naquele momento, tomando posse, porque estávamos de suplentes. Outros subiram e a gente assumiu. Então, o Presidente estava perguntando a cada vereador quem é que estava acompanhando, companheiro, mãe, pai, ela pulou na frente, com quatro anos: “Eu estou com a minha avó, Vereadora Monica Cunha”.
Eu não tinha visto. Quando, daqui a pouco, eu estou vendo o Presidente, Carlo Caiado, anunciando, e, quando fala em mim, “Vereadora Monica Cunha está aqui acompanhada e representada pela sua neta Ana Mel”. E foi gravado também. Então, assim, essas situações são o que nos dá mais alegria, entendeu? É por isso que eu acredito que com ela não vai ser assim.
Nós jamais tomaríamos a frente em um lugar desses. E eu digo que até hoje, Denise, e aqui eu tenho Heloísa, que é a pessoa que vai comigo todos os dias para o Plenário e sabe bem disso, que quando eu vou falar naquele púlpito, primeiro é representado e tem o nome de Marielle Franco, porque ela chegou ali; e eu tremo. Quando eu volto, a Helô pega na minha mão e diz que eu estou gelada. Eu fico, porque quando eu olho, à minha volta, aquele bocado de homem branco, todos me olhando, eles estão esperando eu errar, eu falar alguma palavra errada, sabem? Parece que eles vão pegar no meu braço e me botar para fora.
É impressionante como a gente se comporta dentro desses ambientes, porque não foi o nosso cotidiano. A gente não foi ensinada a estar aqui. Mas é óbvio que a gente vai aprendendo. E eu estou aprendendo. Por isso, que eu digo que essas escutas estão sendo muito melhores para mim do que para vocês, podem ter certeza.
O que eu tiro dessas escutas, para levar para essas falas, para levar esse conhecimento, como ontem, eu tive que descer para interpelar lá o guarda municipal tirando a barraca de pipoca. O cara vive aí há 500 anos. Mas é isso, é escutar. É o que a gente está fazendo. Então, eu só agradeço a vocês de coração, e muito obrigada por vocês serem quem vocês são e por vocês estarem me dando a certeza que estão, de fato, construindo seres humanos.
Rapidamente, terminando: quando a Ana Paula falou que inicia dando aula de medidas socioeducativas para adolescentes, porque dar aula para crianças ou adolescentes que moram no Leblon – que também tem lá seus problemas, porque são crianças e os têm – mas dar aula para medida socioeducativa, eu sei bem. É daí que eu venho.
O meu filho se tornou um adolescente autor de ato infracional. A minha história começa daí. Então, eu acho que a pessoa que começa desse lugar, que entende esse lugar, está com tudo. Muito obrigada.
Dando continuidade – olha, não vou me esquecer do poema. O poema é meu. Não venha com essa, não!
Dando continuidade, agora, Simone Ricco.
A palavra é contigo, minha querida. Seja muito bem-vinda. São 10 minutos.
A SRA. SIMONE RICCO – Bom dia.
Depois de tantas escutas. Reverenciando assim esse dado pedagógico que existe no contar histórias, e agradecendo a você por abrir este espaço para que a gente possa dar uma pausa em nosso trabalho de professora. No meu caso, de assistente da 8ª Coordenadoria, para poder estar aqui trocando essas experiências.
Eu começo me apresentando como nascida aqui no Morro de São Carlos, no Estácio. Depois fui viver a minha infância e vida adulta em Bangu. Então, como pessoa desses dois territórios que me ensinaram a força do “aquilombar”, a força do andar em bonde, em bando, de fazer churrasco na calçada. Eu sou de uma época aqui do Morro de São Carlos, em que a gente fazia teatro no beco do morro.
É uma época de presença de aquilombamento forte mesmo, real, não é? Quando essa palavra chega para mim, quando eu vou ler Abdias, lá na frente, na minha vida, ela tem um sentido real de vivência, de realidade. Eu tenho procurado levar isso para os espaços que eu ocupo. Foi nessa postura de aquilombamento que eu encontrei Pamela, que eu encontrei Mariana, que a gente fez um quilombo numa escola que incomodou tanto, que a gente saiu da escola. Por que tem isso também. A nossa competência – e vamos admitir que somos competentes, sim – a nossa competência, quando vem moldada por sorrisos, por alegria, ela incomoda, não é? Incomoda. Por que a gente está fazendo um trabalho pesado, está sendo difícil. Mas os nossos corpos estão não se deixando imobilizar.
Acho que é esse o movimento que eu venho fazendo.
Nesse movimento eu me graduei em Letras. Depois eu fiz o Mestrado em relações étnico-raciais e, a partir do Mestrado, cheguei a esse lugar de professora. Fui professora da Ana. Um dos encontros que a vida permite. Eu sou muito grata, porque nesse espaço de informação tenho encontrado muitos professores da nossa rede. E aí eu quero falar desses professores, que eu sou uma delas. Não estou em sala de aula neste momento. Estou na 8ª CRE, como Assistente da Gerência de Educação. Tenho a felicidade de ter uma gerente preta, potente, que me apoia sempre – Professora Cláudia de Deus – e que nesse espaço incentivou muito a criação do nosso núcleo, que é o Gerer. É um Núcleo de Estudos de Inclusão em Relações Étnico-Raciais. E esta arte aqui é da Eli Nogueira, que é uma sobrevivente da chacina da Candelária. Então, é muito simbólico.
Eu vou dar este aqui para a Monica, depois a gente pede outro para a Eli.
E esse núcleo nasce como? Ele nasce de uma conversa nossa, de um desejo nosso de não se deixar engessar dentro da institucionalidade.
Ele é núcleo – Denise até falou, “Ah, vou lá conhecer e tal”, mas que a gente tem muito menos no papel, e muito mais em nossos corpos. Em nosso desejo de materializar, de tornar visível, e de fazer chegar. Fazer esse núcleo ser um ponto de partida e um ponto de confluência para as pessoas que já estão no território e que precisam ser reconhecidas nos seus fazeres. Porque eu também, uma professora, junto com Mariana e Pamela, que fazia muitas coisas que eram a todo momento invisibilizadas.
Isso é uma armadilha do Racismo. A gente tem uma lei, a gente tem uma gerência, mas a gente tem também uma insistência em não ver que existe a lei, em não ver que existe a gerência. Então, a gente criou lá o Gerer, esse núcleo, que tem aí uma letra “i”, porque a gente busca falar também da inclusão. Porque a nossa coordenadoria já passou da casa dos 3 mil alunos incluídos. Laudados. Entre esses alunos incluídos, nós temos ali os alunos e alunas negros e negras. Que vão ser olhados, não é, com uma dificuldade até maior para a sua inclusão, porque vão ser rotulados de violentos, de desorientados, de burros, não é? De milhares de coisas. E a inclusão vem acontecendo de uma forma que me mobiliza muito, porque é algo que eu entendo, que preciso estar em constante aprendizagem.
A gente falou aqui em algum momento, a Luiza trouxe isso de não ver acontecerem algumas mudanças, a Monica acho que trouxe também, mas essas mudanças que o Movimento Negro Educador tem feito, especialmente, já estão aparecendo quando a Geisi traz a fala da EJA. Aquele senhor, aquela senhora e aquele menino que chegaram ao EJA já estão trazendo, ali, evidências de que esse movimento é incessante. E não é um jargão dizer que nossos passos vêm de longe, a gente vem comentar metodologias pedagógicas desde a roda de capoeira, desde a contação de história, e depois pelos nossos mais velhos aí, que vêm escrevendo, que vêm produzindo teorias.
Nós, eu e outras colegas que pude conhecer que não mais estão, a própria Zoilda, professora Jurema, a nossa querida também Joselina, nossa querida que não está aqui tão próxima. E são muitas mulheres, mulheres negras escrevendo histórias, criando metodologia. E essas mulheres, que eu falei que não estão entre nós, estão representadas na luta das mulheres que estão lá na minha coordenadoria, e que eu ainda não conheço, porque a institucionalidade me amarra em um monte de questões.
Já conversei com Luiza, já conversei com Joana à época, conversei com o nosso querido Ricardo também o quanto a gente vem procurando desamarrar isso que a institucionalidade traz para efetivar mesmo a lei, para fortalecer a gerência, para cada coordenadoria perceber qual a melhor forma de trabalhar, para que não se trabalhe sozinha, para que a gente possa fazer jus à nossa tradição.
Eu falei com a Thayssa do samba. O samba nos diz: “Bora formar uma corrente, com elos muito resistentes daqueles que levam um bom tempo para arrebentar, abrir espaço, deixar caminhar com seus passos essa nova geração e dar condições dessa massa de terminar com essa farsa, deixar esse povo sofrido mostrar seu valor”.
Acho que é nesse sentido que o Gerer quer ser um elo de uma corrente. Ao contrário da corrente do racismo, que nos aprisiona até hoje e que é difícil de arrebentar, é uma corrente que tem dificuldade de se formar. E é essa nossa questão. Como é que a gente vai pelas brechas para que esses elos se encontrem, para que esses elos se juntem? E nós temos ainda mais um elemento que nos aperta muito o coração, e que dói na nossa carne no espaço que a gente ocupa, na periferia do Rio de Janeiro, onde está a maior concentração de população negra.
A Geisi ia para o nosso encontro da EJA, estávamos com salão montado e não pudemos fazer. E, então, como é que a gente lida com tudo isso, sem entender que, nesse lugar, essas pessoas, em sua maioria pretas, já estão perdendo? São desigualdades que são colocadas até na geografia da cidade. Existe um recorte racial na forma como os diferentes espaços da cidade são tratados. E aí, precisamos - nós que já estamos dentro desse espaço – potencializar as pessoas desses espaços, porque elas chegam onde muita coisa do poder público não está chegando. E, aí, não está chegando, porque não foi criado. Foi criado, existe, mas quem é que vai botar a mão na massa para que faça existir e ser vivenciado?
Então, a minha chamada aqui é para gente poder estar junto, fortalecendo esses pequenos núcleos que acontecem em cada espaço. São eles que garantem a possibilidade desses espaços, vindo de longe, caminharem cada vez mais para longe. E não é um longe no sentido de ocuparem outros espaços, é um longe de ir profundamente para dentro de cada um. Porque o responsável, o funcionário da escola, a comunidade escolar é que precisam ser elo dessa corrente para que a gente não fale mais sozinho, para que a gente ande em povoada, para que a gente não se sinta só.
Esse chamado pode vir pela educação, ele pode vir por uma roda de conversa. Ele precisa vir num espaço muito forte no nosso território das igrejas neopentecostais, que é uma luta muito grande. Tudo que a Ana Paula trouxe aqui, nós temos. Nós temos uma mocidade, nós temos uma Unidos de Padre Miguel, que é incansável na tratativa dos enredos voltados para a matriz africana. Mas nós temos paredões imensos, muros, que o neopentecostalismo construiu e que são formados por pessoas. E pessoas que precisam se reencontrar com o diálogo, que sempre existiu na matriz africana e na comunidade afro-brasileira, que é o diálogo de potencializar a força de cada um.
O nosso Gerer, o nosso núcleo, a nossa coordenadoria, a nossa gerência de educação tem buscado fortalecer essas potências de cada um, abrindo espaço para esse núcleo que é de trocas de fazeres e também de troca de saberes com o nosso LAB Gerer, que é um laboratório, para que a gente possa promover, para os professores e gestores, trocas de conteúdo. Porque para eu combater racismo, eu preciso saber o que é racismo, não é?
Muitos gestores, principalmente, negam e não querem saber. E alguns de nossos professores, por conta de uma formação ainda com vários hiatos, estão reproduzindo equívocos. A gente precisa estar junto para acolher e visibilizar os acertos, para potencializar isso, e para dialogar sobre aquilo que é que equivocado, porque ali existe uma vontade de fazer. Então, bora lá. Como é que a gente vai fazer para fazer da melhor forma, da forma que seja uma forma de fortalecer todo esse território, que já é precarizado por vários motivos, mas que tem uma riqueza enorme que o nosso núcleo deseja colaborar com a potência dele?
Então, obrigada por me ouvirem. Foi um prazer ouvir vocês.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Obrigada a você, Simone. Muito obrigada por ter aceito o convite, por estar conosco.
Quando você fala de nos tirarmos dos espaços de quando a gente... Porque eles sabem o quanto a gente é bom. E a gente é bom mesmo. Não é mais ou menos, não. Somos intelectuais, somos maravilhosos. Quando vamos para esse espaço da academia, a gente consegue juntar a nossa ancestralidade. Os nossos passos vêm de longe com essa academia. A gente não fica encastelado no que só eles querem nos ensinar. A gente faz essa troca. E a gente pega isso e leva para os nossos. É isso. É por isso que eles não nos deixam ficar, criar raiz em cada espaço. Porque eles sabem o que a gente vai formar dali. E eles têm muito medo. Tem medo de perder essa cadeira, que eu digo que é o senta e levanta desse povo. Que já está escrito desde sempre. Essa coisa do “formei meu pai, formei meu irmão, formei...”. Um senta e levanta, um senta e levanta...
Quando eles estão vendo que não está dando mais para o senta e levanta, que a gente também está sentando do lado, aí virou o complicador, aí não pode. “Não, não, não. Do meu lado não tinha essa cor, não. Do meu lado a cor era igualzinha a minha.” Mas agora está ficando, sim, de outra cor. A gente está colorindo. Só que a gente está colorindo não na palavra do “colorir”, porque não é isso. Eu digo sempre: não venha com essa história de me botar na foto só para dizer tem uma pretinha. Não, não, não, não,... Eu estou ali porque eu sei por que estou. Eu sei o que eu estou falando, não para estar enchendo empada de ninguém e sendo a pretinha do “rolê”. Estou fora disso.
E falar de Movimento Candelária, por favor. Foi a maior surpresa aí que você me trouxe, porque agora, julho, mais um ano. Tem mais de 30 anos. Até, então, o único sobrevivente que a gente tinha assim no radar, e aí eu não estou há 30 anos no movimento, mas é isso. Tenho 22 ou 20 anos. Então, a gente só sabia do irmão da Patrícia Oliveira, que ele foi que, enfim, levou diversos tiros. Hoje mora fora do Brasil. E toda vez, por mais que tenha 30 anos que ele vem ao Brasil, no próprio aeroporto, policiais federais têm que estar acompanhando em algum hotel, em alguma coisa que ele for ficar. Porque ainda tem risco, porque ainda tem um vivo por aí. Então, a gente sabe o quanto nossas vidas... E ele hoje é um homem de 40 e poucos, que ele tinha 20 anos... Acho que 18, 19 anos, na época. Ele, hoje, acho que tem, sei lá, 40 e pouco, não pôde construir família no sentido de ter filho, porque todo o... do chumbo, não é, da bala... é, mas é a coisa que a bala tem, eu esqueci agora o nome, ficou dentro do corpo dele que ele não pode, então, assim, quer dizer, ele não foi assassinado naquele momento, mas acabou morrendo aos poucos, mesmo estando vivo.
A gente vê que os nossos continuam sendo reverenciados. É isso mesmo que a gente tem que fazer, porque eu sou a pessoa que vem de um movimento que faz a lembrança. A gente vive disso, não é? Eu sou do movimento de familiares de vítimas, então, eu tenho que falar todos os dias que eu pari um filho, e o nome dele era Rafael da Silva Cunha, e não “033” como o sistema quis botar, não, eu não pari um filho que foi bandeado e eu não admito que meu filho seja reconhecido por um número, porque ele teve um nome que eu registrei e dei. Então, fazer a lembrança é muito importante, principalmente para nós, mulheres negras.
Então, muito obrigada, Simone, pela sua colocação.
E dando continuidade e já indo para o final, passo a palavra para a Ana Paula Moreira, da 9ª CRE, que já veio aqui uma vez e é muito bom ter você de volta, muito obrigada.
A SRA. ANA PAULA MOREIRA – Boa tarde.
Em primeiro lugar, como uma mulher de axé, eu peço que Bobô Orixá abençoe a todos e abençoe a Vereadora Monica Cunha e a sua equipe para nos abrir essa porta. É um espaço que, de fato, é nosso, mas que precisou ser abertos os caminhos de representantes da nossa linhagem.
Eu sou a professora da Rede, P2 e PI, minha verdadeira formação é em educação inclusiva. Eu hoje estou dirigindo a Escola Municipal Rômulo Gallegos, na 9ª CRE e, para além disso, sou ialorixá do Ilê Axé Fefé Irê em Campo Grande.
E aí, eu me coloco aqui a essa Mesa não só como um elemento da militância contra o racismo. Quando eu ouço cada uma de vocês falando a respeito do racismo dentro do espaço escolar, da segregação, seja do aluno defasado, seja do aluno com necessidades educacionais especiais, do idoso que está em processo de retomada da sua vida escolar, eu penso na dificuldade que essas pessoas, de fato, enfrentam, e que esses indivíduos enfrentam dentro da escola.
Mas a criança negra de Candomblé está no lugar ainda mais distante de acolhimento, de respeito, de aceitação. Então, na minha coordenadoria, eu sou conhecida e me apresento aos meus pares como uma mulher que dirige uma escola, mas que, antes de tudo, é uma mulher de axé, uma liderança religiosa de matriz africana.
E, como eu falei aqui no mês passado, estando com os meus irmãos de liderança de matriz africana, como isso foi fundamental para a vida escolar daquelas 523 crianças ali na Rômulo, porque as crianças de terreiro, até a minha chegada à escola, e eu não estou trazendo para mim nenhum mérito, eu estou falando de uma análise, eu estou falando de um estudo que eu fiz da minha própria comunidade escolar. Não existiam crianças de Candomblé até a minha posse na Rômulo Gallegos. Era uma escola neopentecostal, você olhava as fichas de matrícula, todo mundo era católico, evangélico ou sem religião declarada. Então, depois que eu me assumi ali como uma mulher de axé, dirigindo aquela escola e liderando aquela comunidade, começaram a aparecer os paninhos na cabeça, as blusinhas brancas, nas sextas-feiras. E, aí, quando você vai olhar o sistema acadêmico, nenhum desses alunos é novo; nenhum desses alunos veio para a escola de janeiro de 2022 para cá, quando eu assumi ali.
Eles, hoje, se sentem seguros, aceitos, representados e à vontade para declarar a fé deles. Então, eu me coloco, sim, como protetora e defensora das crianças, não só negras, mas em qualquer situação de vulnerabilidade. Mas eu seguro, com muita força, a bandeira da criança de terreiro, dentro da educação.
Eu sou uma pessoa que gerencia relações etnicorraciais desde que eu me entendo por gente; com o meu cabelo, que eu nunca deixei minha mãe alisar; com o meu olhar para o Candomblé, mesmo sendo criada numa religião católica, eu sempre olhava de longe os terreiros. Até que a minha avó, que me criou, começou a me levar para pegar os doces; começou a permitir, mesmo sendo uma nordestina semianalfabeta, ela entendeu que a minha identidade estava se formando e ela foi uma das pessoas que apoiou a minha iniciação para orixá.
Então, hoje, o meu papel dentro da rede é representar também essas crianças de terreiro; ser a voz delas, onde eu consigo chegar, porque é um processo de racismo violento contra a religião dessas crianças que elas sofrem. E eu percebo que a nossa Secretaria – que alegria estar aqui com as nossas irmãs da Gerer. Meu Deus, quando eu vejo e-mails de vocês chegar, eu penso: “Misericórdia, meu Deus. Graças a Deus!”
E eu fico olhando as minhas colegas gestoras, lá na 9ª CRE, pessoas que eu respeito, educadoras de excelência, mas eu percebo que nós precisamos de formação continuada para lidar, acolher e liderar as crianças de terreiro dentro dos espaços escolares. Não precisa, o gestor não tem que ser iniciado em Orixás para acolher e conduzir. Mas as pessoas não sabem o que fazer. Os encontros de diretores, por exemplo. Às vezes, até as igrejas do território cedem o espaço para que nós possamos nos encontrar. O meu terreiro tem espaço. Será que, um dia, uma reunião de gestores vai poder ser dentro de um terreiro? Muito provavelmente não.
Mas, para além disso, é muito importante que até os colegas que não sabem acolher a criança de terreiro possam minimamente ter um caminho, uma orientação. Porque o lugar de fala não é uma análise que impede o outro de ter um discurso. Lugar de fala é o que traz o entendimento, para você, daquele determinado assunto. Então, é importante que, quem quer que esteja à frente das escolas, possa ser multiplicador, os gestores, para esses professores estarem com essas crianças em sala de aula.
Não tem muito tempo, eu falei para a professora de música lá da escola: “Sobrou um dinheirinho do SDP. Vamos comprar uns instrumentos?” Fizemos uma mostra de talentos, para saber se nós tínhamos músicos na escola; artistas; atores. E, numa escola de 1º segmento, a gente encontrou dançarinos, músicos, rappers e percussionistas. A primeira observação que a professora de música fez foi: “Nossa! Eu achei um menino, no 3º ano, que toca pandeiro muito bem. Tem que saber onde ele aprendeu, não é?”
Não tem que saber onde ele aprendeu. Não faz diferença. Este indivíduo, esta pessoa, sabe tocar pandeiro. O meu filho, que nasceu dentro da religião, ele nasceu percussionista. Não tem ninguém na família que toque nada. Mas ele, de ouvir, aprendeu a tocar cada instrumento que ele encontrou no terreiro dele. E, hoje, ele é baterista. O que ele trouxe do terreiro, ele aplicou na vida. Isso aos 11 anos de idade.
Nós somos aqui, dentro da rede, mais de 1.500 escolas, uma minoria muito expressiva. É muito importante o nosso entendimento de igualdade, de inclusão; o respeito à criança de terreiro passa por inclusão. Todo aluno é uma criança em situação de inclusão, por algum caminho, seja pelo atraso cognitivo, seja pelas questões físicas, motoras, sensoriais, emocionais, crianças com familiares em situação carcerária, e as crianças de axé também são crianças com perfil de inclusão. E aí, eu percebo que a nossa rede forma, de uma maneira muito limitada, os educadores para inclusão.
A gente ainda vê o educador pensando em inclusão para deficiência física ou mental. Não é. A criança de terreiro é uma criança em situação de inclusão, a criança criada por avós analfabetos é uma criança em situação de inclusão. E aí, quando você, às vezes, acolhe essa criança, você dá motivos para esse avô voltar a estudar para que ele possa apoiar o seu netinho, a sua criança que está ali sob a responsabilidade dele. Então, eu acho que é importante que o nosso olhar sobre o racismo e racismo religioso dentro da rede caminhe junto com a perspectiva da educação inclusiva, porque é uma coisa só.
Muito obrigada, gente.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Obrigada a você, Ana Paula, por nos mostrar e dizer para nós como a nossa religião tem que fazer parte da educação, como também temos que respeitar as crianças, porque não tem as crianças que são das igrejas evangélicas, enfim? Então, tem que respeitar as nossas crianças também, quando vão com os filhos de conta ou se é sexta-feira e tem que estar com alguma outra coisa, não tem que estar sofrendo bullying, os professores não tem que estar, enfim... Então, muito bom. Muito obrigada por nos fazer também entender e conhecer esse lado da educação. Quando você fala que os gestores têm que aprender – e aí eu me coloco aqui no sentido dos alunos de medidas socioeducativas – isso é um lugar que eu conheço bem, porque quando esses meninos... É isso, as medidas não são eternas, têm suas etapas, e aí quando eles voltam para escola, os gestores, a direção, olham: “Mas, por que você passou aquele ano todo sem estudar?”, “E aí, estava preso?”. É assim que elas falam.
Quando foi com o meu filho, eu lembro bem, eu precisava da declaração para levar para escola, porque você tem que provar que você não pariu o bandido, então você tem que estar arrumando diversas declarações da escola, do curso, do vizinho, para você dizer que do teu útero não saiu bandido. E aí, a diretora falou para mim – lá naquele tempo também não tinha entendimento e estava tão desesperada: “É, mãe, eu te dou a declaração, mas a senhora não vai deixar voltar a estudar aqui não, certo?”. E olha que eu sempre fui uma pessoa explosiva, não sei o quê, mas fiquei quieta. Depois de anos que eu fui entender, mas aí já passou, nem sei se ela ainda está lá. Mas, o que me aconteceu serve para eu passar para outras. É isso, quando alguma mãe vem com alguma coisa, alguma reivindicação dessa forma, aí eu vou igual a uma leoa, porque não tem que não deixar essa criança dar continuidade do ser criança e ter seus direitos acolhidos e garantidos. Então, a gente tem que sempre estar reivindicando.
Agora, como todas vocês foram brilhantes na fala, eu vou aqui passar a palavra, porque eu comecei isso na última escuta e vou dar continuidade, porque eu acho muito interessante também vocês, que são de fora e não estão nesse cotidiano aqui comigo, saberem as pessoas que estão do meu lado. Marina é a coordenadora da Cecor. Raissa é secretária, é do jurídico do mandato, mas também é secretária. Temos ali Jonas, também está com a gente, é da Comunicação, mas também é da área da Educação. Temos Mariana que também é Educação. Temos Márcia Castro, que é do jurídico. Temos meu pai Lúcio Felipo, que é da Cultura, e babalorixá. Temos aqui a lindíssima Jaque, que é também da Comunicação. Temos Helô, que eu já mostrei, que é do Jurídico, mas é quem desce comigo aí para o Plenário. Temos o nosso maravilhoso Jorge, que, como eu, é um pai, um familiar vítima do Estado, tristemente, daquela triste chacina, que ficou conhecida como “111 tiros”, lá que aconteceu, perto de Madureira. E temos aqui, que eu deixei por último, proposital, o nosso Cristiano, que eu quero que ele... Tem aqui os meninos, desculpe: Caio, que é da Comunicação; Paulinha, que é da Comunicação; Adriano, que é da Comunicação. É porque eu foquei tanto no Cris.
Eu deixei o Cris de propósito, porque eu quero que o Cris fale um pouco desse trabalho também dele da educação, nesses adolescentes e jovens, que também têm que estar incluído no que a gente está falando, porque a importância de eles estarem é muito grande, para de volta estarem na sociedade.
A palavra é com você, meu querido.
O SR. CRISTIANO SILVA DE OLIVEIRA – Valeu. Obrigado, Monica.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Você que me desculpe, Caio, Paulinha e Adriano.
O SR. CRISTIANO SILVA DE OLIVEIRA – Vou ficar do lado dela aqui. Boa tarde a todos, todas e todes.
Meu nome é Cristiano. Eu faço parte aqui da mandata da Monica Cunha. Também trabalho com educação, eu me formei recentemente em História. E a gente faz um trabalho com um público que quer ser destinado a ter um conhecimento de emancipação racial, ter esse conhecimento, esse poder de argumentar e disputar narrativas dentro do sistema socioeducativo, nos Creads, a partir de um movimento social na educação informal, eu não sou do equipamento formal de educação, mas eu trabalho em movimentos sociais. Inclusive, a gente também fundou uma associação chamada “Eu Sou Eu”, “A Ferrugem”, que trabalha também com a educação, que é composta por pessoas do sistema prisional, egressos do sistema prisional, e também trabalha com esse público de trazer esse conhecimento, que é negado historicamente, a partir do momento em que a gente tem esse reconhecimento também como pessoa preta, como corpo preto, que isso também é uma grande disputa de narrativas, de reconhecer como preto, é uma realidade dentro das periferias e favelas do Rio de Janeiro.
A gente trabalha com esse público, trabalha com essa galera, trazendo informação, a partir também desse coletivo de professores e pessoas envolvidas com a educação, que nos auxiliam e nos conduzem também nesse conhecimento preciso. E a gente tem feito esse trabalho e tem condicionado, e trazido para essas crianças, esses jovens e adolescentes, esse conhecimento, que é muito importante para também possibilitar novas condições de vida e outras realidades, outras possibilidades para essa galera. E eu mesmo também, eu também venho do sistema. Eu tenho essa vivência do sistema prisional, e com isso, eu trouxe também essa ideia de romper com essa lógica e disputar esse cenário todo que a gente disputa diariamente.
Hoje, a gente também tem um projeto chamado “Educação que Liberta", o pessoal do “Eu Sou Eu” que toca. Eu também sou professor nesse projeto. E a gente traz informações que rompem com a lógica de um composto curricular educacional que é extremamente racista, e negligencia, que oculta, que impede de a gente ter de fato uma verdadeira história, que a gente não teve possibilidade de acessar devido a muitas questões. E aí, hoje, a gente tem muitas pessoas do sistema prisional que estão acessando as universidades a partir desse movimento da educação não formal também, que eu acho muito importante como companheira também dos equipamentos formais para a gente tentar, de fato, diluir e quebrar toda essa lógica racista.
Eu agradeço também à mandata por reconhecer a importância de essas pessoas, que são extremamente descartáveis, que são praticamente consideradas como “matáveis”, estarem nesses espaços de discutir e de trazer possibilidades, e trazer: “Não, um bandido bom não é um bandido morto”, o bandido que é bom é o bandido que está estudando, é o bandido que está estudando e transformando a sociedade dando aula, considerado com estigma na sociedade de bandido, mas que está hoje cooperando socialmente de uma forma extremamente viável, coerente e que transforma várias vidas e a realidade de muitas famílias.
É isso.
A SRA. PRESIDENTE (MONICA CUNHA) – Você está vendo o que me constitui? É este bonde, minha galera. Eu sou a dona do bonde melhor. E aí, primeiro, quero agradecer a todas por terem estado aqui e dizer a vocês que não me abandonem. A gente precisa continuar essa empreitada que eu dei início aqui dentro, de mostrar, de falar dentro desta Casa, mas que a gente já vem lá de fora, mas que aqui dentro desta Casa eu preciso, de fato, continuar forte.
Agradeço a presença de todos e todas, e dou por encerrado o debate público.
Muito obrigada.
(Encerra-se o debate público às 12h35)