Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da VEREADORA THAIS FERREIRA

REALIZADA EM 10/17/2025


Íntegra Debate Público :

DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 17 DE OUTUBRO DE 2025
(Rio para Meninas: Ausências e Necessidades Políticas para Meninas da Cidade do Rio de Janeiro)

Presidência da Sra.Vereadora Thais Ferreira.

Às 14h43, no Salão Nobre Vereador Antonio Carlos Carvalho, sob a da Sra.Vereadora Thais Ferreira, tem início o Debate Público com o tema: “RIO PARA MENINAS: AUSÊNCIAS E NECESSIDADES POLÍTICAS PARA MENINAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO”.

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Senhoras e senhores, boa tarde. Vou aguardar todo mundo tomar seus assentos, as pessoas que estão sentando aí atrás.
Dou por aberto o Debate Público com o tema: “RIO PARA MENINAS: AUSÊNCIAS E NECESSIDADES POLÍTICAS PARA MENINAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO”.
A Mesa Diretora está assim constituída: a jovem Anny Beatriz Ripardo da Silva, representando o projeto Meninas Cidadãs; a jovem Maria Eduarda Braga, representando o projeto Meninas Cidadãs; a jovem Maria Dutra, representando o projeto Diálogos entre Adolescentes, do Unicef Brasil; a jovem Heloisa Oliveira de Assis Paschoal, representando o projeto Diálogos entre Adolescentes do Unicef Brasil; a jovem Eduarda Venâncio, representando o Movimento Girl Up Brasil; e a jovem Luiza Piçarro Rios, representando o Movimento Girl Up Brasil.
Muito obrigada. Em primeiro, as organizações também para presentes, Unicef Brasil, Movimento Girl Up, é muito importante a gente estar aqui com vocês nesse diálogo, a gente trazer para a Câmara Municipal a oportunidade de receber esse debate que a gente já sabe que começa superqualificado, que vai ser feito a partir das meninas para as meninas e para toda a nossa cidade.
A gente pode trocar um pouquinho, umas com as outras, algumas a gente ainda vai poder trocar mais, mas estou aqui também pela menina que fui, a menina desde a primeira infância, bem pequenininha, mas também a adolescente, a pré-adolescente, a jovem também que eu me constituí. Era um desejo assim, não só meu, mas de várias meninas que construíram a vida e o pensamento político comigo, que pudéssemos ter um espaço seguro e confortável para apresentar nossas ideias.
Sabemos que isso não é uma realidade no nosso país, no nosso estado, nem na nossa cidade. Só por sermos meninas, quando me perguntaram ali na TV Câmara, estamos atravessadas por uma série de desigualdades que são muito visíveis e concretas para nós, mas invisíveis e até subjetivas ou abstratas para muitas pessoas que não veem a desigualdade de gênero como um problema a ser resolvido com urgência. Somente nós sentimos na pele quantas vezes – ou talvez todas as vezes – que deixamos de fazer algo, conseguimos fazer algo ou perdemos uma oportunidade por sermos meninas e por a desigualdade de gênero ser algo tão presente em nossa trajetória, desde a infância, que é interrompida.
Há pouco tempo muitas pessoas observaram pela primeira vez o tema da adultização, mas a adultização acontece com as meninas desde o trabalho do cuidado – o cuidado doméstico que é imposto a nós antes do brincar, muitas vezes antes do estudar – para que possamos garantir um pouco de segurança em nossa moradia, apoiando nossas mães, pais ou responsáveis. Sabemos que não é fácil para uma menina chegar à escola sozinha, interagir em grupos, pertencer a determinados espaços. E vamos desdobrando isso e somando a várias outras desigualdades. Estamos falando da questão de gênero, mas também da questão racial, territorial, da nossa condição e da classe social. Sabemos que tudo isso nos distancia de desenvolver plenamente a nossa cidadania.
Estar com vocês aqui hoje é, na verdade, um presente muito maior para nós, mulheres adultas e compusemos este espaço, para toda a sociedade, porque temos muitos homens que constroem conosco, mas, para aqueles que ainda dizem que é invisível ou que não é prioritário combater a desigualdade de gênero, essas pessoas terão a oportunidade de ouvir de vocês, em primeira pessoa, a própria visão de mundo – e não apenas um depoimento, mas o compartilhamento de ideias, que são muito importantes.
Cabe aqui também fazer algo que não é um grande parêntese, nem uma grande aspa, mas um grande destaque: quando dizemos que a revolução será feminina ou feminista, quando afirmamos que nós, mulheres, somos protagonistas das principais mudanças das últimas décadas, quando falamos do fortalecimento da democracia e do avanço de uma agenda de proteção, precisamos tornar isso possível e reconhecer que é possível fazer isso desde a primeira infância. Se ouvirmos as crianças pequenas, as meninas pequenas, as da segunda infância, as pré-adolescentes e adolescentes, com certeza esse olhar crítico que vocês já formulam há muito tempo pode beneficiar, enriquecer e qualificar todas as políticas públicas.
Falamos muito sobre uma agenda de justiça social, porque é o que mais nos impacta diretamente, mas estamos falando de todas as agendas políticas e públicas, que devem e podem ser enriquecidas e qualificadas com a visão de vocês. Quando chegamos à política – e vou confidenciar um pouco do que vivo aqui –, é colocada para nós uma política considerada “menor”: a política do cuidado, do cotidiano, a política de quem faz as compras no supermercado, de quem leva o familiar para o posto de saúde, de quem busca vaga na creche, de quem está fora do mercado de trabalho, porque se tornou mãe na adolescência, como se essa política não fosse a maior agenda ou a mais prioritária.
Enquanto aqueles que se dizem detentores das grandes decisões e do poder – homens majoritariamente brancos e mais velhos – exercem seus lugares de poder, temos mulheres que foram meninas e que estão trabalhando em toda essa cadeia produtiva do cuidado, invisível e muitas vezes não remunerada, para que eles possam exercer suas lideranças plenamente. Então, a justiça social, a partir do corpo, da voz, da visão e das ideias das mulheres, é a única justiça social possível para que possamos de fato corrigir desigualdades e avançar em uma agenda voltada para o nosso bem viver.
Eu estava conversando com as meninas ali. Sou uma pessoa muito mais ligada ao rap, ao hip-hop, às palavras de ordem, de certa revolta e até vamos falar assim, de um uso subversivo, mas, aqui na Câmara, aprendemos a ser estratégicas e a colocar nossas ideias em lugares onde não apenas possam ser lidas, mas também executadas. Temos qualificação, até porque vivemos uma vida não no lugar da observação, mas no lugar da produção do cuidado, da sobrevivência e da manutenção dessa vida para sermos as pessoas que devem ser as mais poderosas na política. São as mulheres, essa agenda de representação feminina que deve, sim, ser uma agenda prioritária, e eu me sinto muito feliz e grata de poder proporcionar isso para vocês, porque, se não for a continuidade de vocês, o meu trabalho não fará sentido nem para mim, que já estou adulta hoje, bem no meio do caminho ali, com meus 37 anos, mas principalmente, prioritariamente, para as meninas que ainda estão por vir e a gente quer que elas possam sonhar com a gente.
Então, acho que um Rio para as meninas começa a partir da visão muito realista que vocês vão trazer aqui, mas que também não vai deixar de ser sonhadora. A gente precisa sonhar que a gente pode realizar e concretizar uma possibilidade muito melhor para todas nós, para que a gente possa finalmente aí trazer aquela frase bem clichezona, para que as meninas possam ser o que quiserem ser e para que as meninas possam estar onde quiserem estar.
Então, muito obrigada pela presença no dia de hoje. Estou muito feliz de dividir a mesa com vocês.
Ontem eu estava numa outra mesa, e era uma mesa também só de mulheres, e aí a menina fez uma brincadeira, que tem um programa Saia Justa no GNT, e ela falou que na verdade a gente, que tem movimentações que são muito mais populares e plurais, compõe mesas na verdade uma saia rodada, não é? Isso até me inspirou para colocar um vestido mais solto, lembrei das minhas ancestrais aqui, e hoje estou me sentindo muito, muito feliz de poder acolher vocês nesta nossa grande saia rodada, estou vendo a Joana ali de saia, a outra também, que para a gente são mulheres que constroem políticas com a gente. E o nosso olhinho vai brilhando não por mim, mas por elas, que vão estar aqui daqui a pouquinho.
E a gente trouxe dados, sim. Acho que se vocês quiserem, porque vocês estão produzindo essa incidência cidadã, trazer esses dados, falar um pouco sobre isso, é muito importante vocês saberem que o que vocês trouxerem aqui vai ser de fato usado, não só para ter mais uma lei como o Dia da Menina, que a gente protocolou e comemora na nossa cidade hoje, mas para qualificar mesmo a produção de políticas que possam proteger a vida de vocês, que possam impulsionar a vida de vocês em unidade, porque a gente tem que falar da nossa unidade, mas principalmente em coletividade e comunidade também.
Então, a gente tem alguns dados aqui, se vocês quiserem usar também, e aí depois a gente vai ter outro momento das nossas debatedoras, em que a gente vai abrir para a fala da Tribuna. Neste momento a Thaiz está pegando inscrições, quem quiser já se inscrever para falar, está aberto para todo mundo falar, é um debate público, a gente vai conversar muito mais, e aí vocês podem já se inscrever. É só apontar para a Thaiz, já tem gente querendo se inscrever ali, é só apontar para a Thaiz, que ela faz a inscrição, e a gente segue assim, tá bom? Combinada a dinâmica? Qualquer outra necessidade de incidência, pode levantar a mão também, que a nossa equipe acolhe.
Quem é da equipe pode levantar a mão, quem está nessa assistência? Tem bastante gente aí para ajudar vocês, é só para todo mundo se localizar. Vamos ter alguém com tempo aqui na frente? Vamos ter a pessoa do tempo, não sei quem é ainda, ou sabemos? É a Thaiz mesmo. Então, a Thaiz vai indicar.
Vou passar a fala para ela que sentou por último, mas está como primeira aqui na nossa lista, Anny Beatriz. Palmas para ela, palmas para a Anny, gente.

A SRA. ANNY BEATRIZ RIPARDO DA SILVA – Olá, boa tarde. Estou um pouco nervosa, é a primeira vez que estou aqui neste local com tanta gente, mas vou começar me apresentando.
Sou a Anny, venho da Maré, Complexo da Maré, no Piscinão de Ramos, tenho 16 anos, estou aqui com as Meninas Cidadãs. Conheci o Meninas Cidadãs através da minha escola, o Ciep 326 Professor César Pernetta, que também está localizado na Maré e que, apesar de eu não ter muitas aulas, ter muita ausência de professores, de matérias, o que acaba prejudicando muitos de nós, jovens favelados que estão no Ensino Médio. E acaba que tenho mais oportunidades fora da escola do que dentro dela, sabe? Aprendo mais fora da escola do que dentro da própria escola, mas todas as oportunidades que tenho, em que estou hoje em dia nos projetos, são da escola, a escola que proporciona essas oportunidades para a gente.
E o Meninas Cidadãs é um projeto em parceria com a Unicef e a ONG Elas no Poder. São meninas de vários estados. É bem legal a gente ter esse contato com outras garotas. A gente ter mais força não só aqui no Rio de Janeiro, mas também lá fora. A gente poder compartilhar também as nossas vivências, os nossos atravessamentos.
E é muito importante para mim estar aqui hoje. O Meninas Cidadãs também é muito importante para mim, porque, como eu disse, acaba que a gente que mora na periferia, tem essa dificuldade de ter aula, por causa de operações, de falta de segurança.
O Meninas Cidadãs é muito importante para mim, por falta de estudos.
(PALMAS)


A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Pode ficar bem tranquila para falar, se quiser fazer outra contribuição depois. Eu vou registrar algumas presenças importantes e ilustres aqui.
A gente tem a presença da jovem Eduarda Ferreira, que é presidente do Projeto Pretinhas Leitoras; da senhora Joana Fontoura, oficial de desenvolvimento e participação de adolescentes do UNICEF; da Senhora Beatriz Araújo, diretora de relações institucionais da Associação de Doulas do Estado do Rio de Janeiro. Muito obrigada.
Dando sequência agora, a gente vai ouvir a jovem Maria Eduarda Braga, representando o Projeto Meninas Cidadãs.

A JOVEM MARIA EDUARDA BRAGA – Oi, gente, boa tarde. Meu nome é Maria Eduarda Braga, eu vim representando o Projeto Meninas Cidadãs.
Sou uma menina periférica, moro na Maré, também estudo no César Pernetta, e eu conheci o Meninas Cidadãs de forma muito espontânea, porque eu faço também jiu-jítsu no Luta pela Paz e eu fazia parte do conselho jovem na época, e aí me indicaram para participar, e eu falei assim: "Nossa, um projeto que ajuda a gente a crescer como pessoa, a fazer leis públicas, a tentar fazer as leis públicas". E eu falei assim: "Nossa, é a minha cara”, porque, desde muito pequena, eu já venho lutando muito para poder ter um espaço, porque quando a gente é menina, ainda mais periférica, a gente sente que a gente tem, muitas das vezes, a voz silenciada por nós sermos de favela.
Então, a gente tem dias em que não vamos à escola por conta de operações policiais. E são projetos como este que dão visibilidade e voz pra gente. Então, eu falei assim: "Por que não fazer parte?" E eu entrei no Meninas Cidadãs, me apaixonei, porque desde muito nova eu sonhava em fazer psicologia. Mas por que fazer psicologia? Para poder dar voz e ajudar outras pessoas a terem vozes. E é muito legal, é muito especial estar aqui hoje, é um grande dia por ter várias mulheres e meninas na mesa fazendo leis públicas, construindo vozes. Então, eu acho que é muito importante estar nesses espaços.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Vamos ouvir agora a Maria Dutra, representando o Projeto Diálogos entre Adolescentes do Unicef Brasil.


A JOVEM MARIA DUTRA – Oi, gente, boa tarde. Desculpa, é que eu estou um pouquinho nervosa. Eu sou extremamente tímida.
Mas então, meu nome é Maria, tenho 23 anos. Não parece, “santa melanina”. Eu sou da comunidade do conjunto habitacional do Cesar Maia. Nome deixa a desejar, mas é de um lugar de bastante resistência. Fica na Zona Sudoeste agora do Rio de Janeiro, no bairro de Jacarepaguá.
E eu conheci o Unicef através do Projeto Decola Cria, do qual eu sou uma das conselheiras. O Decola Cria tem como objetivo traçar mudanças sistêmicas para jovens, principalmente jovens em questão de vulnerabilidade. E conheci o Unicef através... como o Unicef tem essa parceria, vi o que foi o Diálogos entre Pares, fui a uma reunião e, a partir daí, fiquei e gostei bastante.
O Diálogo entre Pares também tem o objetivo de causar mudança sistêmica através dos GTs. Um desses GTs de que faço parte é sobre saúde mental e diversidade. Então, quando a colega ali falou que queria ser psicóloga, para mim, assim, é muito emocionante, porque por mais que a gente venha do lugar que a gente veio, ainda assim a gente tem essa esperança de querer sonhar e de querer realizar o nosso sonho, sabe?
Eu estava conversando com uma amiga minha que está aqui e, quando ela chegou, ela meio que se perdeu. Aí, ela falou: "Poxa, entrei em uma sala só de brancos". E fiquei tão desconfortável. Tipo assim, bateu um desespero, falei: “Tipo assim, cara, é o que a gente está trabalhando, sabe? Para que, quando chegar a esses espaços, se sentir o máximo, ter um espaço seguro”. Porque, infelizmente, daqui saem projetos que buscam sempre nos paralisar.
Hoje estou fazendo faculdade, para mim é muito importante falar isso, porque eu não imaginava que eu ia fazer faculdade, sabe? Eu não imaginava que eu estaria na UFRJ, fazendo Defesa.
Obrigada. Estou cursando Defesa e Gestão Estratégica Internacional, que é uma área que é muito diversa, mas o intuito é isto: também causar mudança sistêmica. Este sempre foi o meu sonho: poder causar mudança sistêmica, sair para poder aprender e voltar para poder repartir com os meus. E a partir disso, poder se aquilombar, entendeu?
Porque, quando eu estava estudando sobre a questão de saúde mental, porque é um tema bastante pouco falado na favela, não é uma coisa que é falada ou que as pessoas entendem, a questão da saúde mental, principalmente no contexto de meninas negras.
E é isso, gente.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Gente, acho que... eu estava olhando para outras meninas que já não são mais tão meninas aqui, e a gente se emociona muito junto. Acho que dá aquele, além do quentinho no coração, mas o olho enche d'água mesmo, porque eu estava lembrando a minha menina, muitas vezes solitária nesses espaços de estudo e tudo mais, chegando à faculdade, chegando nesses espaços e vendo um monte de gente branca ao redor, um monte de homem, e o meu sonho mesmo era que eu não estivesse sozinha ali, que do meu lado estivessem pessoas parecidas com vocês. E, assim, isso é real aqui. A gente está construindo essa possibilidade com a ajuda de organizações sensíveis e que priorizam isso, mas principalmente com essa nossa esperança, com essa nossa vontade de continuar sonhando. Porque não adianta os projetos estarem disponíveis se a gente às vezes não se sente como você se sentiu. Por que não fazer parte?
Várias de nós ficaram com aquela dúvida: "Será que entro ali? Será que vou? Será que vai ser acolhedor?". Mas se está sendo, se está servindo para isso, acho que é um grande sonho que a gente realiza junto. Então, por isso que a gente bate palma por você estar na sua faculdade mesmo e por cada uma de vocês estar ocupando os espaços que está ocupando. E acho que a gente vai mais vezes se emocionar aqui. A galera vai ter que segurar o choro aí.
A gente vai ouvir agora a Heloisa Oliveira de Assis Paschoal, representando o projeto Diálogos entre Adolescentes do Unicef Brasil.

A SRA. HELOISA OLIVEIRA DE ASSIS PASCHOAL – Boa tarde.
Meu nome é Heloísa, eu tenho 19 anos. Sou nascida e criada no Complexo do Chapadão, na Zona Norte, ali no bairro de Costa Barros.
Atualmente, moro no Fundão, mas faço parte dos Diálogos do Unicef. Fiz parte do Nuca, Núcleo da Cidadania do Adolescente, na Pavuna. Faço parte do Escola Cria, junto com a Maria. Também faço parte do GT de Saúde Mental junto com a Maria no Diálogos. Sou jovem aprendiz no Cedaps, Centro de Promoção da Saúde.
E adicionando, porque acho que todo mundo trouxe falas muito significativas e a gente compartilha um pouco das vivências. Podem ser parecidas e semelhantes. Nem sempre são as mesmas coisas, mas a gente sempre tem algo que se une de certa forma. E acho que trazendo um pouco também no sentido de adultização e pensando no contexto do nosso território, a gente é sempre colocada muito nesse lugar de cuidado, até mesmo quando a gente se torna irmã mais velha.
Eu sou filha do meio, eu tenho minha irmã mais velha, e isso acabou virando um movimento de “herdabilidade. Minha irmã cuida de mim, e eu tive uma irmã pequena, e eu comecei esse processo de cuidado, e esse cuidado a gente faz de uma forma que a nossa família nos induza a isso, mas a gente também se sente um pouco na obrigação de ter esse cuidado, por mais que a gente tenha frustração na época que eu fazia Nuca, Núcleo de Cidadania dos Adolescentes, por várias vezes eu tive que ir junto com a minha irmã de cinco anos, de quatro anos. Eu tinha 16 na época. Houve ocasiões que eu não pude ir porque eu tinha que ficar com a minha irmã e meus pais não permitiam eu levá-la por sermos duas pessoas de menores de idade.
Então, a gente tem esse contexto principalmente pensando em território de favela, em mulheres, meninas faveladas. O número de meninas que cada vez mais estão sendo mães cedo e como isso tem gerado um movimento dentro das favelas. Eu também sou fundadora do Projeto Sustenta a Cria, de educação social. E a gente está com um projeto de educação ambiental com justiça reprodutiva. E a gente está trabalhando com dois públicos diferentes.
Então, assim, foi o primeiro contato de fazer na mesma atividade em duas escolas. E como são diálogos completamente diferentes com jovens de 13 a 14 anos, com jovens de 16 a 18 anos. E como há uma ausência, principalmente pensando no contexto do meu território, onde o Costa Barros é um bairro com duas facções diferentes. A linha do trem divide, faz a divisória das comunidades. Recentemente, UPA foi fechado por questões de facção.
Então, pensando de novo no contexto de meninas, quais são os acessos que cada vez mais delas estão sendo limitados e privados a elas, pensando que sem UPA agora, a UPA mais próxima é em outro bairro. E aí a gente fala também sobre segurança, a gente fala sobre transporte, que a gente fala de mobilidade, como é que a gente vai se locomover se temos apenas três linhas de ônibus e cada um vai para um lugar? E no primeiro tiro os ônibus param. As vans funcionam, mas elas não aceitam a gratuidade. Então, pensando em muitas jovens do território que usam da gratuidade para poder conseguir acessar quanto a educação, quanto a saúde também... A gente sabe que o povo da van não aceita idoso, muito menos estudante.
Então, todos os assuntos se interligam, educação é interferida pela insegurança do território, que é interferida pela mobilidade. E ter acesso à educação voltada principalmente para entender o corpo feminino é muito significativo. Quanto mais cedo melhor. E a gente fala muito sobre trazer isso na primeira infância, trazer isso no fundamental, porque é o momento em que a gente está construindo o nosso pensar, o nosso entender como sociedade, como indivíduo e o contexto como todo. E como a ausência de ter esse direito, porque isso também eu entendo como educação básica, entender o direito do nosso corpo, entender aonde a gente pode chegar, aonde a gente deve, aonde a gente consegue e como a gente chega lá.
Eu também fiz parte do Centro de Defesa dos Direitos da Criança do Adolescente  (Cedeca). E ano passado foi que eu fui entender um pouco mais questões raciais e me entender em raça, porque é isso, dentro do território a gente sabe que o brasileiro, o carioca, é um povo miscigenado, mas ainda assim a gente não tem um letramento racial dentro das escolas, a gente não tem esse letramento racial das nossas famílias.
Erradamente ou positivo o apelido das minhas irmãs era macaca branca na família, que éramos as únicas “desbotadas”. Então até ano passado eu falava que eu me identificava como parda somente porque é o que está escrito na minha carteira de vacinação. Até eu chegar nesses espaços no meio social e ter ali o contato com o que é o letramento racial, o que é você ter traços ou não, que não somente raça se define por cor.
Então, quantas outras jovens também não se entendem, não entendem também as violências por que elas passam simplesmente pela cor, pelos traços, pelo cabelo crespo, por ter um rosto, um nariz, a boca. Eu acho que a gente também, quando a gente entra nesses projetos sociais, é muito para o lugar que a gente quer alcançar, mas que outros jovens também alcancem o mesmo espaço que a gente. A gente, quando entra nesse meio social, a gente começa a viver um pouco nesse universo, que a gente começa a fazer amigos dentro desse meio. E nosso diálogo sempre é um diálogo de conversa de quem sabe para quem sabe. Mas a gente está levando para quem não sabe, para quem deveria também está dividindo esse espaço com a gente?
Então, acho que é basicamente é isso.

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Obrigada pela fala. Você trouxe vários pontos do que a gente gostaria que vocês pudessem estar discutindo aqui, né?
E, como você falou, complementou a fala de todas as outras com essa questão do contexto da gente desde essa trajetória de menina periférica até essa questão do letramento racial, que a gente sabe que é ainda uma grande dificuldade por conta de a gente ter essa falta de letramento em cidadania. Acho que essa questão de começar desde a primeira infância, dar essa perspectiva de que somos pessoas, cidadãs, sujeitos integrais de direito, ele precisa ter... E não é uma tradução que a gente precisa fazer, porque a gente não tem que traduzir nada para um povo que já vive a sua própria realidade. Na verdade, é deixar essa linguagem simples e acessível o suficiente para que as pessoas não precisem passar por tantos momentos de dor, já que a gente sabe muitas vezes que a desigualdade e vulnerabilidade deixam a gente nesse lugar que, muitas vezes, de forma pejorativa vai ser colocado como uma ignorância, né?
E muitas vezes as famílias usam isso como um critério até mesmo de proteção, porque a gente quer que as nossas meninas e os nossos filhos passem por menos violências do que a sua mãe passou, a sua avó passou; então, acaba se reproduzindo uma série de violências por conta dessa dificuldade, porque o debate sobre o letramento racial, o debate sobre a questão da interseccionalidade, das questões de gênero, de raça, de classe ainda é de fato um debate muito elitizado e que não chega com essa linguagem acessível e simples que precisa alcançar uma menina, uma criança favelada, uma criança periférica. Então, muito obrigada mesmo por essa contribuição grandiosa.
Vamos ouvir agora a Eduarda Venâncio, representando o movimento Girl Up Brasil.

A SRA. EDUARDA VENÂNCIO – Oi gente, boa tarde.
Eu me chamo Eduarda Venâncio, tenho 19 anos. Estou aqui representando na Girl Up, mas faço parte do Meninas Cidadãs, do Diálogos com Unicef também. Eu queria agradecer primeiramente pela oportunidade de estar aqui e eu queria iniciar minha fala dizendo que pensei em muitas coisas. Falei: "Nossa, vou falar sobre tudo, vou botar tudo na mesa, a gente vai conversar, vai trocar". E no final do dia, e ouvindo as minhas colegas, acho que a gente está sempre complementando a voz uma da outra.
A Duda falou sobre voz, e pensei como isso me toca profundamente, assim... Coisas que não falei, sou irmã mais velha de quatro irmãos. Sou a primeira filha dos meus pais, que me tiveram com 19 anos. Sou uma menina favelada, nasci aqui no Centro da cidade, mas sempre morei na favela no Morro do Urubu, que é na Zona Norte aqui da nossa cidade e é uma favela que não tem nenhum projeto social. Minimamente a gente tem uma associação dos moradores, que, assim, não modifica muita coisa, falando sobre cultura, sobre acessibilidade.
E uma coisa que ontem conversei com a Andreza, a teve uma conversa tipo assim: "Ah, o que a gente vai falar e tal?". Pensei muito na diferença de acesso e acessibilidade. E a Vereadora falou sobre a interseccionalidade. Isso é uma coisa que está batendo muito na minha cabeça recentemente. Faço jornalismo e ontem apresentei um seminário falando sobre necropolítica. Aí estou falando várias coisas e depois vai se relacionar. Quando terminei de falar, eu e meu grupo, a gente, muitas pessoas vieram conversar com a gente e falaram assim: "Ah, não entendi por que você trouxe isso; depois que você começou a falar, compreendi o que você estava querendo dizer”.
Acho que quando a gente, eu na posição que tenho, sempre de cuidado, igual a Heloisa falou; quando sou a irmã mais velha de quatro irmãos mais novos, e a minha irmã que tem 16 anos, ela é uma menina também, muitas vezes precisei ser mãe dela. Porque os meus pais se separaram três anos depois que nasci, cada um foi viver sua vida, e eu também era uma vida, assim como a minha irmã era. Minha mãe precisava trabalhar, meu pai precisava trabalhar, ele também era presente, mas assim, a gente entende que ser presente, estar presente são coisas diferentes. Muitas vezes eles não vão conseguir dar para a gente o que a gente precisa, assim como o Estado. Ele é presente, mas ele não está presente na nossa vida no dia a dia.
E aí, quando eu precisava tomar frente de muitas coisas e tomar parte, cuidar e ensinar para a minha irmã que ela era uma menina, que ela era uma mulher e que ela tinha que tomar cuidado, porque eu também precisava tomar cuidado, e a gente vivia isso no dia a dia, era difícil. E aí ontem, explicando sobre necropolítica... necropolítica é um conceito do Achille Mbembe, que fala sobre o poder do Estado de matar a gente e como existe uma política que decide quem vive e quem morre.
E aí, a gente falando sobre isso, eu trouxe muito para a minha realidade. Falei: "Vou falar sobre isso hoje”, porque hoje aqui é um debate acessível. Todas as pessoas, os cidadãos podem estar aqui, é de livre acesso. Mas qual a acessibilidade que meninas iguais a mim, iguais a nós, meninas da minha favela têm? O que faz com que essas meninas estejam aqui? O que faz com que essas meninas estejam aqui? O que faz com que essas meninas estejam nas universidades? O que faz com que elas entendam os conceitos e entendam a política como um todo?
Thais também falou sobre como é uma linguagem que já existe. A gente sabe que a favela é potência, que nós somos potências, que nós temos o poder e a capacidade de estar nesses lugares, mas muitas vezes não é acessível. A mobilidade é difícil, a acessibilidade, no geral. Eu digo que pensando na questão da Heloísa, quando ela falou “Ah, eu não pude ir porque eu tinha uma irmã de quatro anos e não podia levar ela comigo”, é isso.
Acho que hoje o que falta, pensando no Rio para meninas, é pensar que nós somos múltiplas, mas a gente vive coletivamente desde que a gente nasce. Nós somos um corpo político desde que a gente está no corpo de quem gera a gente.
Muitas vezes – aí, trazendo para um assunto de gravidez na adolescência e fazendo este questionamento – o que torna uma menina adolescente menos mulher? Quando ela engravida na adolescência, por exemplo, aquilo é política: a maneira como ela é tratada, se ela é uma menina favelada, se ela é uma menina negra, se ela é uma menina de periferia, enfim. Como ela é tratada? Como a acessibilidade do Estado, das leis, do contexto, chegam a ela? É acessível ela ir à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) fazer o pré-natal, o acompanhamento, mas que acessibilidade que a gente, a mulher, aquela mulher grávida, aquela grávida sente ao se recepcionada lá dentro da clínica, por exemplo? Quais são os olhares que nos atravessam?
Aí, de novo pensando e acabei falando de tudo um pouco. Mas, para mim, é muito valioso ter essa troca porque as pessoas precisam entender, no geral, que a gente já existe, que a gente já é política, que a gente já está sendo ativista, que a gente já está modificando os territórios em que nós estamos inseridas, porque nós podemos fazer isso, nós temos essa capacidade.
Há duas semanas, eu estava na Conferência Nacional de Política para Mulheres com o Unicef e com a Ministra Márcia Lopes, para falar sobre o trabalho de cuidados. A gente fez uma proposta de lei para falar. Na verdade, a gente iria para a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), lá no México, acabou que não deu, e a ministra convidou a gente para ir para a Conferência Pública de Política para Mulheres. Lá, naquele momento, eu me senti grandiosa: Nossa! Eu estou num ambiente em que eu nunca estive antes. Não tinha nenhuma adolescente nesse espaço antes. Daí, quando a gente chegou, tinha muitas mulheres que nos acolheram super bem. E foi incrível, porque a gente estava fazendo uma movimentação que nunca tinha sido feita. A gente subiu no palco, a gente conheceu muitas pessoas, muitas mulheres estavam com a gente. E eu entendi: é isso que eu quero fazer para o resto da vida.
Aí, em um momento, uma mulher mais velha virou e falou: “Este não é o seu lugar: aqui é lugar de mulher.” E ela falou com essas palavras. Eu estava com uma amiga e a amiga desabou chorando. Eu fiquei com tanta raiva, porque não é a primeira vez que eu ouço isso, não com essas palavras, porque ninguém falou que esse não é meu espaço porque eu não sou mulher, mas quando eu não podia ir para a escola por conta das operações, quando eu não tinha acesso à saúde, quando na minha casa a coleta de lixo não chega porque o tráfico proíbe, eu sinto que eu não posso estar nos outros espaços, porque aquele talvez não seja o meu lugar.
Eu entendo que, no dia a dia, a gente acaba deixando passar tantas coisas despercebidas e a gente não entende que isso também é política. E, aí, eu trago de novo a questão: o que é acessível para a gente? Onde a gente torna
o acesso mais humanizado mesmo, falando num tom assim: Eu sou uma menina, eu sou adolescente, mas sou uma mulher negra, sou uma pessoa de Axé. Então, existem várias violências ao longo do dia. Você acorda ás 7 horas da manhã, porque hoje eu também trabalho. Eu estudo, eu trabalho, eu tenho um trabalho de cuidado dentro do meu terreiro, então são muitas coisas. E, desde que você acorda até a hora em que você vai dormir, a gente não para para reparar em tantas violências que a gente passa e como no final do dia a gente fica frágil. A gente se vê como aquela menina de novo, de sete anos, que está sozinha em casa, que precisa dar conta de tudo e esquece que somos um corpo tão político quanto o de uma mulher que tem 70 anos.
Não precisa existir essa comparação, mas que é claro que a gente precisa entender que esse é o nosso espaço, porque assim como aquelas mulheres que são mais velhas puderam e podem estar aqui hoje, esse também é nosso direito. O que torna a gente menos mulher, porque se a gente já sofre violência, se a gente já é ativista, enfim, e eu, copiando um pouco da fala, porque estive na CNPM, eu queria compartilhar com vocês e entender. É muito bom poder ouvir umas as outras e saber que a gente não está sozinha, em nenhum momento. E mesmo que demore 50, 70, 100 anos, em 100 anos vamos lutar juntas, porque isso é o que a gente pode fazer, sabe? Estou muito feliz de estar aqui com vocês, de poder compartilhar e ouvir as meninas. E acho que as outras meninas também têm muito para agregar a gente.
Eu me alonguei um pouquinho, mas é basicamente isso.
Muito obrigada, gente.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Acho que realmente é este o lugar de conversa que você trouxe. Então, o tempo que vocês usam é o tempo que vocês têm para falar o que querem, e isso é muito importante. A gente faz obviamente um controle, mas aqui a gente está entre nós, que somos aquelas meninas e que também seremos aquelas mulheres mais velhas.
Acho que a gente também poder se imaginar, com essa expectativa de vida longeva e acumulando outras lutas, mas lutando juntas, resistindo e vencendo juntas, também é muito importante. Porque quando você falou dos seus sete anos, começando uma trajetória de cuidado, eu me conecto direto com o meu. Também comecei uma trajetória de ser responsável pelo cuidado da minha casa, para que a minha mãe pudesse trabalhar aos sete, e é muito pesado mesmo. E depois eu me tornei uma ativista, desde criança, porque é bem assim: a gente se constrói para se proteger. A gente tem que começar a ser ativista de si mesmo.
E sempre que eu me encontrava com outras pessoas adultas e muitos adultos, muitas mulheres adultas mesmo em posições de poder – estou falando de professora, de diretora, de alguém que sabia mais do que eu, de uma vizinha ou de pessoas até num supermercado, quando eu tinha que... “Cara, tenho que comprar a carne da janta”; “Ah, você não vai saber escolher isso, porque você...”; “Cara, mas tenho essa responsabilidade aqui há tanto tempo, filha. Pô, espera aí”. Então, não dava para falar sobre isso, mas era o que vinha na minha cabeça.
Estudando o que a gente vai estudando com a nossa vivência, não vou colocar aqui nenhuma carteirada acadêmica entre vocês, porque acho que a gente está falando das nossas vivências mesmo, a gente vai percebendo que, de fato, a gente está lá, criança, num estado puro de pleno desenvolvimento e assimilação de qualquer tipo de conhecimento. E a gente vai virando adulto, e a própria palavra adulto vem desse lugar de ser adulterado, não é? E a gente vai sendo adulterado por uma série de culturas que são hostis a quem já foi criança. E muitas pessoas vão transformando isso numa carapaça mesmo, numa casca grossa, para poder sobreviver a certos ambientes. E esses ambientes em que a gente entra e em que a gente se sente grandiosa e poderosa, por estar entre as nossas pares, são os mesmos ambientes em que muitas delas ainda precisam reproduzir essas microviolações do cotidiano para se autoafirmarem, justamente porque elas já passaram desse lugar onde nós ainda estamos. E falo que nós, porque converso com a minha criança todo o dia, mas vocês estão mais perto desse lugar da infância que já terminou... e esquecem realmente de quem elas foram, da criança frágil, desse lugar realmente de a quem faltou um colo, faltou um cuidado, faltou um acolhimento.
Eu, nestes últimos dias, aqui na política mesmo, passei por situações muito difíceis, e a gente passa todos os dias, mas para poder me reconectar com o porquê estou fazendo o que estou fazendo aqui, eu não sabia por que motivo, mas vi uma foto minha quando eu tinha quatro anos de idade – essa fotinha aqui. Sou eu, essa criancinha aqui. E falei: “Cara, me deu uma vontade de botar essa criança, essa minha criança aqui com essa carinha no fundo de tela do meu celular”, porque a gente trabalha no celular o tempo todo, não é? Mas depois eu, refletindo e ouvindo aqui vocês, sei por que coloquei essa Thais de quatro anos aqui. Foi porque essa Thais, de quatro anos, precisava de coisas que eu hoje, adulta, aqui, posso prover para outras mulheres que têm menos idade do que eu e até que têm mais idade do que eu também.
Quantas vezes a minha mãe... ela tem uma situação de saúde delicada por conta do câncer. Quando estou cuidando da minha mãe, cuido da criança que ela foi, porque ela não teve esse cuidado. A minha mãe é uma criança que passou fome, de barraco de chão de terra batida, o rato mordeu o dedo dela, ela tem uma cicatriz nesse sentido, então teve uma vida muito endurecida, uma mulher negra retinta. E aí a gente vai se reconectando com esses espaços, como você falou também da questão da inacessibilidade, da inviabilização das nossas potências. Essa falta de acesso não vai ser corrigida a partir de espaços como este aqui. Isso é uma coisa que a gente tem que ter muito concreta, para que a gente possa ser estratégica e saber que, nas nossas ações, vai nos caber levar o conhecimento daqui muitas vezes e criar células de multiplicação, de verdade, acessíveis, desemparedadas, desencasteladas e livres, para poder a gente poder fluir e elaborar.
Porque até para a gente poder pegar essa elaboração do Achille Mbembe, e eu aqui estava querendo falar de imagem de controle. Nossa, desde cedo, a gente nas nossas imagens de controle, Patrícia Rios Colin é uma mulher importante, uma intelectual nossa, mas ainda assim fica muito difícil se a gente não conseguir dar conta disso, de ter um lugar seguro, um ambiente seguro e tem que ser político, ele é político, o terreiro, a casa, a escola, o banheiro com a amiga quando a gente está desabando de chorar, para a gente poder olhar para essas nossas meninas.
O que a gente está fazendo aqui hoje, e eu me permito fazer isso com vocês, é olhar para as meninas que nós somos ainda, nessa fragilidade mesmo, porque só assim a pessoa que está no lugar que a Joanna está, que a Ju está, que a Sami está, que a Thais está, que eu estou, vai conseguir dar conta do que tem que fazer de verdade. Se a gente ficar nesse lugar do adultocêntrico e, não, a gente está em uma conferência, uma palestra, um lugar incrível, maravilhoso, e eu estou aqui com o meu terninho reproduzindo uma política, de mulheres, mas é masculinista para caraca, porque você quer ter o microfone para você? Não quer deixar a garota falar? Então pera lá. A gente não vai conseguir chegar onde a gente tem que chegar.
Então, assim, muito obrigada mesmo pelo seu relato de resistência, por todos esses papéis de cuidado que você está conseguindo exercer com maestria diante de muita dificuldade, mas dá para ver que você está fazendo isso muito bem. E por ter se sentido à vontade mesmo de falar sobre esse lugar. Porque eu sou muito, muito, muito crítica a tudo que a gente mesmo produz. A galera que trabalha comigo sabe. Eu sou uma eterna indignada e revoltada. Quando você falou de raiva, esse é geralmente o sentimento que eu mais me conecto. Mas eu uso aquele princípio, vamos organizar essa raiva aí e essa raiva vai ser uma potência coletiva.
Então, vocês estão aqui me ajudando a organizar a raiva que eu sinto de tudo que a Thaizinha aqui de quatro anos passou, para que outras meninas não passem por isso, porque é algo que realmente é transformador quando a gente consegue não esquecer, sabe? Não tem um dia, gente, acho que eu estou vereadora há quase cinco anos e pouquinho, vai completar, completa em janeiro do ano que vem, e não teve um dia que eu não tive que olhar para a minha criança. E foi essa criança, foi essa menina, e uma menina de uma situação difícil, uma menina que foi violentada sexualmente, uma menina que sofreu muita coisa que fez com que eu continuasse, não, é importante estar lá mais um dia, é importante me colocar de pé de novo. Não é fácil, mas vale muito a pena por nós, sabe? E não vale dizer que é por outras pessoas não, olhem no espelho se conectem com isso e entendam que vale a pena por cada um de vocês e por esse coletivo todo que você trouxe na sua fala. Obrigada mesmo. Palmas para ela, gente. Ela trouxe aí lições.
Agora a gente vai ouvir a Luíza Piçarro Rios, que está representando o movimento Girl Up Brasil.
(PALMAS)

A JOVEM LUÍZA PIÇARRO RIOS – Boa tarde. Bom, meu nome é Luíza. Muito prazer estar aqui com vocês e poder falar algumas coisas. Esse é um espaço que, por mais que seja realmente aberto, é difícil também alcançar. Então, eu acredito que, primeiramente, para iniciar, eu gostaria de dizer que eu estava um pouco insegura de vir aqui falar, porque por mais que eu não tenha muita idade eu não gostaria de estar aqui só por mim. Então, antes de vir para cá, sabendo que isso iria acontecer, eu tentei conversar com algumas meninas e consegui, então eu fui perguntar para elas o que elas gostariam que fosse mudado. Então quais são aquelas coisas que mais incomodam elas, especialmente pensando aqui no Rio, porque é um debate que fala sobre mais especificamente essa questão, e elas me relataram especificamente muito a questão da segurança. Foi algo assim muito rebatido e que se mantém muito presente em todas elas, que é justamente essa questão da insegurança que se sente só por ser mulher, independente do espaço. Pode ser no transporte público, na escola, em casa e, enfim, entre muitos outros. E acredito que é justamente isso, porque por mais que seja algo falado hoje e que antigamente não tinha tanto esse espaço, e também um crédito que hoje se dá, não muito, mas acredito que hoje seja algo mais possível de ser feito de quando você fala que, por exemplo, você foi assediado na rua. E é algo que, infelizmente, acontece quase que todos os dias com todas essas meninas, independente de onde elas estejam. Pode ser em uma instituição privada, em uma instituição pública na faculdade, em qualquer outro lugar. E acredito que essa seja uma dificuldade muito nossa mesmo e que por mais que tenham pessoas ao redor que sejam assim confiáveis e muito boas, sempre tem um pouco dessa insegurança no final de tudo. Porque, realmente, é um sofrimento muito grande em relação a isso que fica uma questão muito difícil de se confiar nos outros.
E acredito que isso é muito colocado para nós mulheres também, da questão da rivalidade feminina, especialmente, em que a gente vê que, por exemplo, estamos numa mesa e só tem um lugar para mulher. Então, você vai ter que disputar com todas as outras para você estar ali. E, mesmo assim, é algo muito difícil, porque mesmo você alcançando aquele lugar, você não tem com quem compartilhar. Então, fica muito difícil de poder alcançar outras por conta disso, porque é como se fosse realmente uma cota do tipo: “Olha, você está aqui representando”. Só que até que momento você tem o poder de realmente fazer uma mudança que seja significativa para outras como você ou que sejam diferentes também? Então, acredito que tem muito isso também.
Assim como as minhas colegas, faço as palavras delas as minhas. E acredito que realmente tem muito o que dizer, porque são muitos recortes. Eu, por exemplo, diferente pelo menos da grande maioria, se não de quase todas, morei no interior de São Paulo até os meus 14 anos. Nasci na grande São Paulo e eu me mudei para o Rio, moro aqui vai fazer cinco anos. Então, não sou carioca obviamente, mas tenho uma paixão muito grande e vejo que esse é o lugar em que eu teria que estar de fato, porque, para mim... Não só em questão de oportunidades, porque eu não morava em São Paulo especificamente, mas numa cidade do interior, vejo que tem muitas mudanças, e as pessoas vão muito para esse lado de que é uma cidade grande e de que Rio e São Paulo são o grande foco do Brasil, então muitas coisas acontecem por aqui, felizmente ou infelizmente acaba sendo isso.
E não vejo muitas pessoas falando de outras diferenças que existem como, por exemplo, eu me sentia muito mais segura na cidade onde eu morava. Aqui não sinto tanto, por mais que tenha grande foco mesmo em questão tanto de política pública quanto de diversas outras, mas vejo que é justamente isso. Uma amiga minha ela falou justamente isso para mim. Ela falou: "Luíza, tenta bater muito na tecla dessa questão da segurança, em questão também de policiamento, que faz muita falta, e que possa realmente fazer a diferença”, porque acaba que é isso.
Então, acredito que tem muito essa questão de a gente não se enxergar uma na outra, algumas das vezes, nem sempre. Mas vejo que tem um pouco dessa dificuldade justamente por conta dessa criação que a gente recebe, independente de qual seja, porque cada uma teve uma criação muito diferente. Acaba que vejo que tem muito disso também. Então, sempre tento escutar outras pessoas e ver realmente o que elas sofrem, porque, por mais que eu possa sofrer algumas coisas, tem outras que não vou, assim, chegar a conseguir a imaginar como seja. E por isso que tento ao máximo buscar entender e ajudar no que eu puder, porque vejo que é muito isso. As pessoas têm muito essa questão do tipo: "Ah, mas isso não me afeta, então nem sei o que fazer para poder ajudar". Mas acaba que vejo que é justamente que é aí que tem a oportunidade, a possibilidade de fazer mudança, porque acaba se transformando de poucas em muitas. Então, vejo que é um pouco disso também.
E essa questão, por exemplo, dos recortes de raça, de sexualidade, entre muitas outras, vejo que é um pouco disso também, entre muitas outras coisas. E eu estava pensando também no que as meninas falaram da questão de ser irmã mais velha. Também sou irmã mais velha, acredito que algumas falas possam vir a se repetir, porque acaba que é algo que atravessa todas nós e que é um pouco impossível de você separar, porque acaba que somos mulheres, somos irmãs, somos muitas coisas ao mesmo tempo. Então, tenho muita preocupação com a minha irmã e de que ela não passe por coisas que passei, mas também tenho a preocupação de não fazer com que ela fique aterrorizada com o mundo, com o fato de ter que sair de casa, entre muitas outras coisas também. Então, sempre busco tentar fazer esse equilíbrio, ponderar realmente a questão que você tem que ter o cuidado, mas que você também tem que ir, você tem que viajar, você tem que trabalhar, você tem que estudar, todas essas questões também.
E eu estava me lembrando também de que vocês comentaram a questão de cuidado. E com a minha irmã mais nova, quando ela nasceu, recebi um presente, não sei se é um costume de onde vim, se aqui no Rio também tem, mas quando a gente é irmão mais velho, recebia um irmão mais novo, a gente tinha ali um presente que era como se o nosso irmão tivesse dado para a gente. E por que eu estou falando isso? Porque eu ainda não tinha nem três anos, eu ia completar três anos quando a minha irmã nasceu e eu recebi de presente uma pia de brinquedo, aquela de você puxar. E aí eu lembro que eu fiquei contente, porque eu adorava brincar de casinha, era algo assim que eu gastava muito tempo e eu ficava muito apaixonada, porque eu ficava: "Nossa, que legal você organizar tudo, você fazer com que fique legal para receber outras pessoas". Eu tinha muito isso mesmo pequena. Só que aí eu não via um possível problema nisso, que é justamente essa questão da adultização e também o cuidado voltado exclusivamente para a mulher, que acaba que é um pouco invisibilizado.
Tem tido um pouco de visibilidade. Por exemplo, foi tema da redação do Enem em anos anteriores e eu vejo que realmente é algo a se prestar atenção também, porque tem muito o debate da questão da igualdade, que eu acho muito importante, com toda a certeza é algo muito necessário, mas eu vejo de uma ótica um pouco diferente, porque eu não vejo que os direitos teriam que ser iguais, mas um pouco diferentes no sentido de equidade, porque não é a mesma coisa para os homens que é para as mulheres. Então eu não vejo o porquê de a gente ter os mesmos direitos. Só que a igualdade acaba sendo muito falada, porque a gente não tem nem algumas coisas perto do que eles têm. Então a questão da igualdade acaba sendo mais do que nada.
Eu vejo que tem muito esse debate em questão disso, porque é uma tentativa de fazer com que fiquem um pouco pareadas essas possibilidades de oportunidades diversas, mas eu vejo que é justamente isso. Então, não tem como ter o mesmo tratamento, porque não é a mesma coisa. A gente trabalha num mesmo cargo e não recebe o mesmo salário. Isso é um absurdo, mas que, infelizmente, hoje, ainda acontece. Mas que pode ser falado e que pode ser tentada uma mudança sobre isso, entre muitas outras questões.
A Moná me mandou uma publicação ontem e eu achei muito interessante, da questão da menarca, que é a primeira menstruação das mulheres e, enfim, garotas, meninas, e acaba que tem muito aquela fala de que “agora você se tornou mulher”, sendo que não. Se você falar isso para uma menina de nove anos, não é porque ela menstruou que agora ela é uma mulher. Ela continua sendo uma menina e depois uma garota, para depois, aí sim, ela se tornar uma mulher. Então eu vejo que tem muito esse corte de etapas. Então a gente não pode viver a nossa infância plenamente, porque a gente sempre tem que estar com o pé na porta, do tipo: "Não, mas eu estou crescendo, eu tenho que ser muito madura, muito responsável”. E não tem tanto isso. E eu fiquei pensando em outras falas muito clássicas do tipo: "Homem não chora". È muito problemático? É, você tem que validar os seus sentimentos e etc., mas eu vejo que para as mulheres também não é diferente disso. Não é como se a gente tivesse esse direito que: "Ai, nossa, é porque nós somos mais emotivas". Não é. Tanto que seria como se você tivesse dando ainda mais motivos, que não é o caso, mas é tipo: “Nossa! Está vendo como ela é frágil, como ela tem as emoções a flor da pele? Está naqueles dias, não é?” Sendo que não, não é isso.
Então eu acredito que seja muito a questão de você ter a escuta para que você possa fazer realmente as modificações que devem ser feitas, porque muitas das preocupações que você tem é com o futuro e é algo realmente muito válido, porque a gente fazer com que as futuras gerações, tanto os filhos, quanto os netos vivam uma vida melhor, é realmente algo a se pensar. Mas eu acredito que também deve ser pensado no hoje, para que as pessoas que hoje estão vivendo, as meninas, as garotas, as mulheres, também tenham uma vida melhor. Então, eu também vejo por esse lado, porque acaba que fica muito sendo deixado para depois.
Só para finalizar, porque eu acredito que eu abri alguns parênteses, mas eu via como se fosse algo necessário debater, até porque o espaço é para isso. Eu estava em uma aula de redação, porque eu estou fazendo pré-vestibular, e um dos temas da redação foi o aborto e estava sendo debatido isso, que é um tema muito dito como espinhoso, então há uma relutância muito grande de se falar sobre isso. Eu tenho muito cuidado, porque eu vejo que é um assunto realmente muito difícil, não que seja algo polêmico, eu vejo que é algo delicado e que tem que ter realmente muito cuidado a ser tratado, só que tem que ser falado.
Então, eu me recordo dos argumentos de ser contra, não me dizendo aqui a favor ou contra, mas só dizendo que é algo que realmente deve ser debatido e que realmente tem que ser feito algo em relação a isso, porque mulheres acabam morrendo todos os dias por conta disso, algumas mais do que outras, dependendo da sua renda, das possibilidades que tem de ser feito isso.
Então, acaba que não é algo que você legalizando vai ser feito em maior quantidade, mas acredito que tenha mais segurança e acredito que o principal seja isso, porque tem muita preocupação com a criança, a vida que está sendo gerada, mas não tanto com essa mulher, como é o exemplo de quando ela tem o filho dela e todos os olhares se voltam ao bebê, como ele está, mas não tem tanto a pergunta de como você está, não é? Você acabou de ter uma criança, então vejo que tem muito essa questão. E o discurso de realmente ser contra essa questão da legalização do aborto era que justamente nossa saúde aqui no Brasil é muito desestruturada, e tem outras questões que seriam de prioridade maior e de que não seria algo a ser pensado agora, porque justamente a gente não tem a base necessária para isso.
Vejo que é algo, sim, que acontece, mas acredito que se a gente ficar pensando nessa questão do tipo: "Ah, a gente não consegue colocar isso em prática agora”, nunca vai ser prioridade. Logo, é algo que nunca vai mudar, portanto vejo que muitas das coisas acontecem dessa forma. Então, por exemplo, aqui no Brasil temos muitas leis, a nossa Constituição é um exemplo para muitas outras mundo afora, só que vejo que o problema é justamente essa questão de você colocar em prática tudo que está no papel. Então, vejo muito por esse lado e acredito que sejam essas questões que eu já trouxe e todas as minhas colegas também.
Só para finalizar, mais uma vez queria agradecer por estar aqui, por vocês poderem falar e eu poder ouvir também.
Então, muito obrigada a todo mundo, é isso.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Obrigada também pela fala.
Acho que você falou de pontos importantíssimos, e que bom que você trouxe a coletividade. Acho que esse lugar de usar o nosso lugar de representação e participação para trazer outras vozes também é um compromisso que nós todas temos que ter, porque a gente sabe que também tem essas questões para além desse lugar que nos empurram para rivalizar entre outras mulheres, por conta de uma única brecha em que uma passa e outras ficam para trás, a gente pode, sim, se responsabilizar por trazer nessa nossa representação, mesmo que individual, as vozes coletivas que todas trouxeram de certa forma também tudo isso.
E quando você fala de segurança pública, muitas vezes a gente vê pesquisas que falam que essa é a maior dor de toda a nossa população, e é muito importante dizer que toda a nossa população muitas vezes não está ouvindo as meninas, mas que as meninas também reverberam e também sentem essa insegurança nas cidades, essa insegurança do nosso Estado, em seu ir e vir. A gente fala muito de direito à cidade, que contempla toda essa nossa mobilidade social, desde o transporte público para chegar à escola, ao postinho, ao acesso à cultura, ao lazer, e a gente sabe o quanto que estamos vulneráveis nesse processo, nessas travessias.
Não sou a irmã mais velha, mas sou a irmã menina de irmão menino. Então, também tem essa questão de que, por mais que não sejamos as irmãs mais velhas, quando a gente é irmã de homens, muito provavelmente esse lugar do cuidado doméstico, esse lugar desse trabalho não remunerado dentro de casa vai ser colocado para nós. O meu irmão é três anos mais velho que eu, mas a minha mãe falava: “Você sabe, se não for você ou eu a fazer, ele não consegue se concentrar, ele não está pensando nisso, ele não tem a mesma carga de responsabilidade”, e aí isso também vai sendo outra forma de interromper as nossas infâncias.
Acho que os outros assuntos que vocês trouxeram, que você trouxe especificamente quanto à percepção de questão tanto da igualdade quanto da equidade, é algo que a gente já traz para a perspectiva da política pública, mas como a gente já tem muita coisa institucionalizada com esse termo da igualdade, quando a gente propõe a questão de alteração para a equidade, que é o que precisa ser feito, corrigir a desigualdade para depois buscarmos equivalência, a gente tem muita dificuldade, porque é uma falha institucional.
Aqui a gente tem um sistema nacional, por exemplo, de promoção da igualdade racial. É um sistema que está instituído, e quando a gente cria algo na política pública com uma outra nomenclatura ou usando outro termo, isso dificulta a gente poder espelhar e, como a gente tem um pacto federativo a ser cumprido... aqui mesmo na Cidade do Rio de Janeiro aprovei o Estatuto da Igualdade Racial, mesmo sabendo que o que precisamos é de equidade, para depois alcançarmos a igualdade. E aí, trazendo o exemplo para você entender a perspectiva da política pública porque é sobre isso, a gente vem com as nossas ideias, inovações e necessidade de tensionar mesmo, de fazer o debate. Mas, na hora de colocar isso na letra fria de uma lei, a gente precisa se adequar ao que já existe, porque temos objetivos coletivos que são pactuados, e para a gente poder executar a política pública de fato, com orçamento, para existir um programa, para existir uma ação, a gente tem que respeitar isso.
É chato, porque é mais uma caixinha na qual a gente tem que caber. Existe vontade de mudar muita coisa, mas, trazendo para esse mundo que não é só dos adultos — é também dos adultos e dos homens —, existem falhas de processo, e muitas delas geram retrocesso. Você trouxe duas questões importantes: uma foi sobre o aborto.
Aqui, nesta Casa, infelizmente, o corpo de vereadores aprovou uma Semana de Combate ao Aborto, numa pauta que traz muito para o lugar ultraconservador, criminalizando ainda mais os corpos de mulheres e meninas. A gente, obviamente, lutou contra, mas este espaço, não só pelo visual, mas por toda a construção histórica, é um espaço muito mais ocupado por quem pauta a política através da ótica conservadora, que tutela e legisla sobre os corpos das mulheres.
Como ainda estamos em minoria aqui; e aí, minoria tanto na questão da representatividade quanto no pensamento progressista, libertador e emancipador, nós temos aí 10 ou 12 mulheres eleitas entre 51 vereadores. Mas, nessa pauta da emancipação e autonomia dos nossos corpos, não contamos nem os dedos de uma mão. Essa é a realidade da disputa política colocada aqui.
E, infelizmente, o reflexo é ainda pior quando a gente fala do Congresso Nacional ou do Senado Federal. Por isso, precisamos fazer esses combinados aqui de valorizar a discussão que vocês trazem e mobilizar junto com vocês, para que mais meninas possam se ver representadas a partir das urnas também, porque, no outro passo, ainda sobre a questão do aborto, o próprio Senado acabou de alterar a concepção do que chamamos de “primeira infância”, trazendo-a desde a concepção, justamente para ampliar essa agenda que possibilita criminalizar ainda mais os corpos das mulheres, e vai possibilitar que, infelizmente, meninas que não deveriam gestar, que não deveriam ser mães, acabem tendo dificuldade para acessar esse direito ao aborto legal, seguro e gratuito, mesmo que sejam vítimas de estupro. Isso é algo que precisamos deixar acessível.
Outra coisa que vocês todas trouxeram é que, quando falamos de justiça, queremos falar sobre justiça reprodutiva. Queremos falar sobre autonomia e emancipação dos nossos corpos para decidir quando teremos idade adequada, maturidade neurológica adequada, para que nossa sexualidade esteja desenvolvida de forma plena e sem violência, o que é completamente impossível, já que vivemos esmagadas pela cultura do estupro, que começa não quando o nosso corpo é violado, mas quando as nossas mentes estão sendo desenvolvidas, e a gente tem a adultização, a erotização e a sexualização.
E aí, quando tudo isso acontece, percebemos — e temos dados que mostram — que, infelizmente, a vida sexual de uma menina, quando se torna adolescente ou jovem adulta, já é iniciada na dobra dessa cultura que é extremamente violenta. Então, a gente vai olhar para todas nós como mulheres que já sofreram uma série de violações sexuais também, muito embora elas não tenham se expressado diretamente na nossa integridade física, e isso que compactua e dificulta muito a gente deixar esse debate acessível.
Eu fazia rodas de conversa — estava trocando com vocês mais cedo sobre projetos sociais — com meninas também aí que se identificavam muito comigo, muito parecidas comigo, mas que não tinham o mesmo acesso à informação segura que eu e a gente se surpreendia uma com as outras sobre esse lugar de normalização e naturalização das práticas violentas em relação à nossa sexualidade.
E como não parecer moralista? Como não parecer conservadora? Como dizer que o limite, na verdade, é a proteção, se a própria mídia, quando usamos recursos culturais, por exemplo, nos coloca num lugar marginal e de criminalização? Quando falamos do funk como ferramenta educativa, ou da cultura de terreiro como ferramenta educativa,
Então, isso é algo que precisamos pensar junto com vocês, e é sentar juntos mesmo para entender o que é e o que não é viável de ser falado, de ser conversado, quais são as palavras que deixam esse discurso que não é para ser polêmico mesmo. A gente tem que poder falar da nossa sexualidade de forma livre. Precisamos falar disso para proteger as meninas, cada vez mais cedo, desse lugar de violação sexual — como aconteceu comigo, aos seis anos de idade.
Então, a gente precisa desse lugar também de vocês de participação integral, entendendo que todas as palavras devem caber na nossa boca de forma realmente organizada, não academicamente, não institucionalmente, mas organizada no sentido de mobilização, para que o nosso discurso faça sentido para quem mais precisa, que são as nossas irmãs mais novas, as nossas primas, as nossas amigas. Isso é muito importante. Então, agradeço você por levantar esse tema que tem ocupado os nossos dias aqui na Câmara também.
Infelizmente fomos derrotadas. As mulheres que querem autonomia e emancipação dos seus corpos e que querem que mais pessoas acessem o direito ao aborto legal, seguro e gratuito foram derrotadas aqui nesta Casa, mas existem outros espaços de luta onde a gente pode se organizar. E tenho certeza de que vou contar com o apoio de cada uma de vocês.
Precisava de palmas não, gente. É só continuação da conversa.
Agora, Thaiz que vai chamar, Thaiz Leão vai chamar as oradoras que estão inscritas para ocupar a nossa Tribuna.

A SRA. THAIZ LEÃO – Oi galera, boa tarde.
Vou chamar aqui as pessoas que se inscreveram. A gente está com seis pessoas em linha para falar. Se tiver mais alguém, me dá um toque.
A primeira pessoa inscrita é a Fernanda Viana, do Meninas Cidadãs. Ela está por aí? Foi ao banheiro?

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Lembrando aqui, gente, vocês podem jogar as perguntas para as meninas dialogarem, tá? E, no final das inscrições, a gente vai ter as considerações finais de cada uma de vocês sobre os assuntos. Aí, Thais, se quiser fazer blocos de três, faz três falas e as meninas também interagem, tá bom?

A SRA. FERNANDA VIANA – Oi, boa tarde a todos.
Sou a Fernanda Viana, venho do complexo da Maré, cresci na Nova Holanda. E também faço parte do Meninas Cidadãs. Estou aqui muito orgulhosa, babando, meninas, minhas companheiras, que me inspiram também.
Faço parte de muitos movimentos. Costumo dizer que a minha intelectualidade é fruto dos movimentos de mobilização popular. E isso me faz muito feliz. É o que me dá potência e força para continuar, me ver também nas outras girls assim.
Tenho 17 anos. Estou terminando o Ensino Médio. Estudo alemão. Estou atuando este ano na Casa Preta das Mulheres da Maré, na rede da Maré, e estamos produzindo o festival, também, internacional, que vai acontecer pela primeira vez em território de favela. Somos 10 meninas fazendo esse trabalho de intervenção artística, que está ficando lindo. O festival vai acontecer no final deste mês na Maré.
E eu só queria vir aqui dizer que eu me sinto muito grata de estar podendo escutar, de estar podendo participar deste espaço. Como a Duda falou, algumas de nós tivemos a honra de estar presentes na quinta CNPM, em Brasília, e estamos à frente todo santo dia dessas violências de gênero, dessas violências étnicas, dessas violências por conta da nossa territorialidade. E, por sermos muito jovens, acabamos tendo que segurar o mundo todo com as nossas mãos.
Como as meninas disseram, a gente vive essa realidade de ter que trabalhar, de fazer vestibular, de estudar, de corresponder às nossas lutas e dos nossos coletivos. Também me encontro nessa realidade. E se desdobrar em muitas é muito solitário e é muito cansativo, mas é o que muitas vezes faz com que a nossa vida e a nossa trajetória sejam possíveis e façam sentido.
Então, venho aqui, assim, só dizer mesmo que estou muito feliz de ouvir todas vocês, maravilhosas.
E é só isso, gente.
(PALMAS)

A SRA. THAIZ LEÃO – Passando aqui para a próxima pessoa, a gente tem a Janaína Soares, também do Minina Cidadã.

A SRA. JANAÍNA SOARES ARRUDA – Boa tarde, meu nome é Janaína Soares Arruda. Tenho 16 anos e hoje estou aqui para falar brevemente sobre dois projetos de que fiz parte.
Sou do Mininas Cidadãs, mas já fiz parte do projeto Meninas e Mulheres na RRD, que é um projeto fundado com a UVA. Conheci esse projeto através da minha escola municipal, lá do Méier.
E a Viviane Japiassu, que é uma professora lá da UVA, ensina para a gente e incentiva que a gente tome espaço que a gente não conhece, profissões que a gente não conhece, como engenharia, robótica, dentre outras coisas. E nesse projeto foi onde me descobri e onde entrei para o Meninas Cidadãs. Sou uma pessoa que fala muito, e falo muito rápido às vezes.
Mas acho muito importante a gente tomar esses lugares, porque você estar em um lugar mostrando para as pessoas de onde você mora que ela pode estar aqui é uma coisa muito especial pra mim e eu acho que para todas as meninas aqui também.
O outro projeto que eu queria falar é um projeto iniciado por uma enfermeira da Clínica da Família Cabo Edney, que fica no bairro do Engenho Novo, Zona Norte do Rio de Janeiro. A gente tem um projeto onde a gente chama meninas e meninos da comunidade para poder entrar mais para a área da saúde e ver que aquele local ali não é só para você ir quando você quer tomar vacina, quando você está doente e para você conhecer outros espaços.
A Andreza já foi lá, já participou de uma oficina com a gente. É muito legal esse espaço. E eu sou muito grata por todas vocês, porque eu sinto que eu evoluo cada vez mais. Estão dando voz para as pessoas de onde eu moro e dando voz para outras pessoas também que nunca me viram pessoalmente, nunca trocaram um papo comigo pessoalmente, mas só por estar vendo o que eu faço já se conecta muito e significa muito. Acho que é isso que eu queria falar e obrigada.

A JOVEM EDUARDA VENÂNCIO – A Janaína, a gente faz parte do Meninas Cidadãs juntas e aí eu queria só complementar um pouco no ano passado quando a gente fazia parte do Meninas Cidadãs, ela trouxe isso e aí eu lembrei de quando eu estudava no ensino fundamental e a gente tinha essa questão da Secretaria de Saúde com a Secretaria de Educação e na época eu era jovem aprendiz, então, eu estava tipo assim: “Gente, o que é que a gente pode fazer transformar isso que a Janaína traz?” E aí enquanto grupo, enquanto coletivo a gente pensou no jovem agente, que o que seria isso, queria só deixar uma ideia aí talvez. O jovem agente seria justamente transformar isso que a Janaína faz de maneira mais social e autônoma, num projeto de lei, quem sabe, fazendo com que essas potências que os adolescentes que estão nas escolas e que, muitas das vezes, já estão inseridos nessa questão mais política, possam representar algo efetivo para a Secretaria da Saúde, para a Secretaria de Educação.
O jovem agente seria esse adolescente, essa potência que faz essa ponte, essa ligação com a escola, muitas das vezes, e com o SUS, entendeu? Só queria deixar aí essa ideia porque, quando a Janaína faz esse movimento, ele é muito importante porque muitas vezes alguns adolescentes não frequentam a UPA, a clínica da família, porque não sabem o que eles podem fazer lá, né? E só para deixar isso aí, trocar um pouquinho com ela.

A JOVEM THAIZ LEÃO – Sucesso. Pronto, continuando aqui, a gente está com a Eduarda Ferreira também do Meninas Cidadãs para falar.

A JOVEM EDUARDA FERREIRA – Oi gente, boa tarde. Eu me chamo Duda Ferreira. Eu não sei se algum de vocês me reconhecem, mas eu faço parte de um projeto chamado Pretinhos Leitores. Eu sou gêmea da Helena Ferreira também. Nós somos gêmeas idênticas. Juntas criamos esse trabalho, esse projeto, justamente para fortalecer as leituras, a literatura negra e trazer isso para a nossa comunidade.
Antes de tudo, eu queria falar o quão feliz eu estou por tantas meninas incríveis aqui fazendo parte dessa mesa maravilhosa. A gente vê o quão importante é isso quando a gente senta e ouve, né? Porque uma coisa que eu e a Helena a gente conversa muito é sobre ouvir. Também sobre a oralidade, também sobre falar, debater, botar pontos onde merecem colocar pontos, mas também sobre ouvir e saber ouvir, né?
Eu vi muitas experiências aqui que se parecem muito comigo. Eu também sou uma irmã mais velha, por mais que eu seja gêmea, eu também sou mais velha, né, gente? Quatro minutos é diferente sim, faz uma diferença, entendeu? E além de nós, a gente também tem a nossa menorzinha, que é a Elisa. Ela tem 11 anos, ela não é tão assim ativa, mas ela está ali existindo, e a gente, como irmãs mais velhas, nós tomamos todo o cuidado do mundo para proteger ela, mas também essa coisa de excesso de segurança e ela vai achar que o mundo é um lugar horrível e que ela não pode ir a uma esquina sozinha.
E realmente, às vezes, não pode. A gente também tem que tomar cuidado com isso. Mas quando a gente fala sobre responsabilidade, muitas das vezes a gente acaba tocando o assunto da família. A gente fala sobre mãe. E aí a gente vê o quão esse ciclo ele acaba se repetindo. Porque o que a gente faz hoje, um dia a nossa mãe também já fez. A nossa mãe também já teve que cuidar dela mesma, dos pais ou talvez do irmão que ela teve para cuidar. E é muito difícil a gente enxergar isso porque elas vieram também, muitas das vezes, da violência que o mundo estrutura para a gente, da violência que, muitas das vezes, o sistema acaba colocando por sermos mulheres. Apenas por existirmos, já viemos com tantos desafios e lutas para a gente vencer. E às vezes a gente acaba não dando conta de tudo isso, e aí às vezes a gente acaba engravidando, como é o caso das nossas mães, mesmo sendo por querer ou não, por acidente, a gente acaba engravidando, a gente cuida daquele filho. E a gente, as mães normalmente sempre querem o melhor para os filhos delas, mas acabam também colocando uma grande responsabilidade neles, né? A responsabilidade de ter que ser dependente muitas das vezes muito novos.
Eu, por exemplo, também fui uma pessoa, uma menina que acabou sendo muito dependente a partir dos meus 10 anos, 11 anos, por conta também da chegada da minha irmã mais nova, mas também pelo local em que a gente estava inserido. Cresci no Morro da Providência, que é um local muito afetivo para mim, independentemente das dificuldades que acabei tendo, mas que é um lugar que dialoga muito com o que sou hoje, com a pessoa que sou hoje.
A minha mãe, enquanto cuidava de três crianças, também estava ali na faculdade, cursando Pedagogia e fazendo milhões de outros trabalhos, enquanto tinha nós três para cuidar e alfabetizar também, porque a gente sabe que não pode deixar tudo na conta da escola, porque muitas das vezes a escola não acaba cumprindo tudo que ela promete. Mas vi isso nas meninas, e é por isso que estar aqui a debater sobre isso é tão importante, porque vejo que a política também está inserida nisso, a política também está inserida na nossa vida, em como a gente fala com outras pessoas, em como a gente também reage a isso.
E a política também é se unir e contar com outras garotas para debater juntas, porque muitas de nós temos experiências diversas e diferentes, mas que a gente acaba se encontrando no caminho. A gente acaba se encontrando em cada uma delas. E que também mostra que a nossa vida e a nossa vivência não é só dor, ela também tem ali aquele ponto de felicidade, de luta, de resistência e afeto.
E quando penso em tudo isso, por mais diverso que seja, penso muito numa palavra do dialeto africano que se chama ubuntu: “Eu sou porque nós somos”. E é isso que vejo aqui. Somos meninas, somos mulheres, e vejo outras diversas mulheres negras mais velhas, mas cada uma está aqui porque tem um propósito. Cada uma está aqui para falar da sua história, da sua vida, do que ela quer para o nosso mundo, porque, a partir de tudo isso, a partir de todas as violências de que a gente fala quando a gente abre a boca, a gente também está pensando nas pessoas que vão vir depois de nós, no nosso futuro, nos nossos talvez filhos, nos nossos netos. E é muito importante a gente pensar nisso mesmo, porque a sociedade coloca pessoas pobres, periféricas, muitas das vezes como uma coisa que está viva, mas já vai morrer, entendeu? E que não deva mais se repetir pessoas desse tipo. É uma coisa também fruto do racismo, que a gente sabe que muitas das vezes está perpetuado e perfurado na nossa sociedade, mas que a gente vem lutando contra isso desde sempre.
E uma pergunta que acabei formulando aqui, enquanto estava ouvindo todas vocês falar, é que quando falei do ubuntu, do que é “eu sou porque nós somos”, penso muito na rede que a gente cria entre nós e como vocês acham que o coletivo ajuda a gente a enfrentar essas dificuldades e romper esses ciclos de desigualdade, né? Quando falo em coletivo, estou falando de todas nós e de pessoas que vocês veem que fizeram essa importância para vocês estarem aqui hoje.
E outra pergunta também é que a gente falou sobre a violência que as nossas mães viveram e que acabou também vindo para a gente. Mas é o que vocês acham que pode ser feito nos projetos, nas escolas, nas comunidades, para ajudar a quebrar esse ciclo que é uma tradição horrorosa que não deve mais se repetir.
Acho que é isso, vou deixar essas perguntas no ar aí e é isso.
Obrigada, gente.
(PALMAS)

A SRA. THAIZ LEÃO – Obrigada, mana.
Só para falar, a gente completou três aqui, então, na Tribuna.
Vou passar para o comentário de vocês, mas como elas me pediram para comentar já em cima do que ela trouxe, vou deixar as duas começarem por ali e depois a gente continua com a Mesa inteira, tá bom?

A SRA. MARIA DUTRA – Então, primeiro, Duda... Olha, estou falando com todo mundo aqui.
Cara, tipo assim, eu estava vendo você, aí falei: "Cara, essa menina não me é estranha. Eu a vi, cara”. Aí fiquei tipo: “Ela não apareceu na Fátima Bernardes?”. E, olha, primeiro, por mais que eu seja mais velha que você, ainda assim até hoje acompanho a trajetória de vocês. Vocês me inspiram de verdade. Ah, eu não vou chorar, não.
Enfim, eu fiquei pensando muito nisso. O que eu ia complementar, mas a pergunta que você fez. A importância da representatividade nesses espaços que eram para se tornar um espaço seguro. A escola, na teoria, era para se tornar um espaço seguro e, infelizmente, está sendo palco de diversas violências que a gente ainda na primeira infância vem sofrendo.
E a importância de projetos sociais e as parcerias que o governo tem com os projetos sociais para poder fortalecer, para que não tenham mais essas violências.
Eu dei um “Google” aqui rapidinho e mais de 60 alunos relataram casos de racismo dentro de escolas públicas. É o que a Thais tinha falado também. Se existissem esses letramentos ainda na primeira infância, os alunos iriam perceber que... “ah, a gente está zoando, a gente está brincando”, isso é extremamente sério! É uma violência psicológica, entendeu? E isso afeta muito a saúde mental. Principalmente da gente enquanto mulheres e mulheres negras.
A outra pergunta sobre a questão da violência que você tinha falado e como os projetos e as parcerias podem contribuir. Eu acho que muito é chamar também. Eu penso muito na perspectiva de juventude, sabe? Eu acho que o que me faz engajar bastante nessas coisas é saber que existem pessoas como vocês que estão tendo essa vivência mais política, que está tendo mais essa consciência política. E isso desperta curiosidade nas outras pessoas.
(PALMAS)

A JOVEM HELOÍSA OLIVEIRA DE ASSIS PASCHOAL – Eu acho que complemento muito o que a Maria falou. Mas trazendo um pouco da primeira fala que você falou da questão das nossas mães, das violências que elas passam, eu acho que assim, trazendo um pouco no pessoal, a gente também coloca nesse lugar de cuidado também com elas, de tipo, eu tento levar para o sentido da compreensão e de sempre entender que algumas certas atitudes dos meus pais ou da minha mãe vêm da sua criação.
E por mais que a gente tenha essa compreensão, também não é total de nosso poder estar nesse movimento de cuidado reverso se a gente também está precisando de cuidado.
Querendo ou não, são nossos responsáveis legais e por mais que todo mundo ali esteja vivendo pela primeira vez, eles estão um tempo à frente. Entendo que necessita, sim, de um cuidado da mesma forma. E a ausência dele na primeira infância da vida dela interfere muito, porque é isso, o que a gente vive ou deixa de viver na nossa primeira infância, constrói, na maioria das vezes, o que a gente vai ser dali em diante.
Então, a relação que minha mãe teve com ser a filha mais nova, de ser filha de uma mulher preta, que não estudou, que foi ama de leite, que trabalhou em famílias de gente branca, que, entre outras coisas, que minha avó faleceu sem ter acesso à cidade, sem há anos ter ido à praia... Faleceu juntando dinheiro, o pouco que ela tinha para poder visitar a irmã dela em Niterói. E não conseguiu isso, porque, infelizmente, com a questão de saúde pública e dificuldade de acesso, ela não conseguiu.
Então, é entender que eu entendo. Eu particularmente tenho algumas dificuldades em relação com a minha família, principalmente com a minha mãe. Eu entendo muitas coisas de entender que o comportamento dela em certas coisas, diante a mim ou outras coisas, vem do que ela passou. E entendo e compreendo que eu não tenho um lugar de julgar necessariamente, mas entendo também que eu, como filha, também tenho um lugar de querer ser cuidada. Entendo que ela necessita do cuidado, mas eu também.
Então, fica nesse meio de quem cuida de quem. E pensando em redes, eu acho que é o que a gente constrói de uma forma indireta, mas a forma de construir mesmo gerações. Acho que aqui é um movimento de construir relações, cada um faz parte de um movimento diferente. Então, a gente trocar contato, trocar conhecimento, entender que talvez com um projeto que você faz na área em que você mora, talvez seja algo que seja legal fazer no meu território, e assim em reverso.
Tenho o Sustenta Cria, trabalho no Complexo de Chapadão, exatamente por isso. Ali a gente tem uma dificuldade muito grande de projetos, principalmente por ter pouco e, segundo, porque é um bairro com duas facções. A gente tem o Recriando Raízes, que é ali no mesmo território, no Quitanda, e muita gente que mora no Complexo do Chapadão não pode fazer, principalmente se for um menino preto, porque ele não vai fazer essa troca de território simplesmente porque a gente sabe como o poder paralelo funciona e qual o estigma que ele também tem sobre o menino preto de fazer essa troca, sobre a mulher preta fazer essa troca. Fiz essa troca por um determinado momento, para a escola, mas não fiz um curso no Recriando Raízes, que é um projeto muito bom, que acolhe e trabalha com muitos jovens. Ele trabalha muito com a primeira infância, mas simplesmente muitas crianças não têm acesso a ele. E ele garante alimentação, porque ele tem projetos que são o dia inteiro, que dão almoço, jantar, cesta básica, que levam a criança para ter acesso à cidade. E outras crianças estão ali a cinco minutos de distância e não têm acesso.
Então, a gente fala que é gatilho falar de família. Digo muito como eu trouxe meu pessoal, mas vejo que a gente vê, principalmente quando somos filhas de mulheres pretas, a dificuldade que elas passaram e que isso é uma coisa geracional, que a minha avó passou, que a minha bisavó passou. E cada vez que a gente decai, a gente vê que mais difícil foi, mas que é isso, a gente quer cuidar, mas quem está cuidando de quem cuida?
(PALMAS)

A SRA. MARIA EDUARDA BRAGA – Falando muito de território, esse espaço da escola, como as meninas estavam falando, é um espaço em que a gente tinha que ter, sim, uma boa convivência. Porque acho que de leis a gente já está cheia. Porque tem a lei para a gente – na verdade não tem tanto – aprender na escola como realmente foi feito e como a gente tem que tratar isso. É outra perspectiva.
Quando a gente é menor, mais nova, a gente já passa por muita coisa. Ainda mais se a gente for menina de favela, é uma loucura. Porque aí tem os dias de operação. E você tem um exame para fazer, você tem que pegar ônibus ou outro meio de transporte para chegar ao médico. Nisso tudo, quando a gente está dentro da escola, a gente se sente segura, ou era para pelo menos se sentir. Porque é um lugar onde deveria ter afeto, onde deveria onde deveria ter a fala ativa. Só que até dentro da escola as crianças se sentem muito – como é que posso dizer? – desprotegidas, acuadas, por conta de que: “Ah, vou falar aqui agora, mas e se passarem para frente o que não é para ser passado?”.
Então, pela saúde mental da criança, acho que deveria ter psicólogos na escola. A primeira base é ter psicólogos para poder ouvir tanto as crianças como os adolescentes. Até porque acho que a gente que é adolescente já passa por muita coisa. Ainda mais nós adolescentes que fazemos muita coisa. E a gente passa por muita coisa e às vezes a gente só quer ter um espaço de escuta. Só que onde a gente vai ter esse espaço de escuta? Onde moro, na Nova Holanda, a gente tem vários espaços que a gente consegue acessar. A gente tem o Redes da Maré, a gente tem o Luta pela Paz, a gente tem o Casa das Mulheres. São espaços em que a gente consegue falar sobre o que a gente está sentindo, falar como foi o nosso dia, chegar lá e conseguir tirar um pouco do nosso peso.
Porque é isto: a gente está na escola para o lugar ser seguro. Só que vêm as brincadeirinhas que começam: “Ah, porque seu cabelo é isso; ah, porque a sua cor é isso”. Só que isso acontece logo no Brasil, que é um país tão miscigenado, que a gente teve anos de escravidão. E quando isso acabou, não foi porque tipo: “Ah, teve que acabar”. Foi porque estavam mandando acabar, porque se fosse por deles, eles não teriam acabado.

A SRA. MARIA DUTRA – A escravidão física acaba, mas conforme a gente vai estudando e acessando esses essas memórias, a gente vê que a escravidão continua, mas de forma invisível, através de racismo institucional, através de violências psicológicas, através de necropolítica, como a nossa colega falou aqui. E a importância de ter um letramento racial sobre isso principalmente dentro das escolas.

A JOVEM MARIA EDUARDA BRAGA – E eu acho que é muito importante ter o letramento racial dentro das escolas desde pré, para quando as crianças crescerem, elas já crescerem sabendo o que aconteceu. Porque nos livros de História está como se os brancos lá tivessem sido os bonzões e falam: "Não, a gente chegou, a gente fez isso e aquilo e melhorou o Brasil, o mundo". Só que a gente sabe muito bem que não é assim.
Porque antes já tinham pessoas que moravam aqui, já tinham os indígenas que tomavam conta do nosso Brasil, das nossas terras. E ainda assim vieram eles e “Não, porque nós somos os bravões”. E isso continuou por longos anos, até hoje em dia, porque, hoje em dia, a Câmara dos Deputados e o Senado são na maioria, em sua grande maioria, pessoas brancas, né? E mulheres brancas, muitos homens brancos que não sabem o que a gente passou. E por isso que, a partir da escola, a gente tem que ter esse letramento, porque nós somos um corpo político, para a gente, desde cedo, já aprender o que é a política, aprender a fazer políticas e para que, quando nós chegarmos a nossa fase adulta, que nós consigamos fazer, levar isso para frente, ser tão política quanto já nós já somos agora, porque aqui, a gente estando aqui, tendo esse direito de fala, já é uma grande revolução, uma grande política.
Então, eu acho que é muito importante desde cedo já ter o letramento racial. Eu tenho um irmão, sou irmã mais velha também, e ele começou agora a fazer um curso de letramento racial, ele tem sete anos, e isso é muito importante, porque ele já vai crescer sabendo o que é e o que não é.
Então, eu acho que é isso.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Meninas, já me chamaram a atenção aqui por conta do horário. Eu quis deixar a Mesa toda de vocês, eu acho que é muito importante, para além de toda a representatividade, vocês já se acostumarem com esse espaço, é um espaço para todas. E eu vou chamar aqui duas falas institucionais, que são de pessoas de organizações, e depois as outras. Eu vou fazer um bloco direto, que aí depois vocês fazem as considerações finais. Aí, de considerações finais, a gente vai fazer um minutinho e meio, dois no máximo para cada uma.
Então, eu vou chamar agora a Joanna Fontoura, do Unicef.
(PALMAS)

A SRA. JOANNA FONTOURA – Eu me segurei para não falar, falei: "Falo ou não falo? Falo ou não falo?”, porque é o dia de vocês, na verdade. Mas eu não resisto, porque é muita emoção, Thais, eu acho, de estar aqui com vocês. Primeiro te agradecer muito e agradecer a tua equipe que, desde sempre, a Andreza nos recebeu superbem e com braços abertos. E essa Casa é de vocês. Eu acho que isso é a grande mensagem que Thais sempre colocou, e eu acho que o resultado do dia de hoje reflete muito isso. E eu acho, Thais, que você tê-las deixado na Mesa é superemblemático, porque é ocupação muito real, né? E é por isso que a gente gostaria muito que outras meninas como vocês também estivessem e fizessem essa ocupação, mas acho que é uma primeira mensagem muito relevante, que eu acho que é essa forma com que hoje a gente misturou aqui emoção, a gente misturou lágrimas não debulhadas, mas muita emoção de estar aqui, e de acolhimento.
Então, acho que era uma primeira coisa que eu queria trazer, e a conexão que vocês já fizeram entre vocês. Então, acho que já é um resultado, assim, muito bacana, que um rio, um rio para as meninas, esse rio pode ter vários significados, né? Pode ser Rio de Janeiro, pode ser rio da vida, que a gente nunca passa pelo mesmo lugar no rio, não é isso? É um rio que corre e que é construído pelas barragens e por tudo que ele vai levando.
Então, acho que isso é um simbolismo muito legal. E o ciclo da vida, que eu acho que é o que me emocionou também muito de ver vocês falando e esse diálogo também intergeracional, que é muito potente para a renovação e para a sustentabilidade dessas lideranças.
Então, acho que um primeiro convite que eu queria deixar também para vocês é que vocês pudessem também fazer parte do diálogo de adolescentes e jovens com o Unicef, pensando já no ano que vem, que é um ano de eleições. A gente vai ter eleições ano que vem.
Então, a minha mensagem também aqui hoje era perguntar para vocês quem é que ainda não tirou o título de eleitor? Que já pode votar, mais de 16 anos. Já é um convite. Vamos tirar e vamos falar muito sobre essa participação em momentos... não é o único momento de jeito nenhum, mas é um momento muito importante, muito relevante. A Thais, com a equipe dela, também abriu para o grupo das meninas fazer uma formação em projeto de lei, o que é que isso significa. Então, tem todo esse entendimento também de como funciona a política que é muito bacana vocês poderem trazer.
E Duda aqui já propôs. Vamos falar de um projeto de lei sobre a transformação dentro da sociedade. Mas já tem assim... vamos falar. Aqui no Rio de Janeiro existe a Rede de Adolescentes Promotores da Saúde, que ainda não é uma política pública. Então, aí já está o gancho para a gente poder vir aqui, ó, e falar: "Vamos embora, vamos trazer isso para ser um uma política pública institucionalizada". Então, acho que vocês mesmo já trouxeram muitas propostas, mas acho que era um olhar aí legal que eu queria falar para a gente não esquecer.
E outra coisa também, alguém falou, acho que foi você, outra Duda – tem várias Marias e várias Dudas na Mesa –, que é sobre ter psicólogos nas escolas, que também é outra coisa. Então, como é que a gente faz com que isso seja implementado? Então, é muito relevante tudo que vocês falam e como é que a gente faz aqui essa dobradinha, que a gente já tem a porta e o salão abertos para a gente.
Então, para finalizar, que acho que para o Unicef é superimportante ter a participação de meninas e participação efetiva, cidadã, mas uma participação protegida. E aí eu queria muito que a gente falasse, vocês trouxeram muitas questões de violências, mas acho que também é importante a gente se colocar aqui como é ser ativista, e ser ativista jovem também coloca vocês em uma posição de, muitas vezes, muitas violências. E a Duda contou uma parte, mas a Helô tem outros mil exemplos também, e como é que a gente, como instituições, pode fortalecer e garantir que essa participação seja uma participação segura, livre de violências e que não revitimize também, muitas vezes, em espaços formais de participação.
Então, é uma missão que a gente tem, que a gente sempre ouvindo vocês refaz a nossa missão e fala assim: "Gente, a gente ainda tem muito a fazer, mas fazer juntas". Então, esse também era um convite, que a gente faça juntas. E, cada vez que escuto vocês, me renova a vontade de seguir nessa trajetória, nesse rio para as meninas, com você também.
Então, muito obrigada. Vamos juntas, e venham com a gente para a gente criar a agenda das eleições também do ano que vem, tá bom?
Obrigadão, parabéns.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Agora vamos ouvir a Juliana Martins, de Criola.

A SRA. JULIANA MARTINS DA SILVA – Gente, primeiro agradecer a todas as falas.
Boa tarde, sou Juliana. Sou assistente de coordenação de políticas públicas para meninas e mulheres negras cis e trans em Criola. É muito importante que todas, de alguma maneira, passaram por aquilo que é fundamental para o Criola, que é combater o racismo patriarcal, cis-heteronormativo no Brasil e no mundo.
Não vou complementar, não vou trazer muitas coisas para cá, porque vocês já falaram muitas coisas muito importantes para a gente debater como sociedade, mas vou me colocar à disposição, colocar a organização Criola à disposição, porque a sociedade civil pautar meninas e mulheres negras, cis e trans é fundamental para a gente avançar em direitos.
Dois apontamentos que eu queria colocar, todas passaram pela perspectiva da política nacional do cuidado. Não sei se vocês sabem que existe essa política, que essa política também está sendo pautada no Estado do Rio de Janeiro. Acabou de ser aprovado um projeto de lei da Renata Souza dentro desse viés. Também tem um estudo em uma perspectiva até... inclusive pelo mandato da Thais, da política nacional do cuidado. Quando a gente fala sobre cuidado, sobre direito ao cuidado e sobre essa sobrecarga do cuidado, a gente está falando de um trabalho, a gente está falando de uma remuneração desviada, a gente está falando de um direito. Todas trouxeram esse relato.
Então, me coloco à disposição, coloco à disposição a organização Criola para a gente debater sobre o cuidado, sobre um viés de direito. Ouvir vocês sobre essa perspectiva.
E outra coisa, em Criola a gente tem se aprofundado sobre a questão da dignidade menstrual. Tem parceria com a Girl Up, já fez alguns diálogos e algumas conversas com a Girl Up e a gente, já fez alguns diálogos e algumas conversas com a Girl Up. A gente também está disposta e quer ouvir vocês também com relação à questão da dignidade menstrual, que é um programa de saúde nacional e também tem um programa de saúde estadual e municipal. E quando a gente fala sobre dignidade menstrual, a gente não está falando apenas da distribuição do absorvente. A gente está falando de um direito e de um acesso à saúde integral para meninas e mulheres. Então é isso. Estou me colocando à disposição para a troca.
Thais já é uma parceira nossa. Enfim, estou mais me colocando à disposição para também estar em conexão com vocês do que necessariamente trazer coisas prontas, porque vocês também já trouxeram muitas coisas.
Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Agora a gente vai ouvir, dando continuidade às meninas, a Helena Ferreira, do Meninas Cidadãs.

A JOVEM HELENA FERREIRA – Oi, pessoal. Boa tarde.
Eu sou a Helena Ferreira, tenho 16 anos, vou fazer 17 no mês que vem. Sou do Projeto Pretinhas Leitoras, faço parte do Projeto Meninas Cidadãs e é uma honra estar aqui com todas vocês. É uma honra ver minhas amiguinhas falando aqui e outras meninas superpoderosas falando também sobre pautas muito necessárias.
Eu vim falar também de uma pauta que é muito necessária, mas vou falar do Projeto Pretinhas Leitoras, que é um projeto em que a gente fala sobre a literatura racial, sobre representatividade negra. A gente leva sempre no nosso projeto que as meninas podem ser o que elas quiserem, ainda mais as meninas negras que vêm de favelas. A gente leva isso para o mundo desde 2018. A gente já participou de muitos programas de TV, e a gente sempre quer espalhar mais esse conhecimento de que toda menina negra deve ter. E eu vim também falar um pouquinho sobre essas leis que vocês falaram, sobre muitas leis que precisam existir, mas também tem leis que já existem e não estão sendo vistas da forma que têm que ser.
Bom, a gente também fala sobre a Lei nº 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileiras. E a gente vê que, assim, é obrigatório, é uma lei que tem que ser respeitada, mas não tem pessoas indo na CRE, nas escolas, nas secretarias, vendo se estão sendo seguidas essas leis. Como também tem a lei que a Duda falou, sobre ter psicólogos nas escolas, que é uma lei que existe, que a gente tem, mas não tem pessoas que vão verificar se elas estão sendo cumpridas ou não.

Na minha escola, que é a Fiocruz, a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio é uma escola bastante política. Então é uma coisa que debate muito sobre política, sobre as leis que existem, e a gente sempre tenta mostrar para todo mundo que tem pessoas, tem vereadores que têm esses lugares dentro das escolas e todos esses espaços onde as leis são impostas para poder verificar se estão sendo cumpridas ou não.
E a gente precisa de pessoas, de vereadores que tentem fazer esse comprometimento com o cargo deles, de ver se está sendo cumprido, como a Thais faz, como muitas outras pessoas fazem. Mas tem vereadores, na sua grande maioria, que não fazem isso e que deixam a lei existir e acontecer sem punição para aqueles que não cumprem com a lei.
Uma pergunta que eu queria fazer também para vocês, e também aberta ao público: eu queria saber se vocês têm interesse em ser vereadoras, deputadas, senadoras, até presidente. Porque a gente vê que tem muitas meninas que querem ser, mas não chegam a esses cargos, e que tem muitos homens ocupando esses cargos. O que está acontecendo é esse descaso que a gente está vendo, da maior pa
rte dos vereadores negando a conversa sobre o aborto, sobre falar de várias coisas que são necessárias para nós, meninas, que só nós sabemos as coisas de que precisamos. Então, eu queria saber de vocês também.
Uma outra pergunta é se nós teremos representantes realmente comprometidos em garantir que as leis sejam cumpridas de forma justa e responsável.
É isso, gente, muito obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Agora vamos ouvir a Luiza Varela, do Meninas Cidadãs.

A JOVEM LUIZA VARELA – Primeiramente, boa tarde, gente.
Ouvi vocês falando, todas vocês, me fez querer muito falar aqui. É uma coisa que a gente já está falando muito, que é sobre representatividade, que faz a gente querer vir falar. Porque normalmente a gente fica com essa timidez. Eu também sou uma pessoa muito tímida, mas eu faço teatro também, então isso me ajuda muito a conseguir falar assim pessoalmente.
Só que ter outras meninas que são parecidas com a gente, que são iguais, que são até menores que a gente, falando com tanta dedicação sobre aquilo em que elas acreditam, faz a gente querer ter essa ansiedade de conseguir falar.
Fiz algumas anotações aqui sobre algumas coisas que vocês falaram, uma delas é a adultização, que é uma das coisas que repercutiu muito por causa do Felca. E uma das coisas de que não gostei muito nisso foi que – algo que muitas meninas falaram inclusive – teve que um homem branco ali falar para isso estourar. Que todo mundo com começou a falar, até pessoas de direita, que normalmente elas não ligam para pessoas de esquerda, mesmo que a pessoa nem seja de esquerda, ela está ali numa faixa minoritária, então eles não têm essa questão de querer falar.
E uma coisa sobre essa adultização é que ela acontece muito com meninas negras, desde pequenas, elas são impostas a estar em lugares de adulto, como por exemplo muitas de vocês falaram: cuidar dos irmãos mais novos, que é uma coisa que é vista, que nossos pais, como eles cresceram com isso, que nós, por sermos da família, sermos meninas, temos que ter esse dever de ajudar as nossas mães. E é uma coisa que acontece muito, que até a menina preta é muito sexualizada também, é muito fácil uma menina periférica, homens brancos de fora vêm, são alvos fáceis, infelizmente, para eles. O que acaba sendo muito fácil de meninas negras serem impostas a esse tipo de lugar.
E outra coisa também que acho é que a educação sexual não tem que ser só para meninas, para crianças. Também tem que ser para adultos. Porque os adultos de certa forma influenciam muito. Na minha família, por exemplo, tem muitas brincadeiras sexuais com crianças que acho ridículas. Por exemplo, uma última que aconteceu, minha irmã teve gêmeos, e fizeram eles dois se beijarem, fiquei, tipo, horrorizada com essa cena. E são coisas que eles não aprenderam que é errado. Eles acham como brincadeira, e não é que eu esteja dizendo que o sexo tem que ser algo como tabu, é exatamente o contrário. Tem que ser algo que não tem que ser tabu para ser ensinado e as pessoas entenderem que as pessoas têm que ter respeito pelo corpo das outras pessoas, por mais novas que elas sejam.
Também participo de outro projeto, o Go Girls, que é um projeto de meninas atletas, meninas negras, mulheres. E o que queria mesmo é agradecer aqui a oportunidade de estar aqui, escutar vocês, fazer todas essas anotações que não precisam ser ditas todas hoje, mas que me fizeram pensar, fizeram a minha mente aqui, assim, borbulhar de pensamentos, que às vezes a gente vê isso e a gente fica na rotina do dia a dia, a gente fica se sentindo pessoas burras, às vezes, por causa da escola, tirar notas ruins, só que a gente vê que não são só as notas que dizem a nossa inteligência.
Esses debates aqui, escutar isso, absorver isso aqui também é muita coisa. Então, só queria agradecer à Andreza, principalmente, porque ela me fez estar aqui. Vim aqui por causa da UVA, inclusive, que estou como bolsista lá por causa da Vivi. Ouvi alguém falando sobre a Vivi. E ela tem esse jeito dela de colocar a gente, incluir a gente nesses lugares, assim, que é muito bom, porque a gente tem que estar nesses lugares mesmo.
Então, é só agradecer mesmo, gente.

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Agora a gente vai ouvir a Emilly Victoria.

A SRA. EMILLY VICTORIA – Boa tarde. Ai meu Deus, já estou me tremendo de medo, que sou muito tímida.
Vou começar. Sou muito tímida, gente. Perdoe-me a forma como vou falar. Estou muito feliz por estar vendo essas meninas lindas, maravilhosas, sentadas nessa Mesa e cada dia indo para frente. Creio que vai cada dia mais. Entrei no Meninas Cidadãs por conta da minha Escola César Pernetta. Gente, meu coração está tremendo de medo. Por causa do César Pernetta, e não vou mentir, gente. Não vou mentir, não. Entrei por causa do dinheiro. Mas eu gostei. Falei assim: “Ah, eu me identifiquei com a política, vou continuar". Aí fui indo. Tipo assim, eu me espelho muito nessas meninas que já estão há mais tempo do que eu e mais novas, mais novas e mais velhas do que eu. E é muito lindo isso. Porque, gente, em nome de Jesus, dá para perceber que a maioria das pessoas que são da favela não tem muita oportunidade. E outras pessoas que nem são da favela não ligam para a gente. É tipo assim, a gente só existiu e uma hora a gente vai embora.
Eu vejo essas meninas lutando contra isso, estando aí, sendo espelho para outras pessoas, sendo espelho para outros jovens virem para a política e isso maravilhoso. É gratificante estar aqui debatendo com vocês, escutando cada vez mais. Quando estava ali sentada aprendi muito, levei para o coração, vou repassar para outras pessoas. Quando estava ali muitas coisas que foram debatidas aqui me deixaram com um milhão de pensamentos e na minha cabeça eu fiquei pensando no que eu poderia falar. Só que eu vou guardar para mim porque é melhor. Uma coisa que a amiga pegou a minha pergunta que eu queria fazer para vocês, se vocês desejam serem deputadas, essas coisas? É isso, obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Muito maravilhosa.
Agora, a gente vai ouvir a Hellen Ferreira, do Pretinhas Leitoras, da Biblioteca Erê. A Emilly Victória deixou um minutinho para você, então, depois, prepara por que sobrou aqui.

A SRA. HELLEN FERREIRA – Boa tarde, Thais. Boa tarde a todo mundo que está aqui. Quero parabenizar pela mesa que foi muito boa, cheguei a tempo de ouvir vocês e as contribuições.
Vou fazer uma defesa das mulheres mais velhas que vocês, porque eu sou mãe do Eduardo e de Helena, sou uma mulher preta de favela e sou um ponto fora da curva na minha comunidade. Na idade de vocês eu tava fazendo exatamente o que vocês estão fazendo aqui e que foi muito importante para mim.
Tive a possibilidade de debater ciência, sair do Brasil, brigar com o pessoal que lá na França estava dizendo que queriam a nossa Amazônia. Eu falei: “Por que vocês não cuidam da água cheia de sal de vocês?”. Foi muito bom.
Eu quero dizer que minha mãe foi uma mulher que não estudou, uma mulher que vem do Pará para o Rio para fazer a vida dela aqui, uma vida muito difícil. Para tentar ser objetiva, enquanto pedagoga, eu tenho uma necessidade de dizer que existe uma romantização da vida como se o sofrimento não fizesse parte da nossa existência; a gente vai sofrer. Acho que isso é importante dizer. Nós, mulheres e mães, mulheres pretas da classe trabalhadora, que criamos outras mulheres, que infelizmente no Brasil contamos com o abandono de homens que simplesmente falam que não serão pais, que não assumem as suas paternidades e sobrecarregam essas mulheres não as isenta do sofrimento. Vocês não serão poupadas.
Eu quero dizer isso porque existe uma narrativa de monocultura da mente, das nossas vidas que fala que vocês não vão sofrer. O que está acontecendo aqui vai ser superado com pedra em cima de pedra. Não vai. A gente está falando de um debate sério, as nossas vidas estão na mira do revólver, nós estamos sendo assassinadas cotidianamente e, infelizmente, muitas das mães de vocês não sabem disso. As minhas amigas, 30 mais e 40 mais, não sabem disso. A gente ainda está na luta de falar que é possível se separar, que você não vai ficar extremamente mal falada se você deixar esse homem que bate em você, que rouba seu dinheiro, que abusa da sua filha. Nós estamos vivendo ainda tempos sombrios, onde, infelizmente, nós não temos acesso aos direitos que inclusive já foram conquistados na lei, mas que quando a gente chega numa DEAM a gente não consegue dar queixa.
Por que estou trazendo esse debate para cá? Com muito carinho por vocês, porque eu não quero que vocês pensem de verdade que todas nós somos capazes de assegurar uma felicidade plena. A felicidade plena que está sendo colocada para nós mulheres, a felicidade plena das infâncias, ela pode estar muito bem ligada a uma romantização disso e a uma perspectiva eurocêntrica de infância que não é a nossa de luta. Existem muitas comunidades onde as crianças fazem coisas coletivamente há muito tempo.
Cuidar, gente, é um ato político. Cuidar faz parte da nossa vida. Não à sobrecarga do cuidado, não vocês serem imbuídas de responsabilidades que vão drenar a vida de vocês, isso não. Mas fazer um cuidado coletivo faz parte, porque vocês serão cuidadas, porque terão pessoas por vocês.
Eu quero que vocês pensem nisso como um ato político. O que a mandata da Thais faz tem a ver com isso também. Olhem para esse lugar não pensando que ele é de alguma forma algo que despotencialize, mas reconhecendo que é um trabalho necessário e que muitas mulheres talvez não tenham falado para vocês de forma acadêmica o quanto que vocês são importantes, mas que fizeram isso cuidando de vocês.
Obrigada.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Obrigada demais. Acho que ter a fala de uma mãe e ter uma mãe com as suas filhas aqui também faz muito sentido para a gente, por essas perspectivas de realidade.
A gente sabe que a gente está herdando e também honrando vários legados de lutas, que a gente sabe que precisa de muitas gerações a serem passadas e que seremos ainda essas carregadoras de muitas pedras, de pianos e que a gente vai precisar dessa coletividade. Então, muito obrigada pela tua fala, porque é necessária também.
A gente vai ouvir agora a Evellyn Freitas, nossa última inscrita.
Aí, meninas, vocês preparam para considerações finais, porque vocês que vão encerrar. A Mesa é de vocês, não vou falar mais. Só vou falar depois: “Está encerrado o Debate Público”, mas a conta aí vai ser de vocês.
Então, quem quer ser a primeira vereadora já se responsabiliza pelo fechamento.

A SRA. EVELLYN FREITAS RODRIGUES – Oi, gente. Boa tarde. Estou bem nervosa, mas... com certeza...
Só vim dizer muito obrigada, porque está sendo um momento muito gracioso de estar aqui. Vim pelas Meninas Cidadãs e eu queria dizer que foi muito gratificante ouvir vocês falando.
Não fui uma irmã mais velha, mas fui mãe da minha mãe, porque fui uma menina de oito anos que tinha que cuidar da mãe que tinha acabado de ser agredida pelos irmãos. Por um bom tempo da minha vida, quis ser policial, quis ser advogada, porque eu achava que era o único meio de eu conseguir ajudar a minha mãe. Porque a polícia não chegava lá. A gente chamava, não chegava, porque, se chamasse, ia acontecer operação. E fiquei muito tempo assim calada, engolindo isso tudo. E saber que não preciso ter essas profissões para poder falar me deixa muito grata. Quero ser psicóloga.
E é isso, quero dizer muito obrigada, e continuem usando a voz de vocês para falar, porque as pessoas precisam ouvir – sabe? – essas palavras maravilhosas que vocês falaram de uma forma muito fácil, porque falei com a Eduarda que eu... tipo, se me chamarem para falar, não tenho o que falar, gente, porque... ai, gente, falo assim, sabe? É babado para baixo. E aí fiquei nervosa, sabe? Mas eu me senti muito íntima, sabe? Fiquei muito tranquila. E é isso, muito obrigada.
E a Thais também, muito maravilhosa. E aí ela falou assim que... tipo: “Ah, você podia ser vereadora”, a gente estava conversando, ela estava falando, e fiquei muito maravilhada, porque, tipo assim, é uma coisa que pode acontecer. E que para a gente, que é periférica, que está ali no meio do tiroteio, que não tem aquela coisa do básico mesmo, não sabe que pode fazer.
Então, é isso. Muito, muito obrigada mesmo.
(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Obrigada mais uma vez.
Vou passar a palavra para as nossas... São vocês, agora chegou a hora. Vamos fazer diferente de quando a gente começou. Vamos começar por você o encerramento, que aí a gente começou de lá para cá, agora a gente vai daqui para lá. Façam as suas considerações finais para a gente poder encerrar o debate. Está bom?
Mas muito obrigada mesmo a todo mundo que se colocou, as falas aqui. Eu também venho desses lugares de pouca ou nenhuma perspectiva. Para eu acessar a escola eu tinha que atravessar corpos que estavam na frente da porta da casa da minha avó, uma realidade muito dura, que foi compartilhada com as minhas primas, com o meu irmão, com meus primos, de uma realidade de um lugar periférico, suburbano, do morro. Sou cria do Buraco Quente, da Vila Cruzeiro, do Morro do Sapê, lá em Vaz Lobo.
Muitas vezes, as pessoas falavam: “Nossa, você é tão inteligente, mas pena que você vai terminar como caixa de mercado, né?”. E eu sempre falava: “Se eu for caixa de mercado, com certeza não vai ser o fim. Vou exercer qualquer que seja a minha profissão com dignidade, mas tenho perspectiva e expectativa de que vou poder ser algo para além disso”. Não é mais, porque a gente não tem que minorizar nenhuma das mulheres trabalhadoras que se dedicam todos os dias sendo caixas de mercado e cuidando e cuidando e cuidando e, muitas vezes, sobrecarregadas.
Mas eu tinha também mulheres no meu quintal, lá nesse mesmo morro, no outro morro também, que se juntavam em roda para falar das dificuldades, sim; para se livrar das violências, sim; mas para fazer com que a gente, criança, pudesse sonhar; com que a gente, menina, pudesse sonhar com uma realidade que fosse diferente. Um sonho que, para nós, a gente sabe que não é romântico, nunca é. Muitas vezes, o principal sonho da minha mãe era que eu aprendesse, desde cedo, que o meu marido seria o meu emprego, porque se meu marido fosse meu trabalho, homem nenhum poderia me violentar. Sempre foi esse lugar da independência de poder sair a qualquer momento de qualquer violência, porque ela não conseguiu sair. Eu cresci assim, sendo ensinada que o meu marido era o meu emprego. Isso não é legal também. Nós merecemos ser amadas, nós merecemos outras formas também de exercer o amor, mas de alguma forma foi a ferramenta que ela tinha para me proteger, a ferramenta que ela tinha para achar que eu poderia ser algo além do que ela conseguiu ser.
E olha que ela nem era dona de casa. Porque entre cuidado presente e cuidado presença, por conta da carga de trabalho, minha mãe não podia ser aquela que ficava comigo o dia todo. Ela tinha que ser aquela que ficava o dia todo fora de casa. E quando ela voltava, ela trazia algo para poder somar ao cuidado. E muitas vezes eu também me senti descuidada. Eu falei: “Minha mãe cuida de todo mundo. Está lá com não sei quem, e eu e meu irmão?”. Mas nós temos que entender também que pesa sobre nós e sobre elas essa grande carga de responsabilidade e de muita desigualdade.
Eu acho que o que me faz hoje ficar próxima da realização desses outros sonhos, que eu já realizei pelas que vieram antes, é ver que essa minha continuidade tem essa potência de ter entendimento crítico trazido à luz por outras mães e outras pessoas que se colocam nesse lugar de construção com vocês, mas principalmente a partir do reconhecimento de vocês mesmos sobre a responsabilidade que vocês carregam. É pesado, sim. Nós sabemos que ser menina no Brasil de hoje, no Estado do Rio de Janeiro, na cidade de hoje, independentemente, mas também temos que considerar as questões de raça, de classe, de gênero e de território que nos acometem e de condição. Nós ainda temos que olhar com empatia para as meninas com deficiências visíveis ou não, com doenças raras visíveis ou não, porque aí fica ainda mais difícil conseguir existir e resistir.
Então, é a partir de vocês mesmos que nós conseguimos esperançar uma continuidade de resistência, de coragem, muitas vezes com medo, muitas vezes sabendo de todos os impedimentos, mas sabendo também que a construção desses limites de proteção, que é o que nós construímos aqui, esse lugar de manter as meninas ativistas protegidas, como fazem essas organizações, como faz o nosso mandato, é por nós entendermos que a sustentabilidade humana ainda depende da geração e produção de vida e cuidado das mulheres da classe trabalhadora, que majoritariamente também é feminina, negra e popular no nosso Brasil, na nossa cidade também.
Então, vou passar a palavra para as senhoras, para que vocês encerrem o nosso debate. Eu vou agradecer mais uma vez a quem esteve aqui conosco, porque essa construção para nós não é só um discurso, é uma prática.
Fico com muito orgulho de dizer que nós somos um desses poucos mandatos que está dentro das escolas. São mais de 1.500 escolas na Cidade do Rio de Janeiro, para dar conta, sim, do cumprimento da Lei nº 10.639; para dar conta sim da comunicação compulsória em caso de qualquer violação ao direito da criança, seja ele de saúde, assistência ou até mesmo psicossocial, para cobrar pelo estabelecimento das leis existentes e também para formar essa nova geração de meninas cidadãs comprometidas com o exercício da cidadania através do voto e, daqui a pouco, realmente, através desse lugar de disputa, de representação feminina na política, porque a bola estará com vocês.
Eu quero chegar lá, como uma Benedita da Silva com 80 anos, e ter uma bancada muito mais ampla de mulheres, sem precisar também descuidar da nossa saúde mental, porque para sobreviver nesses espaços, as assessorias, as instituições, nós sabemos que há muita violência, continuará acontecendo e nós vamos precisar resistir, mas ou resistiremos juntas ou não existiremos mais.
Conscientizem-se, estaremos aqui por vocês. Obrigada.
(PALMAS)

A JOVEM LUÍZA PIÇARRO RIOS – Eu agradeço a fala de todas vocês que, depois de nós, falaram. Eu concordo absolutamente com tudo que vocês trouxeram. Foram algumas perguntas que eu não vou conseguir responder todas, e eu também vou tentar ser o mais breve possível, para também não me repetir.
Então, eu vou ser bem objetiva em questão da realidade que nós temos. Nós sabemos o que nós vivemos, é realmente muito dura, não há como vocês estarem hoje no mundo e não sofrerem. É algo inevitável, infelizmente. Nós evitamos ao máximo, claro, mas tem coisas que estão fora do nosso controle e nós muito bem sabemos disso.
Mas mesmo que a nossa realidade seja dura, eu acredito que, ajudando uns aos outros, nós conseguimos mudar isso. E eu vejo essa questão realmente fiel à realidade, mas com um olhar de esperança para o futuro. E o meu conselho seria o seguinte: se você não tem um incentivo, um apoio, seja em casa, na escola, nos ambientes em que você frequenta, aconselho que você busque isso em outro lugar, mas de uma maneira que você ainda se sinta bem e segura. Então, posso dar um exemplo que não sei se vocês conhecem, mas há um programa chamado Pesquisa para Elas, e ele é totalmente on-line. Ele acontece com meninas tanto de dentro do Brasil como de fora, e você tem a chance de ser mentorada por cientistas de diversas áreas.
Pude fazer esse programa este ano, e foi algo muito importante para mim, porque eu, tendendo muito para ciências humanas, achava que não poderia ser cientista por conta disso, que seria algo restrito à matemática, engenharia, ou seja, às questões de exatas e ciências biológicas. Acontece que não. Então, esse programa foi muito importante para mim. Por exemplo, estou aqui hoje pela Girl Up, que, para quem não conhece, aconselho muito a pesquisar, e tem tanto essa questão que defende a dignidade menstrual como muitas outras de saúde mental etc.
Então, o meu conselho é justamente este: vocês procurarem um apoio, um incentivo onde puderem. Por mais dificuldades que você tenha, não estou dizendo que é fácil, porque não é, mas ainda é possível. Se você tem uma conexão de internet, já consegue fazer algo on-line, por exemplo, entre outras coisas. As meninas aqui estão por diferentes organizações e programas, então vocês também podem ter a oportunidade de estar nesses lugares que são muito bons e que fizeram com que elas estivessem aqui. Acredito que seja basicamente isso.
Busquem ser o melhor que puderem e também oferecer o melhor para as outras pessoas, para que a vida delas também seja melhor.
Tempo? Posso continuar?
Respondendo à pergunta da Helena, se pretendo... Sim, quero, por que não? Estou neste espaço e vamos cumprir algo. Sempre temos uma... não meta, mas falo sobre coisas da vida a que estamos dispostos e que têm de acontecer. Destino, talvez. Quem sabe. Mas quero muito, sim, quero estar nesses espaços de maneira mais efetiva, mais gradual e sempre.
Para finalizar, sempre falo sobre Nego Bispo e como ele foi transformador com a fala e a vida dele. Ele faleceu no ano passado, se não me engano, e hoje ele é um ancestral mais do que já era. Nego Bispo fala que nascemos, crescemos e nascemos de novo. Então, o que estamos fazendo hoje é muito do que as nossas anciãs já faziam, as nossas ancestrais já faziam. E se elas puderam fazer, também posso, também podemos. E acho que a magia da vida está na confluência.
Nego Bispo fala isto: que é trocar, conhecer, ensinar e aprender. Porque acho que, além da mágica da confluência, é sobre como uma pergunta nos ensina mais com o questionamento do que com a resposta. Então, quando alguém me pergunta: "Eduarda, você quer ser vereadora, quer ser deputada, quer ser presidente?", penso: "Por que não posso ser isso?". Então, sim, quero, sim, vamos conseguir. E, assim como Thais falou, conseguiremos juntas.
É isso, muito obrigada.

A SRA. EDUARDA VENÂNICIO – Respondendo à pergunta, também acho que posso sim, porque é isto: tudo que a Duda falou uso na minha fala, porque podemos, sempre podemos. Nós estamos neste local, estudamos para isso. Ela está fazendo faculdade para isso, fazemos faculdade para isso, então estamos crescendo para isso.
Acho, sim, que é muito válido talvez mais tarde eu estar em um lugar como este. Nós já estamos aqui, fazendo a diferença, então mais tarde, com certeza, vou fazer este alcance: ser uma vereadora, ser uma prefeita, uma ministra, uma presidente. Acho que é isso.
Muito obrigada e boa tarde.

A SRA. MARIA DUTRA – Bom, não pretendo, mas gosto de estar envolvida nesses espaços, porque é muito importante. Ainda mais de onde viemos, porque, de onde viemos, pessoas que estão historicamente aqui não queriam que ocupássemos esses lugares. Então, fico muito feliz de ver vocês falando: "Por que não?", "Por que não ser uma presidente?”.
O que antes era uma realidade distante, eu já estou vendo que não é mais. Particularmente, eu não quero mais “por que não?” Basicamente é isso, gente.
Eu queria apenas mencionar uma fala de Chimamanda, de um dos discursos que ela proferiu quando se formou na faculdade. Anotei-a aqui e sempre a levo comigo. Ela fala sobre a maturidade feminina e diz assim:
"Por favor, não sejam boazinhas, sejam bondosas. Bondade é a régua da humanidade, mas não sejam boazinhas. Ser boazinha significa querer ser gostada sempre, e essa é uma aflição característica da socialização das mulheres. Ser boazinha significa silenciar verdades inconvenientes. Ser boazinha significa escolher e deixar confortável. Ser boazinha significa abrir mão da coragem. Ser boazinha significa falar sobre paz, mas não de justiça. Não existe ser humano perfeito. A busca pela perfeição só vai atrapalhar. Não ajuda em nada ter a perfeição como parâmetro. Ser perfeito não tem que estar à frente de ser capaz de fazer o que é certo. Desejo a vocês tudo o que desejam a si mesmas, desde que não causem dano umas às outras."

A JOVEM HELOÍSA OLIVEIRA DE ASSIS PASCHOAL – Houve, então, muitas perguntas e falas, mas, com o tempo e a sequência de intervenções, eu esqueci a maioria. Mas sigo na linha de "por que não?", já refleti muito sobre isso. Faço o curso “Nós por nós 2J”, que se insere nesse sentido de capacitação para entendermos como nos inserir nesse meio. Entendo que o receio de termos que enfrentar, e nós vamos passar por várias barreiras gigantescas. Isso nos expõe a diversas situações, principalmente ao considerarmos nossa condição de mulheres e jovens, fatores que dificultam tudo. Portanto, esse receio é o que acredito que nos limita e prende bastante diante das dificuldades enfrentadas.
Gostaria de agradecer a presença de todos, que é muito importante para estarmos aqui, mas também para entender que não estamos aqui apenas nos representando como indivíduos, e sim os coletivos dos quais fazemos parte. E não falo de coletivos com nomes formalizados, mas sim daqueles grupos com os quais nos reunimos e conversamos sobre esses temas.
É sobre aprendermos, mas também sobre levarmos o conhecimento de volta, pois sabemos que nem todos conseguem estar neste lugar que ocupamos. Foi muito salientado que, embora seja ótimo estarmos acessando estes espaços, ainda há muitas dificuldades para que outros os acessem.
Portanto, estamos aqui para trocar experiências, mas também para poder levá-las de volta a outros jovens que, assim como vocês mencionaram, gostariam muito de estar aqui. Considero isso muito significativo.
Gostaria, também, de estender um convite: tenho o “Sustenta Cris” e estamos desenvolvendo um projeto. Estamos criando uma geração cidadã de dados e, em breve, abriremos a pesquisa e realizaremos um evento final. Então, um convite também à Thais, caso queira participar. Agradeço imensamente. É muito significativo para nós, para os coletivos que representamos, e para nós como indivíduos. É muito significativo que vocês nos agradeçam aqui, mas creio que o agradecimento se estende a todos, e é isso.

A JOVEM ANNY BEATRIZ RIPARDO DA SILVA – Gostaria de falar mais, mas o tempo está bem curto. Agradeço, então, a presença de todos neste momento, neste dia e nesta troca. Muito obrigada pela escuta de vocês e pelas palavras. Isso é muito importante para nós nesta caminhada, e me senti muito representada neste dia, pois percebi que muitas pessoas aqui são da favela, são da periferia. Assim, por mais que não nos sintamos representadas em alguns lugares – tanto na faculdade, quanto em um encontro ou passeio na UFRJ no Fundão, onde não me senti representada – e são esses são espaços que precisamos ocupar.
Estou muito feliz por ter pessoas como eu aqui, com essa troca. Espero voltar aqui ou a outros lugares coletivamente. É isso.
Agradeço a presença de todos, aos assessores e à equipe técnica da Câmara Municipal.
Dou por encerrado o Debate Público.


(Encerra-se o Debate Público às 17 horas)


LISTA DE PRESENÇA

Luisa Piçarro; Evellun Freitas Rodrigues; Emilly Victoria; Iasmin Alves; Maria Eduarda Braga; Ymara Baltazar; Helena Ferreira; Luiza Varela; Andreza Dionisio; Kryslane Francisco; Manuela Pereira Lima; Fernanda Luiza Viana; Maria Aparecida dos Santos Dutra; Munal Malek; Giovanna Edwiges; Anny Veatriz Ripardo da Silva; Eduarda Ferreir;a Joanna Fontoura; Juliana Martins da Silva; Janaína Soares Arruda; Milena Ventura; Beatriz Araujo Antonio Atilio; Joyce Dornelles; Hellen Ferreira; Cássia Divino.