Comissão Permanente / Temporária
TIPO :
DEBATE PÚBLICO
Da
VEREADORA TAINÁ DE PAULA
REALIZADA EM
05/05/2022
Íntegra
Debate Público
:
DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 4 DE MAIO DE 2022
(Juventude, Mobilidade e Cidade)
Presidência da Sra. Vereadora Tainá de Paula.
Às 10h39, no Auditório Vereador Aarão Steinbruch, sob a Presidência da Sra. Vereadora Tainá de Paula, tem início o Debate Público para discutir o tema “Juventude, Mobilidade e Cidade”.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Senhoras e senhores, bom dia.
Dou por aberto o Debate Público com a finalidade de discutir o tema “Juventude, Mobilidade e Cidade”.
A Mesa está assim constituída: Senhora Vereadora Tainá de Paula, Presidente da Comissão de Assuntos Urbanos; Vereadora Thais Ferreira, Presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente; Senhora Joana Fontoura, coordenadora da iniciativa Geração que Move, parceria entre o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Nossas; Senhor Arthur Viana de Andrade, morador do Complexo da Maré e coordenador da campanha Somos da Maré, Temos Direito.
Acho que a gente pode fazer uma ordem sempre à esquerda. Brincadeira! Acho que a gente tinha combinado o contrário, iniciando pela direita, fazer aqui uma pequena disrupção, Thais, e começar pelo querido Arthur, para fazermos o nosso debate hoje. Pode ser? Acho interessante.
Arthur, a palavra está com você. Vamos fechar em 10 minutos, para todo mundo poder falar. Acho que eles estão doidos para falar novamente.
O SR. ARTHUR VIANA DE ANDRADE – Bom dia a todos e todas.
É um prazer estar aqui com vocês hoje. Agradeço também o convite, é uma oportunidade maravilhosa. Assim que cheguei, me senti muito feliz por ver esse público jovem. Eu me enxergo muito em vocês, vocês vão ver isso mais à frente na minha fala.
Queria me apresentar formalmente, para a gente conseguir iniciar o debate. Meu nome é Arthur Viana, tenho 24 anos de idade, sou morador da Nova Holanda, no Complexo da Maré. Coordeno uma campanha de mobilização comunitária que debate segurança pública como um direito dos moradores da Maré.
A gente faz um trabalho de porta a porta, na área das 16 favelas da Maré, fazendo esse debate. A gente sabe que, infelizmente, segurança pública é um tabu. A gente precisa se apropriar disso e debater. Quem mais sofre diante dessa pauta, diante desse não direito, é o morador de favela. Então, a gente tem lugar de fala, a gente tem conhecimento sobre qual tipo de política pública relacionada à segurança pública a gente não quer vivenciar. Essa é a minha principal área de atuação.
Também coordeno o Conselho Comunitário, o Conselho Estadual de Direitos Humanos e o Conselho de Juventude do Estado do Rio de Janeiro. Por mais que eu faça esse debate mais próximo à segurança pública, estou também entrando mais à frente agora no debate da juventude. É muito louco pensar isso tudo, porque eu não sou uma pessoa acadêmica. Então, tudo o que eu falo é a partir da minha vivência: a vivência de um homem preto, favelado, uma vivência que provavelmente é muito próxima à vivência de vocês. Por isso que eu me enxergo muito em vocês.
Ocupar esse espaço de fala é uma experiência não nova, necessariamente, mas é sempre um desafio. O que eu proponho, o que penso para esses espaços é horizontalizar esse debate, para que eu não seja a mesa levando um conhecimento para vocês. Acho que vocês também têm muitas coisas para trazer diante disso. Fiquei pensando muito ontem, quando estava chegando em casa.
Eu tinha acabado de jogar bola e falei: “Caraca, mané, o que eu vou falar sobre juventude? O que eu vou falar sobre mobilidade, sobre cidade?”. A gente, enquanto jovem, sofre muito com essas questões. Eu estava pensando muito...
Provavelmente, vocês sabem, hoje vai ter a pré-estreia do Doutor Estranho 2 e vocês devem querer ver o filme também. Eu também já comprei ingresso e fiquei pensando: “Caramba, cara, a minha sessão é de 22h40, no Norte Shopping. Eu moro na Maré e não tem ônibus”. É essa discussão que eu falei: “Cara, é isso, por que eu posso falar?”.
Eu posso falar da minha vivência e de como isso me aflige. Minha sessão vai acabar, provavelmente, próximo de uma hora da manhã. A gente não tem ônibus do Norte Shopping para a Maré. Na verdade, o mais próximo que tem é um ônibus para Bonsucesso, e andar de Bonsucesso, sendo jovem, preto e favelado, até a Maré... Sem condições! Tem também algumas vans que deixam a gente na Brasil.
Isso me faz lembrar muito de uma experiência que eu vivenciei quando tinha 16 anos. Quando eu fiz 16 anos de idade, minha mãe disse: “Arthur, toma aqui o cartão para você comprar um celular” – foi meu primeiro celular. Eu falei: “Cara, show de bola”. Tirei onda, fui à Saraiva, comprei livro, comprei o celular e disse “Cara, tá passando um filme maneirão no cinema. Já tô aqui mesmo, vou assistir”.
Mais uma vez, saí tarde do cinema e não tinha transporte. Não tinha van, não tinha ônibus, e eu tive que ir andando do Norte Shopping até a Maré – mais de 8 km. Quando cheguei em casa, era próximo das três horas da madrugada. Todo feliz, obviamente, porque estava com celular novo.
Minha mãe, superpreocupada. Esse corpo transitando, esse corpo atravessando a cidade com um bem material novo. Minha mãe já tinha ido à delegacia, já tinha recorrido aos vizinhos. Esse não direito, esse não acesso que a gente acaba vivenciando também nos condiciona não só a correr certos tipos de risco, mas também a não utilizar e não vivenciar certos tipos de espaços.
Acho que o jovem de favela tem muita dificuldade de acessar áreas de lazer, áreas de cultura para além da favela. A gente sabe que é isso. A favela produz conhecimento, produz arte, produz mercado, mas a gente também precisa, como foi dito, fazer esse movimento de não sair da favela necessariamente, como ser preciso morar fora da favela para ser alguém.
Eu preciso também vivenciar o que está sendo produzido fora da favela. A gente sempre fala que a favela é cidade. Então, a gente tem que, de fato, ocupar a cidade. É muito importante que a gente chegue nesse espaço.
Queria depois ouvir de vocês como vocês chegaram a esse lugar. De onde vocês vieram, como foi esse rolê para vocês também. É isso. Hoje eu vim de moto. É muito louco quando a gente consegue minimamente adquirir um bem. As nossas pautas mudam.
Eu não preciso necessariamente sofrer aquele perrengue todo: “Caramba, vou ter que fazer baldeação de ônibus; tenho que sair de casa com duas horas de antecedência para chegar ao lugar”, mas, ao mesmo tempo, eu sempre vou ser um jovem preto, favelado, transitando e fazendo esse percurso pela cidade. É um percurso que antes, de ônibus, eu levava um pouco mais de uma hora.
Hoje eu consigo fazê-lo em mais ou menos 20, 25 minutos, no máximo. Isso dá qualidade de vida. O quanto esse não acesso também nos coloca, nos condiciona num lugar de não vivenciar a nossa juventude em excelência, o quanto isso acaba nos fragilizando.
Eu não tenho uma fala muito institucional. Eu gosto muito, na verdade, desse lugar de troca – de trocar, de ouvir. Acho que a gente também está produzindo, trocando. Eu vim muito também para aprender com vocês. Vim para ouvir. É esse o lugar que eu me proponho a estar hoje.
Não estar no lugar de “vou trazer conhecimento para vocês”, porque acho que vocês também produzem, vocês trazem coisas. Então, ouvir de vocês, assim como foi dito mais cedo, não só das meninas – as meninas estão se colocando, é importante que vocês se coloquem –, mas também da galera trazer também... Acho que é isso.
Vou passar minha fala. Depois, a gente troca mais. Quero ouvir as perguntas. Contem comigo.
A SRA. JOANA FONTOURA – Bom dia.
Em primeiro lugar, quero agradecer à Vereadora Tainá de Paula, à Vereadora Thais Ferreira. Arthur, é um prazerzão compartilhar esta Mesa com vocês. Vocês duas acolheram o Unicef, que é o Fundo das Nações Unidas para a Infância, para quem não conhece. Eu gosto muito quando você diz “criança e adolescente” porque é importante a gente marcar isso também. A gente lida com a infância, mas a nossa pauta com vocês, que são adolescentes e jovens...
Eu, pelo menos, achei uma aula tudo o que foi dito aqui. Não sei vocês. Vocês estão superanimados, felizes? Quem está aqui pela primeira vez? Olha, nunca tinham entrado na Câmara de Vereadores, certo? Passavam pelo menos por fora? Nem por fora? É disso que a gente está falando. E esse é o rolezinho; conseguir ser acolhido nesta Casa, por essas duas maravilhosas mulheres que compartilharam com vocês a trajetória, e que são muito inspiradoras. Acho que a gente queria mesmo ter esse momento.
Puxando um pouco o que o Arthur trouxe, a gente quer ouvir vocês. Eu também não vou me alongar muito, mas acho importante a gente colocar no debate o quanto a mobilidade é um direito. E como esse direito que afeta crianças e adolescentes, ao ser negado, afeta outros direitos: o acesso à educação, o acesso à cultura, como o Arthur trouxe, ao lazer, a oportunidades, como também já foi dito anteriormente, e acesso à cidade. Que cidade é essa? Que cidades, vamos colocar? Porque tem muitas diversidades.
A gente coloca as diversidades também dentro dessas adolescências. Vocês estão aqui, têm trajetórias superdiferentes, cada um entre si, mas estão formando esse grupo.
Eu queria colocar que Geração que Move, essa iniciativa que a gente está implementando aqui na Cidade do Rio de Janeiro com o Nossas... Também agradeço à organização feita pela equipe toda do Nossas, que vem acompanhando vocês há um tempão nos encontros semanais.
Eles já tiveram um período de formação durante três meses, e é o primeiro encontro presencial deles. Não é o máximo estar junto? Vocês gostaram de ver as carinhas uns dos outros? Isso é participação. Você trouxe muito bem os espaços de participação que existem para essa juventude, seja na escola, seja na comunidade, seja onde for. Mas eles precisam conhecer e se sentir parte ou pertencente a essa cidade, a essa discussão.
Geração que Move, Tainá, Thais e Arthur, é uma iniciativa muito voltada para dar espaço ao que eles e elas querem construir, para incidir em política pública. A gente traz a parte mais teórica do que é a política pública, o que é mobilidade, o que são as interseccionalidades – aí discutimos gênero. Contem depois o que vocês estudaram para não dizer aqui que a gente está só... fake news total. Tem esse lado de trazer um pouco essa parte mais teórica, mas a parte prática da vivência deles e delas é o que vai fazer com que eles construam, eles e elas, campanhas de incidência.
A parte do mapeamento de oportunidades políticas foi muito importante – e está sendo. O dia de hoje, galera, é uma oportunidade maravilhosa, porque vocês estão com quem está construindo, quem está pensando. Eles olharam todos os projetos de lei que tem aqui na Casa e que estão tramitando nesse tema.
Como é que eles podem, de fato, incidir? Porque a participação para o Unicef é isso: fazer com eles e elas. Porque não faz sentido que a gente discuta políticas públicas para adolescente, para crianças e para jovens sem que eles estejam no centro dessa discussão, dessa articulação, desse pensamento com toda adequação necessária.
Também é preciso entender que deve ter outra linguagem, outra abordagem específica para o que vocês estão vivenciando hoje, os desafios que vocês estão trazendo. Vocês já criaram, mais ou menos, os temas das campanhas. É bacana compartilhar um pouco aqui o que vocês já estão pensando em fazer e aproveitar essa ponte criada com Tainá e Thais, que é onde vocês merecem estar e podem ocupar esse espaço de diferentes formas – não existe uma única forma.
Acho que essa é uma grande mensagem que a gente queria trazer, porque a gente precisa se acostumar mesmo. Os espaços formais de participação também precisam ser mais acolhedores. Tem todo um protocolo, tem todo um formato de existência dos espaços formais, mas como é que a gente equilibra? Fazendo com que a participação de jovens e adolescentes seja possível, e seja possível de forma qualificada, sem etarismo, entendendo que a contribuição de vocês é essencial para a construção daquela política pública e o acompanhamento da implementação daquela política pública, porque vocês estão acessando esses serviços também. A experiência de vocês tem um valor tão significativo.
Acho que a mensagem principal do dia de hoje é que esse espaço pertence a vocês. A gente tem muito trabalho a fazer ainda. Acho que o conselho que você trouxe, Thais, é de solução. É justamente esse momento do projeto que o Geração que Move tem: propor soluções. A gente avalia e entende que tem desafios. São muitos mesmo, de diversas naturezas. Mas como a gente pode coconstruir soluções viáveis, entendendo as cidades em que eles estão inseridos e que eles e elas querem construir, entendendo que são aliados nessa construção?
Para o Unicef, é um grande prazer, uma emoção enorme ver vocês aqui sentados, interagindo e trazendo também a perspectiva de cada um de vocês que vai mudando e construindo narrativas e trajetórias de vocês que, enfim, vai levar aonde vocês quiserem estar, para os caminhos que vocês queiram acessar. Acho que a gente pode continuar o debate.
Quero fortalecer, Tainá e Thais, que, para o Unicef, é superimportante estar com vocês dialogando. A gente tem aqui na Cidade do Rio de Janeiro a agenda Cidade Unicef, que é uma parceria com a Prefeitura do Rio, entendendo a intersetorialidade também dos temas, dos direitos da criança e do adolescente, com grande foco na prevenção às inúmeras violências que impactam a vida desses adolescentes e crianças desde seu nascimento e as suas famílias.
É sempre importante trabalharmos em rede. Tem o Executivo, o Legislativo, as redes de jovens, o setor privado, porque também tem que ter acordos feitos aí para que a política pública funcione de forma a construir acessos igualitários, justos e seguros. Acho que é muito importante trazer as responsabilidades e esses acordos firmados para a cidade ser, de fato, igualitária, inclusiva. Eles trazem também essa pauta.
Não sei se você se lembra, Thais, ano passado a gente veio a uma audiência pública que você convidou para justamente falar sobre mobilidade e acessibilidade para crianças com deficiências e suas famílias – era essa o mote da audiência pública ano passado. A gente já vem falando muito e acho que tem vários aspectos importantes que a gente pode ter as nossas agendas alinhadas.
Mais uma vez, obrigada. Obrigada mesmo pelo aceite desse convite. Depois eu quero saber mesmo como vocês chegaram aqui, que horas vocês acordaram para chegar aqui no horário. Estávamos todo mundo aqui esperando bem bonitinho às 9h, não é? E como isso é desafiador! E se pensarmos no acesso ao emprego, acesso a oportunidades, aí vão dizer: “Não, você mora muito longe”, ou: “Sua passagem é muito cara”. Quem já ouviu isso aqui em alguma ocasião? Como é que a gente faz para enfrentar essas desigualdades?
Enfim, é isso. É um prazer muito grande olhar para vocês daqui. Mas eu também quero vocês do nosso lado, não é só olhando assim, não. Um beijo e vamos passar para as perguntas.
Obrigada. Gratidão mesmo.
A SRA. VEREADORA THAIS FERREIRA – Antes de passar o microfone, eu posso já começar com essa proposta que ela fez – e acho que a Tainá vai gostar –, meio de inverter o papel. Estou precisando de ajuda de vocês, da Tainá mesmo, também. Ela sabe que eu sou dessas.
Ontem à noite, já passava das 22 horas, eu recebi mensagem do Paulinho. O Paulinho é um menino de 15 anos que mora na Maré. O Paulinho trabalha e também tenta estudar, e está com restrição de liberdade. O Paulinho está cumprindo medida socioeducativa e está em liberdade assistida. Ele disse o principal problema dele: “Tia, salva meu número aí. Eu não sei qual o próximo dia em que vou conseguir te ver, porque não sei quando vou conseguir chegar de novo em Copacabana.” – eu o conheci na Praça do Lido –, “Pra eu ir à escola é difícil, para ir ao trabalho também é difícil. O dia em que eu roubei, eu estava com fome, era isso.
Eu estava muito cansado, fui andando de um lugar para o outro. E, às vezes, a galera da minha idade mesmo, eu vejo todo mundo de uniforme aí, e aqui na escola...” – na Praça do Lido, não sei se vocês conhecem, em Copacabana, tem uma escola municipal. Ele diz: “até a galera da escola, que também é jovem, quer bater na gente, tia, porque eles acham que a gente não é jovem igual a eles”. Vocês são jovens que estão tendo a oportunidade de pensar também no Paulinho. Então, queria pensar com vocês em desafios de mobilidade.
A gente tem o Estatuto da Juventude, falando que todos os jovens, todos, todas e todes, com deficiência ou não, com questões neurológicas ou não, com questões de liberdade ou não, devem ter acesso a territórios e mobilidade. Mas a gente tem o Paulinho, que ainda não pode fazer parte da Geração que Move, porque essa realidade ainda não alcança o Paulinho. Se a gente vai começar a pensar junto – eu sou da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente, Tainá é da Comissão de Assuntos Urbanos – e vocês aqui, pensando em mobilidade urbana, vamos pensar no Paulinho juntos?
Vamos nos desafiar a entender essas juventudes que não estão colocadas nesse espaço, porque a gente sabe que a desigualdade é cada vez mais profunda. O Paulinho está esperando a minha resposta. Eu perguntei ao Paulinho em que escola ele está estudando. Ele vai me dizer, a gente vai fazer uma visita a essa escola, vai entender a realidade de Paulinho. Porque sobre o Paulinho a gente sabe que tem muita gente.
São vários Paulinhos por aí, e como temos vocês aí fervilhando informação que receberam da formação e aqui com a gente nesse espaço de troca, seria muito bacana... Não se sintam pressionados. Mas seria muito bacana se vocês pudessem também falar como vocês têm visto essas outras juventudes que são também parte de vocês, mas que ainda não acessam as ferramentas que vocês acessam, que ainda não podem chegar até aqui, mas que precisam das soluções que vão ser criadas pela gente, se for com vocês vai ser melhor ainda, porque é cada vez mais legítimo, mas é o tipo de pergunta e resposta que é o jogo de a gente jogar que acho que pode ser benéfico para todo mundo falando de mobilidade urbana, e falando de desigualdades também e das diversidades da juventude.
Conto com vocês, hein?
O SR. FILIPE LOPES − Gente, só lembrando o combinado do nome e sobrenome, para ficar registrado, porque, para quem não sabe... Sobrenome e bairro, porque vai sair no Diário Oficial. Entendeu? Tudo o que está acontecendo aqui vai sair e vocês vão ver o nome de vocês, está bom?
O SR. PEDRO VINICIUS LEAL − Bom dia! Meu nome é Pedro Vinicius Leal, sou do seu bairro vizinho, sou de Irajá, perto do cemitério. E queria saber de vocês, vereadoras, como é que é para vocês debaterem isso aqui na Câmara com outros vereadores cuja realidade é totalmente diferente. Eles mesmos não foram criados pegando ônibus, ou o pai levava na escola ou pagava transporte, ou os filhos deles provavelmente pegam transporte, ou eles próprios levam.
Aí eu queria saber, porque ontem eu estava no ponto – estudo na Universidade Federal Fluminense (UFF) – esperando ônibus para Niterói e tinha um menino que devia ter uns 12 anos no máximo. Ele estava para pegar o ônibus para a escola, o ônibus passou direto, porque ele ia pedir carona para entrar no ônibus. Aí queria saber como é que vocês conseguem falar para essas pessoas que não sabem ou fingem que não sabem essas realidades e fazê-los entender um pouco.
Obrigado.
O SR. FILIPE LOPES − Um bloco de três, mais dois... Lá do lado.
O SR. PEDRO HENRIQUE DE ALMEIDA FIDELIS − Bom dia, meu nome é Pedro Henrique, sou de Campo Grande e gostaria de saber de vocês, que tiveram alguma formação, qual foi o maior impasse na questão de você se transportar de um lugar para o outro nesse período em que você estudou Arquitetura e Urbanismo. Gostaria de saber qual foi o maior impasse para você, quais foram as maiores dificuldades nessa questão de se transportar de onde você mora para a instituição em si, e outros lugares que apetecem a sua formação acadêmica.
A SRA. ISABELI PESSOA RODRIGUES DA SILVA − Bom dia, meu nome é Isabeli Pessoa, sou de Paciência.
Eu me identifiquei muito com a fala do Arthur em relação a acesso, ao lazer, porque na Zona Oeste a gente passa muito por isso. Todos os equipamentos culturais são muito longe. Então, queria perguntar... porque a cidade vê como está se tornando um produto. Quem pode pagar, quem tem acesso a ela...
Queria saber como não ter uma visão pessimista, porque a gente vê essas coisas e pensa... Não sei, é uma visão muito utópica, como que vai realmente ter alguma mudança... Então, queria um conselho para não ter tanto essa visão que tem como mudar... pela comissão que vai ver se ele é constitucional ou não, que é a de Comissão de Constituição, Redação e Justiça, depois ele vai percorrer comissões de mérito. Então, vamos lá, é sobre criança e adolescente, vai passar para mim.
Sou uma pessoa que conhece a realidade de criança e adolescente, mas tem outros dois vereadores da minha comissão que não conhecem tão bem. Então, tenho que conversar com eles para falar por que a gente não pode deixar aquilo ali passar.
Aquele projeto ali, na verdade, é contra a criança e contra o adolescente. A gente faz uma discussão e, aí, a gente ganha ali no parecer. Quando não é da nossa comissão, então a gente vai lá conversar com aquela pessoa por que deve ser aprovado, por que não, então é nesse momento que a gente faz uma sensibilização.
Tem outros momentos também, que é no dia a dia, é no Plenário que a gente acaba conversando no dia a dia, e em outras situações que a gente acaba conversando e falando: “Poxa, olha só, presta atenção, que isso aqui é inadequado, isso aqui é adequado, a realidade é essa”. Quando alguém manda um vídeo, porque vereadores também são pessoas que compartilham coisas por aí, e aí alguém manda um vídeo para você e fala: “Essa é realidade”, ela não é a mesma naquele outro lugar X. Então, quando você fala daquilo, vamos aproveitar e olhar para cá também.
A gente faz uma difusão de conteúdo seguro e realista de fato das políticas que a gente quer impactar. E isso acontece também a partir das redes sociais, porque um fica de olho na rede social do outro, vê por onde você está, pergunta o que você foi fazer. “Ah, você tem...”, a pessoa sempre pergunta: “Você tem eleitor naquele território? Por que você está lá?”. Eu falo: “Não, não estou lá porque eu tenho eleitor. Estou lá porque está acontecendo coisa X, Y, Z e, se você me encontrar, é porque estou tratando desse problema”. “Ah, mas eu não sabia”.
A gente vai tentando aí comunicar e cada vez mais trazer essas pessoas para a Câmara, porque a gente tem visto exatamente isso. Essa formação do público frequentador da Câmara muda quando pessoas como a gente estão aqui e a gente tem a oportunidade de convidar vocês. Porque eles começam a ter de olhar: “Nossa, mas tem tanta criança nesse evento de vocês”. Teve uma vez que até a própria Casa mesmo, não são só os parlamentares...
A gente fez um evento que foi um Plenarinho, então tinha criança, adolescente e jovem, e as pessoas falavam: “Mas eles já vão vir preparados, não é? Eles são ensinados, eles sabem o que eles vão falar?” Aí falei: “Olha, eles nascem preparados, já nascem prontos, pô. O que é isso? Deixe as crianças falarem”. E ela: “Não, porque, sabe como é que é, não é? Não sei se eles vão saber se comportar, depois isso aqui vai ficar uma loucura”. Aí falei: “Eles são crianças. A realidade deles é essa. Eles vão brincar, eles vão falar mais alto, eles não vão querer falar talvez, mas eles vão se comportar como eles devem. Eles são adequados para a idade deles”.
A gente tem que fazer esse tipo de debate. Também demos uma medalha para a um menino de 12 anos, Medalha Pedro Ernesto, que é a maior honraria da Casa. A Casa: “Mas nunca demos uma medalha para uma criança, porque a pessoa tem que ter uma trajetória”. Aí eu: “12 anos de vida, sendo moleque preto, empreendedor para ajudar a família, criativo ‘pra caraca’, lindo, ele não merece uma medalha? O que mais de trajetória vocês querem saber?”.
É nesses lugares assim que a gente vai desconstruindo um pouco o que é imaginário mesmo, não é? A gente está no lugar da ausência, a ausência eles já sabem o que é, falta tudo e é tudo na conta da desigualdade, porque vai a gente aprofundar falando de raça, gênero, classe, condição, aí já vira: “Não, essas coisas de vocês não quero nem saber”. Então, a gente também toma esse cuidado. Mas é mais ou menos por aí.
A outra pergunta aqui, me deixa rememorar. Você falou do impasse no acesso a educação e mobilidade. Compartilho dessa trajetória desde pequenininha também. Até alcançar a academia, é mais um desafio ainda na nossa juventude. Mas lembro que começou a ser muito difícil para mim para acessar a escola no Ensino Médio, porque até o Fundamental I e II, estudava perto de casa, estudava ali em Vaz Lobo, em Irajá.
Estudei na Almirante Newton Braga de Faria, lá no 1.059. Então, saí de lá para o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ). Já pegava o metrô desde os oito anos de idade? Já pegava o metrô, mas pegar o metrô sozinha, muito cedo e tudo mais, atravessar, a gente trabalhando, então foi um desafio grande, mas como eu já tinha um metrô ali bem servido em Irajá, era mais fácil, mas para fazer as outras coisas que vinham junto da escola, o estágio e tudo mais, então era aquele trajeto de três horas em que você fala: “Cara, não sei se vou conseguir terminar”, porque, muitas vezes, você não chega na hora, muitas vezes você não consegue estar ali no grupo para fazer um trabalho, muitas vezes você não...
Assim, uma coisa que acontecia muito comigo ainda nessa época era que, muitas vezes, os meus pais nem me deixavam ir, porque ainda tinha essa questão de você ser menina, você ser preta, você estar ali à mercê de qualquer violação sexual que pode acontecer com você também. Pessoas LGBTQIA+ sofrem para caramba com isso. Então, eu tinha um amigo que ia comigo que ele também tinha tanto medo quanto eu de ser estuprado.
Quando essa realidade se colocou para a gente, foi mais um lugar de “Cara, realmente, às vezes falam que é melhor a gente fazer coisa perto de casa e é melhor mesmo, porque pelo menos dá para a gente correr”. A gente sempre pensava nisso: “Dá para a gente correr”. Para onde é que a gente vai correr? Não tinha para onde correr no Maracanã. Não tinha para onde correr ali na Radial Oeste. No 685, como é que a gente corre? A gente pensava muito no lugar em que “Pô, dá para correr? Então, vamos embora. Não dá para correr, não vamos, não”.
E aí, faculdade, no meu caso, saí do curso para o qual eu havia passado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), porque eu sofria, sim, racismo no lugar muito hard mesmo. Eu gostava muito de moda, minha mãe bancou para eu fazer faculdade de moda. E não tinha ainda universidade pública. Minha mãe disse: “Eu tenho um convênio do trabalho, vou me sacrificar e pagar para você”. Aí fui eu para Ipanema, Cândido Mendes. Fazer o quê? É isso. Mas fui, e minha mãe saía do trabalho, me acompanhava, me esperava, porque eu ainda tinha uma aparência muito juvenil, estava com 16, 17 anos. Ela me acompanhava até certo período porque tinha medo mesmo de me deixar à solta na cidade por conta de todos os perigos.
Depois, já na faculdade pública, era aquela coisa. Meu pai: “Você vai para o Fundão”. E aí, sem papas na língua, meu pai dizia que aconteceria alguma coisa comigo, que eu seria estuprada. E meu pai, reproduzindo todos os preconceitos que a condição de desigualdade em que ele cresceu também fez com que ele soubesse reproduzir, era violento mesmo. Ele dizia: “Vão fazer as piores coisas com você”, usando todos os palavrões possíveis. E aquilo me fez, de fato, entender que eu não podia nem mais pertencer ao meu lugar, que era minha casa. Aquele lugar de sair de casa para estar mais perto do trabalho e da faculdade aconteceu comigo de uma forma que acho que é muito precoce. Realmente, eu não tinha condições, senão eu não continuaria. É muito desafiador e acho que por isso a gente se debruça sobre essas políticas.
Você falou para continuar sendo otimista. Acho que é a partir desses espaços aqui. Quanto mais acontecerem esses espaços, mais a gente vai conseguir chegar perto de uma solução viável para todo mundo. Quando a gente não tem uma Câmara que recebe os jovens, quando não tem pessoas como a Tainá, eleita pensando a cidade, se debruçando mesmo sobre um Plano Diretor que seja consistente para a cidade, mas que seja bom para todo mundo, fica difícil ter esperança. Mas quando a gente começa a ver que a política que está sendo criada é a partir dessas cabeças e que, sim, é possível fazer alguma alteração concreta, acho que a gente tem que se responsabilizar um pouco também por esse otimismo, que não é um otimismo de algo que a gente não vai conseguir alcançar, é tangível mesmo.
A gente está vendo a transformação de vocês estarem aqui. Quantos de vocês já estiveram? Agora são muitos. Mas daqui a pouco, entendendo essa necessidade de seguir dialogando, acho que isso vai dando esse respiro. O acesso ao lazer para vocês – infelizmente houve vários agravamentos com o processo pandêmico que vivemos – realmente não é muito diferente do que foi na nossa juventude. Já estou me colocando para fora da juventude, mas é real.
Eu me lembro desse desafio do cinema: é a chuva, é o cinema longe, é voltar a pé e só pode ir se for de “mulão”, porque voltar a pé sozinho também não dá. Infelizmente, a gente está falando dos mesmos problemas e está vendo as mesmas coisas nas notícias. Os amigos do meu irmão morreram, e a gente está vendo outros meninos também errando nesses trajetos de ida e volta para casa. Enfim, a gente já teve um primo, um namorado, um conhecido que estava com o guarda-chuva e, por conta disso, levou “dura” ou até mesmo morreu. A gente sabe o desafio de acessar lazer, acessar trabalho, dignidade. Isso é todo dia.
Eu era parada frequentemente pela polícia por conta do meu cabelo. Eu uso cabelo black power desde meus 17 anos, assim bem para cima mesmo, e era aquela coisa de todo tipo de violência policial: “Abre o black para ver se tem beque!” Ainda riam: “Abre o black para ver se tem beque, pretinha!”. “Você tem boca de maconheira.” A boca de maconheira é porque meus lábios são escuros, eles diziam.
Ainda há pouco, falando do desafio do parlamentar, eu fiz um projeto chamado Partiu Praia, para garantir o direito à cidade para a juventude que fosse à praia. A gente estava lá para garantir direito a eles. Teve um deputado estadual que disse a mesma coisa, usou um Expediente Final da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) para dizer que eu era vereadora que defendia pautas repugnantes e que tinha cara de quem gostava de uma maconhazinha – olha o gatilho aí.
Se a gente ainda cai nessa armadilha do pessimismo, que diz que a gente não tem que estar neste lugar ou em qualquer outro... Eu falei: “Putz, caraca, a polícia sempre falou isso para mim... a boca preta”. Ainda cheguei a me questionar. Eu disse: “Gente...” Mas falei: “Não, Thais! Para. É racismo mesmo, para. É violento mesmo. Não se culpe, não se condene, você tem que estar onde você está, tem que ir aonde quiser e trabalhar pelos outros que estão chegando”. Mas é sobre isso, esse é um dos desafios. O que dá esperança são momentos como este.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Falaram coisas potentes, hein? Vou tentar complementar a fala de Thais. Entrar no diálogo que vocês pontuaram primeiro: “Tainá, como você fala com o diferente?”. É óbvio, vamos combinar, “pretinha”, parlamentar, você é bem diferente de quem está aqui. Você não é o normal do que está estabelecido para a norma conservadora desta Casa, sobre o que já conversamos um pouco no começo do nosso diálogo.
Como você sobrevive? Como você consegue aprovar projeto de lei?
Como você consegue convencer alguém de que a ideia, o debate coletivo, o consenso, o senso comum desta Casa, não é tanto senso comum assim, se a gente for entender que as grandes maiorias da Cidade do Rio de Janeiro, da sociedade, não estão representadas na ampla maioria das leis e das propostas apresentadas no cotidiano da Casa.
Não é fácil, e nem sei se consigo, entrando em diálogo direto com quem me provocou. Desculpe-me, não anotei os nomes de quem foi me provocando. Mas, sem dúvida alguma, Thais não vai me deixar mentir, nem passar por mentirosa, eu faço um esforço hercúleo, gigantesco, para ser uma mulher dialógica.
O que é ser uma mulher dialógica? Encontrar-me e entender nos processos de empatia que me conectam com os setores evangélicos da Casa, com os setores da “Bancada da Bala” da Casa, com os setores do empresariado da Casa, porque é muito importante também a gente exercitar, no Parlamento, algo que está perdido na sociedade, que é construir as pontes convergentes.
A gente perdeu um pouco na última década, eu diria, a capacidade, enquanto sociedade, enquanto povo brasileiro, de construir pontes de diálogos. A gente está no momento da polarização, do “fla-flu”. “Ah, eu sou gado. Ou seu lulopata”. Eu sou “lulopata”, brincadeira! Mas o fato é que a sociedade está assim, você não consegue tomar um café no domingo com a família sem ter um quebra pau. Gente, eu saí do grupo de “zap” da família Reis, isso é seriíssimo. Eu entrei, claro, porque estou em campanha, voltei no grupo de “zap”, tive botar a minha vela no saco e pedir “por favor, insera-me no grupo de ‘zap’ de novo”.
Não dá para a gente tratar as nossas relações, que também são políticas, o café da manhã que a gente tem com a nossa mãe, que a gente briga com ela porque está vendo “Ana Maria bolsonarista”. É muito político. A fila do pão da padaria onde a gente briga com o Sr. João, que é bolsonarista, dono de padaria no meio da Maré. Como pode mareense bolsonarista, gente? E tem! Tem um bando de professora nossa que ganha R$ 950,00 no holerite dela, mas que é bolsonarista. É doida? Não!
Ela está imersa e aprofundada em um ecossistema no qual é quase jogada ao entendimento de que Bolsonaro é bom. Aí, é muito importante a gente refletir os nossos limites da educação, dos processos pedagógicos em que as pessoas estão inseridas, as pessoas são violentadas todos os dias, como não vai consumir e achar normal, naturalizar a violência? Acho que é um exercício importante e que faço muito, de olhar para esses 50 parlamentares, para além de mim, que estão aqui nesta Casa e entender que: cara, vou falar, a ampla maioria aqui pegou trem e BRT, mas nega isso! A lógica dos caras é: mérito, eu venci, eu consegui, se eu consegui. O fulano da minha quebrada também vai conseguir, os caras se acham o tal, os maiorais!
A sociedade faz essa conta, essa régua, “ah, se você está de Ben 10, você não trabalhou o suficiente”, que nem o nosso companheiro da Praça do Lido. “Você é o vagabundo que não conseguiu estudar, você é o culpado”, e a sociedade e o senso comum estão corretos, nós todos não estamos errando, e o sujeito individual, e olha que a população carcerária do Brasil chegou a um milhão, são um milhão de pessoas erradas e nós, os aqui que estão sofrendo, chorando, também sendo massacrados pela mesma violência. Mas, sobrevivendo nessa lógica, estamos corretos. Não, nós não estamos corretos, nós precisamos fazer alguma coisa, nós precisamos fazer a diferença.
Talvez, senhores, isso me mova de um lugar de, talvez, ter paciência política? O que eu entendo hoje é que é muito importante a gente reconstruir as pontes. Hoje, eu me considero uma construtora de pontes, mas não sei se isso vai me livrar dos quatro tiros”, Thais, porque não é isso que resolve o diálogo. Ser uma pessoa do diálogo, não necessariamente significa dizer que eu vou convencer o outro de fazer o diálogo comigo. Mas a gente tenta, a gente essa é de axé, a gente é de Deus e continua caminhando na tentativa de construir essas pontes do diálogo.
No outro ponto, você perguntou assim: “Cara, como foi a sua experiência de ser uma estudante de arquitetura, sendo uma mulher da Praça Seca?”. Às vezes, eu acordo, assim, “gente, como é que eu consegui?”. Eu tenho 39, não é? Estou cansada. Aí, isso bate com um dado que a nossa juventude hoje, cinco a dez, jovens, ou estão entrando ou já estão em algum processo de exaustão, dado inclusive do Unicef.
Os jovens estão cansados, isso não é um “meme”, é realidade. Aí, a primeira coisa que eu vou te falar é que eu venci o cansaço, porque eu não era diferente, não sou diferente de nenhuma figura da periferia que passa e que passou por um ciclo onde era bem pior. Eu não fui uma cotista, eu não sou da geração das cotas, eu fui da geração do movimento estudantil que implementou as cotas da universidade pública.
Aí, vocês estão fazendo a conta, “’caraca’, essa menina é muito velha”, mas essa é a realidade. Eu entrei na Universidade Federal Fluminense, sou “ufiana” também, eu vi um “ufiano” por aí. Salve, “ufianos”, a galera da barca que atrasa. Eu sou desse bonde, entrei na universidade em 2004. Eu morava na periferia da Praça Seca, eu sou do Loteamento, uma favela muito pequenininha, que sequer tem nome. Morro do Loteamento, Vila Alta do Loteamento, Loteamento.
Deste Loteamento até o ponto de ônibus, só nessa brincadeira, eu tinha que caminhar todo dia dois quilômetros, dois quilômetros para ir para esse ponto e dois quilômetros, chegando ao ponto, para chegar à minha casa. Em uma casa que é íngreme, porque eu estou falando do Loteamento, que é uma favela íngreme. Sair desse lugar, andar dois quilômetros, pegar o 284, que é o 372 agora, pegar as barcas, andar, porque eu só tinha grana para pegar o 47B. Quem é “ufiano” sabe, só tem dinheiro para pegar o 47B até o dia 15, não é? Do dia 15 para lá, meu filho, mais dois quilômetros para chegar. Vai de canela, vai de canela, ganha presente. “Ah, eu vou pagar passagem para você”. “Ai, obrigado, estou querendo”.
A gente fala na brincadeira, mas tem uma dimensão do cansaço, da exaustão, do tempo perdido, porque a gente está falando de três horas para ir, três horas para voltar. Enquanto qualquer outro jovem, nesse lugar e nesse ecossistema, estava em casa em meia hora, estava em casa, no máximo, em uma hora, eu estava em casa três horas depois. Estou falando também da dimensão da nossa economia, da nossa microeconomia. Do que não se come, de onde não se anda, do cinema que não se vê.
Os nossos jovens passam fome. A vulnerabilidade alimentar, que é o eufemismo de fome, é uma realidade do jovem de periferia hoje. Aí, as realidades, não é? Em Niterói, até hoje tem um salgado, que na verdade é joelho, mas que eles chamam de italiano. E o italiano, na boa, é a renda básica, é a cesta básica de todo jovem preto e universitário do Brasil que faz UFF. Aquele salgado dura o dia inteiro, porque você come a metade no almoço e, se você faz uma universidade integral, como a minha, tem que comer aquele joelho às 17 horas, senhores, para conseguir chegar a casa às 23 horas para jantar.
Se tiver pouca “ração”, às 23 horas, você vai dormir, você vai acordar, tomar uma água, ir para a universidade e se virar com aquele joelho do almoço. Assim, o ciclo da nossa alimentação acontecendo. Vamos combinar? Esse ciclo, senhores, nós estamos vivendo hoje. Se estivermos, porque, em minha opinião, o processo de desescolarização impacta diretamente a juventude que quer ser universitária.
O nosso jovem não está completando o ciclo universitário. O sonho de Brasil, ao qual eu fiz parte em 2002, para fazer o vestibular em 2003 e ser uma acadêmica em 2004, não existe mais. O jovem que encontra a Thais na Praça do Lido não está pensando nas formas e nas estratégias que ele vai fazer, no italiano que vai comprar nas barcas para conseguir encarar um dia de trabalho e de vida universitária. Ele não está nem pensando na vida universitária, porque não tem acesso à vida universitária.
Um dos principais projetos que a gente tem tocado no Debate da Juventude, lá no mandato, em uma discussão de extensão de mandato, é o Encceja, substituiu o meu entendimento de pensar os cursinhos pré-vestibulares. No primeiro dia de mandato, eu pensei: poxa, eu vou estimular vários pré-vestibulares, porque é muito importante para a nossa juventude.
Eu sou uma mulher de movimento estudantil. É muito importante a gente ter pré-vestibular. Eu tive as pernas cortadas, porque descobri que a minha juventude preta, a minha base, que dialogava junto comigo, olhava para mim e falava: “Preta, eu não terminei o Ensino Médio. Eu não terminei o Ensino Fundamental. Então, eu acho legal ter o curso pré-vestibular.
Eu não preciso de pré-vestibular, preciso terminar o meu 6º ano, o meu 7º ano”. Aquilo me impactou de uma forma. Eu falei: “gente, é serio que eu estou há 15 anos fazendo isso e a gente está falando do Ensino Fundamental ainda?”. Como se a gente estivesse no século XXI, mas, na verdade, a gente estivesse falando de dados dos anos 90?
É inacreditável olhar para um jovem de Paciência e dizer que ele está na bolha, não é? Mas você está na bolha, porque você está vivo, no ar condicionado, na Câmara de Vereadores. Isso é muito potente. É a geração que move mesmo. Fique firme. Fique viva. Eu tinha muito essa perspectiva, dormindo, roncando nas barcas às 22 horas. Eu preciso estar viva. Voltar para o tiroteio da Praça Seca, porque a minha mãe e a minha avó preta estão vivas, senhores, e me esperando. Acho que isso me impulsionou a construir a política que eu faço hoje, que eu penso e emano.
Paciência, equipamentos culturais. Gente, eu fico deprimida quando o debate é cultura na periferia. A gente fez alguns projetos e algumas provocações ao Executivo este ano. A gente começou e um dos primeiros projetos de lei que a gente protocolou foi o Favela Faz Cultura, que é brincar com o ISS do Município; que produziu, obviamente, formulou o edital do Foca, que é a política de fomento do Município do Rio de Janeiro desterritorializado.
O que é isso, Tainá? A gente tinha, até 2019, uma política que era o seguinte: 75% do orçamento dos equipamentos culturais eram centralizados no Centro, literalmente, e na Zona Sul. Aí, era o Oi Casa Grande, o Oi Futuro, o Sérgio Porto, Teatro Carlos Gomes. Não me cortem e me cancelem nas redes sociais, mas vou falar o seguinte. Cultura na Zona Sul e no Centro é mole, queridos. Mas vamos combinar, como estão as Lonas Culturais, as poucas Lonas Culturais que a gente tem na periferia e na quebrada? Na Maré, meu filho, é toda uma guerra para trocar uma lona de plástico, cheia de tiro, há um ano e quatro meses, porque custa R$ 180 mil. Isso precisa ser dito. Eu preciso dividir com vocês.
O Centro Cultural Dyla de Sá, que me ensinou violão na minha “quebradinha”, na Praça Seca – porque eu toco violão por causa do meu Centro Comunitário Cultural –, está com uma televisão quebrada. Uma TV quebrada de R$ 2.500,00. Eu estou pedindo uma TV para um centro cultural, que, cara, ensinou violão para a Tainá de Paula. Esse centro cultural é muito importante. Ele é transformador. A minha avó me colocou no ensino do violão porque eu tinha sido convidada, naquele ano, para ser vapor. E ia levar uma grana. Ia ser uma grana violenta.
Eu ia estar, imagine, “Tainá Perigosa”, virar série. Sei lá que raios eu ia ser. Mas, gente, esta aulinha de violão impactou a minha vida para sempre. Eu fiz balé, eu fiz a prova do Pedro II; eu entendi de arte e cultura; eu quis ser arquiteta, por causa do raio daquela aulinha de violão, gente. Eu sei ler uma partilha. Aprendi a gostar de outros livros, que eu não acessava só no meu ambiente escolar. Isso é muito importante.
Aí, eu quero muito, e a gente faz uma disputa pesada, do orçamento público, para a periferia. Mas eu vou dizer o seguinte: a cultura e a arte são construídas para as elites. É uma disputa que a gente tem que fazer. E aí, qualquer mobilização, qualquer quebra-quebra, panelaço, slam, roda de rima, na porta da Prefeitura, na quebrada de vocês, se vocês quiserem mobilização, me chamem e me convoquem, porque eu acho fundamental e central para a construção da nossa humanização nós disputarmos os equipamentos culturais na periferia, na favela e na quebrada. A última coisa foi uma provocação de Thais, o que a gente faz com o Paulinho.
A gente é meio Paulinho, não é? A gente é forjado em um lugar de muitas ausências e de poucas proposições de solução. Eu sou uma mulher forjada na reivindicação: reivindicação, tem que ter água; tem que ter isso, tem que ter aquilo. Nossos corpos! E os pretos morrem! E aí, em algum momento da minha trajetória, eu me dediquei a virar especialista de soluções.
Eu queria falar num diálogo até que é um pouco o que organizou a vinda de vocês, que é a discussão de mobilidade. Não acreditem, não acreditem que as políticas públicas virão daqueles que já estão consolidados nos espaços de poder. Sejam especialistas das liberdades dos meninos pretos da Praça do Lido.
Façam Direito, sejam promotores públicos, passem nos concursos. Nós organizamos pelo mandato um programa de aceleração de mestrandos negros e negras na Cidade do Rio de Janeiro, especializado em políticas étnico-racial, porque nós precisamos de especialistas em sobrevivência e resistência! Esta solução não virá do Estado, da forma que ele se organiza: burguês, classista, racista e antipovo – não virá!
Eu provoco com a solução que eu considero a mais estratégica hoje. A solução dos nossos caminhos políticos não virá de quem produziu e fomentou a maior venda armas que esse país já teve desde o período colonial. Não virá do Bolsonaro.
Esqueçam de qualquer fake news, qualquer mentira, qualquer barbárie que vocês ouviram sobre o Presidente Lula, sabe por quê? Porque ele é nordestino, ele tem nove dedos, ele é sindicalista, ele tem cara de pobre. E pensem vocês que eu estou falando aqui que os pobres são odiados pelas elites brasileiras, não são? Eu não acabei de falar aqui que eu passei fome? Que o Estado nunca me viu e não está vendo o menino preto da Praça do Lido?
Então, tratem de se alinhar e entender que a estratégia política da juventude ferrada, periférica e favelada hoje é eleger o sujeito que parece e vem do nosso chão. Estejam atentos que vocês têm a responsabilidade de construir o futuro, de se especializar nas nossas resistências, e sobrevivências, e eleger a ponte para esse futuro que a gente precisa construir, que é o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva!
O SR. ARTHUR VIANA DE ANDRADE – A pergunta foi muito difícil, na verdade, mas acho que a resposta meio que ela já foi contemplada em algumas falas. Eu acho que a fala, finalizando agora, é um pouco disso, e acho que a gente tem que pensar também em inverter um pouco essa lógica.
Eu fiquei pensando muito nisso, em como que a gente possibilita o acesso da Zona Oeste à cidade, mas a Zona Oeste é cidade! Por que a gente não inverte? Por que o jovem da Zona Oeste precisa vir para o Centro da Cidade do Rio de Janeiro para acessar o equipamento de cultura? A gente sabe que a realidade é essa.
Eu também sou fotógrafo, também acabo ocupando alguns espaços de exposições, conheço muitas pessoas, fotógrafos, pintores, que são da Zona Oeste e são da Baixada, que são artistas, e essa galera precisa fazer um rolê monstro para estar nos mesmos lugares que eu, sabe? E a gente tem que inverter essa lógica porque eu sempre falo para a galera: a realidade é a seguinte: quem mais produz, quem tem que falar nesta cidade, neste país, somos nós. Quem produz arte, quem tem subjetividade, quem tem narrativa são vocês.
Por que a gente tem que estar numa exposição na Zona Sul, tem que estar no Centro, tem que vir para a Lapa para produzir alguma coisa? Por que a gente não inverte? Por que a gente não vai para a Zona Oeste, por que a gente não vai para a Baixada, se quem está produzindo é quem está lá nesses lugares?
Acho que muito nesse intuito – minha primeira exposição, e eu sempre faço esses movimentos, pelo menos na arte, de estar retornando para o meu lugar de origem. Eu lembro que, quando eu comecei a fotografar, um dos meus primeiros desejos era ter um quadro meu, uma foto que eu tinha feito – e é isso, é aquele rolê. Por mais que você esteja trabalhando, por mais que você tenha alcançado alguns lugares, você passa pelos mesmos perrengues. Daí eu falei: cara, ainda não está no momento, ainda não estou com dinheiro para fazer essa façanha.
Depois de dois anos que eu comecei a fotografar, eu falei: é isso, agora acho que eu estou numa condição maneira, consigo me propor a isso, mas eu pensei o seguinte: não tem lógica isso. Da mesma forma que eu quero experimentar ter um quadro meu na parede de casa, as pessoas que eu registrei, que são as pessoas da favela, precisam vivenciar isso, elas precisam ter ciência de que esse legado também é deles.
Antes de eu ter um quadro na minha casa, eu falei: vou entregar para a galera que eu fotografei. E tirei dinheiro do bolso, coloquei moldura, e isso, por mínimo que seja, fortalece, cria referências, você cria uma responsabilidade para além dessas produções artísticas.
Eu estou usando esse exemplo, mas isso, como foi dito, cria um alarde, tipo assim: se essa pessoa que está aqui do meu lado consegue produzir isso, talvez eu consiga. É isso, é aquela aula de violão, é a fotografia, é você ajudar a revitalizar uma praça, é você estar nesse espaço que vai possibilitar as próximas gerações, talvez até as nossas, a criar não só narrativas sobre o que está acontecendo, mas possibilidades, e eu acho que eu, por mais difícil que seja, por mais que pareça utópico a gente pensar no modelo diferente do que está posto, é possível.
Eu acho que se não fosse possível não estaríamos aqui, se a gente não acreditasse que é possível mudar esse cenário, não só o cenário político, mas as condições sob as quais nós estamos vivendo.
Acho que ter esses lugares, esses movimentos, eleger vereadores, deputados, que são dos mesmos lugares de onde nós viemos, é muito importante. Eu lembro que quando Marielle ganhou a eleição, minha mãe ficou superfeliz. É isso, nós estamos na Maré, Marielle é da Maré também, e minha mãe dizia: “Caramba, ela veio daqui”; e eu fiquei muito feliz por aquilo, por aquele movimento. Eu ainda não conhecia a Marielle, mas a maioria da galera que eu conhecia teve uma vivência muito próxima a ela, antes mesmo da vida política, e eu lembro que quando aconteceu aquele movimento em 2018, eu pensei: a gente precisa fazer alguma coisa, não é?
Eu já tinha sido atravessado diversas vezes pela questão da segurança pública, tive dois primos executados de forma violenta, em menos de um mês meu tio foi morto numa operação policial, meu tio fazia parte dos grupos civis armados de onde eu moro, e numa operação policial a facadas, qual o discurso que há sobre isso? Foi troca de tiros? Meu tio estava rendido, as pessoas viram. E no que isso resultou? Em nada. Nossos corpos são corpos matáveis. Então acho que, através de outros mecanismos, a gente tenta trazer essa subjetividade, essa humanidade e reivindicar que somos humanos, não corpos inanimados.
Acho que, por mais que a gente esteja minimamente nessa bolha, a galera que eu conheço da Maré não consegue estar nesse lugar, aqui sentado com vocês. Então, a gente conseguir ocupar esse lugar, estar nesse espaço de discurso e de narrativa, de construção coletiva, é também uma responsabilidade para a gente trazer os nossos também, a gente trazer esse conhecimento da galera , a responsabilidade que fica para vocês que estão na universidade é esta: vai lá, se forma, porque eu acho que é difícil entrar, mas é difícil também se manter nesse lugar.
A gente está ouvindo aqui os relatos. Sempre quando a Tainá ou a Thais estão falando, fico vendo a reação de vocês, que estão vibrando, porque é uma realidade muito próxima a de vocês. Mas fica também a responsabilidade de devolver esse conhecimento para o lugar de onde vocês vieram. Não é apenas ir lá, pegar o canudo, se formar e pronto. É sobre como vocês trazem esse conhecimento de volta e constroem a partir desse lugar. É muito importante e emblemático esse movimento.
É isso. É difícil também a gente ter esperança, entre aspas, num futuro melhor, utópico, mas acho que é possível. Eu lembro que na Maré, em 2016, estávamos vivendo um período gigantesco de violação de direitos pelas operações policiais. A gente fez um movimento na Maré, que foi a Ação Civil Pública da Maré. Não sei se vocês conhecem, mas o que acontece?
A Maré moveu uma ação contra o Estado, exigindo que algumas normas fossem feitas para que houvesse operações no território da Maré. Eles não podem entrar de qualquer forma. Seria necessária uma série de regras, de leis. A Maré ganhou, foi a primeira favela do Brasil a mover uma ação contra na segurança pública do Estado e ganhar. Qual foi o impacto disso? Os indicadores de violência diminuíram.
Agora, nós estamos no período da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 635. Se não me engano, dia 5, agora, é o último dia para o Estado apresentar o Plano de Redução de Letalidade. Qual o impacto disso tudo? Como morador de favela, sempre foi muito difícil falar sobre segurança pública.
A gente achou que isso não ia mudar. A gente está vivendo meses e meses sem operações policiais. Qual é o impacto disso? É difícil a gente mensurar, mas quantos jovens, no crime ou não, não tiveram as suas vidas ceifadas durante esses meses? Quantos amigos de infância eu deixei de perder em ações como essas? Portanto, construir coletivamente com essas pessoas é muito importante: construir com a Defensoria, com os mandatos. Unir forças, que para mim é uma experiência, é uma honra muito grande.
Eu sou novo, eu tenho 24 anos. Estar com essa galera, construindo uma coisa que reverbera e impacta diretamente na minha vida. Eu não estou fazendo algo para uma população distante. É para mim, é para meu irmão, é para meu vizinho. Acho que isso também tem um impacto, quando a gente vê que nossas forças estão sendo direcionadas a algo palpável, mensurável.
A Vereadora Tainá de Paula estava falando sobre lona cultural: é um espaço que eu frequento, a Lona Cultural da Maré. Para vocês terem noção, a Lona Cultural da Maré fica numa área conhecida como Divisa, que é uma rua que separa a atuação de duas facções criminosas. Então é difícil para o próprio morador da Maré acessar esse equipamento de cultura porque o morador de um lado não vai querer ir para o meio desse lugar, que é tido como uma área de conflito, uma espécie de faixa de Gaza; e o morador que está mais próximo também fica com receio, porque, a qualquer momento, pode estourar uma guerra.
Ao mesmo tempo, nosso movimento é totalmente o contrário: a gente tem que ocupar esse lugar. A gente não pode deixar a lona cultural morrer. Isso vem de uma série de ações, de revitalizar, de fazer mutirão. Ontem teve na própria lona cultural um concurso de talentos com as crianças. São movimentos mínimos que impactam e criam possibilidades que a gente só vai conseguir ter noção delas daqui a 20, 30 anos; o quanto essas pequenas, microações têm impacto em uma vida.
Acho que é isso, respondendo a sua pergunta: é difícil, mas acho que só é possível se a gente estiver junto nisso. Não há outra saída se não for nesse lugar, nessa construção em roda. Por mais que o formato esteja de mesa, mas é uma construção em roda. Vocês estão aqui também para construir, para propor. Eu quero ouvir vocês, eu quero conhecer vocês. E também saber o que vocês acham sobre os temas, o que vocês agregam.
Eu acho que vocês têm também capacidade de estar nesse lugar. Isso aqui é uma coisa simbólica, questão de mesa e tal, mas eu acho que vocês estão nesse lugar também de propor e de construção de conhecimento de políticas públicas. Eu acho que é também a partir do nosso campo de atuação que a gente pode propor. Tem uma galera que está na canetada como a gente chama, mas que não tem a expertise que a gente, enquanto morador de favela, tem. Então, o que a gente vê no nosso cotidiano, é o que a gente tem enquanto perspectiva que pode dar horizonte e que pode trazer soluções.
A gente está sempre falando aqui em fazer soluções e também me colocando à disposição no caso de Paulinho, não só de Paulinho, mas de outros Paulinhos, porque é isso, esse Paulinho poderia ser eu, poderia ser alguém próximo como eu já tive também. Eu tive um primo que foi executado pela polícia em 2014, foi um caso também famoso, ele estava furtando no Centro do Rio e os policiais botaram ele dentro da viatura e executaram ele no Sumaré.
O Paulinho poderia ser Mateus como foi Matheus. Então, acho que é importante que a gente faça esse movimento, que a gente acolha os nossos. A gente não olhe para o outro por mais que a gente consiga minimamente ocupar determinados espaços a gente tente se tirar desse lugar de: “Ah, não, mas agora eu estou acadêmico, agora não... Agora, eu estou ocupando certos lugares, então, eu não quero ser visto mais como favela.
Estávamos falando sobre mobilidade, sobre acesso, mas quantas vezes nos sentimos constrangidos em falar onde nós morávamos numa entrevista de emprego? Quantas entrevistas de emprego a gente já perdeu por falar que a gente morava na favela? Então, acho que também reivindicar esse lugar é um ato político, é falar que não moro em Bonsucesso não, eu moro na Nova Holanda, no Complexo da Maré. Eu acho que são esses movimentos... Olhar para o nosso passado, a gente sempre está falando isso ... Não tem como a gente pensar no futuro sem olhar para o passado.
Eu lembro também que a gente estava falando aqui que sobre várias paradas e eu estava só visualizando, é uma coisa muito louca, a gente não tem dimensão como que as coisas chegaram e como estão hoje em dia. As coisas não são postas simplesmente porque são, existe um processo.
A gente estudar e conhecer o processo é importante para a gente até mesmo dar valor às coisas hoje em dia. Só para vocês se situarem eu moro na rua principal da Nova Holanda e isso é bem fácil de imaginar e atualmente existem uns quatro ou cinco chuveiros na rua que eu moro, sendo que nos anos 80, os moradores precisavam atravessar a Avenida Brasil com lata de tinta de água para pegar água. Hoje em dia, a gente tem chuveiro na rua. O quanto isso... Foi graças à mobilização, articulação daqueles moradores lá.
Então, aquele chuveiro, o mínimo que seja, é resultado de muita luta. Olhar para aquele chuveiro não é apenas só poder encher um balde enquanto a bomba lá de casa não está funcionando, mas é pensar o quanto o chão que a gente pisa só foi possível graças a uma galera que veio antes da gente. Então, é isso, é responsabilidade.
Como que eu cuido desse chuveiro? Não posso deixar esse chuveiro aberto. É em respeito, cara, em memória. Eu tenho que cuidar desse espaço, não posso deixar lixo. O quanto também andar, transitar pelos nossos bairros também é um lugar de não acesso minimamente.
Quantas vezes você compra uma coisa na rua, aí você acabou de comer e você não tem uma lata de lixo para jogar? É a gente pensar nisso tudo, olhar para o nosso entorno e pensar o que pode ser feito? A gente articular, conversar com a Comlurb, com a associação de moradores... A gente tem o contato agora. É isso, Tainá e Thais estão se propondo a estar mais próximo da gente, não que elas não tivessem, mas acho que é importante também utilizar desses mecanismos, dessas figuras, dessas pessoas para a gente construir coletivamente e se fortalecer.
Eu acho que a gente também está nesse processo não só de cansaço, mas também de adoecimento e quando a gente também está junto a gente está se cuidando. Acho que nem todo mundo tem dinheiro para uma terapia, mas buscar ferramentas e mecanismos de sobrevivência para que a gente não apenas precise sobreviver também, mas que a gente consiga ultrapassar barreira e consiga viver. Eu acho que é mais ou menos isso.
O SR. FILIPE LOPES – Obrigado, gente.
A gente já está chegando ao final, eu sei que vocês têm um horário apertado, já fui chamado atenção aqui pelas meninas, mas aí só para finalizar, o Matheus, que ficou de fazer uma pergunta e, quando vocês responderem ao Matheus, acho que já pode fazer a fala final de conclusão. Só não saiam correndo. Oi?
Sim, depois de Matheus, então. Aí, eles falam... Olha, a culpa não é minha. A gente está agendado para fazer um tour ainda pela Câmara, que eu vou fazer com vocês, e tem mais outras atividades e tal, tem a questão do horário e o lanche. Então é isso, está bom? É só para fazer essa dinâmica. Eles dois vão falar, vocês respondem e já fazem a fala de encerramento. Não saiam correndo para a gente poder fazer a foto também. É isso.
O SR. MATHEUS RAMOS FERREIRA – Oi, pessoal. Bom dia, Arthur, Thais, Tainá.
Vocês responderam basicamente, acabaram de responder a tudo o que eu ia perguntar. Antes de tudo, meu nome é Matheus, eu moro na Taquara. Eu nado na Praça Seca, na Vila Olímpica. Eu tive que faltar a natação hoje para vir aqui, mas o pessoal lá é de boa com isso. Eu não sei se eu tenho uma pergunta, mas acho que é um comentário, porque eu não sei a idade de cada um. Eu estou com 25 anos, passando por essa fase de transição que pega muito o cansaço. Eu estou numa reta final de uma graduação, faço Direito na Uerj, e desde os meus 10 anos de idade, eu estou nessa labuta de educação formal. Vem para o centro, vem estudar, pega ônibus.
Para mim, não era um problema, porque eu sempre gostei muito de transporte público, sempre gostei muito de ônibus, então sabia de cabeça a mudança das linhas, queria saber tudo, queria andar mesmo, queria conhecer, gosto do Rio de Janeiro, perambulo por um monte de lugar. Fui da UFF também, passei por esses perrengues todos, economizava dinheiro, às vezes pegava uma caroninha e pegava o antigo 269 que vai para Curicica, o 390, para conseguir pagar passagem.
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Eu também tenho essa coisa de saber linha.
O SR. MATHEUS RAMOS FERREIRA – É, saber linha. É um marco muito da cidade. Ter o motorista favorito também. Esses marcos, assim... a tropa do ônibus de tal horário, tal ônibus, você conhece as pessoas. É, você vai trocando, vai conhecendo se o ônibus já passou, se não passou.
É, tudo isso, tudo isso a gente conhece. É um levantamento que eu ia fazer para vocês. Como fazer política pública pensando nesse lado mais humano, porque tudo sintetiza no que a gente está sentindo no momento. Porque, na verdade, é o seguinte, o Brasil passa por uma crise de ânimo, acentuada desde 2016, uma crise de ânimo que pega o corpo de uma maneira desesperançosa.
Eu peguei esse período de 2013, eu tinha 16 anos, então eu fui à passeata, eu vi, eu vi a transformação, eu peguei a eleição de 2014, o pau quebrou em 2014, eu peguei bem já o golpe em 2016, eu vi a destituição da presidente de uma maneira tosca, eu peguei 2018 já com 21 anos vivendo, já prevendo que a merda iria explodir de uma maneira muito sinistra.
Agora, falando um pouco sobre educação formal, crise de ânimo e tudo mais, a gente está passando por um momento em que os jovens de fato não querem mais estudar por uma coisa rápida, por uma demanda pontual: dinheiro. Não dá dinheiro.
Eu estou passando, eu falo para vocês, eu estou passando por esta reta final de transição aí, que em um ano eu posso terminar uma graduação legal, bacana em Direito, e terminar desempregado, sem saber o que fazer. Então, eu levanto essa bola para vocês. Como pensar em política pública dessa maneira individualizada, humanizada, porque o corpo das pessoas está sendo dominado nesse ponto.
As pessoas estão com desânimo, as pessoas não estão dormindo, os jovens estão exaustos, e os jovens, querendo ou não, a galera que vai entrar no mercado de trabalho, que estava com aquele gás, “vou entrar, vou fazer o meu melhor ali para desenvolver alguma coisa de profissão”, a galera não está mais assim, porque está nessa crise de desânimo, não sabe se vai ter emprego e, quando tem esse desânimo, tudo pode acontecer.
O Brasil está entrando num processo muito violento. Está acontecendo muita violência, violência tanto no corpo assim direto, violência policial... Sempre existiu, mas parece que a gente está sendo levado desde 2018 para isso, para essa finalidade, um salve-se quem puder, e entra muito nessa questão que vocês falaram do mérito. A gente tem uma narrativa construída para mim do mérito.
Para mim, o Brasil entrou finalmente entrou na parte mais nefasta que existe sobre o liberalismo. Quem sobrevive é porque tem mérito. E não é assim. As coisas não são assim, mas o Brasil está experimentando isso. E como as políticas públicas, como se pensam as políticas públicas para fazer e para quebrar um pouco o efeito disso, porque todos foram, pelo que entendi, militantes, todos participaram de algum movimento...
Muita gente até quer participar, mas, por exemplo, eu moro na Taquara. Eu nunca vi nada. Eu nunca vi nada próximo a mim. Para quebrar essa barreira, como faz? Porque são barreiras que marcam o corpo da gente. Eu me lembro quando eu era novinho, estudei no Pedro II aqui do Centro, estudei bastante tempo lá, e senti uma diferença... Mas senti um processo de informação de corpo que era assim... Os meus valores, aquilo que cultuo de fato não está presente. Como é que vou fazer isso aqui ficar presente neste lugar?
Falo verdade para vocês, eu não abandonei a escola, não larguei de mão do Pedro II por causa da música, por causa do campo, por causa de batuque, de escola de samba. Foi por isso. Aprendi a tocar um instrumento musical lá, a caixa, e por isso fiquei, porque tinha um espaço para tocar lá e virei ritmista e hoje toco em escola de samba. Foi por isso. Uma demanda curta, não foi para educação formal que vai me levar... Não, foi uma demanda curta. Foi um instrumento musical que salvou um pouco a minha vida.
Eu pergunto a vocês, nesse momento como pensar essa política pública que afeta os indivíduos nessas pequenas demandas, porque as pessoas estão passando fome, as pessoas estão desempregadas, as pessoas se não estão desempregadas, estão cada vez mais com medo de perder empregos, sendo jogadas a essa ideia de que se você é bom, você se faz por si mesmo.
Isso é uma narrativa, mas a gente não pode se esquecer de um Brasil que não tem nem base material, para lidar com isso. Falando de mercado financeiro e tudo mais... Enquanto tem gente aqui no Rio de Janeiro, do nosso lado, não muito longe, que está passando fome. Que está, com todo respeito, mas é a palavra, está na merda. E sem perspectiva de sair disso...
A SRA. LETÍCIA CASTRO − Bom dia gente. Sou Letícia, sou mobilizadora do Nossas, sou de Campo Grande. Letícia Castro, represento Meu Rio também e queria falar duas coisas. A gente aqui estava falando muito sobre a falta de verba para aparelhos culturais, e recentemente a gente teve um projeto de lei que foi vetado, a lei Paulo Gustavo, e foram quase R$ 4 milhões vetados, e a gente se envolveu numa campanha para que isso não ocorresse.
Eu queria convidar vocês a pressionar nessa campanha é:
http://www.leipaulogustavosim.nossas.org
, e muito nesse sentido de construção de campanhas e tudo mais, a gente está nesse movimento aqui no Geração que Move. A gente tem oito grupos aqui no Rio de Janeiro que estão construindo campanhas pensando na mobilidade no Rio de Janeiro. Então, tem gente que está pensando nas linhas de ônibus que desapareceram, tem gente que está pensando no expresso de Santa Cruz, tem gente que está pensando em mobilidade para quem está no espectro do autismo.
Eu queria saber de vocês quais são as oportunidades que vocês estão vendo agora nesse momento, em que, por exemplo, vão ser votadas no mês que vem. O que está acontecendo em que eles possam se engajar, que eles possam construir uma campanha de pressão política para que alguma coisa aconteça no Rio de Janeiro e que jovens de 14 a 24 anos estejam fazendo essa mudança.
O SR. FILIPE LOPES − É isso, aí vocês respondem já, e fazem essas considerações finais.
A SRA. VEREADORA THAIS FERREIRA − Eu anotei as duas perguntas. A gente também já trocou contato, então, vou mandar as perguntas para vocês no coletivo de vocês e também individualmente, porque infelizmente não vou poder responder, porque tenho que colocar meus filhos na escola, e tenho que conseguir chegar em casa e depois deixá-los na escola, tenho que voltar para trabalhar.
Queria mais uma vez agradecer rapidamente e deixar vocês com mais uma provocação de mais uma pessoa, como a Tainá falou a questão que ela poderia ter sido vapor... Senti uma aflição muito grande, porque isso é uma realidade, mas é outra realidade também que a gente vivencia na nossa mãedata. Estou aqui com a Fabíola, que é minha chefe de gabinete.
A Fabíola é mãe de adoção tardia. A Fabíola adotou dois meninos que, além de passarem pelo socioeducativo, também passaram pelo tráfico de drogas, e eles seguem sonhando. Marcelo, inclusive, sonha com o Direito, fazer Direito, se tornar advogado, defender o nosso povo preto, pobre, periférico e favelado como ele, e defender os Paulinhos, não é?
Quero deixar vocês também pensando sobre como a gente pode fazer com que Marcelo continue sendo ídolo, porque Marcelo é ídolo. Meus filhos acham o Marcelo o menino mais bonito do mundo. Ele é realmente bonitão, mas é só para a gente pensar também nessa perspectiva de que passar por esses processos de retirada, de violação de direitos, não significa ter impeditivo de sonho.
Esses meninos podem, sim, seguir, se a gente fizer esse trabalho de redevolver, redevolver mesmo, porque eles tinham, foi tirada e foi retirada de novo a dignidade deles, e eles conseguem passar por esses processos e estarem tão potentes quanto todo mundo que está aqui hoje, e isso é muito importante.
Pensem em Marcelo, conheçam o Marcelo, sejam amigos de Marcelo, porque ele está provando para a gente hoje, dignamente, através do trabalho dele, através da construção familiar dele, que é possível, mesmo tendo passado por esse processo, ele está de pé e está sonhando em ser alguém ativo na política, e ele já até é.
Obrigada. Um beijo de novo para vocês e vou responder geral. Beijo.
O SR. ARTHUR VIANA DE ANDRADE – Posso responder, então? Eu acho que a sua pergunta... Quero agradecer, maravilhosa, inclusive, e eu fiquei pensando muito sobre a sua pergunta. Como a gente humaniza as ações em relação às políticas públicas? Eu já tinha dado um exemplo da ação civil pública da Maré. O que acontece?
Em 2019, uma juíza falou que não é possível que aquelas normas fossem colocadas em prática, coisas simples que a gente exigiu, que a gente exigia na verdade, como que, em toda operação policial, contasse com uma ambulância, porque as pessoas são afetadas, são atingidas e elas precisam ter um primeiro atendimento, um socorro; que as viaturas e os carros blindados contassem com câmeras de áudio e vídeo, porque a gente sabe que, infelizmente, muitas das violações são cometidas dentro desses veículos e, muitas vezes, os próprios veículos são utilizados para fazer o que a gente chama nas favelas como troia, entra na casa de um morador, espera o final da operação policial e depois efetua disparos, quando todo mundo pensa que está tranquilo, entre outras e outras normas.
O que acontece? Em 2019, uma juíza falou: “Não, não é possível a gente fazer operação policial na favela e... todas essas normas”. E a ação civil pública foi suspensa. A gente ficou em choque, obviamente, todo mundo detonado. A gente falou: “Cara, e agora? Como a gente fala para essa juíza que é possível construir políticas públicas, principalmente sobre segurança pública, através do nosso olhar, que é possível, sim, e que isso afeta a vida dos moradores da Maré?”.
A gente ficou pensando bastante isso. A gente demorou acho que uns dois dias depois dessa suspensão, a gente falou: “Cara, olha só, vamos fazer uma articulação, vamos fazer uma mobilização”, inclusive, pensando muito agora como isso vai de encontro com a fala de Tainá sobre a questão das crianças.
A gente fez um processo de mobilização em que as crianças da Maré, as crianças e os jovens da Maré produziram, criaram cartas. A gente recolheu, num período acho que de uma ou duas semanas, 1.502 cartas em que as crianças e os jovens contavam, não só de maneira escrita, mas crianças mais novas desenharam o impacto da violência em seu cotidiano e em sua vida. Então, muitas crianças fizeram desenhos do helicóptero sendo usado como plataforma de tiro, caveirão, da violência. Muitas pessoas conseguiram explicitar algumas situações e, através desse movimento, foi repensado, e a ação civil pública voltou.
O quanto humanizar esses corpos também é necessário para a gente fazer políticas públicas. A gente não está exigindo que essas políticas sejam feitas em prática apenas por vaidade. Isso impacta diretamente a vida de certas pessoas.
Acho que a gente, nesse momento, entende e fortalece não só o protagonismo do morador, mas coloca esses moradores como os principais agentes dessas ações e, principalmente, as crianças, o quanto essas crianças das favelas são vistas primeiramente como não humanos, assim como a maioria dos favelados, a gente ainda está nesse processo de exigir a nossa humanidade, mas as crianças ainda mais. “Ah, não, poxa, essas crianças não têm o que falar sobre isso”, mas mostrar e fortalecer esse lugar da potência mesmo. Mostrar que as crianças das favelas têm voz para exigir políticas públicas sobre saneamento básico e segurança pública, porque elas são afetadas por aqui.
A gente pensa que não, mas elas conseguem fazer uma percepção sobre seu cotidiano, fazer uma narrativa sobre o que elas não querem. Então, acho que é muito importante conseguir trazer esse olhar mais humano obviamente. Não sei se consegui responder a sua pergunta.
A SRA. JOANA FONTOURA – Eu falo? Você encerra, beleza.
Bom, eu a vi dizendo: “Queria tanto fazer uma pergunta.” Ou seja, significa que este momento foi muito especial. E não pode ser só esse, porque a gente sempre tem outras questões. Ouvindo todas as falas hoje, acho que fica bem claro que mobilidade não é sobre transporte, não é só sobre circular fisicamente dentro do ônibus, do trem, seja qual for o transporte que a gente queira.
Vocês trouxeram uma proposta de bicicletas, não é? Então, depois vamos trazer o conteúdo. Mas acho que a fala é sobre o direito de ser adolescente, direito de ser jovem na Cidade do Rio de Janeiro. A gente trouxe o debate público “Juventude, Mobilidade e Cidade”, mas eu diria que são juventudes, são muitas trajetórias que vocês colocam. É diferente demais ser um jovem na Taquara, na Pavuna, na Maré; e são um cidadão e uma cidadã do Rio de Janeiro. Então, como a gente coloca e aprofunda isso em outras ocasiões?
Tainá, acho que isso é válido demais. Engraçado que, quando a gente organizou esta Mesa, pensou: será que precisa desse tempo todo? Será que eles vão querer falar? Será que eles vão estar à vontade? Aí, obviamente, vocês mostram o quê? Que a gente precisa de mais tempo, que a gente podia ficar aqui o dia inteiro conversando, trocando e pensando.
Aí, vocês perguntam sobre otimismo, sobre sonhos e sobre construção. É isso, nós estamos aqui para construir possibilidades juntos, reflexões e pensar em oportunidades possíveis dentro de toda a realidade e das limitações que foram trazidas também, no orçamento – a realidade dura da política pública. No entanto, vocês são agentes dessa transformação. Esse nome “Geração que Move” é muito emblemático, pois é uma geração que move, que se move e que move outras pessoas. Então, que também seja esse momento de consolidação dessa rede, de vocês se entenderem também como parte dessa roda.
Arthur trouxe essa metáfora da roda. Acho que a gente precisa ter também essa missão de que vocês agregarão outros a essa roda. E que vocês têm seus grupos na escola ou onde quer que vocês participem. Então, essa missão é grande, mas sempre com muito cuidado, porque algum trouxe a palavra “cansaço” mais de uma vez, exaustão.
Acho importante a gente falar sobre a participação e a saúde mental, porque a gente fica querendo sempre assim, e não é para ser mais uma pressão: “Olha, vocês têm que participar assim, vocês têm que fazer assim, vocês têm que fazer assado.” Mas é importante, porque o impacto disso também, da própria mobilidade, dos desafios da mobilidade na autoestima de vocês, na construção da identidade.
É importante a gente ter em mente, porque não são vocês, somos nós que estamos aqui conduzindo o Geração que Move, que é parte. O direito à saúde mental também é acompanhado do autoconhecimento, e como é relevante fortalecer dentro de todos esses desafios que foram postos aqui anteriormente. Acho que não tem necessidade de eu reforçar, mas acho que é bom também falar sobre isso e como tem aumentado o número enorme de ansiedade, depressão, tentativas de suicídio, automutilação ou autolesão.
Eu acho que é bom a gente poder colocar isso também na discussão, porque parece que é muito distante do tema da mobilidade, mas não é; eu acho que é o direito mesmo de existir.
Aí, fica aqui, Tainá, o meu agradecimento a você e ao seu mandato diretamente, mas também a todos os envolvidos. Arthur está aqui também, se colocou de corpo e alma. Eu acho que é isso que a gente também que identificar. Alguém perguntou assim: “Mas como é que faz?”. Fazendo. É a gente se colocando e se disponibilizando a construir uma realidade melhor, pouquinho em pouquinho. Não vamos também nos pressionar mais, porque vocês já são cheios de tarefas e de missões e de funções no mundo, mas o direito de sonhar também é importante que a gente coloque, que vocês se sintam parte desse processo.
Acho que, para finalizar mesmo, para o Unicef é muito especial estar aqui, e eu gostaria que a gente fizesse isso com mais regularidade, que estejamos aqui no momento em que eles possam apresentar as campanhas daqui a algum tempo, quanto tempo a gente pode pensar em já voltar consolidados, com ideias consolidadas, e que a gente exercite mesmo isso. Onde tem oportunidades como a Letícia trouxe. De fato, como é que a gente pode impactar. Esse grupo está aqui muito ativo, muito afim, então, acho que merece esse nosso encaminhamento, se você me permitir.
Então, obrigada, e vamos depois para a visita, não é?
A SRA. PRESIDENTE (TAINÁ DE PAULA) – Joana, que delícia te ouvir, te conhecer pessoalmente. Gratidão, uma gratidão institucional pelo Unicef, enfim, acho que tem contribuído muito para esse contexto dramático que a gente a vive, em outras pautas, pauta da infância, na pauta da primeira infância, eu acho que a gente tem muito para desdobrar a partir desse encontro presencial aqui hoje.
Eu quero responder e perguntar para o advogado. Qual é o seu nome? Matheus, eu já tenho o meu deputado federal de 2026, você é maravilhoso, você é incrível, um excelente tribuno, um excelente orador e um sujeito político muito potente, porque você coloca elementos, não é, Arthur, muito acertados do que está acontecendo. Olha, a gente vive uma crise de ânimo. Tem uma crise democrática? Tem. Tem uma crise institucional? Tem. Tem uma crise de representação? Tem. Mas o jovem tá boladão, a gente está cansado.
E eu acho que tem impacto na política pública. A gente precisa de mais Centros de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi), como é que a gente tem mais nos territórios. O CAPSi, para quem não conhece, é um centro de atendimento psicossocial que funciona especificamente para a infância e para a adolescência, e quase não tem. Se a gente está falando do nosso uso agudo de álcool e drogas – a gente nem falou sobre drogas aqui, é um tema que gosto muito de tocar e tangenciar. Inclusive, eu entrei no debate da saúde mental por conta do uso agudo de álcool e drogas.
Eu perdi um primo também, Arthur, para a cadeia, do crime do tráfico; eu acho que a esquerda fala mal sobre o ecossistema das drogas e sobre o debate da segurança pública, e eu tento qualificar muito o debate entendendo do meu lugar de morar em frente à boca de fumo e do meu lugar, hoje, de urbanista, parlamentar, como é que a gente dialoga com o sistema penal punitivo do Brasil, como é que a gente fala do encarceramento, mas também como é que a gente não romantiza a discussão da ocupação dos territórios e como é que a gente faz um discurso mais qualificado.
Quero muito retornar, Joana, com eles, para a gente falar do uso agudo de drogas e como é que a gente precisa reivindicar esses espaços de saúde e de vida nos nossos territórios e nossos lugares.
Eu acho que não tem uma receita pronta, mas eu indico para vocês, eu devolvo o questionamento. Tem um lugar de quem está são, e todo mundo nessa sala tem um lugar muito único de estar vivo e de estar são. Vocês estão sãos do ponto de vista, claro, das possibilidades psíquicas, sociais e mentais de se locomoverem, de discutirem, de dialogarem, de estarem com a parlamentar, e vocês são muito únicos, porque a juventude não está assim.
A juventude vive um processo de neoescravização. Achei interessantíssimo você colocar o neoliberalismo aqui, porque a fase aguda do neoliberalismo é aquela que descarta a gente. Não tem trabalho. Por que a gente está desempregada? Porque a indústria 4.0, a indústria é “estandardizada”, a indústria e o comércio, setores produtivos estão num nível de padronização em que nós somos substituídos por bots por entrega, por e-commerce e descartados. Em um país, numa sociedade capitalista e racista que estrutura o racismo para produzir mais e descartar mais, é óbvio que descarte vem na base do desemprego, mas vem na base da bala também, a gente pode morrer.
A necropolítica funciona muito bem num país escravista, de base capitalista, porque ninguém reclama quando a gente é descartado. Eu não sabia mesmo o que fazer com esse preto. Fecha uma conta, uma tabela do mundo do capital, que é: os descartáveis não são apenas aqueles que estão na porta do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (Suas). Os descartáveis precisam ir para o caixão. E entendendo que vocês estão vivos e fugiram das balas, e tem pouco jovem preto fugindo da bala, tem pouco periférico fugindo da bala, usem isso muito bem e usem isso de forma muito estratégica e de forma muito responsável.
Posso fazer aqui uma fala muito dura com vocês, mas eu vou fazer. Não descartem a vida de vocês, entendam a responsabilidade de vocês, porque vocês estão vivos. E isso é muito potente, e isso é muito revolucionário. Porque a vida hoje neste país nos convoca aos processos de organização, dialogando muito com o que a Vereadora Thais pontuou. Ela sempre brinca comigo, “ah, Tainá, você é muito organizadinha, você sempre se organizou desde muito cedo”. Eu sempre fui muito organizada mesmo, eu sou organizada até hoje.
Eu sou uma militante que acorda às 6 horas e dorme às 2 horas da manhã e que organiza a agenda do dia e que faz tudo como se fosse o primeiro dia e o único dia. Isso se chama disciplina militante, e a disciplina militante é algo muito estratégico para a nossa sanidade mental e para a nossa estratégia. Porque ninguém diz: “Olha, estuda, tem que se organizar, fica vivo, caminha na luz, não vai por aqui, olha a rua escura”. É raro, é que nem trevo de quatro folhas; é raro, mas acontece.
A gente precisa ser muito estratégico nos nossos caminhos, nos nossos movimentos, nas nossas escolhas. Aquela coisa que a branquitude tem, que é a possibilidade do erro: “Eu posso errar, eu posso ter o ano sabático” – branco tem ano sabático. Os blogueiros, eu fico vendo no Instagram, adoro o Instagram de rico: “Ah, eu estou tirando uma ano sabático em Nova Iorque”. Caraca, você está há um ano sem emprego. Maluco, isso é privilégio nível hard. “Ah, eu estou passando três meses na ilha de Angra”. Eu sigo todas as blogueiras brancas, loiras do Brasil, porque eu acho aquilo o máximo. Poxa, eu quero relaxar, meia página de livro, cinco minutinhos de Instagram.
A gente entende que esse não é um lugar de privilégio, de perder tempo, o tal do ócio criativo que as pessoas escrevem, que a gente não tem o mesmo. O nosso ócio criativo é ouvindo o podcast e lavando louça, cuidando do irmão, cuidando do filho, indo pegar a criança, que nem a Vereadora Thais Ferreira.
O nosso ócio criativo é produzir mais, é ter sobrecarga tripla, quádrupla, e entender que mesmo nesta tragédia de sobrecarga mental, laboral, psíquica que a gente vive, cara, nós temos o privilégio enorme de estar vivos, e isso nos coloca e nos convoca à responsabilidade.
Eu acho que as organizações são, na escala institucional, no meu espaço acadêmico, no meu espaço estudantil, no espaço da minha associação de moradores, eu acho que os jovens disputam pouco a discussão comunitária, a vida comunitária. A organização comunitária do Brasil envelheceu. Tem um dado do professor Orlando Junior de que 70% dos articuladores comunitários presidentes das associações de moradores hoje no Brasil são de 50+. Isso é grave. Ou vocês estão morando onde?
Os jovens de Paciência acham que moram onde? Em Del Castilho? Não. Nas discussões comunitárias. E a gente não pode generalizar e deixar num lugar comum de que “ah, o meu território é ocupado pela igreja e pela milícia, e não dá”. Nós somos seres políticos, do diálogo, a gente sabe muito bem.
Quando a gente quer atravessar uma boca, a gente não desenrola? A gente desenrola. Quando a gente quer falar com uma obreira, um obreiro, a gente não desenrola? Para ter aquela cesta básica, para ter aquela fralda que a Igreja Universal distribui, mesmo não sendo da igreja? A gente desenrola com a obreira para conseguir. Como? Nós não estamos construindo inteligência política territorial para fazer as nossas ocupações também. Por isso, eu acho muito potente as organizações de cultura. Existe um projeto político de ocupação da nossa quebrada, que acontece de forma não organizada, não institucional. Não é o grande movimento revolucionário X, Y, Z que está fazendo, mas é o meu slam de Paciência.
Eu tenho que apresentar um jovem por que eu sou apaixonada, o Osmar Paulino, que é um periférico caxiense que, lá pelas tantas de 2016, decidiu o seguinte: “Nós precisamos ter, vejam vocês, uma semana cultural em Caxias. E nós vamos ter”. Mas, Osmar, você tem certeza que vai ter espaço? Eu supermedrosa. Você tem certeza que vai dar para fazer na periferia de Caxias, lá em Gramacho? Uma bienal da arte e da cultura? “Vai, vai dar certo”. Desde então, o Osmar Paulino constrói a maior rede de produtores culturais de Caxias que já se viu.
Sejam Osmar Paulinos, construam das menores insurgências, das pequenas brechas que vocês conseguirem, as suas próprias organizações. Que seja pela água, que pela creche, pelo ponto de ônibus com cobertura, porque são demandas, Joana, que chegam ao nosso mandato. A gente não é sommelier de pauta. A gente encampa todas que venham da periferia, que venham da favela, que venham da quebrada. E, daí, as provocações, que Letícia provocou aqui. Eu tenho três pautas, pelas quais eu acho que os jovens podem não só ter empatia, mas se sentirem inseridos nelas.
A primeira é a moradia universitária no Centro. Recentemente, o Rio de Janeiro aprovou um projeto de lei chamado Reviver Centro. Só que revive mais ou menos, porque revive para a classe média alta que tem dinheiro para pagar essas unidades habitacionais. Existem vários empreendimentos pipocando, que começam de R$ 500 mil para cima. Então, não são vocês, jovens universitários, jovens da quebrada que estão comprando. Qual é a contrapartida desse projeto? Construir moradia para aquelas pessoas que mais precisam.
Ao invés da jovem de Paciência, da jovem de Inhoaíba ficar três horas esperando a Supervia, por que não estudar quatro anos, morando no Centro, em uma moradia universitária? Existiu essa emenda. Essa emenda foi aprovada e agora nós temos que pressionar para que o Executivo construa o tal pátio habitacional para a juventude. Tem que ter moradia para a juventude no Centro.
Não é essa palhaçada de “tem que ter, mas precisa pagar.” Não, tem que ser pública. Se quiser alugar para a gente, a gente topa, mas tem que ter um aluguel escrito lá: locação universitária social. Barato. Tem que ser, no máximo, 10 joelhos. Se não, a gente não consegue pagar. Essa é a primeira pauta que eu acho que vocês podem topar encampar.
Letícia, tem que ter o bilhete carioca da juventude. Tem que ter. Nós estamos no ano de discussão do Plano Diretor. Não tem como nós não disputarmos recursos para pagar o nosso bilhete. E, aí, eu não quero bilhete que só vai e vem da escola. Só vai e vem da universidade. Porque jovem faz mais coisa. O jovem quer ir à exposição do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) para ver a piscina em que a gente tira foto dentro. A gente precisa ir para o Museu do Amanhã para aquela parada em que a gente vê as estrelas. O bilhete tem que ser mais barato para a juventude, diga-se de passagem, porque R$ 60,00 não dá.
A gente precisa ir para o cinema, para ver o Doutor Estranho 2 e 3. A gente precisa de outras existências do que sobreviver para o trabalho e para o espaço escolar. Isso apenas não nos encerra. Então, tem que ser universal.
Não é um bilhete apenas universitário para ir à universidade, contando que a gente tem que andar, o bilhete universitário nem dá para a gente chegar à universidade de fato. Porque ou você paga a barca ou você paga o 47-B, porque não tem integração no Estado do Rio de Janeiro e na Cidade do Rio de Janeiro, a gente sabe bem.
Quem pega dois ônibus, três barcas, um trem, um VLT, um BRT, sabe bem o que eu estou falando.
Nós passamos por uma discussão longa sobre o bilhete eletrônico aqui na Cidade do Rio de Janeiro, o projeto de lei da bilhetagem eletrônica, que foi específico para o BRT, mas que vai valer para os outros modais. “Tainá, o que é modal?” Os tipos de transporte.
Aí, a gente pode ficar, durante horas, no debate do transporte público, quais são os tipos de modal e como está tudo errado na Cidade do Rio de Janeiro. Horas.
Eu acho que a gente devia investir no sistema aquaviário, por exemplo. Eu tenho uma pauta aqui dentro que é municipalizar o transporte aquaviário das regiões insulanas, Ilha do Governador e Paquetá. Não dá para a gente ficar reboque de uma política do Estado que não existe. O Governo do Estado é uma fake news, não é?
É o sujeito que fulanos elegeram, sei lá quem votou no Witzel. O sujeito assumiu e o sujeito botou o Juninho do Pneu, que não entende nem de pneu e nem de transporte público, para ser Secretário de Transporte do Estado do Rio de Janeiro. Isso é uma piada. E para dar conta de Paquetá e Ilha do Governador. Digo mais: tinha que ter a barca Maré-Praça XV desde os anos 1960. Assim como a Avenida Brasil já nasceu velha, o BRT já nasceu velho; aquém da sua capacidade.
Alguém tem que falar isso e vai ter que ser a favelada arquiteta para falar. O BRT não vai prestar nunca, porque ele nasceu equivocado. A gente vai começar a entender: “Poxa, por que tem metrô para Barra e não tem metrô para quebrada?”. Por que a gente está torrando tanto dinheiro com BRT, em 2022... Caramba, por que não bancaram logo o metrô?
Vocês estão cobertos de razão. Já teríamos pagado a obra inteira de um metrô. É para dar “faca na barriga” de ódio? É. Porque dá raiva. Isso é má gestão e incapacidade de entender quais são as necessidades da periferia e como a boa política pública para a periferia precisa ser constituída.
Vocês precisam ocupar esses espaços. Vocês precisam se eleger. Vocês precisam ser prefeitos. O Rio de Janeiro precisa de um prefeito periférico. Não esse fake news aí, com um chapeuzinho Panamá. Acordem.
A lógica precisa ser invertida. A periferia precisa ser o novo Centro do Rio de Janeiro e o Centro do Rio de Janeiro precisa ir a reboque da centralidade e das necessidades da periferia. Gente, são 7 milhões de pessoas aqui no Rio de Janeiro. Sabe quantas pessoas moram na periferia do Rio de Janeiro? São 5,5 milhões de pessoas. As necessidades de 5,5 milhões de pessoas estão a reboque, sempre, do 1,5 milhão que fica brincando de VLT no Centro da Cidade, indo aqui da Cinelândia até o aeroporto, gente.
Vocês estão andando de avião? Vamos falar a verdade aqui? A política da cidade funciona para as minorias e não para as maiorias. Acordem.
Como última pauta, tem 555, mas como a última pauta... A Letícia falou para ontem, não é? Pode falar longamente sobre todas as vozes que o mandato está tocando, e a gente mobiliza. E vocês vão passar a receber os informes, o WhatsApp, se quiserem. Mandem “oi”, a gente tem “zap” para chamá-los e convocá-los para as outras pautas do mandato.
Como última, nos próximos dias, nós vamos protocolar o que a gente está apelidando de Projeto de Lei das Liberdades, em diálogo com Paulinho, que a Thais trouxe aqui, em diálogo com as Tainás, e em diálogo com o Mateus. Eu encerro aqui a minha fala falando de Mateus, da importância de a gente reverenciar essa figura.
O Projeto de Lei das Liberdades foi construído com os familiares, vítimas da violência do estado, que ou tem seus familiares, seus filhos, enfim, em medida socioeducativa, em restrição de liberdade, ou foram vitimados pela violência, impactados pelo genocídio e não estão mais entre nós.
Existe uma série de responsabilidades municipais sobre as medidas socioeducativas que não são cumpridas. A gente entende que estas não são restritivas de liberdade. Esse jovem precisa estar livre, estar ressocializado. Ele é o menor que comete uma infração e que precisa ser ressocializado no convívio social. Então, ele tem direito de ir e vir e tem direito de acessar os equipamentos culturais.
Ele tem direito a acessar o SUS e o Suas, a ter o cuidado ortodôntico e dentário e a ter acesso a psicólogos e psiquiatras. Ele tem direitos que o Município do Rio de Janeiro não cumpre, tratando esse menor, nessa situação, nessa medida, como se ele fosse um sujeito ou uma sujeita incontornáveis e, na verdade, apenas destinados ao crime, à vulnerabilidade e ao massacre.
Digo para vocês que, se tivéssemos medidas socioeducativas em curso na Cidade do Rio de Janeiro, Arthur, Matheus estaria vivo. Acho muito que todo jovem que se impacta e que encontra um parecido, um próximo executado, ele se vê. Existe uma pedagogia de não estarmos aqui. Marielle não está aqui; Matheus não está aqui, e é muito importante que a gente possa tocar todos e todas que podem estar vivos por movimentos e participações institucionais muito pequenas. Eu queria muito convocá-los para que a gente pensasse e formulasse as nossas liberdades.
É a última convocação que faço para que a gente esteja livre, para que a gente tire o título até as 23h59 e que a gente retire o Bolsonaro de nossas vidas.
Obrigada, gente.
Está encerrado o Debate Público.
(Encerra-se o Debate Público às 12h32)