Comissão Permanente / Temporária
TIPO :
DEBATE PÚBLICO
Da
VEREADORA THAIS FERREIRA
REALIZADA EM
03/06/2024
Íntegra
Debate Público
:
DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 6 DE MARÇO DE 2024
(Charme, patrimônio cultural do Rio: desafios, perspectivas e políticas públicas)
Presidência da Sra. Vereadora Thais Ferreira.
Às 18h58, no Salão Nobre Vereador Antônio Carlos Carvalho, sob a Presidência da Sra. Vereadora Thais Ferreira, tem início o Debate Público para discutir o tema: “Charme, patrimônio cultural do Rio: desafios, perspectivas e políticas públicas”.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Senhoras e senhores, muito boa noite. Muito obrigada pela presença, pela confiança no nosso trabalho e pelo comparecimento. A gente sempre sabe que, quando chove na nossa cidade, fica difícil se deslocar, mas nós estamos muito felizes com as pessoas que conseguiram chegar até aqui e com todas as outras que vão nos assistir também pela Rio TV Câmara, no YouTube.
A gente sabe que é muito importante que nossas cerimônias e nossos debates fiquem registrados, para que as pessoas saibam que existem pessoas como nós ocupando um espaço como esse na Cidade do Rio de Janeiro. Isso reflete muito a necessidade de representação Brasil afora, não só aqui na nossa cidade. Então, agradeço muito a presença de todos vocês aqui.
Dou por aberto o Debate Público para discutir o tema “Charme, patrimônio cultural do Rio: desafios, perspectivas e políticas públicas”.
A Mesa está assim constituída: DJ Michel, produtor do Baile Charme do Viaduto de Madureira; Senhora Jucilene da Silva, dançarina da Companhia Originais do Charme; Senhora Priscila do Carmo, assistente de projetos e produtora de eventos no Instituto No Setor; Senhora Sami Brasil, empreendedora cultural e ativista da cultura de rua; Senhor Luís Marques, coreógrafo e dançarino; Senhor Gabriel Rozário, crítico de arte, pesquisador e educador na Casa do Jongo; e o nosso mestre Dom Filó, engenheiro, DJ e produtor. Muito obrigada pelas presenças.
Gostaria de dizer que a Jucilene está aqui com a gente representando o Marcos Azevedo, que é diretor artístico, coreógrafo e dançarino. Ele é um dos mais renomados de dança urbana e, infelizmente, está doente, mas mandou representante e é muito importante para nós constar, registrar o nome dele também entre os debatedores, entre as pessoas que pensam esse movimento tão importante como o movimento charme no Rio de Janeiro.
Gostaria de registrar algumas presenças também muito importantes para nós: Senhor Michael De Bom, representando o movimento Charme e Alegria; Senhora Juliana Cunha, representando o movimento Weki Brasil; Senhora Denise Santos, representando o Grupo Salgueiro Black Music; Senhora Leda Kerth, representando o grupo Essência Black. Muito obrigada pelas presenças.
Após a formação da Mesa, a gente vai abrir o Debate falando um pouquinho sobre o contexto da nossa mãedata. Eu sou a Vereadora Thais Ferreira e construo esse mandato, que é popular, preto, coletivo, ativista e que é um reflexo das movimentações marginais de nossa cidade, mas também das movimentações das maiorias minorizadas. Nós sabemos que somos nós as pessoas que estão propondo os problemas a partir do que vivenciamos. Então, as nossas soluções não são aquelas pensadas nos lugares encastelados, mas são as soluções pensadas a partir do nosso território, a partir de tudo que pulsa.
A gente tem um compromisso muito grande com a cultura popular, com a vivência suburbana. A gente tem se empenhado bastante. A Sami está aqui na Mesa hoje como debatedora, mas também faz parte do nosso corpo de assessoria para fazer essa caminhada de melhoria, de aprimoramento das políticas públicas a partir da cultura de rua. Então, chegar aqui hoje para debater o charme é mais uma conquista, é mais uma vitória.
O movimento, para mim, começa na minha infância ainda. Estava falando ali embaixo agora há pouco que fui uma criança charmeira, depois me tornei uma adolescente do charme, do hip-hop. O Viaduto de Madureira foi o lugar onde eu pude construir a minha identidade enquanto menina negra, enquanto mulher negra. Foi ali que pude me reconhecer bonita, potente, participante da cultura. Então, é um espaço que não só me acolheu, mas é um espaço que também me formou culturalmente. A gente sabe que ele é muito importante para que não só essa cultura, mas todas as vertentes da nossa cultura preta possam resistir.
Quando eu chego aqui como vereadora e estou no lugar de propor, de fiscalizar, de atender as demandas da população, não dá para a gente negligenciar esse movimento tão grande que fez parte da formação cidadã de tantas pessoas negras como nós. Eu acho que todas as pessoas negras da Cidade do Rio de Janeiro – ouso dizer do Estado inteiro e até mesmo do Brasil – puderam se reconhecer, se afirmar e participar da cultura através da cultura Black. O charme é um pilar muito importante.
O nosso compromisso é de cobrar do Poder Executivo, que, hoje, no lugar do Prefeito Eduardo Paes, na sua pessoa, se coloca para um compromisso antirracista, mas a gente sabe que ainda há uma distância entre esse discurso e a prática. A gente sabe que são os nossos equipamentos culturais que, muitas vezes, fecham as portas para o nosso movimento. A gente sabe que os nossos grandes símbolos também precisam de mais investimento, de mais fomento. A gente sabe da dificuldade do nosso povo que produz cultura de acessar os editais. Então, as perspectivas para nós ainda são muito desiguais.
Para fazer esse contraponto, para a gente cobrar apoio para cultura charme na cidade, a gente traz essas figuras tão importantes para o movimento para fazer uma análise e também apontar caminhos. Eu acho que o mandato parlamentar precisa ser veículo dos movimentos sociais, veículo das lideranças locais também, para que a gente possa, de fato, refletir o que a realidade precisa, o que o território precisa.
Quando a gente vai pensar daqui para a frente, desse próximo dia do charme, desse lugar em que nós estamos para o que vamos e precisamos fazer, a gente não pode pensar só a partir da minha cabeça, da minha vivência, da vivência da Sami. A gente precisa trazer esse corpo coletivo, essa inteligência coletiva para que as nossas proposições e as nossas políticas públicas possam ser efetivas e que a gente possa superar os desafios, não é?
Mais uma vez eu vou dizer para vocês que o nosso debate está sendo gravado, está sendo transmitido ao vivo. É muito importante as nossas narrativas estarem no ar. Falar sobre isso com o Dom Filó, que tem sido resistência em produção audiovisual preta, referência no mundo inteiro para a gente é muito orgulho. Ter assim o Gabriel, essa juventude que se forma e que traz para a gente uma perspectiva acadêmica do que é olhar para a arte, também é muito importante para a gente. Todo esse corpo de vivência, falando do DJ Michel, do Luís também, são pessoas que trazem para a gente muita riqueza.
Ter isso tudo registrado nos anais, nas institucionalidades é muito importante para nossa caminhada de valorização, de preservação da memória e do nosso legado. Nada aqui é à toa, então todas as falas são redigidas. A gente tem publicações em diários oficiais, a gente usa para justificar projetos de lei. É muito importante mesmo que todas as pessoas se sintam mais do que apoiadas, valorizadas, exaltadas e celebradas pelo nosso mandato neste espaço.
Vou falar um pouquinho da história do charme para fazer constar, não é? Se a Câmara ainda não sabe, mas a gente sabe muito bem que eles já sabem e não à toa, não é? Tem algumas leis aqui que versam sobre o apoio à cultura do charme. A própria lei que reconhece o viaduto de Madureira vem daqui, lá do ano 2000. A gente está em 2024, então é uma caminhada árdua por valorização que já existe e resiste, mas é sempre bom a gente reforçar.
O charme é uma manifestação cultural típica do Município do Rio de Janeiro, caracterizada por bailes que ocorrem em sua maioria nas Zonas Norte, Oeste e Centro da Cidade do Rio. São frequentados por pessoas de camadas populares, nas suas maiorias negras. Surge na década de 80, caracterizado por coreografias em grupo e gestos sensuais. O nome, bonito de falar e ótimo para dançar, é a tradução carioca por R&eamp;B e o soul americano. O termo pode ser encontrado também em inglês charm. É engraçado falar assim, não é? Sami escreveu. A gente gosta, a gente faz uma brincadeira nossa sobre como é importante a gente valorizar a nossa escrita, não é?
Desde os anos 80 e 90, o circuito de baile charme do Rio de Janeiro reúne em quadras de escola de samba, clubes, rua, embaixo de viaduto, um grande número de pessoas para dançar um tipo de música localmente definida como black. A invenção do charme como gênero musical é atribuída a um DJ que reservava os últimos minutos dos bailes para o público dançar em um ritmo mais lento e compassado, produzindo a atmosfera propícia para um encontro entre os casais.
Esse, o DJ Corello, que à época foi quem batizou o termo charme em um baile no Mackenzie, lá no bairro do Méier, dizia: “Chegou a hora do charminho. Transe o seu corpo bem ‘devagarinho’”. Ele introduz a musicalidade do charme e as pessoas começam a gostar. Ele não tinha dado um nome para essa experiência, mas observou que quem dançava tinha um movimento corporal bem diferenciado. Essa história do charminho ficou na cabeça das pessoas e elas passaram a falar: “Agora eu vou pro charminho. Vou ouvir um charme. Eu vou lá ao Corello, pois vai ter charme”.
Assim a gente vai dar início ao nosso debate público trazendo um pouco dessa história, dessa perspectiva. Quem não conhece, passe a saber; quem já conhece, reverbere mais essa história. É muito importante a gente registrar que a gente não está em um caminho só de novidade, é um caminho de continuidade. A gente precisa fortalecer cada vez mais essa continuidade.
O objetivo que a gente tem hoje é trocar realmente. Quero convidar vocês a essas provocações, principalmente sobre os desafios que o movimento charme encontra no Rio de Janeiro, principalmente as perspectivas que a gente tem para esse patrimônio cultural que é imaterial. Por isso, às vezes, é difícil conseguir investimento, conseguir articulação, porque tudo o que está na subjetividade, que a gente não consegue ver, fica mais distante do investimento da política pública. A gente precisa trazer isso para o centro do debate e também sobre as políticas que já existem e que precisam atender o nosso povo.
A gente sabe que o povo preto, o povo pobre, o povo periférico encontra na cultura de rua, encontra nessas manifestações populares os momentos de prazer, de exaltação, de alegria. A nossa subjetividade também é política. Nós somos aquelas e aqueles trabalhadores cansados, sobrecarregados. Nós somos aqueles e aquelas que têm a saúde mental abalada por conta da operação na favela, por conta de não conseguir dar conta das crianças. Às vezes, em momentos de dança, a gente consegue extravasar, a gente consegue se desligar de tantas desigualdades que nos atravessam.
Queria convidar vocês a pensarem na saúde e no bem-estar do charmeiro. O nosso povo envelhece! A gente quer longevidade, a gente quer cada vez mais poder estar sentado com Dom Filó, mas a gente sabe que a perspectiva de vida dos pobres, pretos e periféricos... A gente sabe que não se reflete em uma perspectiva de longevidade. Portanto, a gente precisa pensar também em estratégias para a gente poder preservar os nossos. Queria convidar vocês a essa reflexão, queria convidar vocês a essa provocação. Quero convidar vocês para essa construção que a mãedata abre – não é só nossa, é do povo, é popular, é periférica e é coletiva.
Muito obrigada.
A gente vai ter na dinâmica cinco a sete minutos para cada membro da nossa Mesa falar. A gente tem uma pessoa controlando o tempo, que é a Flávia, da nossa equipe, então peço bastante atenção. Teve chuva e a gente também não quer que ninguém fique molhado muito tempo. A Sami vai dar o informe sobre o baile, por conta da chuva, um informe não muito feliz, mas a gente entende.
A gente não pode esquecer outra coisa que é superimportante, independentemente da confissão de fé de cada pessoa: a gente sempre saúda nossa ancestralidade, a gente sempre saúda aqueles que vieram antes de nós; a gente sempre abre a nossa fala trazendo, sim, o axé, que é a nossa vontade, é o que move a gente, pedindo para Exu boas palavras, porque a gente sabe que a dança é comunicação, é corporeidade. Quando a gente fala de referência, quando a gente fala de povo preto, a gente tem sempre que abrir espaço para a escuta dos nossos mais velhos.
Vou começar, Dom Filó, com a escuta do senhor, com a referência e reverência ao senhor também. Vou, como sempre, colocar no meu texto um pouco da sua biografia, para que mais pessoas saibam de quem a gente está falando.
Dom Filó, a gente sempre pede a sua benção. Ele é engenheiro, ele é DJ, ele é videomaker, é produtor. A gente chama de Filó ou Dom Filó. É conhecido como alguém cuja história profissional e a vida estão estreitamente ligadas aos momentos áureos de celebração da força da cultura black no Brasil.
Nasceu em 1949, é filho do seu Sereno e da dona Eulina. Dom Filó, um dos mentores do movimento Black Rio, criador da Soul Grand Prix, produtor do primeiro baile com caráter de consciência negra, no Clube Renascença, e um dos atores sociais politizados no movimento negro.
No auge da ditadura, quando perdurava o AI-5, Dom Filó produzia bailes para milhares de negros curtirem a soul music, e sendo apontado, inclusive, como potencial líder de uma revolta negra – e a “recultura” para a gente também é isso. Financiado pelos Estados Unidos, e, por essa razão, chegou a ser perseguido e capturado. Passados 48 anos dessa perseguição, ele continua sendo o Dom Filó, continua sendo resistência, tornou-se comendador da black music e criou o Cultne em um canal do YouTube com mais de mil horas para celebrar a nossa cultura.
Então, queria muito ouvir suas palavras. Sua palavra para a gente é abertura de caminho. Muito obrigada, mais uma vez, por estar com a gente.
O SR. DOM FILÓ – Muito obrigado, Vereadora Thais Ferreira, demais membros da Mesa e público presente. Agradeço a oportunidade de estar aqui, buscando sempre um aprendizado. A gente sempre está aprendendo.
Vinha pensando: “Bem, como vou começar minha fala?”. Falei: “Não tem jeito, tenho que começar como sempre pensei e venho fazendo isso”. É importante dizer que nós temos que voltar no tempo. Ao voltar no tempo, a gente tem que trazer para a Mesa o pensamento do conceito africano Sankofa, qual seja, que nós estamos aqui exatamente dentro dessa linha Sankofa. Nós precisamos ir até o passado, entendê-lo, olhar para esse presente de olho no futuro. Então, estamos aqui querendo ressignificar uma manifestação, um pilar dessa grande árvore que é a black music.
Essa black music chega aqui nos anos 70, não foi assim trazida: “Olha, tem isso aqui, curtam”. Quando eu digo isso, é porque quem nos antecedeu na black music curtia a música italiana, a música francesa, a música inglesa. Chegava isso para os nossos pais, eles curtiam, dançavam. Por quê? Porque nós da comunidade, principalmente a comunidade negra, estamos associados ao corpo e à música. Isso é fato. Lá atrás, naquele primeiro momento, nos anos 70, o que nós tínhamos como opção era o samba. Só. O samba se dividia entre o swing, leia-se Rio de Janeiro – para quem é de São Paulo, é o samba-rock –, aquele bom Baile dos Devaneios, do Copa 7, do Joni Maza, etc. Era aquilo que nós tínhamos, mas na condição de que: “abaixa a sua cabeça, porque você é negro”. Era esse o tom.
Muito bem. Nós não tínhamos isso aqui, essa possibilidade de pleitear avanços dentro do que nós nos propomos, no caso, aqui, movimento charme. Naquele momento, nós éramos perseguidos na rua, não tínhamos visão nenhuma, perspectiva nenhuma de políticas públicas. O que nos coube? Nós vamos fazer do nosso jeito.
Hoje a realidade é diferente, hoje nós trabalhamos a nossa música, o segmento que for, seja charme, seja funk, samba, o que for, dentro do nosso próprio território. Lá atrás, a gente tinha que sair dos nossos territórios para se divertir. Ou seja, nós tínhamos que ir para o clube A, clube B, clube C, que não era a nossa casa. Agora, imaginem, as condições em que nós saímos eram essas. Mesmo assim, a gente conseguiu uma catarse. A gente se divertia, a gente se adorava, a gente se amava coletivamente e individualmente, mesmo na repressão policial, mesmo nas duras, mesmo nas condições em que o povo negro vivia naquele momento. Hoje nós temos uma realidade que é buscar o pertencimento.
Eu estava ali embaixo conversando com Sami. Ela fez uma análise que eu vim fazendo uma reflexão maior ainda. Por quê? Geralmente, a gente não se apropria devidamente do que é nosso. Aí, vem terceiros e se apropriam de tal maneira que acabam sendo deles aquela ação. Só que botaram um negocinho aqui, um negocinho ali. Vamos levar essa experiência, por exemplo, para o campo da música, no âmbito internacional.
Os caras vêm aqui, beliscam a capoeira – já era. Já não está mais na nossa mão 100%. Vêm aqui, beliscam o funk, nós estamos falando de top, gente top. Não vou nem citar o nome, mas gente top se apropriando mesmo do funk, do charme, do R&eamp;B, do nosso som. Ah, isso é ruim? Não. Nós nos apropriamos na década de 1970. Por que não? Nós fomos lá, buscamos a black music de James Brown, só que nós demos o nosso jeito.
Chegamos até esse momento, em que houve diversas variações de estilos, de comportamento, de proposta. Tudo que chega, a gente dá o nosso jeito. Foi assim no reggae, que virou samba reggae, no funk, aquele funky com “Y”, lá atrás, que é o funk de James Brown, que chega aqui e já dá outra pegada e passa por aqueles que fazem a música negra existir da forma mais linda possível. Leia-se Tim Maia; leia-se Dafé; leia-se Banda Black Rio; Hyldon, Lady Zu e vai por aí. Vários que pegaram essa pegada musical preta e deram um tratamento.
Nós estamos falando de Rio de Janeiro. Essa mesma proposta, hoje, do charme, está em todo lugar do Brasil. O advento da internet facilitou, todo mundo aprende. Lá atrás, a dança, a referência era o soul train, que era chamado de soul line. Se for traduzir seria “dança em linha”, que, na verdade, é o que a gente faz aqui.
Como é que isso nasce? Isso nasce a partir do momento em que você se encontra com o seu corpo – corporeidade. Você se encontra. Você admira aquele movimento e tende a fazer aquele mesmo movimento. Então, é uma coisa fantástica. Quando eu terminei a fase do soul – fui convidado a me retirar numa boa –, eu fui embora, fui para os Estados Unidos, fiquei um tempo lá.
Voltei já na praia do audiovisual – já estou fechando aqui. Nessa praia, eu pude observar uma coisa muito interessante. Quando você vem para o Rio de Janeiro, você vem... A música já tinha outra pegada, que era um som mais relax. Eu lembro um sucesso – agora que é complicado lembrar, o famoso “HD cheio” – que era Gregory Abbott. Esse foi o primeiro charme, vamos dizer assim, que rolou na Rádio Mundial e que depois virou um comercial da asa delta, do Hollywood, do cigarro. Quando essa música foi sucesso na rádio, ali o charme decolou. Foi ali que o charme decolou, porque até então estava como Black Rio lá atrás. Todo mundo dançava, todo mundo curtia, mas ninguém nem sabia que existia o charme.
Vou parar por aqui. Meu tempo esgotou. Peço perdão pelo excesso.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – O tempo é curto para tanta história. A gente precisa aprender a ouvir, porque sempre são aulas, Dom Filó. Acho que Flávia ficou em uma posição superdifícil de ter que dizer que o tempo estava esgotado, dizer para concluir a sua fala, mas a gente está aqui propondo uma conversa que não se encerra nesse momento. Então, que todos vocês tenham mais oportunidade de poder ouvir Dom Filó, como a gente tem tido sempre. Então, mais uma vez, muita gratidão.
Ainda ouvindo nossos mestres – a gente vai ouvindo os precursores do charme no Rio de Janeiro: Luís Marques, coreógrafo, dançarino mais conhecido como Luís do charme. É oriundo da soul music, como Dom filó falou. É um dos pioneiros da dança charme no Rio de Janeiro. Iniciou sua carreira profissional em 1981; trabalhou no projeto social Rio H2K, no viaduto de Madureira, como assistente de direção.
Hoje atua como coordenador e coreógrafo do projeto social Crespinhos Dança. É dançarino e coreógrafo da JL &eamp; Cia, corpo de dança do baile Black Bom. Como oficineiro, dá aula de dança charme na arena Dicró, no Centro Cultural Dyla de Sá e Parque de Madureira.
Com vocês, Luís Marques.
O SR. LUÍS MARQUES – Boa noite, gente.
Para quem não me conhece, eu sou oriundo do soul. É uma honra estar aqui fazendo parte desta Mesa. Não posso deixar de registrar que a pessoa que me inseriu... Se eu estou aqui hoje, devo isso a Dom Filó, porque, quando do meu primeiro grupo, Dançart 81, ele o convidou, recém-contratado do grupo para fazer parte do Uzap Caribe. Eu acho que ele se lembra disso. Então, tenho que agradecer muito a Dom Filó. Se não fosse ele, acho que eu não estaria aqui hoje.
A cultura do charme é uma cultura que mudou a minha vida, salvou a minha vida. Por isso hoje eu trabalho com a cultura e passo para a nova geração como tudo começou. A gente depende muito das autoridades para ter um olhar mais carinhoso para a cultura do charme, abrir portas e oferecer mais critérios para que a gente possa fazer isso e passar para a nova geração.
Tem Jeff Antônio, que foi um cara que me ajudou muito na época em que eu estava no fundo do poço. Está aí hoje. Muito prazer em tê-lo aqui comigo, me chamando para trabalhar com ele no Rio H2K. Hoje eu tenho na mesa um aluno nosso, do H2K, que fez mestrado em dança. O TCC dele foi a cultura do charme. Então, é um orgulho ter um aluno meu hoje participando dessa Mesa e fazendo esse trabalho que ele está fazendo em vários lugares hoje.
Hoje eu trabalho com um projeto social, que é o Crespinhos Dança, um projeto de empoderamento preto infanto-juvenil. Eu sempre uso a dança charme, a black music. O veículo é a dança charme como inclusão social. Eu passo para a nova geração como tudo começou para se respeitarem, o antirracismo e várias outras coisas através da cultura do charme.
Hoje eu digo que o charme é uma terapia, eu falo que é “charmeterapia”. O charme salva a vida, a dança salva a vida – e quem dança sempre é mais feliz. Eu sempre falei que: “Antes, eu vivia para dançar; hoje, eu danço para viver”. Quem conhece a minha história sabe que, se não fosse a dança charme, eu não estaria aqui hoje, já teria tirado a minha própria vida. O charme me salvou. Eu acho que alguém, algumas pessoas aqui... Eu me emociono – desculpem-me, a dança charme salvou a minha vida. Por isso, eu passo para a nova geração como tudo começou, porque eu pensei em tirar a minha própria vida.
Uma pessoa, que Deus o tenha, que foi Joel Filho, foi o pontapé inicial para eu ir a um baile charme no Sesc Madureira. Ele me convidou para poder participar de um baile, e eu saí da minha casa com muito medo de tudo, com pânico, depressão, com tudo, e fui ao primeiro baile charme depois de muito tempo, em 2013, com Joel Filho. Havia oito pessoas no baile charme – foi o primeiro –, vocês não sabem disso. Sabiam? Não. Então, logo em seguida, Jeff Antônio me chamou. Eu passei por uma porta do viaduto, eu vi o projeto Viaduto de Madureira, e o Jeff Antônio me chamou para fazer parte. Eu fui, e ali começou um pontapé inicial para a minha recuperação.
Encontro Renata Moraes com o Projeto Crespinhos Dança: “Luís, você não quer fazer um projeto dentro do Crespinhos Dança?”. Eu falei: “Só se for para eu passar tudo para a nova geração, como tudo começou”. Eu já recebi críticas de pessoas que falaram para mim: “Admiro o seu trabalho, mas você só passa coisa velha para as crianças”. Eu falei: “Gente, mas a minha prioridade é essa. Não é coisa velha, é passar a cultura, a nossa ancestralidade, e passar para eles como tudo começou”. O novo está aí, hoje a gente tem internet, tem tudo. Na nossa época, a gente não tinha nada disso. Hoje está muito fácil.
Eu, aos 63 anos de idade, hoje, só tenho a agradecer a Deus essa vitalidade que tenho. Na hora que eu ia me aposentar, a dona Sami Brasil me chama para fazer parte do corpo de dança e ser coreógrafo do Baile Black Bom. A gente está levando a cultura do charme, através da black music, para vários estados do Brasil.
Hoje, eu peço muita ajuda para a gente poder ter um apoio cultural, porque as pessoas olhem mais para a cultura do charme. A dificuldade que eu tenho com as crianças... Como eu estou com o projeto do charme voltado para as crianças, eu tenho uma dificuldade de verba para poder mantê-lo. Muita gente, de várias comunidades, não tem como acessar. Muitas vezes, a gente tem de tirar do nosso bolso, por não ter, e pedir apoio de outras pessoas. A gente tem que pedir as autoridades para poder olhar, aos governantes para olhar para a gente, por esse projeto que a gente faz no Centro Cultural Dyla Sylvia de Sá, na Praça Seca.
Outra coisa também, que acho muito importante: em 2015, eu comecei com eles. Hoje, a filha da Sami, a Júlia, faz parte do meu projeto. Começou lá em 2015, bem pequenininha, ela sabe da história toda. A gente tem a maior dificuldade de levar as crianças para curtir baile charme em vários outros locais, por conta de não ter autorização do Juizado. As pessoas cobram.
Exemplo: eu não posso levar a mãe, o neto e um filho ao Viaduto para fazer um passeio de charme em família porque não é permitido criança com menos de 18 anos. Agora, digo eu: o que o baile charme, uma cultura dessas, linda e maravilhosa, vai influenciar de coisa ruim na vida de uma criança? Só é coisa boa. Temos que apoiar o charme.
Veja, a Sami tem essa liberdade de fazer os bailes abrindo mais cedo e tem essa oportunidade de a gente levar. A gente vê muita gente dançando junto, famílias dançando junto. Eu queria ver isso aí em mais lugares, porque sou cobrado por isso. É isso que pretendo para a gente tentar alvará para apresentação em palco e tudo mais.
Gente, como sempre falo, só tenho a dizer que: “Antes, eu vivia para dançar; hoje, eu danço para viver”. Dança é vida, e a dança é a cura. Então, gente, vamos curtir o charme, porque o charme é uma coisa maravilhosa.
Muito obrigado a todos. Vamos que vamos, porque tem muita gente boa para falar ainda.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Muito obrigada por essa transmissão de corporeidade para as nossas crianças. É um trabalho incrível que a gente vê acontecendo e consegue ver o impacto na vida deles, que estão crescendo, e muitos outros que ainda vão vir. A gente, com certeza, vai estar aí cobrando muito mais investimento e fortalecimento para esse projeto tão importante. Já estamos nesse fortalecimento e vamos continuar, com certeza.
Agora a gente vai ouvir o DJ Michel, que é linha de frente do Viaduto de Madureira. Ele é DJ, produtor e renomado no Baile Charme do Viaduto de Madureira. Desde os 11 anos, frequentou os bailes charme e grandes festas do Rio. Aprendeu com os mestres de toca disco – DJ Corello, Fernandinho, Lup DJ – como colocar o público para dançar e arriscar um passinho na pista de dança.
Com quase 30 anos de pista nas principais festas do Rio, tornou-se um DJ de destaque na cena carioca. Michel já foi atração nos principais espaços do Rio, como Morro da Urca, Ilha Fiscal, Rio Centro, Viaduto de Madureira, Circo Voador, Rio Bit Club, entre tantos outros; é criador do grupo de dança profissional “Black de Elite”, que o acompanha nas performances.
Michel também é apresentador, produtor musical e radialista, tendo um programa semanal na Rádio Globo chamado “Black Friday”; apresenta também o programa “Por Dentro do Charme”, realizado em parceria com o Sesc e assina produções musicais e remixes de grandes artistas como o “Tá fácil”, música da Preta Gil; conduz um selo de música urbana com novos talentos... Está rolando um baile do pop nacional... Ele está gerenciando carreiras e assinando novas produções.
A palavra é sua.
O SR. DJ MICHEL – Obrigado, Thais. Obrigado a todos aqui presentes e, em especial, a Dom Filó, a quem sempre falo que merece toda a reverência porque limpou o terreno para que nós pudéssemos estar aqui hoje. Isso é muito importante! Cada um tem uma etapa, literalmente. Elas são pessoas que impactam diretamente o cenário. Eu posso dizer que eu sou privilegiado de estar no meio desse impacto todo, porque a geração do Dom Filó foi a que começou.
Depois da geração do Dom Filó teve outra, que veio o Corello, o Fernandinho, falando de charme em específico. O Corello é o cara que criou o termo “charme”, começou toda a história no Mackenzie. Fernandinho foi seu grande parceiro, por quem eu tenho o máximo de respeito. Venho logo depois como fruto dessa potencialidade que começou com o Filó, Corello, Fernandinho, Lupi, Orlando, enfim, todo mundo que o Luís também conseguiu conviver diretamente, e trabalhando. O meu pai, para quem não sabe... Eu também sou fruto literalmente desse mundo.
Como o Dom Filó falou, à época do swing no Rio, e do samba-rock em São Paulo, o meu pai foi um dos caras que começaram, ele também era DJ e participava de eventos de swing no Rio... Depois, apaixonou-se pelo charme e fez um convite. Ele já estava prestes a desistir de fazer bailes porque estava cada vez mais difícil, quando chegou até o Fernandinho e perguntou se ele queria comprar o equipamento, porque não queria mais saber daquilo. O Fernandinho falou: “Que comprar o teu equipamento, vamos fazer uma sociedade”. Ali nasce a equipe Só Music Disco Club, que começou no Sesp da Rodoviária.
O primeiro sucesso da equipe começou em Oswaldo Cruz, no Rosas de Ouro, que foi o primeiro baile da equipe. Enfim, rodou muitos lugares. Algumas pessoas que eu nunca tive a oportunidade de contar um pouquinho, então eu bebo dessa fonte diretamente – meus pais se conheceram no baile charme, é importante eu dizer isso. Eu conheci a minha esposa dentro do Viaduto de Madureira. Para vocês verem o quanto que o charme impacta na vida da gente. É uma ferramenta transformadora muito grande, a gente consegue movimentar, falando de políticas públicas, porque também é importante o outro lado entender esse ponto.
Nós movimentamos grana também, nós geramos impostos, geramos trabalho, geramos todo tipo de negócio. Como você falou, eu até 2015 tinha dois empregos, eu tinha o meu emprego formal durante o dia, onde eu trabalhava de terno e gravata; e, às vezes, já tive de ir ao trabalho e, de lá, ir para o baile. Eu tinha de virar o dia trabalhando, trabalhava alcançando metas, e só ia a casa, tomava banho, voltava para a empresa para deixar os pedidos e ia para o baile.
Em 2015, tive a oportunidade, fui convidado a me retirar pela empresa que teve uma grande reformulação. A minha chefe falou: “Michel, vá ser DJ!”. Eu fiquei pensando, a minha esposa estava grávida, eu ia perder meu plano de saúde – a gente sabe como é a nossa questão de saúde no País, que é um pouco complicada – e pensei o que ia fazer da minha vida agora.
Fui fazer uma entrevista de emprego e a pessoa disse para eu começar na segunda-feira. Eu falei: “Cara, não vou. Obrigado pelo convite, mas vou seguir aqui fazendo o que amo, o que gosto”.
Pegando o gancho do que o Luís falou, eu vivo o Viaduto de Madureira desde os meus 11 anos de idade. Eu ia lá com o meu padrinho Alexandre, que me levava. Eu nem podia ficar no baile. Ele me levava e depois eu ia embora.
Com 13 anos eu fui convidado a fazer a abertura do baile do viaduto. Eu fiquei em um período de quatro a cinco anos tocando das 19 horas às 21 horas – eu não podia passar desse horário por conta da minha idade. Foi a melhor escola que eu tive, porque pude ver os caras mais top tocando ali no baile. Quando chegava 21 horas, me diziam: “Garoto vai lá, pode ir lá. Toma aqui o teu refrigerante, chegou a tua hora”. Às vezes, a gente ficava escondido, não ia embora. No Vera Cruz também eu ficava no mezanino. Quem frequentou o Vera
Cruz sabe que eu ficava no segundo andar, não podia descer. Aí, quando o meu pai dava mole – porque meu pai era um dos organizadores do baile – eu ia para o meio do salão ver a galera.
É um movimento muito pacífico e a gente pode transitar. Tem desde crianças participando e dançando ali com a gente. O Jeff, em 2013, pegando o gancho do que o Luís falou, disse: “Michel, estou com um trabalho aqui com crianças e eu queria fazer”. Eu falei: “Jeff, é para você?”. Ele respondeu “É”.
Eu disse: “Então, cara, vai lá, faz”. O Luís toda hora chama: “Michel, estou precisando ensaiar com as crianças, não sei o quê...”. Eu digo: “Vai lá, o viaduto está de portas abertas”.
A gente sempre está de portas abertas para o que vocês precisarem. O baile do viaduto se tornou hoje símbolo do movimento charme, mas houve outros símbolos antes – é muito importante registrar isso. Teve o Vera Cruz, que cumpriu o seu papel, foi tema de novela, tinha um núcleo de novela dentro, revelou muitos dançarinos, como Black Brothers, que foi o primeiro grupo de dançarinos a fazer comercial para TV, para Coca-Cola; o Disco Voador, de Marechal Hermes, com o grande Orlando, que formou dezenas de gerações, dezenas de jovens.
Tudo isso é fruto do charme. Então, por que eu não posso viver do que amo? Por que eu não posso formar artistas? Por que eu não posso formar dançarinos? Por que eu não posso formar DJs? Enfim, por aí vai.
Em 2013 eu comecei a fazer o projeto da oficina de dança lá no viaduto. Convidei o Eduardo Gonçalves, que era um dos frequentadores e falei: “Cara, eu não tenho dinheiro. Eu tenho uma caixa de som. Vamos lá”?
Ele respondeu: “Vamos embora”. Depois disso, o projeto já tem 10 anos, está indo para 11 anos. Nós conseguimos um fomento em 2016 – do Ações Locais – e conseguimos agora um fomento federal para manter a oficina gratuitamente, pagando os professores.
Tudo isso mexe com a vida das pessoas. A gente tem relatos... Se você for pegar, eu lembro quando fui fazer a inscrição para o Ações Locais e, com o celular gravando, precisava de registros do que as pessoas estavam achando. Quando a menina falou a mesma coisa que o Luís falou aqui, eu estava filmando, e ela disse: ”A dança salvou minha vida”, e a lágrima começou a descer. Eu não podia me mexer, porque estava filmando e eu, nervoso, falei assim: “Cara, eu não tinha a mínima ideia do quanto a gente estava impactando a vida das pessoas”.
O charme não é só uma dancinha que as pessoas dançam juntas, o charme não é só o passinho. Como muita gente fala, não é só o rebolete – a galera fica criando esse termo para as músicas que fazem sucesso. O charme é a vida de muita gente, o charme é a minha vida. Eu vivo disso hoje, devo tudo o que conquistei ao charme, às minhas instruções. Eu falo que tive a oportunidade de ter a melhor escola, porque, voltando ali, Dom Filó, Mister Paulão, Mister Funky Santos, aí depois vem Corello, Fernandinho, Lupi, Orlando...
Gente, se vocês não conhecem, quem é mais novo aqui, por favor, vai lá, procura no YouTube, vai lá na Cultne, que vai ter bastante material para vocês darem uma olhada. Se você não conhece e não reconhece o seu passado, você não vai a lugar nenhum no futuro.
Esse é o recado que eu deixo. Obrigado pelo espaço. Estamos juntos
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Muito obrigada.
É mais uma fala muito potente e impactante. Eu me reconheci em vários momentos. Você falou do seu padrinho e eu me lembrei do meu Tio Baixinho, que me levou a primeira vez no baile charme no viaduto.
Eu tinha sete anos, depois voltei lá com 13 anos – pela primeira vez sozinha e também nesse pique de ficar até certo tempo. Depois, meia-noite no relógio, tinha que ir embora. Meu irmão já tinha 16 anos, podia ficar mais tempo, e aí como é que eu ia embora sozinha?
Ter sido impactada por esse espaço e também ter podido realizar muitos projetos culturais inspirada pelo que acontecia lá sempre foi muito importante. E quando a gente percebe que essa nossa potência é agência política, a gente consegue entender que é possível, sim, a gente prosperar a nossa história, a nossa comunidade, a partir do que a gente ama. Isso também é sobre o nosso bem-estar. Então, que bom que você está “vivão”, vivendo, produzindo cada vez mais coisa, abrindo mais espaço para as pessoas, porque isso também é político.
Agora seria o momento de a gente ouvir, o importante é o ativismo do charme, ativista do charme, o Marcus Azevedo, que é diretor artístico, coreógrafo dançarino, um dos mais renomados nomes da dança urbana no cenário carioca. Ele está há 25 anos nesse mercado que gira a grana, que faz acontecer negócio também. Marcus Azevedo foi o primeiro coreógrafo a construir conceitualmente uma pesquisa sobre a nomenclatura da dança charme. Seu trabalho permitiu que o Sindicato dos Profissionais da Dança do Rio de Janeiro reconhecesse a dança charme como categoria em 2020, proporcionando a profissionalização dos dançarinos. Ele é diretor de dança do Charme &eamp; Cia, a primeira companhia profissional de dança charme do Rio de Janeiro formada por bailarinos oriundos dos bailes.
Marcus também é coreógrafo dos Originais do Charme, grupo criado para valorizar os veteranos, dançarinos com mais de 40 anos. Desde 2021 ministra o curso História do R&eamp;B, que originou o Sarau do Azevedo, em parceria com o produtor musical Mãolee no Beat e o músico João Loroza. É diretor de arte e comunicação do Eu Amo Baile Charme e idealizador da mostra de dança urban charme.
O Marcus, como eu falei anteriormente, está doente, mas mandou a Jucilene da Silva Ferreira, do grupo Originais do Charme, para representá-lo.
A fala agora é sua. Muito obrigada por estar com a gente.
A SRA. JUCILENE DA SILVA FERREIRA – Então, gente, boa noite. Sou só uma representante do Marcus. A princípio, ele já agradece aos representantes do charme aqui presentes, às demais autoridades e ao público presente.
Este ano completa 26 anos de atuação no charme carioca. A Dança Charme e Companhia, a DCC, criada por ele lá atrás, foi a primeira a apresentar a dança charme como linguagem artística. Formada por jovens, completou 10 anos de atuação e teve a felicidade de ser contemplada pelos editais do Programa de Fomento Carioca (Foca), da Prefeitura, da Secretaria Municipal de Cultura e Sesc Pulsar. Os dois espetáculos circularam por vários espaços da Cidade e do Estado do Rio e foram um tributo à existência da companhia nesses 10 anos.
Os Originais do Charme – outra companhia criada com muito esforço e de forma autônoma, também sem apoio oficial – é formada pelos cascudos dançarinos entre 40 e 61 anos. Os Originais do Charme se tornaram companhia pela necessidade de preservação da memória da primeira geração dos bailes charme. As coreografias do grupo são fruto de pesquisa dos passos clássicos, que estariam fadados ao esquecimento. A qualidade do nosso trabalho, do Marcus, do grande parceiro de trabalho, o coreógrafo Eduardo Gonçalves, e dos dançarinos, também garantiu que a Prefeitura nos contemplasse com o Foca e o Sesc pelo edital Pulsar, com temporada estreando ainda este ano.
Nosso espetáculo “Flashback” foi contemplado pelo edital do Governo do Estado pela Lei Paulo Gustavo. Vamos dar um giro pelos bailes antigos, e com este espetáculo chegamos a teatros da Zona Sul do Rio – finalmente outro marco. Eu Amo Baile Charme, um baile que apostou nos quatro pilares do charme com o apoio do Sesc e produção do Joel, também foi muito importante na história do segmento aqui no Rio. A pesquisa proporcionou que o charme fosse reconhecido como categoria de dança pelo sindicato do rio. Também foi uma conquista que permitiu a profissionalização de muitos dançarinos, a maioria vinda das pistas.
Nós precisamos de iniciativas assim para fortalecer o segmento. Precisamos do apoio do Governo da Cidade e do Estado, além do Governo Federal e de empresários, para o charme atravessar as fronteiras do Estado e para valorizar todos os envolvidos. Precisamos saber quem são esses profissionais de total suporte.
Houve uma pesquisa no município sobre os bate-bolas. Agora há sobre a capoeira pelo Estado. Os profissionais do samba também foram alvo dessa pesquisa, e esta é uma iniciativa para entender quem é esse público e suas necessidades, para que as políticas públicas efetivas deem um suporte financeiro e de estrutura para os integrantes do segmento que se tornou patrimônio imaterial pelo esforço autônomo de seus integrantes.
Obrigado por essa homenagem, diz o Marcos. Estamos à disposição para fortalecer o charme e a black music.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Muito obrigada.
Trouxe, com certeza, considerações muito objetivas para a gente poder trabalhar nas cobranças que a gente pode fazer, a partir da nossa competência enquanto atuação do Legislativo Municipal. Com certeza, a gente vai fazer esse dever de casa e dar a resposta para vocês.
Agora, a gente vai ouvir, que também é muito importante para nós, um olhar de fora do Rio de Janeiro. Vamos ouvir a Priscila do Carmo, que tem 45 anos, é empreendedora social, moradora de Sobradinho, no Distrito Federal, articuladora territorial desde 2002, em qualquer lugar que ela esteja. Charmeira, com muito amor pelo charme, e, por conta desse amor, se tornou pesquisadora e produtora do movimento desde 2014, completando 10 anos de histórias e multiplicação com excelência.
Atualmente, é assistente de projetos e produtora de eventos no Instituto No Setor, uma instituição social e cultural que atua no Distrito Federal. É CEO do Coletivo Andanças, no Distrito Federal, que fomenta ações de arte, comunicação e empreendedorismo social para contribuir com o desenvolvimento local integrado e sustentável nas periferias. E é muito grata pelas andanças da vida. Boa “chegança” para você nessa andança pelo Rio de Janeiro.
Obrigada por estar conosco.
A SRA. PRISCILA DO CARMO – Gente, excelente noite. Que satisfação! Eu estou aqui, assim, em estado de êxtase. Gratidão pela participação de todos vocês e grata pela Mesa também.
Bom, eu falo do Distrito Federal e falo desse amor que tenho pelo charme. Eu conheci o charme... minha família é daqui do Rio. Conheci pequena, nas ruas de lazer lá de Brasília, de Sobradinho, mas eu sabia que eu tinha alguma raiz aqui do Rio. Então, assim, o charme, para mim, é vida, é amor, é relação, é integração entre as pessoas. Eu olho para cada rostinho aqui dos amigos que o charme me trouxe e isso me traz muita alegria, muita felicidade.
Bom, desde 2014, eu fui contemplada em um edital que era o Mais Cultura na Escola, um edital do Ministério da Cultura em parceria com a Secretaria de Educação do Distrito Federal. Quando fui contemplada nesse edital, falei: “Eu preciso levar o charme. O charme precisa ser multiplicado com excelência”. Em Brasília, a gente tem uma galera que saiu do Rio e foi morar lá, e aí começou a desenvolver um trabalho. O DJ Celsão, que era referência no Rio de Janeiro, carioca, foi para Brasília e levou o charme para a gente, graças a Deus.
Não curti muito. Quando se iniciou, não conhecia, mas em 2012 eu conheci o baile. Fernandinho esteve lá e foi incrível. Então, eu comecei a pesquisar, comecei a me interessar, porque tudo que me traz alegria, que me traz prazer, eu preciso estar próxima. Eu vim frequentando os bailes e, quando eu fui contemplada no edital, eu pesquisei na internet e encontrei o Marcos Azevedo, com o passo – esqueci a música, mas, enfim... É um passo que hoje é sucesso. Comecei a me integrar com a galera do Rio. Eu estive aqui em 2014, depois a gente levou os Originais do Charme para Brasília. Fizemos um “Eu Amo Baile Charme” lá. DJ Joel, produtor Joel.
Eu fui à base, eu fui às referências, eu fui à história do charme para que eu pudesse multiplicar, por isso falo que a multiplicação do movimento precisa ser com excelência. A gente precisa conhecer essa história e, para mim, é uma satisfação muito grande estar aqui vivendo, não é? Porque eu pesquiso, mas eu preciso vir aqui. Estou sempre aqui, frequentando os bailes, conhecendo todos os bailes, todos os projetos. Tenho conversado com muita gente.
Em Brasília, a gente agora foi contemplado com uma emenda parlamentar federal. Estamos sempre buscando os recursos públicos para que possamos executar ações. Abro uma escola final de semana, aos sábados, e ofereço oficinas de danças charme, danças urbanas, danças break. Agora, através da emenda parlamentar, a gente vai trabalhar com audiovisual e fotografia. Entendo que audiovisual é uma forma muito dinâmica de a gente poder estar com jovens e de a gente poder também contar as histórias do movimento, de poder trazer as figuras do baile e poder contar sobre a galera que iniciou e a galera que está nova aí.
Para mim, é muito importante ter esse contato. Já liguei para o Michel várias vezes: “Michel, por favor, vamos fazer alguma coisa”. Já falei com o Gabriel, enfim, já falei com várias pessoas aqui. Jucilene me abraçou, os Originais me abraçou com muito carinho; Leda, do Essência Black, também sempre com muita... Marcelinha também, pesquisadora, tem um TCC – estudei muito sobre ele – sobre o charme. É muito importante a gente poder conhecer a história.
Em Brasília, a gente criou um projeto que era o Geração Dança Charme (GDC). Estivemos por dois anos aqui no Urban Charme com muita dificuldade, sem recurso, não tinha espaço para a gente poder vir. Vir de Brasília é difícil, muito tempo de viagem. Mas a gente enfrentou tudo isso para poder estar aqui vivendo esse amor que é o charme, não é?
A gente está aqui para poder empreender através do movimento também. A gente precisa reconhecer os produtores, os DJs, os dançarinos, os influenciadores, fotógrafos. É uma cadeia produtiva que aqui nós temos, mas, além disso, a gente também tem uma história bonita, um amor, uma cultura de paz, a integração. É muito legal a gente ver as histórias que vem de pai para filho, uma família mesmo o que o charme tem.
Eu estou aqui para poder contribuir para a gente buscar recursos federais perto do poder, na capital do País, indo de gabinete a gabinete, para que a gente possa buscar recursos e fomentar os projetos que existem aqui. Então eu sou um canal, um elo entre essa conexão do charme no Brasil, entre as pessoas do charme. Estou muito feliz por isso.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Importantíssima essa articulação em nível federal. A gente precisa, sim, entender como captar recursos seja federal, estadual, municipal, porque é uma cultura que precisa ser investida. Nossas culturas permanecem quando elas encontram investimentos para elas ganharem cada vez mais alcance.
Obrigada por estar aqui, por se colocar à disposição também, e por dialogar um pouquinho com a gente sobre o impacto. A gente vai imaginar que a gente está aqui na efervescência, onde tudo começou, mas chega longe, a cultura faz isso, tem essa possibilidade. Então é muito importante a sua fala para nós.
Vou avisar: faltam duas falas da Mesa, mas quem quiser fazer a inscrição, que está aí ouvindo a gente, quiser falar também, a Louise ali está pegando já as inscrições para gente poder ter algumas considerações, saudações e perguntas para nossa Mesa. Vai ser importante esse momento também.
A gente agora vai trazer um olhar acadêmico sobre o charme com o Gabriel Rozário, conhecido também como The Fresh Prince Gabs, cria da Zona Norte, bacharel em Teoria da Dança pela UFRJ, diretor artístico nas agremiações Império de Brás de Pina e Império da Tijuca, crítico de arte, pesquisador, educador na Casa do Jongo, escritor charmeiro de coração. Eu vou acrescentar: jovem negro, vivo, com realização de vários sonhos.
Muito obrigada por estar com a gente.
O SR. GABRIEL ROZÁRIO – Boa noite a todos. Em primeiro lugar, para abrir a minha fala, pensando em tudo que a gente já falou e fazendo uma analogia de um grande filósofo africano Hampâté Bâ – pedindo licença a Dom Filó para poder falar, para poder chegar... E Hampâté traz uma filosofia na História Geral da África II, em a qual ele explica a filosofia das culturas africanas das tribos no sentido de organização de sociedade, de cultura, de economia, de religião, em que os mais velhos falam e os mais novos esperam quatorze anos para poderem falar, para poderem sentar-se à mesa.
Acho que sou um fruto desse esquema, um fruto desse pensamento. Não posso deixar de iniciar a minha fala sem agradecer. Luís, Jeff, eu estou aqui porque... Eu sou porque vocês foram e porque vocês continuam sendo. E eu continuo sendo por vocês. Sou muito grato por poder estar nesta Mesa.
Pegando um gancho de tudo que foi falado aqui, principalmente porque a Thais iniciou falando sobre criar registro, criar memória. E isso foi o que pautou toda a minha formação acadêmica. Eu sou formado na maior universidade do país falando sobre charme. Mesmo com todas as dificuldades de acesso, de permanência, de deslocamento, eu sou fruto dessa universidade.
Toda a minha trajetória foi pautada em dois pontos. O primeiro é defender a oralidade. A oralidade é algo que está presente em todas as manifestações e culturas provenientes de África. Ou seja, é o esquema do mais velho falar, de o mais novo se colocar e isso ser uma cadeia que vai adiante.
A oralidade não é uma coisa reconhecida no meio artístico como uma forma de produção, de reconhecimento, uma forma de conseguir avançar no que a gente tem sobre registro de arte, sobre registro de dança. Então, eu ingresso na universidade para defender a oralidade, para defender o charme – o charme está presente na minha família; eu sou um charmeiro desde criança – e para pensar essas continuidades, pensar o quanto o charme produz, o quanto ele está produzindo, o quanto as culturas populares produzem conhecimento. Elas resgatam vidas, mudam uma região, impactam de forma social, econômica e estrutural. São formadores de caráter.
Aí, eu ingresso na universidade no curso de Teoria da Dança, um curso bem difícil de acesso e permanência para quem é negro, diga-se de passagem. Eu ingresso na universidade para defender esses pilares e, principalmente, para defender o charme, já trazendo para Mesa um dos grandes problemas. Se a gente parar para pensar que o curso de Dança na UFRJ possui 60 anos e eu sou a primeira pessoa a produzir artigos sobre charme, uma dança, uma manifestação, um patrimônio imaterial do Rio de Janeiro de uma universidade que está presente no Rio de Janeiro...
Aí a gente já começa a entender a dificuldade de pensar manifestações populares, manifestações que estão no campo da oralidade, mas que não se sentam à mesa da universidade, não se sentam à mesa dos pensamentos para estar ali como um ponto de questão, algo que a gente consiga discutir em nível artístico.
Eu levo o charme para dentro da universidade. Já consegui produzir três artigos dentro da universidade falando sobre charme. Meu primeiro artigo foi como um historiador. Eu tenho Madureira como um campo de recorte geográfico, vou em Madureira e me coloco nesse lugar de pesquisa. Como Dom Filó trouxe aqui, eu conversei com pessoas provenientes do samba, pessoas provenientes do jongo, para entender como é que o charme chega nesse lugar.
Quando ele sai do Mackenzie e começa a habitar Madureira, como ele chega nesse lugar que já tinha outras manifestações acontecendo, como o samba, o jongo, a capoeira. E como é que esses grupos interagiam entre si, como é que o charme recebe influência desses grupos e dá influência para esses grupos também. Esse é o meu primeiro artigo em nível histórico, em nível de historiador.
Meus outros artigos já são mais em nível das minhas perspectivas sobre o que eu produzo e o que penso enquanto teórico, enquanto crítico artístico sobre o charme, problematizando sempre a instituição por não trazer o charme para esse foco, para esse centro do pensamento. Aí eu produzo “Segundo o Charme”, a partir das minhas perspectivas e diálogo com “Escrevivências”, um livro maravilhoso de Conceição Evaristo. Aí eu trago o charme nesse lugar sobre a escrita da vivência, nós falando de nós mesmos. Eu pego figuras importantes... não pude estar pessoalmente com Dom Filó, mas cito Dom Filó, Jeff, Luís, o próprio Corello, para estar nesse centro de pensamento.
Meu terceiro artigo é “O Filho de Faísca é Fogo”, no qual coloco as minhas aspirações, as minhas ideias sobre como é que o movimento pode avançar, o que a gente pode fazer.
Já entrando nas considerações finais, agradeço muito à Thais. Esse espaço é muito necessário para pensar a continuidade, mas, principalmente, pensar o quanto a cultura popular não precisa necessariamente sair do campo da oralidade, mas também, sim, pode estar nesses lugares. Pensar que essas culturas podem estar, sim, em universidades, podem estar no centro do pensamento, porque produzem conhecimento, produzem formas, estilos de viver.
Aqui temos grandes exemplos disso, de quanto essas culturas são importantes para a periferia, para a galera de baixa renda e como essas culturas também mexem economicamente e impactam a cidade.
Agradeço muito ao Luís e ao Jeff. Se eu estou aqui, devo muito a esses caras. Sou cria do projeto Rio H2K, e aí a gente vê a importância de dar continuidade ao viaduto – sou cria também do viaduto de Madureira, o projeto que acontecia no viaduto. Luís, eu sou um eterno crespinho, vou continuar sendo um eterno crespinho.
Agradeço a essas figuras tão importantes. Como eu disse, sou porque todas essas pessoas aqui foram e continuam sendo. Então, que a gente consiga pensar esses lugares, que a gente consiga dialogar e entender o que está acontecendo ali, de fato. Não é simplesmente uma dança por uma dança. Mais uma vez, preciso reiterar isso: sou cria e sou formado pela maior universidade do país falando sobre charme. A primeira pessoa a falar de charme em uma universidade de dança, e consegui bater de frente com muita gente.
Passei por muita coisa, mas consegui me formar. Tive um projeto dentro da universidade, com mais de 600 alunos, pessoas que são da universidade, pessoas que são de fora. Sou muito grato por esse espaço e sou muito grato pelo Baile Black Bom. Pude comemorar minha formatura no baile. Sempre saí do baile com grandes aspirações. As minhas últimas escritas têm sido acerca do Baile Black Bom, então, sou muito grato por esses espaços.
Que a gente continue avançando, que a gente continue resistindo. Como diz um grande escritor, de quem eu gosto muito, o Julio Cesar Tavares: que os nossos corpos continuem sendo memórias e salvaguardas de tudo o que a gente produz, e que a gente consiga avançar sempre pelo caminho do bem, reiterando sempre as falas que aqui já passaram.
Muito obrigado.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Muito obrigada pela sua fala. Realmente, quando falei de continuação do sonho, da realização do sonho, é sobre isso, sobre os nossos mais velhos, sobre os nossos mais novos. Para a gente que está no meio do caminho, é muito bom saber que essa cultura atravessa as nossas vidas pautando e garantindo a nossa sobrevivência. Se não nesse lugar físico de proteção... para muitos de nós foi o baile charme um lugar físico da nossa proteção, um lugar onde a gente encontrava tranquilidade e também um lugar da nossa saúde mental e emocional, no geral, porque a gente sabe que muitos de nós, adoecidos, assolados por vários dos racismos que enfrentamos o tempo todo, ficamos à margem.
Ver você potente, altivo, dando seu nome na academia, é o que a gente quer. A gente precisa de política pública para isso. É por isso que a gente luta muito, pela garantia de direitos de crianças e adolescentes, quando a gente fala do direito à cultura, do direito ao lazer, do direito à convivência comunitária.
Se as nossas comunidades não são fortalecidas, como é que a gente pode ter esse encontro de gerações que é tão importante para dizer e dar caminho para as políticas públicas que precisam existir? A gente sabe que a política pública de permanência estudantil, por mais que nós tenhamos a maior universidade – como você falou, a UFRJ, que eu também frequentei –, a gente sabe que não funciona. É um lugar feito para tirar a gente desse espaço. Só as nossas comunidades, as nossas referências, que fazem com que a gente resista, e que bom que você continua encontrando suas aspirações entre nós.
Então, muita gratidão pela sua fala. Emociona de verdade. Espero que o Bem, o Athos e o João, que são os meus meninos, possam chegar nesse lugar que você está e ir além. Que você seja referência para eles. Obrigada mesmo pela sua existência.
Agora, falando ainda de nova geração, a gente vai falar dela que é parte, que é mantedora, fomentadora dessa nova geração dos bailes Black: a nossa Sami Brasil. Ela é rapper, empreendedora cultural, ativista da cultura de rua, com formação acadêmica em Administração, por isso dá o nome nos editais também. É diretora-executiva da Bota a Cara Produções, do Instituto Black Bom; é idealizadora do Baile Black Bom, movimento cultural que se tornou referência em ocupação criativa do espaço urbano na Cidade do Rio de Janeiro, arrastando milhares, e são milhares, e são milhares mesmo de pessoas, desde 2013.
Também é idealizadora de outros projetos culturais, como o circuito urbano de cultura popular e economia criativa, a Rua é nossa e Brasil Black, Mostra de Cultura Afro Brasileira, Vocalista da Banda Consciência Tranquila, desde 2002, Coletivo de Black Music e destaque do Programa Superestar da Rede Globo; e Espelho com Lázaro Ramos, da TV Brasil e outros Festivais Nacionais e Internacionais.
Além dos seus projetos, a Sami também atua na Curadoria e Coordenação da Programação Cultural de grandes projetos na Cidade. Vai ter o nome dos créditos, lá, dela, se vocês procurarem; e seus empreendimentos atuam, prioritariamente, no fomento, na produção, na visibilização do mercado criativo, negro e periférico.
Atualmente, tenho muito orgulho de dizer, ela é Assessora Parlamentar da Mãedata da Vereadora Thais Ferreira e responsável pela pauta de Cultura Popular e Economia Criativa! Máximo respeito! Salve, Salve Sami Brasil!
A SRA. SAMI BRASIL – Salve, salve, galera! Máximo respeito! É um privilégio para mim estar aqui, estar aqui nesse lugar institucional, que a gente sabe que não é feito para nós, já é um privilégio estar aqui dividindo esta Mesa com pessoas tão incríveis, com pessoas que têm uma história incrível. É muito, muito...
Não tenho palavras para dizer o que é ser contemporânea de Dom Filó, de Luís Marques. Ter o privilégio de conviver com esses caras! Porque Dom Filó passou o bastão, falou que o bastão do Movimento Black está com a gente! Eu falei: “Socorro!”. Luís Marques faz parte da nossa equipe, Jefinho também. Michel, a gente está sempre se esbarrando nas articulações. É um cara que está sempre presente também, fazendo essa movimentação, essa articulação política. É fundamental que tenhamos mais pessoas do charme fazendo essa articulação. Às vezes, a gente fica até meio sozinho – não é, Michel?
Enfim, não sou cria do charme, como todo mundo aqui é! Eu sou cria do hip-hop. Mas, fui presenteada! Os charmeiros abraçaram o Baile Black Bom! O Baile Black Bom nasce há 10 anos, em uma pesquisa da nossa Banda Consciência Tranquila, falando de Sankofa – não é, Dom Filó? Foi na pesquisa do funk soul, lá dos anos 70, nessa pesquisa musical tinha um novo show que a gente queria, que a gente chega e faz o Baile Black Bom, que inicia como um show, depois que ele se transforma em evento. Essa viagem no tempo da black music, que começa com um repertório novo e se torna tudo o que se tornou!
Eu sou muito grata ao charme por tudo o que eu sou hoje. Foi o Charme que transformou Sami Brasil em uma referência, aqui, da Cultura de Rua. E aí a gente une a experiência do hip-hop com a experiência do Charme. A gente está falando de black music, a gente está falando da matriz da black music, que é esse movimento mundial, que engloba todos esses gêneros: soul, hip-hop, R&eamp;B. A gente chega, agora, no Black Pop atual, a gente está falando de Beyoncé, Bruno Mars, enfim!
Mas, hoje, eu não estou aqui para falar desse meu lugar de fazedora cultural. Eu estou aqui, realmente, para fazer uma provocação a todos os fazedores, a todo mundo que se entende como parte desse movimento de charme, esse movimento que é carioca! A gente tem viajado bastante, a galera, aqui, que é da equipe, a gente tem viajado bastante para outros Estados. E o que a gente escuta é; “Não, tem charme aqui, sim! Tem Charme aqui, sim!” Eu falei: “Ué, mas o Charme é carioca!”.
Uma provocação assim, o Rio de Janeiro precisa se apropriar da cultura do charme! A gente precisa se apropriar da narrativa do charme. A gente precisa definir o conceito do charme entre a gente, entre os fazedores. A gente conhece a história. Todo mundo conhece a história? Não sei, se todo mundo que faz está apropriado dessa história. Se todo mundo que faz se entende também como um fazedor cultural e da responsabilidade que é estar à frente de um fazer, que é patrimônio, que impacta na vida de tantas pessoas. A gente está falando de profissionalização; a gente está falando de quantificar; a gente está falando do registro dos nossos nomes nesta Casa, porque você vai procurar, mas não tem quase nada. Entendeu?
Há coisas muito aleatórias! E, assim, por que a gente não está construindo junto, “Tá ligado”? Eu acho que esse é o início. Quando a gente chama, é o início, realmente, de uma construção que deve ser coletiva, que deve ser permanente, e que deve pensar de uma forma a não atender o interesse de Baile A, B ou C.
Não é sobre Black Bom, não é sobre Viaduto de Madureira, não é sobre o que foi agora! Acho que é para a Cidade do Rio de Janeiro, é para o nosso povo, em especial. A gente sabe que a cultura negra é uma cultura popular. Ela está cotidianamente nesse lugar de apropriação. A gente já viu tantas das nossas culturas serem apropriadas. Vamos ter um olhar diferente para o charme. Então, assim, eu estou aqui com a Thais.
Eu acho que são gente da gente. Vamos aproveitar esse tempo enquanto a gente está aqui também para levantar esse debate. Que não seja só um momento agora, eventual, que seja mesmo... Vamos montar um GT. A gente sabe que existem construções e outros fazeres sobre isso. Existe o circuito carioca das rodas de samba. Vamos fazer o circuito carioca dos bailes charme. Vamos pensar na nossa diversidade, na nossa pluralidade. Tem aqui: o charme do Lavradio.
Estamos passando por uma série de questões. Existe uma diversidade dentro do baile charme. Tem os que são de rua, tem os que são de clube, tem os que são mais tarde, tem os que são diurnos. Existe uma diversidade. A gente precisa, sim, buscar no passado, reverenciar os que fizeram antes. Mas a gente também precisa mapear e entender quem é que está fazendo no agora. A gente precisa registrar os que fizeram e os que estão fazendo no agora para que no futuro a gente também garanta os que vão fazer e dar continuidade a isso no amanhã.
Então fica aqui o convite a todo mundo, a todos os interessados, principalmente a galera que está à Mesa. Eu acho que no momento em que a gente aceita estar à Mesa, a gente já aceita um compromisso dessa construção coletiva. E é muito importante dizer que a mãedata Thais Ferreira está aberta. Existem muitas formas, muitas ferramentas legislativas que a gente pode registrar as datas que são relativas ao baile charme, os espaços que são relativos ao baile charme, os lugares e os nomes das pessoas, criar políticas públicas que desburocratizem, que facilitem a realização. Enfim, existe uma série de ferramentas que estão à disposição e nós estamos totalmente abertos e querendo construir com vocês.
Muito obrigada. O baile já está rolando lá fora. A gente vai seguir sem mais delongas, porque é muito importante ouvir vocês que estão desse lado também para que, cada vez mais, o que a gente entregue de resposta seja mais próximo do que o povo anseia. A gente está falando da Casa do Povo, e nada mais justo do que estar construindo e ouvindo o povo. É isso.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Muito obrigada, Sami. Quero até relembrar que a gente, desde 2021, quando adentramos esta Casa, temos o Laboratório Popular de Cultura. É muito importante fazer que esse laboratório também seja temático. Então essa convocação, essa provocação para que o charme se aproprie dessa ferramenta institucional que nós já realizamos. Algumas políticas públicas importantes foram retiradas dali, também ensinamentos, compartilhamento de conhecimento sobre o acesso aos editais e a outras políticas públicas que já estão vigentes na cidade. Nós também facilitamos para vários produtores. E ultimamente a gente está aí na luta, aguardando a tramitação do projeto de oportunidade cultural na Cidade do Rio de Janeiro, que vai também dar suporte para a cultura do charme.
A gente precisa estar, cada vez mais, junto para que mais pessoas saibam disso. Porque é direito: participação social na política é direito de todo mundo. E o povo do charme, a comunidade charmeira precisa saber que este espaço está aqui para ser ocupado com pessoas – não é só um “alguém”, não é só uma Vereadora, é um coletivo de pensadores da cultura, de fazedores de verdade que vivenciam isso, que estão aqui apoiando e se colocando à disposição dessa construção.
Temos pessoas inscritas? Vamos ouvir a fala da pessoa inscrita. Já avisaram para a gente que tem de recolher a caixa de som às 21h, já que os portões vão fechar. A gente vai dar uma corridinha nesse último tempo para poder aproveitar um pouquinho desse charme.
A primeira inscrição é a da Marcela. Vamos ouvir você.
A SRA. MARCELA MIRANDA – Boa noite a todas, todos e todes. Peço licença para chegar. Agradeço a existência dessa Mesa, deste Debate Público. Fico muito feliz. Para mim, é uma novidade agora que o Brasil esteja ocupando esse local de assessoramento em cultura e economia criativa. Foi muito interessante e muito rico ouvir todos e cada um de vocês à Mesa.
Como acabaram de mencionar, meu mestrado foi voltado para a área de Sociologia Urbana e estudando o baile charme, mostrando como a cultura é capaz de modificar o espaço, o acesso a políticas públicas, o acesso ao financiamento. Como está sendo a pauta da maioria de vocês aqui, porque eu acredito que seja o sonho e o interesse de todo mundo curtir o baile charme, que ele seja valorizado e reconhecido para além desse reconhecimento legal que ocorreu em 2019, sendo considerando um patrimônio imaterial da Cidade do Rio, que nas próximas reuniões a gente também consiga levar e trazer parte do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio e Imaterial (Iphan), e outros institutos que também corroborem com esse financiamento e com essas políticas públicas que valorizem e que, de fato, preservem isso que é um patrimônio cultural.
Como a própria Thais falou, o baile charme é um espaço que promove a proteção e a saúde pública da população negra. Eu, mesmo como mulher branca, peço licença para falar e para estudar, digo que o charme também me toca. Eu fui muito bem acolhida apesar disso, diferentemente de outros espaços que são majoritariamente brancos de nossa cidade e que promovem cultura. Então, por ser um ambiente majoritariamente negro, de resistência, de empoderamento, como apareceu em muitas falas, por isso torna se ainda mais necessário que haja um respaldo legal e financeiro para que esse patrimônio, de fato, seja preservado.
Agradeço muito o espaço, a oportunidade de ouvir cada uma das pessoas que estão aqui e de saber que estão ocorrendo vários movimentos no sentido dessa preservação.
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Obrigada pela sua contribuição. Para nós, é muito importante “chegar junto” para construir com a gente. Esse é mais um espaço que reconhece o charme, que vive o charme e que está aberto para essas proposições.
Lembrando que nós sempre fazemos convites institucionais para diversas organizações de âmbito municipal, estadual e federal para estarem presentes nas nossas ações. Muitas não comparecem porque não há interesse na agenda, e é isso que a gente combate. A gente sempre reforça que, enquanto houver racismo nesse lugar institucional, não haverá uma democracia de verdade. Mas, em contraponto disso, a gente vê que as principais instituições democráticas são onde a comunidade negra consegue, de fato, se apropriar, preservar e se movimentar. Então, o charme, para a gente, é também um movimento de fortalecimento da democracia. A cultura preta, a cultura black, a cultura popular para gente também são um fortalecimento da democracia; são espaços políticos que nós usamos à revelia daqueles que não nos querem, mas estamos nesse processo de enfrentamento e resistência.
A gente agradece a todo mundo que é mais do que sensível, consciente da necessidade de fortalecer. Obrigada pelos seus estudos e pela dedicação, porque é isso que a gente precisa, é isso que nos torna aliados e aliadas neste momento. Contemplando essa cultura do charme, a gente agradece, mais uma vez, a todos vocês. Vamos às homenagens de pessoas que estão aqui. A Sami vai ao púlpito chamar as pessoas que vão receber as nossas Moções de Reconhecimento.
Vamos às homenagens. Muito obrigada, mais uma vez.
A SRA. SAMI BRASIL – O nosso primeiro homenageado é um “mestrão” icônico nas pistas do baile charme, Senhor Paulo César Negro – PC.
(Entrega-se a Moção)
A SRA. SAMI BRASIL – O próximo também é figura marcante dos bailes, Senhor Wellington Charmeiro.
(Entrega-se a Moção)
A SRA. SAMI BRASIL – O próximo não poderia faltar, icônico no Viaduto de Madureira, Senhor DJ Michel.
(Entrega-se a Moção)
A SRA. PRESIDENTE (THAIS FERREIRA) – Com essas considerações, nós vamos agradecendo a todo mundo que está presente, aos assessores da nossa equipe, que fazem também essa movimentação acontecer; a quem faz a cobertura, a quem está ajudando nas inscrições, a quem está aqui apoiando as pessoas na chegada e a quem está controlando o tempo. A nossa mãedata é coletiva de verdade!Só estamos aqui porque estamos entre todas essas pessoas, e isso é o que nos permite continuar. Nós somos coletividade e continuidade. Então, mais uma vez, muito obrigada à Mesa.
Está encerrado o Debate Público.
(Encerra-se o Debate Público às 20h18)