DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 12 DE DEZEMBRO DE 2023
(Síndrome Alcoólica Fetal)
Presidência do Sr. Vereador Dr. Rogério Amorim.
Às 14h38, Auditório Vereador Aarão Steinbruch, sob a Presidência do Sr. Vereador Dr. Rogério Amorim, tem início o Debate Público com o tema “Síndrome Alcoólica Fetal”.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Senhoras e senhores, boa tarde. Com muita honra dou por aberto o Debate Público da Frente Parlamentar destinada à prevenção Síndrome Alcoólica Fetal, de acordo com a Resolução da Mesa Diretora nº 11.783/2023, sob a minha presidência, constituído pelos seguintes vereadores signatários: Dr. Rogério Amorim; Alexandre Beça; Carlo Caiado; Carlos Bolsonaro; Cesar Maia; Dr. Carlos Eduardo; Dr. Gilberto; Dr. João Ricardo; Eliseu Kessler; Jair da Mendes Gomes; Luciana Boiteux; Luciano Medeiros; Marcelo Diniz; Matheus Gabriel; Niquinho; Paulo Pinheiro; Pedro Duarte; Prof. Célio Lupparelli; Rafael Aloisio Freitas; Teresa Bergher; Thais Ferreira; Ulisses Marins; Veronica Costa; Waldir Brazão; Willian Coelho e Zico.
A importância dessa Frente Parlamentar, como toda a Frente, é dar luz, visibilidade, é tentar de alguma maneira fazer com que a sociedade perceba um tema muitas vezes pouco conhecido, mas de grande importância. Talvez esse nome não seja comum àqueles que nos ouvem, não seja o nome que as pessoas costumam ouvir, mas a importância do tema é fundamental.
Falando agora ainda como vereador, são importantes atitudes, medidas legislativas que coloquem o Legislativo no foco de um problema fundamental, que traga a esta Casa uma visão, muitas vezes, desconhecida por algum dos colegas, mas que tem grande relevância, fazer com que as pessoas de alguma maneira saibam e entendam o que é de verdade um grave problema desconhecido por muitos. Como médico, sabemos que o consumo de álcool no período gestacional pode trazer sérios, gravíssimos problemas ao feto. Como neurocirurgião, falo principalmente dos problemas neurocognitivos, atrasos do desenvolvimento, que por muitas vezes nós não sabemos a causa, mas quando vamos investigar se deve ao consumo de bebida alcoólica durante a gestação. Incurável, e antes de passar a palavra, eu digo, além do incurável, algo que é fundamental e desconhecido, não há uma dose segura. Não há um consumo que possa ser considerado seguro. Uma taça, um copo, uma lata, um cálice. Não há uma dose segura para isso.
Então, eu trago essa mensagem e tenho a honra de chamar, para fazer o uso da palavra, a Doutora Dina Frutuoso, professora da UFRJ e uma conhecedora e atuante nessa importante causa. Então gostaria de passar a palavra para a senhora para nos transmitir o conhecimento.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Pois não. Muito prazer em estar aqui. Primeiro quero agradecer, porque realmente a síndrome alcoólica fetal, eu tomei conhecimento através de Marlene Manso, que é uma baluarte do Rotary Club no Brasil, que eu desconhecia. Eu tenho 52 anos que eu sou psicóloga clínica, o nosso vereador médico também me disse que desconhecia, quando nós conversamos, e a partir de um artigo que eu escrevi numa revista de psicologia isso foi se abrindo. Porque muitos médicos trabalham, mas o tema é muito necessário ser levado à população. Por isso que eu estou com extremo agradecimento, uma gratidão muito grande de ter esta frente, e o meu vereador assinou também, que é o Presidente da Câmara, o atual presidente. Então, é uma coisa muito importante. E a presença de cada um de vocês para nós é muito importante, porque realmente o desconhecimento é enorme.
Eu tenho uma casuística muito interessante, Vereador. Porque às pessoas eu pergunto o que é a síndrome alcoólica fetal? “É a mãe que bebe no parto.” Falaram isso para mim, viu, doutor? “A criança nasce alcoólica.” Nada disso. A criança nasce com uma doença incurável. Uma das frases que chama a atenção nesse artigo que eu escrevi, é que eu digo: é uma verdadeira roleta russa. Porque algumas pessoas dizem, “Ah, mas a minha mãe bebia e não aconteceu nada”. Sorte a sua. Porque a maioria das crianças, e o grande problema, é um problema imenso, é o diagnóstico. Depois nós temos um médico especialista aqui da Fiocruz que vai dar uma palavra também para nós sobre isso.
Então, a minha missão aqui, eu vou ser breve, o mais breve que eu tenho de possibilidade. O nosso Vereador vai fazer depois a gentileza de passar esse artigo para as pessoas, para os meios de comunicação, já deixei com o pastor, inclusive, também, que é preciso chegar ao povo.
Como o senhor disse muito bem, não há dose segura. Então é uma doença incurável e prevenível. Eu trabalho, a minha tese de doutorado foi a primeira do Brasil sobre as universidades abertas da terceira idade, eu estou especialista no envelhecimento. Muitas pessoas idosas é que cuidam de crianças com esse tipo de doença, com outros problemas, mas com essa doença. Inclusive, nós estamos acompanhando alguns casos. Eu não estou querendo ficar envolvida no problema da doença, porque a minha missão, é uma missão mesmo, é uma missão de informação, é uma missão de prevenção.
Então, eu tenho pedido aos amigos para eles pedirem drink sem álcool. Porque a nossa frase, sabe, Vereador, é assim: beba o que você quiser, sem álcool. “Sem” bem grande. Então, não é uma proibição.
Como pedagoga, é a minha primeira formação, eu sou formada pela Universidade do Brasil, a maioria não tinha nascido aqui, então, é exatamente isso, do próximo para o distante, do conhecido, para o desconhecido, e é isso que nós queremos dos nossos vereadores. Inclusive, se Deus quiser, nós vamos conseguir que o dia... porque existe dia mundial, que é 9 de setembro. Então, o organismo internacional colocou 9/9, que é para chamar a atenção do período da gravidez. E nós ainda não temos essa data no municipal, se Deus quiser, o nosso vereador vai conseguir, essa frente vai conseguir.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Vai. Já protocolamos.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Eu quero fazer pedidos, eu estou aqui para fazer pedidos.
Então, que se consiga a data, porque isso vai ser muito importante para as campanhas. Eu tenho muita experiência, porque o que nós lutamos, eu fui 10 anos Conselheira Estadual da Pessoa Idosa. Então, o que a gente lutou no idoso eu vou trazer para cá, viu? Para a SAF também, para nós podermos.... É importante ter uma data, porque aí as campanhas...
Outro pedido, Vereador, para levar para todo o grupo é o Janeiro Branco. O Janeiro Branco, que foi criado pelos psicólogos de Uberaba, e que nós aqui no Rio de Janeiro temos alguns movimentos, eu vou pedir um grande movimento no próximo janeiro com vocês todos. Isso é muito importante, esse outro pedido que eu quero que o senhor leve para que a gente faça alguma coisa, porque não precisa aqui na Casa, nós vamos fazer em praça pública. Isto vai ser muito importante. Nós só precisamos de faixas, pronto.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Não, isso a gente pode ajudar, até porque a Lei do Janeiro Branco nós instituímos aqui como conscientização, doenças de transtorno mental etc., foi uma das primeiras leis aprovadas por nós aqui. Só a gente trabalhar junto, só fazer essas faixas, essa divulgação.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Pois é, essas faixas de divulgação.
Então, inserir a síndrome alcoólica fetal dentro do Janeiro Branco, porque é uma problemática ligada ao emocional também.
Então, eu quero ser breve e quero falar sobre Fernando Pessoa: “Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo”. Eu estou com 83 anos e ainda estou abrindo essa frente de trabalho, e graças a Deus nós estamos com pessoas que estão com vontade de fazer.
Então, muito obrigada, Vereador, por esse seu apoio. E agora, eu quero apresentar o jovem que vai falar sobre... uma familiar, é uma psicóloga também, e o nosso médico que fez a gentileza de vir, que é da Fiocruz.
O senhor segue aí a...
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Obrigado. Queria agradecer sua fala e já convidar, aproveitando esse gancho aí, a Senhora Manuela Freire, Família SAF Brasil, para fazer uso da palavra. Sente aqui conosco, e por favor.
A SRA. MANUELA FREIRE – Peço licença para fazer minha autoidentificação, que está sendo visto, né? Eu sou uma mulher branca, de olhos escuros, com cabelos curtos, estou com uma blusa vinho de manga curta.
Eu estou aqui como membro da Família SAF Brasil. Foi-me pedido para trazer três pontos hoje para compartilhar com vocês, e vai ser o meu grande desafio resumir um pouco do meu relato e da minha história pessoal como cuidadora atípica da minha irmã, que tem síndrome alcoólica fetal.
Então, eu cheguei a conhecer a Família SAF Brasil, que iniciou em 2017 com cinco mulheres, quando eu cheguei aqui ao Rio. Eu não sei se vocês perceberam pelo meu sotaque, eu sou nordestina e eu vim morar no Rio no início da pandemia. Chegando aqui, vim com minha família, minha filha, que está na primeira infância, meu companheiro e minha irmã, que eu sempre fui a principal e única cuidadora. Chegando aqui, um ano depois, ela desenvolveu uma esquizofrenia, e a gente conseguiu o contato com o Doutor Mauro, que é especialista neuro em SAF aqui no Brasil. E ele me apresentou a Família SAF.
A partir disso, eu comecei a participar do grupo. Também temos um grupo de estudo que a gente iniciou esse ano para se informar melhor, porque, como é uma síndrome muito negligenciada, temos poucas informações. Então, as mulheres, as mães, os cuidadores buscam informação. Tem a Frente de Acolhimento entre as famílias, de apoio, de suporte, de indicação de profissionais, e tem a frente também em que a Doutora Dina está, de buscar leis e apoio governamental nesse país em desenvolvimento, e esse é um problema extremamente complexo, exatamente porque não temos conhecimento sobre a SAF e tudo o que ela pode ocasionar no bebê e nas famílias.
Pediram também para eu falar um pouco da minha trajetória e da Ju. Eu venho de família de extrema vulnerabilidade. Quando eu falo de vulnerabilidade, é vulnerabilidade estrutural, de saúde, financeira. Nossos pais, apesar de a Ju ser minha meia-irmã, nosso pais têm adoecimento mental grave. Nossa mãe é viva e alcoolista, já passou por várias internações. E, muito jovem, eu tomei como decisão estudar para sair daquele contexto. E, junto com meus estudos, com meu desenvolvimento profissional, eu fui cuidando da Ju e oferecendo a ela melhores oportunidades, na medida do possível.
Eu sou técnica em Geologia, concursada da Petrobras. Sou psicóloga autônoma e atendo adultos neurodivergentes. Inclusive eu sou neurodivergente, tenho TDAH hiperativo, por isso estou me movimentando bastante e por isso fiz algumas anotações. Eu também sou formada na UFRN como gestora de políticas públicas, mas não exerci.
Então, também tenho múltiplos interesses e, nesses múltiplos interesses da minha vida, eu fui cuidando da Juliana. O diagnóstico dela foi descoberto quando ela era muito jovem, muito novinha, com os primeiros anos de vida, como nossa mãe usava álcool em doses muito altas, ela nasceu com muitas dificuldades. Foi em um centro de reabilitação infantil, que o Doutor João Nery... Inclusive, ele é geneticista e conhecido pelas famílias.
A partir disso, a gente iniciou a nossa luta com vários médicos. Ela é um organismo muito frágil, porque, como a Doutora Dina já comentou, tem várias questões comportamentais, inclusive a desregulação emocional muito grande, desencadeando outras comorbidades, como transtornos mentais graves ou mesmo transtornos de neurodesenvolvimento. É algo que pode ser contemplado dentro de uma frente, tanto de saúde mental quanto de ser visto como um transtorno do neurodesenvolvimento também.
Hoje a gente faz vários acompanhamentos médicos com gastro, neurologista, endócrino, porque a Ju precisa estar sempre buscando estabilidade. Ela precisa se alimentar bem, precisa fazer atividade física, precisa também de socialização, de estimulação cognitiva e social, e a gente não encontra isso no Brasil e nem para adultos.
Esse tem sido meu grande desafio: sair de uma situação de vulnerabilidade e oferecer um pouco de qualidade de vida para minha irmã.
Ela aprendeu a ler e a escrever, e eu gostaria de trazer, enfatizar as conquistas dela, porque foi uma luta nossa, uma luta que a gente precisou fazer, nós duas. Até hoje ela busca estudar, mas não é a realidade das famílias do Brasil. Apesar de também não ter sido minha realidade, a gente vem buscando essas conquistas a duras penas.
Hoje eu sei que a situação da Ju não é a situação dos jovens com SAF no Brasil. Esses dados não são divulgados, não são conhecidos, muitos deles têm conflito com a lei.
A SRA. DINA FRUTUOSO –...dia a dia hoje, só pra gente encerrar. Ana chegou? Andreia...
A SRA. MANUELA FREIRE – Sim, hoje o dia da Ju acontece da seguinte forma: quando a gente chegou aqui no Rio, para falar do dia a dia dela, é muito importante falar dessa nossa trajetória aqui. Morávamos numa cidade pequena do Nordeste. Ju, muito cedo, teve acesso a plano de saúde. A partir do meu primeiro emprego, ela teve acesso a plano de saúde, escola particular, reforço escolar. Então, ela sempre teve uma professora presente, por isso que desenvolveu a leitura. E ela sempre foi acompanhada por equipes multidisciplinares em clínicas particulares, e esse serviço quase não existe no SUS.
Lá em Natal, no Nordeste, a gente encontrou alguns serviços no centro de reabilitação infantil. Quando cheguei no Rio, a Ju já estava adulta. Ela desenvolveu questões mais complexas, mais graves e, desde 2021, um ano depois da pandemia, a gente está numa luta árdua de encontrar serviços públicos que contemplem minimamente uma estimulação cognitiva e uma socialização para adultos aqui na cidade.
Ontem ela fez 24 anos. Nós fomos a várias instituições. Hoje ela é acompanhada pela clínica da família, que sempre nos encaminha para hospitais, para tudo que eles podem encaminhar, que eu estou lá demandando. Eles encaminham, só que, quando eu chego lá, as portas são fechadas. Não existe serviço de estimulação cognitiva para adulto neurodivergente no Brasil.
A Ju foi no Caps, no Caps referência aqui. Eu sempre... por eu ter acesso à informação, eu sempre procuro os melhores serviços e eu sou muito insistente. Não é à toa que eu saí de uma situação de vulnerabilidade e hoje a gente está na batalha que está. Então, eu bato as portas, procuro e, mesmo assim, não encontro. Ela foi para o Caps, iniciou acompanhamento lá, mas não é um serviço que contempla as necessidades da Juliana. Hoje ela também faz acompanhamento no Instituto Deolindo Couto com a neurologista... Ju, eu falei para você o nome antes de vir...
A SRA. DINA FRUTUOSO – Não faz mal. Depois a gente passa o nome.
A SRA. MANUELA FREIRE – Com a neurologista, inclusive foi muito difícil conseguir a vaga. Eu passei anos tentando que ela fosse acompanhada lá. Ela tem um psiquiatra particular. A rotina da Ju é essa.
Hoje ela está indo para a Apae, porque a Apae foi uma instituição que nos aceitou. Ela está indo duas vezes e está tendo um momento de socialização dela. A gente mora num bairro em que a Juliana consegue ir até a padaria comprar pão, ela vai até a academia fazer a natação e o muay thai dela, atividade física. E, quando digo isso, a gente mora num bairro que permite que ela tenha essa locomoção, mas não é qualquer lugar que ela consegue isso.
Ela acorda pela manhã, faz o café dela com frutas e ovos, também dá atenção à sobrinha dela um pouquinho pela manhã. Logo ela vai para a natação e, à tarde, tem Apae ou atividade física novamente. Inclusive, a atividade física e uma alimentação de qualidade ajudam na regulação emocional. Aqui no nosso país, a gente sabe que famílias em vulnerabilidade não têm acesso a isso.
Como eu ouvi o doutor falando, é um problema grave de saúde pública que precisa ser visto.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Exato. Quero agradecer muito esse depoimento. Por isso nós estamos aqui. É um problema tão grave de saúde pública. Eu quero agradecer demais e dar parabéns para a Juliana, pelo seu aniversário.
(PALMAS)
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Parabéns! Obrigado. Parabéns pelo aniversário.
Vou chamar o Senhor Mário Romano para fazer uso da palavra.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Nosso psiquiatra da Fiocruz.
O SR. MÁRIO ROBERTO VIEIRA ROMANO – Eu fico muito satisfeito de estar aqui hoje e parabenizo o Vereador Dr. Rogério Amorim por trazer esta frente, fazer este Debate.
Eu sou psiquiatra da infância e da adolescência e pesquiso esse tema. Faço pesquisas na Escola Nacional de Saúde Pública, na Fiocruz. Atuo em uma unidade de saúde pública dentro da Fiocruz e atendo pessoas com esse problema. Infelizmente tem muita gente. Atendo pessoas de comunidade. Muita gente que não sabe disso, não faz ideia dos problemas que o álcool causa.
Em minha opinião, o poder público tem responsabilidade nesse desconhecimento das pessoas. Não é feita propaganda, cartilhas educativas. Eu não vejo isso em nível municipal, estadual nem federal. Infelizmente, o Brasil negligencia esse problema de saúde pública. Países desenvolvidos já estão fazendo pesquisas, já estão falando disso, já colocaram rótulo em bebidas. No Brasil, as coisas estão muito lentas em relação a isso.
Como o relato da querida, que colocou aqui, é um problema que a gente precisa... Ele existe, mas está invisível. Hoje se fala tanto em Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade, o TDAH. E pesquisas lá fora já mostraram, em países desenvolvidos, que o TDAH está muito relacionado ao consumo do álcool na gravidez. Crianças que foram expostas ao álcool na gravidez têm mais chance de ter TDAH. E o que todo mundo está falando hoje. Então, a gente precisa falar disso. A Síndrome Alcoólica Fecal pode ser evitada com informação, com promoção da saúde, divulgação desse tema. Não acho que seja difícil.
Eu divulgo esse tema na comunidade, no posto de saúde, nas salas de espera. As pessoas entendem rapidamente o problema. Então, não é uma informação difícil de passar. Como vocês veem aqui na camiseta, a mulher ingere o álcool, isso passa diretamente para a criança e chega lá no feto, no bebezinho dentro do útero, causa um estrago, e a criança já nasce com esse problema. E muitas vezes isso não é reconhecido porque os profissionais de saúde não sabem dessa doença. Então, a gente precisa falar da SAF.
Agradeço muito a oportunidade de estar falando aqui e me coloco à disposição para ajudar os vereadores nessa Frente Parlamentar, para a gente executar ações efetivas para evitar isso. Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Eu que agradeço a fala. Quero agradecer pela importância do tema. Não há uma dose segura. É importante a conscientização.
Durante muito tempo, nós vivemos essa questão do consumo, por exemplo, do cigarro como algo glamourizado, e hoje ganhou ampla divulgação nas mídias, proibição de circulação de propaganda, mensagens nos maços de cigarro. É algo que nós precisamos fazer e caminhar em relação à SAF também. É o alerta. Não existe outra maneira que não seja a prevenção. E não existe outra prevenção que não seja o não consumo. E não existe não consumo se nós não esclarecermos porque nós, que somos da área médica, sabemos que aquele famoso “bebe socialmente” é algo que é encruado na sociedade, é quase que cultural das pessoas. Acho que todos nós, médicos, já passamos por isso: “O senhor bebe?”, “Não, só socialmente”. Mas o que é o socialmente? Ainda mais para uma situação que não tem uma dose segura. Então, isso se torna ainda mais importante, mais premente e mais urgente em nossas condutas.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Eu quero só acrescentar que, muitas vezes, quando há um protocolo, o médico pergunta: “A senhora bebeu?”, porque é uma das reclamações. Elas dizem: “Eu não bebo.” Porque isto é história das drogas lícitas. Então, beber álcool socialmente não é considerado beber. Porque eu sempre digo: a mulher não é alcoólatra. Porque muitas pessoas dizem “Ah, já sei, é filho de alcoólatra”. Não, não é. É uma pessoa que bebe qualquer coisa.
E é na divisão celular, essa palavra ainda não foi usada aqui. É muito importante nos lembrarmos disso. Então a doença é incurável porque é na hora da divisão celular, como está na camiseta do doutor ali. Quer dizer, é uma transfusão direta de álcool.
Há pesquisas mostrando que uma hora depois que a mulher ingeriu alguma bebida alcoólica, acabou no sangue da mulher, quatro, cinco horas ainda está lá no feto. Então, quer dizer, trazendo problemas para divisão celular. Não tem jeito. Então, por isso que vocês são tão importantes para levar isso.
Nas minhas reivindicações de ações, e eu já fiz duas ao senhor, eu também quero pedir a caderneta 32 e a caderneta da gestante, porque é preciso ter divulgação. Foi falado aqui, não tem. No ano passado, eles divulgaram três milhões de cadernetas, eu não sei, eu não sei se nosso Vereador também não viu. Não sei se você tem essa caderneta.
O SR. MÁRIO ROBERTO VIEIRA ROMANO – É a caderneta do Ministério da Saúde. Ela é muito problemática.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Então, é muito importante, porque não dizem na caderneta que é uma doença incurável. Isso não aparece lá. Eu acho que essa frase precisa ficar colada no que a gente fala na divulgação, na informação. Eu estou com grandes esperanças, porque nós estamos começando hoje. Isso é uma maravilha, ver que as pessoas estão aqui. Eu agradeço demais pela presença do Doutor Romano, nós tínhamos nos conhecido pela internet e ele fez a gentileza de vir hoje aqui. Então, é muito importante que nós tenhamos as campanhas.
Os APs, nosso Vereador, eu tenho contato com o AP2 e o AP4, mas eu não tenho contato dos outros APs. A gente tem que trabalhar com isso também para que eles possam levar. Nós conseguimos no conselho, porque como eu sou, já existem mais de 70 mil psicólogos formados aqui no registro do CRP 05, eu sou o 587. Então, eles põem tapete vermelho quando eu apareço lá. Todo mundo fica: “A senhora ainda está trabalhando?” Estou trabalhando voluntariamente para a sociedade. Hoje estou aqui como voluntária.
É muito interessante isso. Se alguma pessoa daqui quiser, é interessante o texto, Manuela também achou que vale. E nós estamos aqui, essa frente que foi formada a partir desse texto. Quando o nosso Vereador leu esse texto, que uma eleitora dele trouxe para ele, ele mandou me chamar. Então, nós trabalhamos. Eu disse: precisamos do jurídico e do chefe de gabinete.
Nós precisamos agora, gente, é daqui para diante. Não é, Vereador? A campanha do Janeiro Branco vai ser uma coisa para jogar na rua. Então, o Senhor me deixou muito feliz quando o Senhor disse que consegue a faixas. Então, vamos ver isso. A sua equipe de divulgação maravilhosa vai fazer isso, porque precisamos fazer. É muito importante. E continuar, não sei como, que a Frente vai continuar o trabalho.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – É isso. Queria agradecer só para fazer as considerações finais. Pode deixar que eu vou pedir para minha equipe trabalhar essa ação de divulgação, de uma lei até de minha autoria, que é o Janeiro Branco, aqui na Casa. Vamos trabalhar juntos essa questão da caderneta da gestante, dessa sinalização. A gente pode fazer até mediante... Pode falar.
O SR. MÁRIO ROBERTO VIEIRA ROMANO – É simples, a imagem já diz muita coisa. Essa imagem as pessoas entendem rapidamente.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Nós podemos colocar até como forma de PL, obrigando que as cadernetas de gestante na Cidade do Rio de Janeiro tenham um alerta em relação ao não consumo de álcool.
O SR. MÁRIO ROBERTO VIEIRA ROMANO – Pode ser uma boa. É isso. A gente está aqui discutindo... É isso que eu...
A SRA. DINA FRUTUOSO – Eles têm umas informações truncadas ali, não é, como o doutor falou. É preciso que isso seja revisto urgentemente.
O SR. MARIO ROBERTO VIEIRA ROMANO – E uma coisa muito estratégica é as escolas públicas, Ensinos Fundamental e Médio. Por quê? É quando a criança e o adolescente começam a beber e começa a ter relação sexual.
Então, isso pode ser um tema. O programa Saúde na Escola é uma política intersetorial de saúde e educação, que bota como um tema do PSE que os personagens de saúde precisam, são obrigados a falar dentro da escola, entendeu? É uma ideia que a gente tem...
A SRA. DINA FRUTUOSO – Mas nós temos a lei! A lei do Reimont é isso! Ela fala sobre isso, que nunca foi colocada em ação.
Então, a nossa frente tem muitas coisas para fazer...
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Vamos. Vamos trabalhar. Fica o nosso compromisso em relação a isso, à pauta.
A SRA. MANUELA FREIRE – Vereador, eu também quero agradecer a oportunidade de trazer meu relato. Agradecer em nome da família SAF Brasil. Inclusive, são 60 famílias. Mais de 90% dessas mães, dessas mulheres que são atuantes, são mães adotivas.
É muito interessante observar isso, porque, nessa frente, também olhar para a mulher que é a cuidadora típica quanto para a mulher que, às vezes, fez uso do álcool, tem vergonha, e que não tem acesso a essa informação. Então, isso é bem importante.
A SRA. DINA FRUTUOSO – Você me fez lembrar, porque agora eu tenho até TikTok, gente, pelo amor de Deus! Pois é, vocês me acham lá, Dina Frutuoso, em todas as mídias sociais.
Ontem eu entrevistei uma pessoa e exatamente sobre isso. Eu falei: “Fale com a assistente social para orientar”. Ela tem vergonha de dizer, que a criança está com um ano e pouco, o problema já parece grande, mas ela fazia muito uso de álcool, viu, doutor? Então, é isso aí. Está no TikTok.
A SRA. MANUELA FREIRE – Sentem muita vergonha. E esses jovens, eles não continuam na escola. Eles não conseguem se manter no Ensino Fundamental e Médio.
É muito impressionante o trabalho dessas mães, porque um cuidador atípico, muitas vezes, precisa lidar com a demanda de trabalho e com todas as questões de um organismo frágil da SAF. E essas mães, mesmo assim, elas se dispõem a buscar parcerias, a estudar. Elas têm grupos de estudo porque não existe essa informação no Brasil.
Então, é muito importante o que está acontecendo aqui. E eu agradeço a todos.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Eu que agradeço. Sem dúvida, a frente continuará trabalhando. E que, em uma futura reunião, elas venham também, porque o relato delas é fundamental – óbvio, se forem da Cidade do Rio de Janeiro...
A SRA. DINA FRUTUOSO – Nós temos relato de uma avó, que virá na próxima vez. É uma avó que cuida do jovem. É muito importante. Muito obrigada realmente.
O SR. PRESIDENTE (DR. ROGÉRIO AMORIM) – Queria agradecer pela presença de todos. Eu que agradeço à senhora, a todos os assessores da equipe técnica da Câmara Municipal, ao colega médico que aqui esteve dando seu depoimento importante.
E damos por encerrado o debate público com a certeza da continuidade do trabalho. Obrigado a todos e até a próxima.
(Encerra-se o Debate Público às 15h08)